Arquivosábado, 25 de maio de 2019

SOBRE DOMINGO RETRASADO

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Großer Preis von Spanien 2019, Sonntag - Paul Ripke
Hamilton e Bottas com Zietsche: bigodão aposentado em grande estilo

RIO (como pude esquecer?) – Olha, vai só para cumprir tabela, porque não faz muito sentido falar do GP da Espanha de duas semanas atrás um dia antes da corrida seguinte.

Ando meio relapso.

Mas a prova foi tão ruim que não tinha mesmo muita coisa para falar. A imagem do domingo fica sendo essa aí em cima, dos pilotos da Mercedes se despedindo de Dieter Zetsche, que se aposentou como CEO da empresa. O bigodão do homem ficará para a história.

Vamos ao nosso cartunista oficial? Marcelo Masili resumiu com seu traço genial o que foi a corrida de Barcelona:

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Seguindo com esse negócio vergonhoso, uma seção atrasada em duas semanas, registramos como…

A FRASE DE BARCELONA

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O presente para Harry

“Ele foi minha inspiração hoje. Ele foi meu anjo da guarda nesta corrida.”

Lewis Hamilton sobre Harry Shaw, garoto que lhe mandou uma mensagem por rede social desejando sorte na na Espanha. Harry tem 5 anos e luta contra um câncer raro e agressivo. No dia seguinte, a Mercedes mandou um carro de F-1 e o troféu de Barcelona para a casa do menino em Surrey, Inglaterra. Foi uma das coisas mais bonitas do ano.

Eu poderia aqui usar como número representativo desta corrida a quinta dobradinha seguida da Mercedes — recorde para o qual já chamamos a atenção no textão pós-GP –, ou a pontuação dupla da Haas pela primeira vez no ano, ou o 24º pódio de Verstappinho que o elevou a terceiro no Mundial, ou ainda o modesto público de 160.428 pessoas nos três dias do evento, mas…

O NÚMERO DA ESPANHA

esp196 (2)…será dedicado ao simpático Carlos Sainz Jr., que de um jeito ou de outro pontuou em todos os GPs da Espanha que disputou — cinco no total. É um candidato a sucessor de Alonso, então vamos dar uma forcinha. Ele foi 9º em 2015, 6º em 2016 e 7º em 2017 com a Toro Rosso. No ano passado, mais um 7º, desta vez com a Renault. Neste ano, ficou em 8º com a McLaren. Um batalhador.

E para finalizar, o quê, afinal, foi bom nesse GP espanhol para merecer a rubrica GOSTAMOS desta premiada seção? Eu arriscaria dizer “nada”, mas sempre tem uma coisinha ou outra. Por exemplo, esta foto da Ferrari!

GOSTAMOS – A equipe, desta vez, mandou Leclerc passar. É para gostar dessas coisas? Não. Mas como o coitado só vem se estrepando neste ano, está valendo. E a foto está bonita!

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Leclerc passa Vettel: ordem inversa

NÃO GOSTAMOS – Da péssima largada de Bottas. Ele teve algum problema na embreagem — ao menos disse que teve –, e por conta disso a corrida acabou nos primeiros metros.

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Bottas larga mal: Hamilton some e a corrida acaba

STREET ART (6): MAIS UM RECORDE

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RIO (adendo) – Só para registrar. Com a de hoje, Hamilton tem 59 poles pelas Mercedes, das 85 que já soma na carreira. É o piloto que mais conseguiu poles por uma única equipe na história da Fórmula 1. Michael Schumacher detinha a marca, com 58 das suas 68 poles anotadas pela Ferrari.

Aproveitando o ensejo, vejam a declaração de Hamilton sobre Niki Lauda na entrevista coletiva. “Devo muito a ele”, resumiu. As pessoas não têm noção da importância que o austríaco teve na carreira do inglês. Talvez porque não fossem vistos juntos o tempo todo, aos beijos e abraços.

Lauda não era muito dado a fazer propaganda dele mesmo.

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STREET ART (5): POBRE CHARLES

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Consolando Leclerc: a lista de barbeiragens da equipe só aumenta

RIO (aff…) – O que a Ferrari faz de cagada, desculpem o termo, não está no gibi.

(Um pouquinho de cultura para os mais jovens, que provavelmente nunca leram um gibi, mas já devem ter escutado a expressão. “Gibi” era o nome de uma revista em quadrinhos lançada em 1939 por Roberto Marinho, aquele. Ficou tão popular que o nome — cuja origem vem de outro significado da palavra “gibi”, usada para se referir a meninos traquinas, espevitados, indomáveis, moleques e até negrinhos, com toda a carga racista da época, não nos esqueçamos de que este é um país absolutamente racista, por mais que o tema encha o saco do presidente da república — virou sinônimo desse tipo de publicação. Gibi, pois, é o mesmo que revista em quadrinhos. E a expressão “não está no gibi” é usada para descrever fatos tão inusitados que parecem mentira, tão mentira que nem nos quadrinhos a gente vê.)

