Arquivodomingo, 2 de março de 2014

NÃO SAI DO BAR, HEIN?

N

hamiltonultimodiaSÃO PAULO (há melhores) – “Setenta e sete voltas. Setenta-e-sete. Sabe o que é isso? Dá mais um. Sem gelo. Setenta e sete, Habib. Seu nome é Habib? Cara, é muita volta. Pensa bem. Setenta e sete. Você anda, anda, anda, vai contando, setenta e sete. E quer saber? Fomos bem. Quatro segundos pro negão. O que são quatro segundos? Nada. Quer ver? Um, dois, três, quatro. Pronto. Acabou o mundo? Coloca mais um aí, Habib. Não, sem gelo. Pra quê gelo? Não precisa me resfriar por dentro não, Habib. Quem precisa ser resfriado é meu motor. Hahaha, que engraçado. Nem eu me aguento. Acho que vou direto para a Austrália. Vamos largar sábado à noite pra chegar em primeiro no domingo. Hahaha, que engraçado.”

Hamilton estava numa mesa próxima, tomando uma Grapette® com Bottas. “Ele não sai mais do bar, hein? Coitado. Desse jeito vão chamar o Coulthard pra correr. Ele e o Webber. Pobre Tião. É meio metido, mas eu gosto dele. No fundo é gente boa”, falou, olhando com alguma tristeza para o rapaz debruçado no balcão, que continuava seu monólogo com Habib, que nada entendia por ser paquistanês.

“Pra quê andar rápido? Pra quê? Estamos com pressa de quê? Alguém aí vai tirar o pai da forca? Olha só, Habib. Olha aqui nesse papelzinho. Os tempos, tá vendo? Olha eu aqui. Nono. Nô-no. Tem onze equipes. Fiquei na frente de duas. Andaram falando aí que a gente nem vai conseguir largar. Chupem, trouxas. Vamos largar sim! Um, dois, três! Quatro cinco mil! Degola no Q1 é a puta que pariu!”

É compreensível o estado de Sebastian, depois de quatro dias difíceis para a Red Bull no Bahrein. Hoje, finalmente, ele conseguiu andar um pouco. Mas não deu para comemorar nada. Os tempos foram patéticos. A equipe está atrasadíssima em relação a todo mundo. Dizer que vai brigar para passar do Q1 não é nenhum exagero. É um ano perdido, antes de começar. Porque na F-1 não tem milagre-express. Os carros rubrotaurinos serão empurrados por um conjunto de motores problemáticos, e todos que usam Renault sabem disso. São quatro equipes — Red Bull, Toro Rosso, Lotus e Caterham — que já começam o Mundial fora da disputa.

Sorte dos Mercedes. E dos Ferrari. Sem muito medo de errar, podem anotar aí: Mercedes, Williams e Force India serão as principais forças das primeiras corridas do ano, com a Ferrari ali por perto e possivelmente a McLaren, também. Esta, no entanto, vem enfrentando problemas que nos primeiros treinos, em Jerez, não foram comuns. Hoje foi o motor-motor, aquele de gasolina, carburador, pistão, biela e virabrequim. Mas a troca desses motores, que a F-1 se orgulhava de fazer em minutos, agora leva uns três ou quatro dias. Sempre sobra alguma coisa do lado de fora. “Onde vai esse radiador aqui?”, grita um quando fecha o capô. “Hei, esqueceram essa bateria, ela é importante?”, alerta outro. “Cadê minha sapatilha?”, pergunta o piloto. “Não era um coxim?”

O resultado é que Button logrou completar só 22 voltas. Queria testar uma asa dianteira para Melbourne. Não deu nem para ver se ficou bonita.

Hamilton fechou o dia em primeiro, mas não foi lá um domingo tranquilo. Às 4h, sim, o mesmo horário da descoberta do motor quebrado ontem, quatro da madrugada, por extenso, encontraram um problema no câmbio. Quem descobre esses problemas de madrugada na Mercedes, não sei. Vettel de novo, voltando da noitada? “Ó, olha esse engate aí, tá parecendo o câmbio do meu Clio, hahahahaha!”, e algum mecânico de plantão, ou insone, resolve testar e percebe que tem mesmo algo errado, e dá o alerta e acorda todo mundo.

O fato é que das 4h até 12h40 foi o tempo que a Mercedes levou para trocar o câmbio. Paddy Lowe quase morreu. “Três horas e quarenta minutos! Perdemos três horas e quarenta minutos!”, e atirou a ampulheta no chão, espalhando a areia pelo deserto de Sakhir. Depois do almoço, Lewis conseguiu andar sem maiores problemas e fechou a semana com o segundo melhor tempo de todos, perdendo para a marca de Massa sábado. Só que as quebras de ontem e hoje deixaram a turma prateada com a pulga atrás da orelha. Foi o que disse Niki Lauda: “Das Pülgen vor Ohr”, falou para um jornalista que pediu para que resumisse em quatro palavras o que sobrou dos testes de inverno.

