Arquivosábado, 11 de maio de 2019

TAPAS Y BESOS (2): É TU MESMO?

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Großer Preis von Spanien 2019, Samstag - Steve Etherington
Lewis & Valtteri: um com cara de bunda, o outro com sorrisinho maroto

RIO (veranico) – Uma olhada na tabela de tempos depois da classificação em Barcelona assusta um pouco. Bottas mais de meio segundo na frente de Hamilton? Precisamente: 0s634, temporal de 1min15s406 que lhe deu a nona pole na carreira, terceira no ano.

Ô, ô, ô, o Amilton acabô?

Calma. Há algumas razões técnicas que explicam a diferença muito larga no cronômetro, e que têm a ver com a enorme sensibilidade desses carros atuais da F-1 a qualquer coisa — hoje, se você mostrar a língua para um antes de uma volta de classificação é capaz de ele perder um ou dois décimos.

Hamilton teve de abortar sua última volta no Q2 por conta de uma bandeira amarela e, por isso, quando voltou aos boxes, as baterias que alimentam os motores elétricos auxiliares não estavam devidamente carregadas. Isso roubou um pouco da potência disponível para o início do Q3, e então a Mercedes o soltou um pouco mais cedo para que ele pudesse, digamos, carregar o sistema devidamente, e aí ele pegou tráfego e, resumindo, fez uma volta de merda.

A segunda tentativa nem contou, porque como todos perceberam ninguém melhorou seus tempos já que a pista, de repente, ficou mais fria — uma nuvem mais assim ou assada nos céus da Catalunha, um assopro coletivo vindo da arquibancada, uma revoada de andorinhas sobrevoando o autódromo, um ventilador ligado dentro da guarita do segurança, qualquer porcaria hoje afeta o desempenho dos carros. Uma maluquice.

Isso não quer dizer que se tudo tivesse dado certo para o pobre Hamilton seria dele a pole. Não. Valtteri, nosso simpático finlandês, está guiando melhor que seu companheiro de equipe. Ponto. Mais seguro, concentrado, preciso. Nem parece o mesmo piloto apático de anos anteriores. Há quem duvide de que é ele mesmo debaixo daquele capacete. Está arrebentando a boca do balão. Ou, como se diz lá nas quebradas de Helsinque, “se murskasi ilmapallon suua”. Em suma, para usar um conhecidíssimo ditado no gelado país nórdico, “tappoi käärmeen ja osoitti kepin”. Nunca um dito popular fez tanto sentido, vocês hão de concordar.

O que preocupa os desejosos por um campeonato mais disputado é mesmo o desempenho da Ferrari, que parece não só não reagir à superioridade da Mercedes, como às vezes dá a impressão de que está andando para trás. Foi dominante em Barcelona nos testes da pré-temporada. Veio para a corrida com uma atualização do motor. E levou quase um segundo da rival. Vettel larga em terceiro, 0s866 atrás de Bottas. É muita coisa. Verstappinho ficou em quarto. Em quinto, Lec-Lec, que antes do Q3 passou em cima de uma zebra de forma pouco usual e danificou o assoalho. Não deu para fazer muita coisa depois. Gasly fechou o grupo dos seis primeiros e depois vieram os dois da Haas — que, como disse ontem, é a melhor do segundo escalão na Espanha.

O resto foi tudo mais ou menos normal. Ricardão conseguiu um bravo décimo lugar com a Renault (que decepção, esse time; como uma empresa que já fabricou carros como Twingo e Mégane pode andar tão mal na F-1?), mas larga em 13º por conta da punição que levou no Baku há duas semanas. Raikkonen, desta vez, foi bem discreto, e seu companheiro Giovinazzi também não vem fazendo grande coisa. Kimi, pelo menos, pontua. Tonico ainda está zerado. Por fim, a Williams. Está cada vez pior. Um buraco sem fundo. Uma tristeza.

Barcelona é muito ruim de ultrapassar. Não se animem demais com a corrida de amanhã. A Mercedes, que foi para a Espanha com algumas atualizações não discriminadas em seus carros, tende a aumentar sua lista de dobradinhas na temporada. Bottas está por cima da carne seca, agora. Ou, em bom finlandês, “kuivatun lihan päälle” — dispensa traduções. Acho que a torcida, agora, é para que seja um novo Rosberg na vida de Hamilton. E para que a Mercedes deixe os dois fazerem o que bem entenderem na pista.

Até agora, não temos motivos para reclamações, inclusive.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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