Arquivosegunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A FORD, A FORD

A

SÃO PAULO (tudo muito cinza no horizonte) – A Ford acaba de anunciar o encerramento de suas operações no Brasil depois de 102 anos. As fábricas de Camaçari (BA), onde eram produzidos a EcoSport e o Ka, e de Taubaté (SP), de motores e transmissão, além da planta de Horizonte (CE), onde era feito o Troller, vão fechar as portas. Em fevereiro de 2019, a montadora americana já havia lacrado a fábrica de São Bernardo do Campo (SP), histórica, onde eram montados seus caminhões — foi comprada da Willys em 1967. Dos 6.171 funcionários da empresa no país, 5 mil serão demitidos. Essa massa de trabalhadores está distribuída assim: 1.652 em São Paulo, 4.059 na Bahia e 460 no Ceará.

Não vi ainda os cálculos dos especialistas sobre a quantidade de empregos indiretos que serão afetados com essa decisão. Segundo a Ford, ficarão ativos apenas o campo de provas de Tatuí (SP), um centro de desenvolvimento de produtos na Bahia e uma sede administrativa em São Paulo. O que vão testar em Tatuí e o que vão desenvolver na Bahia, isso não tenho a menor ideia.

Há uns anos, lembro de ter postado uma nota aqui no blog reportando que a Ford estava se redefinindo como uma “empresa de mobilidade”, tendo investido na compra de uma empresa que alugava bicicletas na Alemanha. Era um sinal.

Mas isso, claro, não explica tudo. Porque no Uruguai e na Argentina a montadora continuará produzindo seus veículos. O fechamento das fábricas da Ford no Brasil tem a ver com a desgraça em que este país foi transformado depois do golpe que tirou Dilma Rousseff da presidência, arrebentando o país e detonando seu mercado interno — golpe deflagrado assim que Dilma se reelegeu, quando empresários, mídia e elite econômica em geral decidiram sabotar o governo, inconformados com mais uma vitória do PT. Tem a ver com a mentira da política econômica neoliberal reformista levada a cabo a partir de Michel Temer. Tem a ver com a tragédia da eleição de um tosco ignorante para o Planalto, transformando o Brasil num país medieval e sem rumo, preocupado com mamadeiras de piroca, vacinas que transformam pessoas em jacarés e coisas do tipo.

E, desculpem, não tem nada a ver com “custo Brasil”, impostos, legislação trabalhista. Essas empresas estão aqui há anos. No caso da Ford, há mais de um século. Cada empresa se adapta ao país onde resolve se instalar. Essa baboseira toda de “custo Brasil” é compensada com moeda fraca, mão de obra barata, mercado interno extenso, capacidade de exportação e margens de lucro altíssimas.

É muito triste testemunhar o fim da trajetória de uma empresa como a Ford no país. Muito, muito triste. A marca do oval azul está aqui desde 1919, época em que automóveis ainda eram uma novidade planetária. Quando passou a produzir seus carros em São Bernardo em 1967 — até então a Ford operava com veículos que chegavam aqui desmontados –, entraram em nossas vidas o Galaxie, o Corcel, a Belina, o Escort, o Maverick, o Del Rey, a turma da Autolatina (Verona, Versailles, os modelos equipados com motor AP da VW), e depois Ka, Fiesta, Focus, EcoSport, e ainda os utilitários como a F75, a Rural, as picapes F-alguma-coisa (sou péssimo com os nomes-códigos), e os caminhões, e os tratores, é só olhar para o lado na rua e a gente vai ver um Ford rodando.

O que será das concessionárias? O que será de todos esses trabalhadores? O que será dos carros recém-comprados pelos consumidores em todo o Brasil?

O que será do meu Corcel II?

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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