Arquivodomingo, 3 de julho de 2016

NO CRONÔMETRO

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SÃO PAULO (que doideira) – Buemi, finalmente. O suíço ganhou o título da Fórmula E hoje em Londres do jeito mais esquisito de todos: numa corrida-solo contra o relógio, ao fazer a melhor volta da prova. Mas não porque estava num ritmo alucinante e tudo mais. Porque foi o que restou a ele. Assim como a Di Grassi. Os dois decidiram o campeonato nos dois pontos da volta mais rápida, item previsto no regulamento da categoria. E isso graças a um acidente inacreditável na primeira volta da segunda corrida londrina no fim de semana, que tirou ambos da luta por qualquer posição que pudesse valer pontos.

Inacreditável porque não deu para entender a batida de Lucas na traseira de Buemi — um abandono duplo daria o título ao brasileiro por ter um terceiro lugar a mais do que o helvético. Não é do feitio do piloto da Audi-Abt fazer coisas que não o deixem dormir em paz. E foi logo na largada.

[bannergoogle]O feioso narigudo da Renault pulou na frente, mantendo a pole. Prost, seu companheiro e segundo no grid, foi na escolta e Di Grassi, terceiro na partida, em terceiro ficou. Tudo normal. Mas na primeira freada forte, Lucas jogou o carro para a direita, tirou de Prost e acertou em cheio a traseira de Buemi. Foi muito doido. Mas foi, sobretudo, um erro primário do brasileiro.

Ainda não ouvi as declarações pós-corrida de cabeça fria. No rádio, Lucas falou que Buemi freou muito cedo. Mesmo que isso tenha acontecido, quem vem atrás precisa tomar cuidado e contar com freadas antecipadas de quem está na frente, que estabelece o ritmo de corrida que quiser. É é normalíssimo frear um pouco mais cedo na primeira volta porque freios estão frios, pneus idem, não faz sentido brecar no deus-me-livre.

Portanto, olhando apenas o que aconteceu e sem saber de detalhes — sei lá se Lucas ficou sem freio, mas creio que não –, a responsabilidade pela batida é dele. O piloto nega e fala que Buemi brecou 50 metros antes do que devia. Sigo com minha opinião. O suíço freia onde quer, desde que não esteja fazendo um “brake-test” de sacanagem, e evidentemente não era nisso que estava pensando na primeira volta de uma corrida decisiva, sabendo que podia perder o título ali.

Sorte de ambos, e para a decisão do campeonato, que os dois levaram seus carros arrebentados para os boxes, pegaram os carros novos e partiram para a decisão via volta mais rápida — já que não teriam bateria para ir até o final.

Lucas fez a dele primeiro. Mas Buemi devolveu depois com duas voltas muito boas, entrando e saindo das garagens ao comando da equipe, que o soltava na pista quando o caminho estivesse livre. O mesmo fazia a Audi com Lucas. Briga de gato e rato.

Mas, com um carro melhor, para Buemi era apenas questão de acertar uma volta perto da perfeição — imaginem a tensão — para sacramentar a conquista, que no fim das contas, embora pouco usual, foi justa. Sébastien levou uma pancada do destino na primeira temporada da F-E ao perder o título para Nelsinho na última etapa, e outra há alguns dias em Le Mans — fazia parte da tripulação da Toyota que perdeu as 24 Horas a três minutos do final.

Por isso chorou tanto ao sair do carro. Até que enfim os ventos sopraram para seu lado.

A F-E volta em outubro com muitas novidades no calendário de seu terceiro campeonato. China, Malásia, Uruguai e Rússia deixam a categoria para a chegada de Montreal, Bruxelas, Nova York e Marrakech. Mônaco volta, Paris fica, Londres será em outro lugar. Várias mudanças e encerramento na “Big Apple” com rodada dupla — assim como no Canadá. Tem também um evento em Las Vegas, uma “corrida virtual” com pilotos e fãs em simuladores. Vai ser legal. Por enquanto, duas temporadas emocionantes e interessantes. Que continue assim.

Quanto a Lucas, pode-se dizer que perdeu o título por conta da corrida de Berlim, em que a Audi não deu ordem para Abt deixá-lo assumir o segundo lugar. Lucas não reclamou e disse que preferia assim — nada de ordem de equipe. Curioso é que Abt disse que não se importaria.

