Blog do Flavio Gomes
F-1

BORTOLETO & AUDI

SÃO PAULO (sucesso!) – O Brasil volta a ter um piloto titular na F-1 no ano que vem, como todos vocês já sabem. Gabriel Bortoleto assinou com a Audi e fica no time alemão por pelo menos três temporadas — é o padrão desses contratos atuais. Em 2025, a equipe ainda vai se chamar Sauber. […]

SÃO PAULO (sucesso!) – O Brasil volta a ter um piloto titular na F-1 no ano que vem, como todos vocês já sabem. Gabriel Bortoleto assinou com a Audi e fica no time alemão por pelo menos três temporadas — é o padrão desses contratos atuais. Em 2025, a equipe ainda vai se chamar Sauber. Será o primeiro ano de transição para valer, com o comando de Mattia Binotto e a chegada de novos técnicos, engenheiros e pessoal especializado em tocar uma operação de corridas.

A Sauber é hoje a pior equipe da F-1. Tem zero ponto neste ano, algo que só tinha acontecido em sua história uma vez, em 2014. A escuderia suíça estreou em 1993. De 2006 a 2010, correu com o escudo da BMW. De 2019 a 2023, como Alfa Romeo. Agora foi vendida de vez e em 2026 troca de nome definitivamente para Audi, no ano de estreia do novo regulamento da F-1.

Bortoleto começou a se destacar em 2023, na F-3. Naquele ano, Felipe Drugovitch, campeão da F-2 em 2022, assinou como piloto de testes da Aston Martin e parecia ser o brasileiro com mais chances de recolocar o país na F-1. O último titular nascido aqui fora Felipe Massa, que parou de correr em 2017. O último a disputar GPs com a bandeirinha do Brasil no macacão, Pietro Fittipaldi. Neto de Emerson, fez duas corridas no fim de 2020 pela Haas, no lugar de Romain Grosjean.

Mas terminou 2023 e Drugovich não foi promovido a titular. Enquanto isso, Bortoleto ganhava a F-3 em seu ano de estreia e ascendia para a F-2. De 2023 para 2024, o grid da F-1 não mudou nada: todos que terminaram o campeonato começaram o Mundial seguinte exatamente onde estavam. Taxa de renovação: zero. Assim, Drugovich ficou na mesma. E Bortoleto começou a andar bem na F-2. Passou a ser agenciado por Fernando Alonso. Foi recrutado pela McLaren para seu programa de desenvolvimento de jovens. E quando ganhou uma corrida em Monza depois de largar em último, opa! Os olhares da F-1 se voltaram para o rapaz.

Isso aconteceu num momento em que alguns jovens vindos das categorias de base, aos trancos e barrancos, começavam a mostrar serviço nos times que lhes deram chances. Oliver Bearman tinha feito uma corrida às pressas pela Ferrari, foi muito bem, assinou com a Haas. Kimi Antonelli recebeu um extenso programa de testes da Mercedes e foi escolhido para correr no lugar de Lewis Hamilton. A Alpine decidiu promover Jack Doohan. Liam Lawson foi chamado pela Red Bull para substituir Daniel Ricciardo. A Williams dispensou Logan Sargeant e convocou Franco Colapinto.

Do nada, uma nova geração tomou a F-1 de assalto. Veteranos foram dispensados. Jovens ruins, também. Ricciardo, Magnussen, Bottas, Zhou e Sargeant são cinco dos que começaram 2024 e deles dificilmente ouviremos falar a partir do ano que vem. A hora chega para todo mundo. E ainda tem Sergio Pérez na fila dos dispensáveis — a Red Bull faz o que pode para convencê-lo a fabricar sombreiros no México e deixar o lugar para o argentino que está na Williams.

Nesse cenário, sobrou um lugar para Bortoleto. Porque a Audi tinha um objetivo desde sempre, Carlos Sainz, e perdeu o espanhol. Justamente para a Williams. Foi todo mundo se arranjando, e quem sobrou no mercado? A turma que abre o parágrafo acima. Nenhum valeria uma aposta. Os alemães já haviam preenchido a cota de “experientes” com Nico Hülkenberg. Colocar outro parecido, como Bottas, Magnussen, Ricciardo? Não faria o menor sentido. Já deram o que tinham de dar. Zhou e Sargeant, jovens com alguma rodagem, são fracos. Fariam menos sentido ainda. Os jovens mais promissores se viraram. Inclusive Bortoleto. E o jeito foi partir para a negociação com a McLaren para liberá-lo. Afinal, por que duvidar de um garoto que ganhou a F-3 em seu primeiro ano e está prestes a fazer o mesmo na F-2? O último que conseguiu tal façanha foi Oscar Piastri. E é só ver onde está agora.

Bortoleto é uma surpresa para muita gente porque, de fato, sua carreira com destaque se resume a dois anos. O que não é nenhum problema, considerando que esses meninos começam a correr cada vez mais cedo. Verstappen chegou à F-1 com 17 anos. O que tinha feito antes, além de perder um campeonato de F-3 para Esteban Ocon?

