Arquivodomingo, 13 de setembro de 2009

MILANESAS (8)

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mila08SÃO PAULO (fica ou não fica?) – Uma coisa que tenho notado nas últimas semanas é o esforço da Ferrari para elogiar Raikkonen publicamente. Não faltam motivos. Desde o GP da Hungria, nas últimas 4 corridas, o cachaceiro fez quatro pódios: segundo, terceiro, primeiro e terceiro. Nessas quatro provas, somou 30 pontos. É mais do que qualquer outro piloto. Para comparar, de Budapeste para cá: 12 para Button, 22 para Barrichello, 7 para Vettel, 18 para Hamilton, só para citar alguns.

No comunicado oficial da Ferrari hoje, ele foi chamado de impecável, maravilhoso, soberbo, perfumado e sexy. “Tirou tudo do carro”, “não cometeu nenhum erro”, “guiou fantasticamente”.

Sabe o quê? Estou achando que a história de Alonso é menos certa do que todo mundo está insinuando. Que Kimi, nessa reação, está mostrando que vale a pena investir nele. Não vejo destino para ele, se sair da Ferrari. A McLaren, talvez. Faria sentido, porque Kovalainen é muito banana. Mas é tudo muito nebuloso.

A Ferrari, no fundo, está de stand by. Precisa ter certeza sobre Massa. Precisa conversar direito com Raikkonen. E do lado de cá, para especular algo e tentar chegar perto do que vai acontecer, ainda é preciso desvendar essa história de Fernandinho de vermelho.

Hoje, Kimi foi bem. Não excepcional, mas bem. Menos do que a Ferrari quer fazer o mundo pensar.

MILANESAS (7)

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mila07SÃO PAULO (nó tático) – A corrida, agora. As estratégias da Brawn, de Ross Brawn, na maioria das vezes acabam enrolando a concorrência pela obviedade. Uma parada, dane-se a pole, e pronto.

Dos que estavam à frente dos marca-textos no grid, o único que poderia ameaçar, pelo peso, era Raikkonen. Ele também poderia optar por apenas um pit stop se fizesse a classificação com um pouco mais de gasolina. Mas a Ferrari não tem sido exatamente brilhante em estratégias de corrida desde a saída do trio Brawn-Schumacher-Todt. Faz um feijão-com-arroz sem tempero, e no fim das contas a Brawn acabou tendo um carro mais rápido, mesmo.

6483352_kimi_raikkonen_italia_grande_premio_324_499Hamilton tentou. A pole era importante, e ele precisava contar com uma largada ruim de Button e Barrichello para abrir uma boa vantagem que lhe permitisse compensar a parada a mais. Pelo menos era uma tentativa, mas deu errado porque os BBB largaram bem e com coragem.

Antes da única visita aos boxes de Button e Barrichello já estava claro que o brasileiro venceria a corrida. Hamilton estava mais de 12s atrás da dupla, e todos teriam de fazer mais um pit stop. Embora mais leve, o ritmo do inglês prateado não era suficiente para descontar a diferença.

A corrida, pois, se decidiu na volta 29, quando Rubens saiu dos boxes. À frente dele, três carros que teriam de parar de novo: Hamilton, Raikkonen e Sutil. E todos não muito distantes. Babau.

No fim das contas, foi uma prova divertida, com alguns bons momentos. De um lado, Barrichello e Button correndo contra o relógio e, no apagar das luzes, um esboço de pressão de Hamilton sobre Jenson. De outro, Raikkonen sendo assediado por trás (ui) por Sutil, piloto que vem demonstrando grandes qualidades. Mais atrás, bem mais atrás, a dupla da Toyota brincando de fazer merda, Trulli principalmente. Fisichella, ninguém sabe, ninguém viu. Melhor que Badoer (não é difícil), mas absolutamente apagado.

