Arquivosábado, 2 de julho de 2016

CAMPONESAS (2)

C

tyrol-landscape-0--SÃO PAULO (danke) – Temos de agradecer à chuva pelos melhores momentos de um treino de classificação no ano. OK, tudo bem, deu pole para Hamilton e Rosberg fez o segundo tempo. Mas Hülkenberg estava em primeiro quando zerou o cronômetro. E quando zerou o cronômetro, todos podiam pular para a pole. Porque a pista secou.

Expliquemos. Dia de luz, festa do sol e carrinhos a deslizar no asfalto lisinho de Spielberg, pista comprada e reformada pela Red Bull há alguns anos. Uma gracinha, diria a Hebe. E é mesmo. O Red Bull Ring, ex-A1 Ring, ex-Zeltweg, ex-Österreichring, é o autódromo mais tchutchuco da temporada. Pista curtinha, no meio das montanhas, cheio de vaquinhas e casinhas lindinhas ao redor.

Todos esses diminutivos, porém, não cabem ao que se viu na definição do grid para o GP da Áustria. Foi um treinão, uma classificaçãozona. E não só no período de chuva — que durou poucos minutos, só no Q3, e daqui a pouco contamos como foi. Já na abertura dos trabalhos, com sol e calor — mas meteorologistas desesperados diante da chance de um pancadão como ontem –, a primeira surpresa do dia: o incrível Wehrlein lá em cima, nono colocado com a Manor a menos de dois minutos para o final da primeira parte da sessão.

[bannergoogle]Então, uma panca de categoria. Kvyat, na curva 8, apoiou o carro na zebra e a suspensão traseira direita colapsou. Seu Toro Rosso apontou para o lado de dentro da pista e ele saiu rodando feito um foguete desgovernado, até parar numa barreira de pneus depois de deslizar pela brita. “Sorry guys”, disse pelo rádio, mas a culpa não foi dele. O soviético era a terceira vítima do dia das novas e, aparentemente, perigosas zebras austríacas.

Não sei direito o que fizeram com as zebras nessa reforma que incluiu o recapeamento da pista toda, mas o fato é que já pela manhã Rosberg havia tido uma falha semelhante na suspensão, rodou e bateu. A Mercedes teve até de trocar seu câmbio, tirando cinco posições no grid do líder do campeonato. Depois, foi Pérez, ainda no Q1, que quebrou a mesma suspensão que Kvyat ao apoiar numa das zebras assassinas de Spielberg — no seu caso, porém, não rodou, nem bateu; mas não pôde voltar à pista no Q2.

Mas agora Inês é morta, não dá para modificar zebras de um dia para o outro, os pilotos que tratem de ficar longe delas. Kvyat saiu ileso, o treino recomeçou e logo na saída Sainz Jr. explodiu o motor. Ele foi um dos 12 que saíram dos boxes para tentar alguma coisa no tantinho de Q1 que restava. Lá na frente, de camarote, a turma da ponta só assistia. Rosberg tinha o melhor tempo, 1min06s516. Sem grandes surpresas, assim que terminou a sessão estavam degolados os dois Renôs — Magnólia Arrependida e Palmolive –, uma Manor, de Haryanta, o estropiado K-Vyado e a dupla da tenebrosa Sauber, com Sonyericsson em penúltimo e Felipe II na lanterna.

Foi a primeira vez que a gloriosa Manor passou para o Q2, com o alemãozinho Pascal fechando em décimo — nos tempos de Marussia isso também aconteceu algumas vezes, mas a equipe agora tem outro nome, então o que vale é o hoje, e, para todos os efeitos, foi a primeira vez que um Manor escapou da guilhotina e não se fala mais nisso.

