Arquivosábado, 3 de janeiro de 2009

GUERRA À VISTA

G

NATAL (surpreendente) – Eu estava quietinho aqui, de férias, quando apareceu um estranho pacote na recepção do hotel endereçado a mim. Abri, desconfiado, pois não havia remetente no envelope pardo fechado com fita crepe. Podia ser antrax. Era uma fita de VHS. Arrumei um videocassete e consegui assistir. Fiquei estarrecido com as cenas que se seguem, e que divido com vocês.

Os mais observadores haverão de perceber as semelhanças com as imagens que coloquei no ar aqui mesmo alguns dias atrás. Imagens que suscitaram ilimitada esculhambação deste que vos escreve e pilota por parte da blogaiada.

Mesmo diante de minha argumentação histórica, evocando o cerco a Leningrado e o eterno embate vodca x cerveja, fui condenado por vocês. Agora, todos terão de rever suas teses.

A fita VHS contém trechos que o outro vídeo não mostrava. É, digamos assim, uma edição sem cortes. Ampliada e revisada. Num DVD, diríamos que contém “extras”.

O mais importante, porém, não é notar que depois da espetacular ultrapassagem do Meianov sobre os dois minúsculos e ovalados agentes alemães com uma manobra ousada, arrojada, esteticamente impecável e absolutamente segura, mais um tedesco, este naturalizado brasileiro (o Puma #10 de Edson Furrier, motor alemão e casca tropical), foi devidamente engolido pelo combativo soviético. A ultrapassagem, portanto, foi tripla, e não dupla.

Mais importante do que isso foi o que descobri seguindo as instruções criptografadas que estavam dentro do envelope, que me foram traduzidas pelo tailandês que fazia os ovos mexidos no café da manhã. Elas diziam que se eu passasse a fita ao contrário numa determinada rotação, só encontrável no aparelho de videocassete do hotel, deparar-me-ia com gravíssimas revelações.

Fiz isso. Tentem fazer o mesmo. Há frases aparentemente proferidas de dentro da cabine do automóvel de Wolfsburg que poderão causar um sério incidente diplomático entre a URSS e a Alemanha, como “vou pegar aquele russo desgraçado”, “sai da frente, caixa de fósforos do Cáucaso”, “como pode ser tão feio?”, “vou transformar essa coisa numa salsicha”, “ah, se eu tivesse uma bazuca…”, “Lênin era um cretino, mesmo”, “ainda bem que teve glasnost e perestroika” e, por fim, o que pode ser uma atenuante, consegui entender algo como “como é que ele passou aí?”.

As frases estão em alemão com sotaque da Alsácia, talvez seja difícil para a maioria compreender. Mas se interessar a alguém, tenho a transcrição completa. Posso enviar pelo correio, junto com a transcrição do diálogo entre Barrichello, Jean Todt, a cadelinha Puffy e Enzo Ferrari na Áustria em 2002.

ONE QUESTION

O

NATAL (putz) – Aluguei um carro. Raríssimas vezes aluguei carros no Brasil, mas por estas bandas um veículo é bastante útil. Fui buscá-lo alegremente agora à noite na locadora, uma dessas grandes, e achei bem caro. Nem seguro tem. Os caras usam uma tal de “taxa de proteção”. Aconteça o que acontecer com o indigitado, pago dois paus. Melhor do que pagar o carro todo. Paguei a taxa.

A reserva era para a categoria C, que vem a ser “econômico com ar-condicionado”. OK. A moça, muito simpática, Karla com K, me mostrou o que havia no pátio para escolher. Nada muito animador: um Gol, um Palio e um Corsa sedã. Todos 1.0. Optei pelo menos rodado. Karla com K me entregou a chave do Fiat.

Entrei no veículo. Ainda com cheiro de novo. Afinal, tinha apenas 7.137 km rodados. É bem pouco. Acabou de sair da loja. Na lateral está escrito “Celebration”. Atrás, “Fire”. Não sei que modelo é. “Fire Celebration”? Ou “Celebration Fire”? Nos primeiros 500 metros, tudo que consegui dizer a mim mesmo foi: como é que alguém compra uma porcaria dessas?