No fim, foi o que decidiu o campeonato. Mas é claro que alguém há de lembrar da desclassificação no México, por erro do time. E, na primeira temporada, outra desclassificação em Berlim — também bobeada do time. Lucas poderia hoje, se essas duas vitórias fossem confirmadas, estar comemorando o bicampeonato. Me parece ser o melhor piloto da Fórmula E — seus resultados são muito expressivos.

Mas é assim que são as corridas. Tem de partir para a próxima. Não há outro caminho.

CAMPONESAS (3)

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SÃO PAULO (uau!) – Que corridaça, essa de Spielberg! E que volta final espetacular! E que presepada do Rosberg.

Quer dizer… OK, tem de tentar defender a posição, última volta, tal e coisa, coisa e tal. Mas quando Hamilton colocou por fora, Nico tinha a preferência da curva para a direita, inclusive. Esqueceu a tangência, deixou o carro esparramar para a esquerda para empurrar o colega, era meio que tudo ou nada. O toque poderia ser fatal para qualquer um dos dois. Foi para ele. A asa dianteira quebrou, Lewis passou, e nos últimos metros o alemão ainda foi ultrapassado por Verstappinho e Raikkonen. Ficou em quarto. A diferença de pontos, que era de 26 pró-Nico antes do GP da Áustria, caiu para 11. Foi a terceira vitória de Hamilton no ano. Nico-Nico no Fubá, hoje, saiu no prejuízo total.

Bom, não choveu, o que ajudou a desembaralhar um pouco o grid zoado de ontem com punições e surpresas por conta da água no Q3 — as maiores delas, Hülkenberg em segundo e Button em terceiro. Na largada, Jenson fez sua parte e pulou para segundo, lembrando os bons tempos em que corria em times que andavam na frente. Hulk não foi bem. Caiu para quarto. E Rosberg, que teria de caçar Hamilton por conta da punição por troca de câmbio, fechou a primeira volta em quinto.

[bannergoogle]O início da prova foi divertido, e Bonitton se sustentou o quanto pôde em segundo. Até a sétima volta, quando Raikkonen passou por ele. Rosberguinho veio na balada e já pulou para terceiro duas voltas depois. Precisava manter Lewis na mira. Vinha conseguindo, até parar precocemente para a primeira troca de pneus, na 11ª volta. Colocou macios.

Nico-Nico caiu para nono e quando a turminha da frente, especialmente a dupla da Red Bull, foi para os boxes, o alemão começou a reconquistar terreno. Era quarto na volta 16, e Hamilton lá na ponta, sem trocar pneu. A impressão que passava era que estava esperando chover, para economizar um pit stop. Mas não veio água nenhuma.

E, então, com a borracha nas últimas, Lewis perdeu ritmo. Rosberg fazia tempos 1s melhores por volta. Na volta 21, já estava a 21s do inglês, em quarto. Na parada, Hamilton só não perderia a posição se o pit fosse perfeito. Não foi. Parou na volta 22, o pneu traseiro esquerdo enroscou e, quando voltou para a pista, viu Rosberguinho passar à sua frente. E bem à frente, coisa de 5s.

Raikkonen assumiu a liderança, mas por pouco tempo. Na volta 23, parou. Vettel, então, ganhou a ponta. Também por pouco tempo. Seu pneu traseiro direito explodiu no fim da reta. E, finalmente, Rosberg viu-se em P1. Os restos mortais da borracha de Vettel forçaram a entrada do safety-car das voltas 27 a 32. Nico primeiro, Hamilton segundo. Sem diferença entre eles, apenas no tempo de pneu. O de Nico tinha 21 voltas de vida. O de Lewis, 11.

Mas Rosberg manteve o inglês a uma distância segura, coisa de 2s, sem ser muito ameaçado. A batalha ficaria para o stint final. Às vezes, Nico abria. Às vezes, Comandante Amilton encostava. Os dois Mercedes sumiram dos demais. Rosberg lutava contra um carro meio estropiado, cheio de pedaços de borracha enganchados no assoalho e um defletor solto. Mesmo assim, seguia em frente.