Quando começou o Q2, nuvens carregadas começaram a chegar a Spielberg. Havia uma chance iminente de chuva, e foi todo mundo rapidinho para a pista para evitar surpresas. Logo de cara Hamilton enfiou 1min06s228 no cronômetro. Nico-Nico no Fubá virou 1min06s403. A Ferrari, malandrinha, resoolveu fazer seus tempos com pneus supermacios, em vez de usar os ultramacios. O regulamento prevê que o pneu usado na melhor volta do Q2 é aquele que deve ser usado na largada. A ideia dos ferraristas era boa: largar com supermacios, que duram mais, e trabalhar com a estratégia na corrida, fazendo um primeiro stint mais longo.

A Red Bull gostou da ideia e fez o mesmo. Ricardão e Verstappinho também fizeram suas melhores voltas com supermacios, a exemplo de Tião Italiano e Kimi Dera Em Vez de Leite Essas Vacas Tirassem Vodca. Aí a Mercedes resolveu fazer o mesmo. Espetou supermacios nos carros de Hamilton e Rosberg, eles saíram dos boxes e… E nada. Começou a chover.

Ficaram no Q2, então, Gutierros, Wê Lá Hein?, com um excepcional 12º lugar no grid (considerando a história pregressa da Marussia, Pascal igualou o 12º no grid de Bianchi em Silverstone/2014), Grojã, El Fodón de La Eliminación e os dois que nem andaram, Maria do Bairro e Sainz Idade.

E aí choveu mesmo. Aquela chuvinha rápida e gelada, e como o Q3 não dura muito, intermediários para todos. Vettel foi o primeiro a fechar volta, em 1min20s798. Vejam a diferença para o 1min06s no seco do Q2. Mas a chuva foi rápida. Esse novo asfalto austríaco é tinhoso, seca rápido, e os tempos foram caindo até Hamilton virar 1min16s232, o melhor tempo com intermediários.

E agora? Coloca slick ou não? “Nenhuma chance”, tinha dito Vettel alguns minutos antes ao seu engenheiro. Mas A 3min50s do fim, Hülkenberg deu a senha. Colocou ultramacios e foi à luta. Todo mundo resolveu fazer o mesmo. Com intermediários, o alemão da Force India tinha virado 1min18s125. Com ultramacios, fez 1min14s996 logo na primeira volta. Estava na cara. Aqueles minutinhos finais seriam de tempos baixando vertiginosamente, e aí virou corrida com dez carros na pista.

buttobp3sensacional

Ricciardo, Massa, Raikkonen, Hamilton e Hulk chegaram a ocupar a primeira posição quando o cronômetro zerou e todos tinham conseguido abrir uma nova volta. Então, Comandante Amilton virou 1min07s922 numa volta extraordinária, asfalto praticamente seco, enfiando 0s543 em Rosberguinho, que fez o segundo tempo. Nico, porém, perderia cinco posições no grid por troca de câmbio — mesma pena para Vettel que fez o quarto tempo. Assim, o grid ficou com Hamilton na pole, Hülkenberg em segundo e, acreditem, Button em terceiro. Button em terceiro! Puta que la merda, que coisa mais legal do mundo! Raikkonen herdou o quarto lugar, Ricciardo ficou em quinto, Bottas em sexto, Rosberg larga em sétimo, Verstappen em oitavo, Vettel caiu para nono e Massa parte em décimo. Ferrari e Red Bull com supermacios amanhã, se não chover. Mercedes com ultramacios.

Assim, a chance de uma prova muito boa aumentou muito, com esse grid embaralhado e perspectivas de estratégias muito distintas entre os principais protagonistas do campeonato. E com intrusos entre os primeiros, como Hulk e Button, e favoritos lá atrás, como Rosberg e Vettel, a coisa deve ficar ainda melhor.

Vai ser um GP tão simpático quanto o autódromo. Só não sei se vai chover. A previsão indica que a chance, na hora da corrida, é bem menor do que foi hoje. Vamos torcer.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
ASSINE O RSS

Categorias

Arquivos

TAGS MAIS USADAS

Facebook

DIÁRIO DO BLOG

julho 2016
D S T Q Q S S
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31