Na Williams, o sentimento era menos pulguento. Bottas deu 108 voltas e quando colocou pneus supermacios para cravar um tempinho esperto, o motor-motor, aquele de gasolina, vela, bobina e platinado, estourou. “Não foi uma surpresa”, disse Biela Nelson, o engenheiro não sei das quantas. “Era esperado pelo tanto que rodou.” Como a troca da unidade só terminaria na Páscoa, a equipe achou melhor encerrar os testes. “Demos 936 voltas no total”, festejou Biela. Nisso Vettel passou do lado dele, segurou seus ombros e disse: “Setenta e sete. Setenta-e-sete”. Largou o engenheiro e seguiu, cambaleando. Biela virou-e para Bottas e comentou: “Ele não sai do bar, hein?”.

Alonso passou por ali meio desanimado e concordou. Bottas aproveitou, tirou do bolso do macacão um maço de dinares que sobraram desses quatro dias nas arábias e tentou dar um aplique no espanhol para recuperar alguns euros. “Câmbio?”. “Sí, sí, fue la caja de cambios, una mierda”, respondeu o ferrarista, balançando a cabeça e seguindo adiante. A quebra abreviou o último dia do time e levou Alonso a lamentar o fato de ter andado menos do que gostaria. Ninguém na Ferrari está muito animado. Tampouco deprimido. Conformados, talvez.

A Sauber foi quem mais trabalhou hoje. Como o carro nem ligou ontem, Sutil tentou compensar saindo logo cedo para parar só quando um fiscal de pista se atirou na sua frente, depois de 91 voltas. Nem desligou o motor, pulou fora e entrou Gutierros para mais 86. Os tempos, no entanto, não têm sido muito animadores, assim como os da Ferrari. A Marussia, terceira equipe que usa as unidades de riso feitas em Maranello, fechou o dia com o sétimo tempo, depois de um problema elétrico resolvido rapidamente — devia ser a lâmpada traseira queimada. Chilton ficou feliz e disse, apontando para Vettel, que passava por ali. “Nossa meta é andar na frente deles, porque se perdermos desses caras, vamos empatar com quem?”. Vettel ouviu e partiu pra cima. “Inglesinho de merda! Tá pagando quanto pra correr? Papis já mandou o chequinho? Já tomou seu danoninho hoje? Uiuiui!”. Um segurança tratou de afastá-lo dali.

Na Force India, o balanço da pré-temporada foi positivo. Alguns dias liderando as folhas de tempos e outros cuidando de simular corridas. Hülkenberg foi o piloto de hoje, e teve de parar depois de setenta e poucas voltas (“Setenta-e-sete”, interrompeu Vettel, mas foram menos) porque a quilometragem do motor apitou. Mais de um Mercedes deu sinais de estafa depois de certo tempo de uso. Normal.

Vergne também saiu do Bahrein mais tranquilo depois de setenta e poucas voltas (“Setenta-e-sete”, interrompeu novamente Vettel). “Tivemos problemas, é verdade, mas pelo menos saímos daqui com a sensação de que temos um bom carro”, disse o francês da Toro Rosso. “Seu verme”, resmungou Vettel, entre os dentes. “Esse carro é meu. Se é bom é meu! Dá ele aqui!”. Um segurança levou Sebastian embora, agora sem muita resistência.

A Caterham encerrou os testes com o troféu de “Renault mais confiável”, o que não quer dizer muito, nessa altura. Koba-Mito virou 106 voltas hoje e disse que semana que vem vai trabalhar no simulador. “Um PS2 que eu tenho no restaurante”, contou. Seu pai não o liberou do trabalho e ele pega firme a partir de terça-feira. Fica no caixa.

A Lotus foi a premiada com os maiores infortúnios do último dia da pré-temporada mais zoada de todos os tempos. A coisa está tão feia que no release da equipe foi acrescentado um item aos básicos “piloto”, “voltas completadas”, “tempo”, “clima”, “pista”, “chassi” e “posição”. Agora tem também “interrupções”. No caso, hoje, estava anotado lá: software e power unit. Ou seja, fodeu tudo. Grosjean foi o encarregado de quebrar o carro no domingo de Carnaval.

Lotus e Red Bull serão as desgraças do começo do ano, considerando o que fizeram no ano passado. Estão pensando numa fusão, Lotus Bull, para entrar com uma ação contra a Renault, Bernie Ecclestone, a família de Thomas Edison e o inventor do turbo. Vettel e Maldonado, por sua vez, pensam em ações mais drásticas em Melbourne, como atirar coquetéis molotov nas garagens rivais, queimar pneus na saída dos boxes ou explodir tambores de gasolina sob os hospitality-centers. Foi sobre isso que conversaram antes de pegar o voo de volta para a Europa. No caso, só Pastor. Tião ficou falando com Habib. “Setenta-e-sete”, repetia, a cada cinco minutos. No aeroporto, Grosjean comentou com o colega venezuelano: “Ele não sai do bar, hein?”.

MOTOLAND

M

SÃO PAULO (tem de tudo) – Tanta gente gostou daquela foto do Jumbo, o hipermercado, que não tem como não mostrar também esta que o Mário César Buzanfan mandou.

motojumbobuzian

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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