Agora pela manhã em Mônaco conseguiu deixar Leclerc empacado no Q1 ao não liberar o monegasco para uma segunda tentativa de volta rápida na primeira parte da classificação mais importante do ano, considerando que o tempo que ele tinha era suficiente para passar tranquilo. Charlinho tinha uma volta registrada em 1min12s149. Não era grande coisa. O piloto queria voltar à pista, segundo ele mesmo, mas o time achou que estava bom. Pra quê, menino? Fica sossegado, vai na nossa que você passa de ano.

Por 0s052, o ferrarista perdeu a vaga para Nico Hülkenberg, da Renault. Mas nem era com ele que estava disputando nada. Charlinho tinha carro para ir ao Q2 sem sustos, e quem penava mesmo com a corda no pescoço era seu companheiro Vettel, que quando o cronômetro zerou ainda estava na pista com um tempo insuficiente para passar de fase — vinha de uma batida no último treino livre, no qual, vejam vocês, Leclerc havia sido o mais rápido.

Mas Sebastian acabou fazendo o melhor tempo do Q1, mostrando que carro não se configurava exatamente num problema — tudo era questão de acertar uma voltinha decente, algo que Charles já poderia ter feito se a equipe não o segurasse inexplicavelmente no box. Ironia do destino, foi essa volta de Tião Italiano que enxotou da sessão o moço local, nascido e crescido nas comunidades menos abastadas de Monte Carlo, Fontvieille, La Condamine, Roquebrune e da barra-pesada Cap-d’Ail, onde dizem que é uma lenda.

Lec-Lec ficou obviamente puto. Falou que a Ferrari lhe devia explicações, que até o momento em que redigimos este compêndio ainda não foram fornecidas a ninguém. “Eu tinha tempo de sobra para colocar um novo jogo de pneus”, disse o rapaz das bochechas rosadas depois de abortar uma segunda tentativa de volta rápida e se atrapalhar na pesagem — a equipe teve de empurrar o carro de volta para a balança. Ocorre que, pelo rádio, seu engenheiro falou que “achava” que não precisava. Ele até perguntou de novo, mas a resposta foi a mesma: “Tá tudo bem, relaxa!”.

A Leclerc, na roda dos degolados do Q1, juntaram-se Pérez, Stroll, Russell e Kubica. A Force India, ou “seja lá que nome tem isso aí”, como diz Raikkonen, assumiu o posto de decepção do fim de semana, que a Renault vinha tentando conquistar desde quinta.

No Q2, as coisas foram menos anormais. A lista de eliminados teve Hülkenberg, Norris, Grosjean, Raikkonen e Giovinazzi. Surpresa, aí, a queda dupla da Alfa Romeo, que tinha começado bem o fim de semana. Achei que pelo menos um deles passaria ao Q3, mas quem avançou, para espanto geral da nação, foi Ricardão com seu Sandero amarelo. No mais, Sainz Velocidad superou Mini Norris, Magnussen renasceu das cinzas e os dois touros vermelhos dos carros azuis confirmaram a condição de “equipe da hora”, levando Kvyat e Albon para a turma dos dez mais rápidos.

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Aí, valeu mais uma vez o talento de Hamilton, que vinha sendo superado por Bottas na maioria dos treinos. “Fiz uma volta linda”, falou. Os tempos aí em cima não me deixam mentir. O inglês até escalou o alambrado no melhor estilo Hélio Castroneves para festejar junto ao público e comemorou com um entusiasmo incomum a 85ª pole de sua carreira. Talvez porque tivesse percebido que estava difícil, mesmo, diante da boa forma do companheiro. Mas Sapattos cometeu “alguns erros”, como disse, na sua segunda tentativa e ficou 0s086 atrás.

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No alambrado: Hamilton como Helinho

Os carros da Mercedes, em Mônaco, estão de “boné vermelho” como Lauda, que vem recebendo muitas homenagens desde quinta-feira. O halo foi pintado na cor dos bonezinhos que Niki usou por décadas depois do acidente de 1976 na Alemanha.

Ele venceu duas vezes em Monte Carlo, em 1975 e 1976 — ambas pela Ferrari. Hamilton também, em 2008 com a McLaren e em 2016 com a Mercedes. Se ganhar amanhã, certamente vai dedicar a vitória ao austríaco que, de certa forma, funcionou como seu guru nos últimos anos. “Éramos parceiros no crime”, disse, sem explicar direito o que andava aprontando por aí com Lauda.

E a chance de ganhar mais uma é enorme. Com as contribuições inestimáveis da Ferrari, uma sexta dobradinha seguida da Mercedes nesta temporada é o desfecho mais provável deste domingo.

Sendo assim, torçamos por uma chuva marota para ter alguma graça. Não que os prateados na frente não tenham valor — há beleza no domínio que algumas equipes impõem na história, sempre disse isso. Mas uma dose de imprevisibilidade sempre ajuda em qualquer competição. Algo que está faltando na F-1 faz algum tempo.

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Halo vermelho: o “boné” em homenagem a Lauda

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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