O kart, OK. Bortoleto começou cedo no kart, aos seis anos. Em 2017 foi morar na Itália. Conquistou alguns títulos e foi subindo de categoria. De família muito rica, pôde se dedicar às pistas. Seu pai, Lincoln de Oliveira, é um empresário que, entre outras coisas, é dono da Stock Car. Quando começou a se destacar em 2023, Gabriel ganhou patrocínios importantes como os do banco BRB e da Porto. O banco patrocina o Flamengo e seu presidente gosta de corridas. Não por acaso a marca está na F-4 brasileira, na Stock e em outras categorias menos conhecidas. A Porto se apaixonou pelas pistas quando montou uma arquibancada em Interlagos para a F-1, no ano retrasado. Foi patrocinar Drugovich e os Barrichello. Depois chegou em Bortoleto. É um ecossistema que se retroalimenta.

Para a Audi, o brasileiro cai como uma luva. Primeiro, porque é talentoso. Os resultados falam por si. A desconfiança da F-1 com os novinhos se dissolveu com a quantidade de garotos imberbes que se sentaram em carros da categoria e provaram que podem fazer o mesmo ou melhor que a geração que está começando a se despedir. Bortoleto vem de um país onde a Audi tem fábrica e opera fortemente no mercado de carros de luxo. Leva dinheiro — a equipe não vai precisar se preocupar com salários, que ficarão a cargo dos patrocinadores.

É juntar a fome com a vontade de comer: piloto bom e jovem, custo baixo, vindo de um país que tem tradição na categoria e, de quebra, é um mercado interessante para a marca. Mais: a F-1 deve voltar para a Globo em 2026, garantindo mais audiência e retorno para quem investe na categoria. Resumindo: não há contraindicações para uma contratação como essa.

A Sauber deve continuar na rabeira do campeonato no ano que vem, porque ninguém faz milagre de uma temporada para outra. O que é até bom para Bortoleto. Não terá pressões por resultados. Vai aprender bastante com Hülkenberg e estará desde o início num projeto de longo prazo cujos resultados são impossíveis de prever, mas se podem intuir. A Audi é uma marca importante e vencedora onde se meteu: no rali nos anos 80 e 90, no WEC e em Le Mans na virada do século, na Fórmula E em suas primeiras temporadas. Ninguém brinca de carrinho em Ingolstadt. Alemão sabe esperar. Lembrem-se que a Mercedes comprou a Brawn no fim de 2009 e ficou quatro anos se estruturando até ganhar seu primeiro campeonato em 2014. As coisas na F-1 levam tempo e todo mundo sabe disso.

A Sauber começou a comunicar a contratação de Bortoleto ao mundinho da F-1 às 4h57 de hoje, pelo horário de Brasília. Foi quando pingou na caixa postal dos jornalistas o primeiro e-mail do dia com o título “Obrigado, Valtteri!”. Pouco depois, às 5h03, “Obrigado, Zhou!”. Às 5h44, “Bem-vindo, Gabriel!”.

A saída de Bottas deixa a Finlândia sem representantes no Mundial pela primeira vez desde 1989. Uma dinastia que começou com JJ Lehto, passou por Mika Hakkinen, Mika Salo, Kimi Raikkonen e Heikki Kovalainen até chegar no simpático Valtteri. Antes deles todos, o mais bem-sucedido tinha sido Keke Rosberg, que correu de 1978 a 1986 e conquistou o título de 1982. Hakkinen foi bicampeão em 1998 e 1999, Raikkonen ganhou o Mundial de 2007. Bottas não foi campeão, mas tem um currículo muito bom de dez vitórias, 20 poles e 67 pódios em 243 GPs desde a estreia, pela Williams, em 2012. Por lá ficou cinco anos, até ser contratado para o lugar de Nico Rosberg na Mercedes. Mais cinco anos, a fama de bom companheiro de Hamilton e, depois, três temporadas na Sauber (as duas primeiras como Alfa Romeo). Acabou.

Bottas ai fazer falta, se não pelo que é capaz de realizar na pista, pelo carisma e espírito leve que sempre praticou num ambiente carrancudo e chatonildo como a F-1. Sua despedida hoje no Twitter (atual X) é impagável. Vejam aqui. Ele estava de cuecas!

Já Zhou se vai como chegou, discretamente. Primeiro chinês da história da F-1, pontuou em sua corrida de estreia no Bahrein em 2022, com um décimo lugar. Seu melhor resultado foi um oitavo no Canadá naquele ano — temporada em que a Alfa Romeo terminou em sexto no campeonato. Na Inglaterra, ainda em 2022, sofreu um acidente pavoroso que marcou sua carreira. Não emplacou.

Gabriel Bortoleto, paulista, 20 anos, será o 33º piloto brasileiro a largar para um GP de F-1 quando estiver sentado no carro da Sauber na prova de abertura do Mundial de 2025. Que tenha muita sorte, sucesso e uma longa carreira pela frente. De agora em diante, tudo vai depender só dele.