A Red Bull despencou vertiginosamente. É a equipe que veio do frio, porque teve seus melhores momentos no ano quando as temperaturas foram baixas, ali em Nürburgring e Silverstone, especialmente. Sofre com os fracos e pouco confiáveis motores Renault, com a ansiedade de Vettel, que anda mais do que o carro, com o pouco brilho de Webber — regular e constante na maior parte da temporada, mas incapaz de ir além disso.

Kovalainen foi o de sempre, lento e previsível. Alonso, idem (o de sempre, não como Kovalainen, bem-entendido): combativo, mas não é santo milagreiro. Grosjean, quase um novo Nelsinho, apagado e pouco performático até agora. Liuzzi vinha bem. Esse foi outra grande surpresa do fim de semana, e faria pontos se o carro não quebrasse.

O teórico barbeiro do dia acabou sendo Hamilton, embora eu ainda não tenha lido suas explicações para a batida na última volta. Me pareceu barbeiragem, mesmo. Jogou um pódio certo no lixo.

(Atualizando, ele reconheceu o erro. Então, de barbeiro teórico passou a barbeiro prático.)

E o resto, não sobrou muito, foi o resto: Williams, Toro Rosso e BMW Sauber fizeram número e encheram o grid.

Daqui a pouco voltamos.

MILANESAS (6)

M

mila06SÃO PAULO (arrancada) – A melhor de Barrichello hoje depois da corrida foi dizer que alguns meses atrás estava desempregado, e agora luta pelo título. É a maior das verdades. Tudo muda muito rápido na vida. Rubens começou o ano com carteira assinada, enfim, o que já era mais do que lucro para quem era dado como acabado. Mas aí passou a ser esmagado pelo companheiro de equipe e renasceu o estigma de segundão. Agora o jogo virou de novo.

Depois da vitória em Valência, Barrichello fez o que não estava habituado a fazer: encaixou uma sequência de boas provas. Em Spa guiou bem, e se não fosse o erro/problema da largada, estaria ainda mais perto do inglês, que entrara num inferno astral inesperado. Assim, por romper um padrão, é lícito acreditar que ele pode acabar levando o título.

Há muitas boas notícias para o brasileiro neste fim de temporada. Está andando bem, forte, confiante, decidido. Fez uma prova brilhante hoje. O calor voltou, a Brawn se recuperou. A Red Bull se desmanchou. Ferrari e McLaren oscilam. Seu momento é melhor que o de Button.

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As más notícias: a diferença é grande, e Jenson deu sinal de vida. Também fez uma boa prova em Monza. Teve uma largada agressiva, não se intimidou com o KERS da McLaren, se tivesse feito a primeira volta na frente do parceiro, possivelmente venceria. São 14 pontos a separá-los e  quatro GPs para o fim do Mundial. Barrichello teria de descontar uma média de 3,5 por prova para pelo menos empatar. O que se verá até o fim do ano é uma marcação homem-a-homem de Button sobre ele, que é franco atirador e não tem muito a perder. Jenson, se não for burro, leva.

Vai ser um fim de campeonato bem bacana, de qualquer forma. Depois de tanto tempo na F-1, Rubens tem a maior chance de sua vida de ser campeão, chance que parecia não mais existir depois da sexta vitória de Button. Não dá para negar a persistência e a obstinação de Barrichello. Ele não desistiu da luta, e depois de um mau início de temporada está provando que Ross Brawn acertou ao lhe dar uma oportunidade de continuar correndo.

Foi sua terceira vitória em Monza, o que é uma façanha para qualquer piloto. São 11 na carreira, duas no ano. Um belíssimo capítulo sendo escrito na história da F-1, pois se tratava, como ele mesmo disse, de um piloto desempregado que renasceu das cinzas que o sufocaram até a metade do Mundial.

Sendo campeão ou não, mesmo que não ganhe mais nenhuma prova até o fim do ano, já dá para dizer que Barrichello é o grande vencedor de 2009, e merece ser aplaudido de pé.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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