O automóvel, com o ar ligado, arfa para passar dos 60 km/h. A relação de marchas é lamentável. A direção já está desalinhada. O tampão de plástico do porta-malas range irritantemente. Os instrumentos são de uma pobreza franciscana. Os materiais de acabamento me dão uma saudade imensa de Elena, que perto dessa coisa parece o palácio de Buckingham, luxuosa e espaçosa que é. O vidro do pára-brisa distorce a visão nos cantos interiores. E o ruído que os pneus transferem do asfalto para o interior do carro é insuportável.

Nunca tinha guiado um Palio antes. É a maior bomba que já dirigi na vida. E olha que já guiei coisa ruim por esse mundão afora…

Devo ter rodado uns 15 km hoje. E ao estacionar o dito cujo no hotel, me veio à mente uma única questão: como é que vocês têm coragem de falar mal de Lada?

A MORTE DO #43

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NATAL (mundo em extinção) – Ao ver essa foto, os mais jovens talvez façam uma associação imediata com o filme “Cars”, da Pixar, e nada além disso. Normal. O ídolo do protagonista Relâmpago McQueen era ele, o #43, chamado de “The King” na versão original. Mas esse Plymouth é muito mais do que um carrinho de desenho animado. É o carro — melhor seria dizer o número — mais famoso da história da Nascar, consagrado por Richard Petty, que inspirou o personagem e o batizou (seu apelido também é “The King”) nas telas dos cinemas.

Petty, com seu chapéu de caubói, suas botas espalhafatosas e esporas cintilantes, é um ícone das corridas americanas. Parou de competir há algum tempo, em 1992, aos 55 anos. Ganhou sete vezes o título da Nascar, é recordista da categoria com 200 vitórias, sete delas nas 500 Milhas de Daytona, fez 127 poles e disputou nada menos do que 1.185 provas desde 1958.

A Petty Enterprises, ao longo das últimas seis décadas, precisamente desde 1949, se transformou na mais querida e popular equipe da Nascar. Além dos sete títulos de Richard, faturou mais três com seu pai, Lee, que começou a saga da família nas pistas depois da Segunda Guerra. O time tem, no total, 268 vitórias.

Mas a última delas aconteceu uma década atrás, em abril de 1999, com John Andretti em Martinsville. E o derradeiro título, de 1979, vai completar 30 anos. É muito tempo longe das glórias. E, por isso, em junho do ano passado o controle da equipe foi vendido por Richard “The King” para uma certa Boston Ventures (o “certa” é por minha conta; talvez seja uma firma conhecidíssima), um fundo de investimento, fabricante de dinheiro fácil, que prometeu injetar um caminhão de grana para fazer ainda mais grana nas pistas, mas se arrebentou com a crise financeira já íntima de todos nós. E, assim, a Petty Enterprises foi para o vinagre. Acabou.

Estuda-se uma fusão de araque com outra equipe, a GEM (Gillett Evernham Motorsports), que deve incorporar ao seu patrimônio o direito de usar o #43. A Petty deve finalizar, até o fim do mês, a demissão dos cerca de 40 funcionários que ainda trabalham nas suas garagens de Mooresville, na Carolina do Norte, e fechar as portas definitivamente. Se sobrar algo, vai ser em Orlando, onde Petty mantém sua “Driving Experience” junto dos parques da Disney. Um brinquedo para gente grande, onde qualquer um pode dar umas voltas num Nascar velho num oval de mentirinha.

“Fim de uma era”, é o que anuncia em letras garrafais o site oficial da Nascar. É algo quase inacreditável. Seria como se, no futebol, o Corinthians, o Flamengo ou a Portuguesa anunciassem o encerramento de suas atividades. Ou se, na F-1, a Ferrari decidisse parar de correr e de fabricar automóveis. Uma tragédia esportiva. O fim dos tempos.

A tal da crise está por trás da hecatombe que aflige o esporte-motor, tendo sido justificativa para as deserções recentes da Honda, da Suzuki, da Subaru, da Audi e da Kawasaki (esta a confirmar), e é pano de fundo, de certa forma, para as exclusões dos GPs do Canadá e da França do calendário da F-1.

No caso específico do fim da Petty, não se pode acusar diretamente nenhuma montadora, dirigente incompetente ou CEO acovardado. O time simplesmente estava nas mãos de uma financeira que derreteu. Foi uma morte menos agônica.

Mas, nem por isso, menos dolorosa.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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