Arquivosábado, 27 de julho de 2019

FOTO DO DIA

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Mick Schumacher deu três voltas hoje com a F2004, carro com o qual o pai conquistou o heptacampeonato com 13 vitórias e dois segundos lugares em 18 corridas, 15 anos atrás. O capacete foi pintado meio a meio, meio pai, meio filho. Foi impossível não se emocionar em Hockenheim. Amanhã, antes da parada dos pilotos, o garoto vai dar mais umas voltinhas e quem estiver no autódromo poderá matar a saudade do V10 e de uma F-1 que não existe mais.

mick2004

CHUCRUTE (1 & 2): FERRARI EM CHAMAS

C

2019 German Grand Prix, Saturday - LAT Images

SÃO PAULO (na área) – Antes de mais nada devo desculpas ao egrégio leitor deste blog por não ter postado uma linha ontem sobre a abertura dos treinos para o GP da Alemanha. Cabem explicações. Vim para São Paulo de carro e a saída do Rio levou três horas até Nova Iguaçu. Uma espécie de inferno terreno. Chegamos por volta da uma da manhã, após 8h30 de viagem. Não havia mais condições físicas de nada.

Quem diz que faz Rio-SP em quatro horas é mentiroso.

Mas vamos ao que interessa.

Ontem, o calorão de 38 graus vitimou a Mercedes, que não andou bem e viu a Ferrari dar pintas de favorita na casa do adversário, com Leclerc e Vettel ponteando a folha de tempos. Mas o destino tem sido cruel com os vermelhos. O sábado amanheceu bem mais ameno, depois de uma chuva noturna, e com 28 graus e muitas nuvens no céu as coisas melhoraram para o time prateado. Não sem um drama inesperado: Hamilton acordou mal, com dor de garganta, e depois do terceiro treino livre a equipe chegou a deixar Ocon de sobreaviso.

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Lewis esguichou própolis na goela, chupou uma pastilha e no fim das contas foi para a pista na classificação. E aí entrou em cena a perversidade do destino com a Ferrari. Vettel, no Q1, anunciou pelo rádio uma perda de potência que deixou os boxes em polvorosa. Quando recolheu o carro, o diagnóstico: perda de pressão de ar no turbo. Ele não poderia mais voltar à pista. Largaria em último, sem tempo de classificação. Justo onde, no ano passado, começou a perder o campeonato depois de bater sozinho quando liderava a corrida e a classificação. Justo em seu país, diante de sua torcida.

Pouco depois, no Q3, Leclerc, que aparecia como favorito à pole por tudo que havia feito nos treinos livres e nas primeiras etapas da classificação, sai do carro antes de ter a chance de tentar uma volta. Problema no sistema de alimentação de combustível foi o que reportou a equipe. Dois vexames ferraristas. E caminho aberto para a Mercedes comemorar seu 200º GP com mais uma pole. Que ficou, claro, com Hamilton. Com dor de garganta e tudo, fez 1min11s767 na sua primeira volta no Q3 — nem precisou melhorar na segunda — e cravou a 87ª pole de sua carreira, quarta no ano e terceira na Alemanha.

Todo mundo na Mercedes, creiam, lamentou o azar da Ferrari. “Ela é necessária para nós, precisamos deles fortes”, filosofou Toto Wolff vestindo chapéu, suspensórios, calças de pregas e gravata. “Foi uma pena o que aconteceu com eles”, fizeram coro Hamilton e Bottas.

Todos os integrantes da equipe — essa era a surpresa do dia — usaram roupas retrô para lembrar a década de 50, quando a marca alemã estreou na F-1. Com uma dobradinha, diga-se, logo na primeira prova. O fim de semana também marca os 125 anos da primeira competição automobilística da história, uma corrida entre Paris e Rouen “com carruagens sem cavalos”, que teve como vencedor proclamado um carro cujo motor fora concebido por Gottlieb Daimler — engenheiro alemão que está na origem do que é hoje a Mercedes-Benz. Aliás, ficaram todos e todas lindinhos e lindinhas com suas calças folgadas, sapatos de cromo, paletós xadrezes, meias soquete, vestidos esvoaçantes e boinas antigas. Foi o maior barato.

A definição do grid teve algumas surpresas, como a eliminação de Lando Norris no Q1, ao lado de Albon, da trágica dupla da Williams e do já citado Vettel. Stroll passou ao Q2 pela primeira vez no ano e a Haas deu a impressão de que poderia aprontar alguma coisa — como de fato aprontou, com Grosjean passando ao Q3 e fechando o dia numa ótima sexta posição. A decepção foi Ricciardo, empacando na segunda fase da classificação enquanto Hülkenberg seguia em frente.

A formatação do Q3 foi das mais interessantes, com nada menos do que oito equipes representadas — apenas Williams e Toro Rosso ficaram fora da festa. Lewis percebeu que não teria dificuldades para fazer a pole assim que Leclerc saiu do cockpit. A Red Bull não representava uma ameaça e Bottas estava meio fora de sintonia. E assim foi. O inglês ficou em primeiro com folgados 0s3 para Verstappinho, com quem dividirá a primeira fila. Na segunda, Bottas e Gasly — melhor posição de largada do francês na F-1. Na terceira, dois carros empurrados por motores Ferrari — o que deixou os italianos de Maranello ainda mais putos: Raikkonen foi o quinto (melhor posição da equipe desde EUA/2013, quando ainda se chamava Sauber) e Grojã veio logo atrás. Fecharam o top-10 Sainz Jr., Pérez, Hulk e o sem-tempo Leclerc.

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Hamilton e Bottas largam de pneus médios, o que significa que devem parar entre as voltas 25 e 35 para colocar duros e ir até o fim. Quem está de macio, casos dos dois da Red Bull, terá de fazer seu primeiro pit stop entre as voltas 19 e 29, segundo a Pirelli. E a tática-padrão será usar os duros até o final da corrida depois da troca. A previsão para amanhã é de um dia bem menos quente, 22°C apenas, com 40% de chances de chuva.

Leclerc deverá ser o showman do dia, largando em décimo com pneus médios (seu tempo no Q2, com esses pneus, seria suficiente para largar em quarto; tinha potencial para ir bem mais para a frente) e buscando se posicionar para tentar um pódio rapidamente. Vettel terá tarefa bem mais difícil, claro, mas o fim de semana já está estragado, mesmo; o que vier é lucro. Ano passado, Hamilton quebrou na classificação, ficou todo desesperado, largou em 14º e acabou ganhando. Vai saber…

O que parece claro é que a Mercedes vai aproveitar a moleza inesperada com as mazelas da Ferrari para ganhar de novo numa corrida de festa para a Casa de Stuttgart. As coisas tinha começado mal ontem. Mas mesmo quando as dificuldades se apresentam, o time consegue dar a volta por cima muito rapidamente — ainda que para isso tenha de contar com os infortúnios dos adversários e com a generosidade do clima.

É assim que se escrevem as histórias dos grandes campeões, afinal.

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Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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