A coisa começou a se decidir na volta 55, quando Hamilton fez sua segunda parada e colocou pneus macios. Na volta seguinte, veio Rosberg, e colocou supermacios. “Que história é essa?”, reclamou o britânico pelo rádio. “Por que ele é mais macio do que eu?” Faltavam só 16 voltas e o novo líder era Max Verstappen, com pneus de mais de 40 voltas de uso. Não ia segurar a onda. Na volta 63, ambos já tinham passado pelo holandês. Rosberg chegou a ter 1s6 de frente para Hamilton. Mas o inglês vinha babando. Os pneus mais duros, no fim das contas, foram a melhor escolha. Os supermacios do alemão acabaram rapidinho.

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E foi babando que Lewis passou Rosberg na última volta, com um ligeiro esfrega-esfrega entre os dois — o que levou ao toque, à quebra da asa de Nico, ao quarto lugar fora dos planos. Na Mercedes, a turma não curtiu muito. Toto Wolff quase teve um ataque do coração e falou até em usar as ordens de equipe se seus dois pilotos continuarem batendo um no outro.

Mas o frame acima não me parece deixar dúvidas. E vejam, nas marcas de pneu, o traçado normal para a curva à direita. Agora notem onde está Rosberg e sua posição em relação à curva. Em linha reta, praticamente, esquecendo que tinha de virar o carro. Hamilton, por fora, aponta para fazer a curva, deixando muito espaço para o alemão. Lewis não pode ser acusado de rigorosamente nada.

E ele se defendeu de qualquer polêmica antes que começasse. “Estou aqui para vencer. Dei espaço, acho que ele teve problemas de freios e nos tocamos”, falou, evitando alimentar o assunto. “Este esporte é inacreditável às vezes”, falou Rosberg, também sem mostrar muita disposição para atacar o companheiro de equipe, até porque sabe que fez besteira.

Hamilton, Verstappinho (que bela corrida, no fim) e Raikkonen formaram o pódio. Rosberguinho amargou o quarto lugar, Ricardão ficou em quinto (mais uma lapeada do jovem Max e ele vai começar a pirar), Button fechou com um lindo sexto lugar, Grojã voltou a pontuar com a Haas, Sainz Idade foi o oitavo, Sapattos e nono e, vejam só, Wê Lá, Hein? ficou em décimo, marcando o primeiro ponto da vida da Manor — e o primeiro do grupo desde o nono lugar de Bianchi em Mônaco/2014, quando ainda se chamava Marussia. Legal demais. Verdade que o alemãozinho se beneficiou de quatro abandonos no final, de Massa, Alonso, Pérez e Hülkenberg. Mas estava lá para receber a bandeirada. Assim, parabéns ao jovem Pascal, que é muito bom piloto. Muito bom.

Os brasileiros? Massa, como já dito, parou no fim depois de largar do pitlane e fazer uma corrida bem irregular. Chegou a andar nos pontos, mas parou com os freios superaquecidos em pandarecos. Nasr fez uma boa corrida, conseguiu em determinado momento se colocar em sétimo sem trocar pneu, fez várias ultrapassagens, mas no fim sucumbiu com o fraco carro da Sauber e terminou em 13º.

Como estamos no “julho insano”, com quatro GPs em cinco finais de semana, não vai dar tempo de Rosberg se lamentar demais, nem para Hamilton festejar muito — embora, claro, uma festinha ou outra no meio da semana sempre faça parte dos planos. Domingo tem Silverstone, depois é folga, dia 24 tem Hungria, dia 31 é na Alemanha.

E assim vamos, acelerando sempre, que é o que nos resta.

PROST & SENNA

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podioprostsennalonSÃO PAULO (recuperando) – 23 anos depois do GP da Austrália na F-1, um Prost e um Senna no mesmo pódio, com Nicolas em primeiro e Bruno em segundo. Legal isso ontem na Fórmula E, que segue abertíssima depois do quarto de Di Grassi e do quinto de Buemi.

Eram três pontos de vantagem para o brasileiro, que foram eliminados com a pole de Buemi para a segunda prova da rodada dupla, agora há pouco. Pole com autoridade, diga-se. Prost larga em segundo e Lucas, em terceiro.

Lucas e Buemi partem empatados nos pontos para a decisão em instantes em Londres. Apostas?

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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