Arquivodomingo, 30 de março de 2014

SE PANGS (5)

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sepangs5SÃO PAULO (café, café, café!) – Foi ruim, a corrida. Porque pela primeira vez desde o dia em que o Infalível escolheu Kuala Lumpur como cenário para o vídeo de Noé no HolyTube, não choveu no horário previsto. E sem chuva, tivemos um dos GPs da Malásia mais chatos de todos os tempos, ou pelo menos dos que me lembro.

OK, não me lembro de muita coisa, já deve ter tido corrida pior em Sepang, mas essa foi ruizinha, mesmo. Andei lendo que Villeneuve fez alguns comentários sobre o atual estado de coisas da F-1 à imprensa italiana, e ele disse que hoje em dia tem corrida nas três primeiras voltas, todo mundo tenta ganhar algumas posições, e depois os pilotos passam o resto da prova economizando gasolina.

Bem, pode ser um pouco exagerado, não sou tão pessimista assim. Acho que erraram a mão no novo regulamento, acho que esses motores complicados são desnecessários, mas continuo achando que o campeonato pode ser bom. Ainda tem espaço de crescimento para equipes como Ferrari, McLaren, Red Bull e até a Williams. O domínio da Mercedes é claro e cristalino, mas nada garante que será assim o ano todo.

Sejamos otimistas.

Mas também não vamos enxergar beleza onde não há. A prova de hoje só foi bonita, mesmo, para os mercêdicos, que fizeram sua primeira dobradinha na F-1 desde 1955, quando Fangio e Taruffi terminaram o GP da Itália nas duas primeiras posições. Mais números, para não deixar passar nada: Hamilton pontuou pela 100ª vez na carreira, ganhou seu 23° GP e empatou com Piquet nas estatísticas e já é um dos 11 maiores vencedores da história. Dedicou o resultado às vítimas do misterioso 777 da Malaysian que desapareceu sem deixar rastros.

malp1ham

Foi uma vitória tranquila e absoluta. Três paradas, melhor volta, pole, e só não liderou de ponta a ponta porque salvo engano Hülkenberg fechou uma voltinha em primeiro, por ter adiado seu primeiro pit stop.

Rosberguinho, que poderia ameaçar o parceiro, não o fez porque Comandante Amilton estava num daqueles dias perfeitos. O alemão largou bem e assumiu a segunda posição já na primeira volta. Mas nunca chegou perto do inglês. O pódio foi fechado por Tião Alemão, distante, também, que teve momentos incríveis na largada: foi ultrapassado por Ricardão e começou a gritar “Multi 21! Multi 21!”, até recuperar o lugar na quarta volta.

Ricardão, coitado, vive dias de inferno astral. Perdeu o segundo lugar da Austrália, perdeu o terceiro lugar para Vettel no início, aprumou-se, estava firme e forte em quarto, mas quando fez seu terceiro pit stop seu mundo desabou. Liberaram o rapaz sem prender direito a roda dianteira esquerda, tiveram de puxar o carro de volta, ele caiu para 14°, quebrou a asa, furou um pneu, pagou um stop & go por ter sido liberado de maneira perigosa, abandonou a quatro voltas do fim e ainda tomou uma punição para o Bahrein, perda de dez posições no grid, por conta do pit stop desastroso da Red Bull.

Mesmo assim, era todo sorrisos nos boxes, porque é um cara do bem. “Sou positivo”, falou. “Adoro o que faço e é um privilégio estar aqui. E é muito legal disputar corridas lá na frente, é um negócio que vicia!” OK, Ricardão, é isso aí, a vida é bela, nada de ficar para baixo.

Outro bafejado pelo infortúnio foi Kevin Magnólia, que tocou em Raikkonen na largada, furou o pneu do finlandês, tomou um stop & go e dois pontos na carteira, precisou trocar o bico… Enfim, um desastre. Mesmo assim, terminou em nono. Mas se odiando. “Não tenho desculpas, lamento pela equipe, meu mau resultado é culpa exclusiva minha”, disse, pedindo desculpas pelo rádio ao time, à Dinamarca e à Escandinávia toda, autoflagelando-se implacavelmente enquanto seu pai Jan tomava uma cerveja e consolava o menino. “A vida é assim, meu filho. Um dia é da caça, outro do caçador, em casa de ferreiro, espeto de pau, água mole em pedra dura tanto bate até que fura, quem tudo quer…”, e parece que está filosofando até agora, para desespero dos convidados da McLaren que não desejam ser deselegantes e por isso ainda não o deixaram falando sozinho.

A corrida foi insuportavelmente chata até pouco depois de sua metade, com posições inalteradas na frente e muito espaço entre todos os pilotos. Até que veio um rádio de Raikkonen: “Está chovendo num lado da pista!”, disse com eloquência o ferrarista, brigando nas últimas posições com carros da Marussia, Caterham,  Ssangyong e Lada. Não tinha chuva nenhuma. Alguém cuspiu da arquibancada, ou atirou um copinho de água para o alto. Era tudo mentira. Só para animar o povo diante da TV.

Vettel chegou a se aproximar de Rosberg e esboçou uma briguinha pelo segundo lugar, mas desistiu antes de tentar. A dez voltas do fim, Massa encostou em Bonitton pela sexta posição, mas o mclariano resistiu. Alonso, em quinto, passou batido por Hulk na volta 53, já que o forceíndico estava com os pneus em frangalhos por ter optado por dois pit stops. Reassumiu o quarto (e discretíssimo) lugar e lá terminou. E tirando a babaquice da Williams com Massa e Bottas, nada mais aconteceu, a ponto de a TV malaia, na última volta, mostrar por longos segundos a emocionante disputa entre Grojã e Raikkonen pelo 11° lugar. Menção honrosa para a Caterham, com Koba-Mito em 13° e Sonyericsson em 14°. Se pans, a equipe marca um pontinho neste ano. Basta se manter na pista e esperar pelas quebras que serão numerosas, ainda, neste início de campeonato.

E fim de papo, com a zona de pontos na Malásia composta por Comandante Amilton, Rosberguinho, Tião Alemão, El Fodón de la Quarta Posición, Incrível Hulk, Bonitton, Massacrado, Sapattos, Magnólia e K-Viado, este pontuando pela segunda vez em seu ano de estreia. É bem espertinho, esse rapaz, e se eu continuar chamando-o de K-Viado posso me dar mal. Rosberg lidera o campeonato com 43 pontos, seguido por Hamilton (25), Alonso (24), Button (23) e Magnussen (20).

Domingo que vem tem Bahrein. A corrida neste ano começa às 18h locais, então vai ter crepúsculo, sol se pondo no deserto, iluminação artificial, o locutor vai dizer “um show de imagens pra você!”, se pans vão aparecer silhuetas de camelos e beduínos, essas coisas das arábias.

Tomara que tenha corrida boa, também. Essa da Malásia ficou devendo.

SE PANGS (4)

S

sepangs4SÃO PAULO (fez muito bem) – Eu estava meio sonolento, admito. Faltavam três voltas para o fim da corrida e nada mais aconteceria, depois que Alonso passou Hülkenberg e assumiu o quarto lugar.

De repente, o rádio: “OK, Felipe, Valtteri is faster than you. Do not hold him up”.

A frase começou a ecoar. Faster than you, you, you…

Então, e aqui reconheço que é possível que tenha sido minha imaginação, mas juro que ouvi, veio a resposta do piloto: “No cu, Jaú”. “What? No cool, Jaool? Who is Jaool? What do you mean with no cool, what is heating, the engine, the brakes?”. Havia um certo desespero do outro lado do rádio depois que o piloto disse “no cu, Jaú”, dada a incompreensão de tão clara expressão. “No cu, Jaú” means “nem fodendo”, se é que a essa altura o pessoal da Williams precisa de tradutores.

Na boa, poucas vezes vi tamanha falta de sensibilidade numa equipe em toda minha vida. Não se diz “Fulano is faster than you” para Felipe Massa. Não com essas palavras, para início de conversa. Não é preciso recorrer à memória para lembrar o quanto ele foi ridicularizado depois daquela corrida na Alemanha, mais ainda porque acabou deixando Alonso passar.

É só a segunda corrida do ano, Massa e Bottas estavam em sétimo e oitavo, e chegariam em sétimo e oitavo mesmo se o finlandês passasse, embora ele tenha dito, também pelo rádio, que tinha 100% de certeza de que passaria Button. Não tinha, e mesmo que tivesse, e daí? Iria mudar o preço da libra esterlina? Não. Mas dizer “is faster than you” para Massa muda. Poderia simplesmente acabar com a carreira do brasileiro, caso ele aceitasse a ordem esdrúxula, como são quase todas as ordens de equipe.

Bottas ficou bravinho e falou que todos teriam uma conversa na equipe. Felipe tentou minimizar a situação, disse que a disputa foi “normal” e que apenas fez o que julgou ser o melhor a fazer. “É justo fazer o meu melhor? Respeito meu trabalho”, declarou. “Não acho que ele teria como passar o Button”, avaliou. O rádio da Williams foi uma sucessão de absurdos. Primeiro, a ordem para Bottas: “Você está mais rápido, passe”. Depois que Felipe mandou um “no cu, Jaú”, quando informado que os pneus do companheiro eram melhores e que por isso ele não deveria impedir a ultrapassagem, veio a contra-ordem: “OK, Felipe, mantenham as posições, ele não vai atacar, apenas dê uma esfriada no carro”.

Tudo absolutamente desnecessário. O silêncio seria o melhor naquele fim de prova, era só deixar os dois correrem, talvez uma ou outra informação técnica (a temperatura de ambos os carros estava subindo perigosamente), mas se alguém queria dizer alguma coisa, que abrisse o rádio para os dois e falasse apenas: “Meninos, faltam três voltas, estamos com os dois nos pontos, já é mais do que fizemos no ano passado inteiro, fiquem atentos à temperatura, divirtam-se, mas não façam bobagens. Nos vemos no jantar”.

A troca de mensagens frenética, como se o mundo estivesse para acabar e dessa corrida dependesse o destino de cada um no dia do Juízo Final, apenas criou uma crise boba e inútil. Em vez de sorrisos pelo bom desempenho no fim de semana, nada demais, mas bom, com dois carros nos pontos, os boxes da Williams foram invadidos por semblantes amarrados e gente bicuda.

Mas uma coisa é certa. Felipe ganhou pontos com seus fãs, consigo mesmo, com seus colegas pilotos e com o lumpesinato da equipe, que é o que importa — mecânicos, funcionários do pé da fábrica, porteiros e cozinheiros. Se Bottas vai fechar a cara, se Claire Williams vai fazer muxoxo, se o engenheiro do rádio (que não sei quem é) vai se sentir desautorizado, paciência.

Nessas horas, a única coisa sensata a dizer é no cu, Jaú.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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