TagGP de Cingapura 2008

MASSA ONTEM (1)

M

SÃO PAULO (argumento bom) – Uma das coisas legais que Felipe Massa contou ontem no “Paddock GP” foi que a Ferrari, em 2009, tentou junto à FIA anular o resultado do GP de Cingapura de 2008 — aquele em que Nelsinho bateu de propósito. A equipe alegou, junto à entidade, que o resultado final foi condicionado por uma irregularidade cometida por um réu confesso.

Não conseguiu. Mas é história que só foi revelada ontem. Vocês acham que a reivindicação era justa?

piquet08sing

ELE JÁ SABIA!

E

SÃO PAULO (durma-se, agora) – Duras, as acusações de Massa a Alonso na entrevista de capa da “Autosport” inglesa deste mês. Ele diz que Alonso sabia de tudo quando Nelsinho Piquet bateu seu carro de propósito em Cingapura/2008. “Nunca me contaria, mas sabia de tudo”, disse o brasileiro.

De fato, silêncio foi tudo que se ouviu de Alonso sobre o assunto nos últimos cinco anos. Quem sabe um dia ele escreva um livro e conte tudo.

NELSINHO VENCEU

N

SÃO PAULO (mas venceu mesmo?) – Pelo menos nos tribunais, Nelsinho Piquet venceu. E a Renault vai ter de pedir desculpas por difamar pai e filho. Digo “pelo menos”, porque Nelsinho ainda vai ter de conviver com a mancha de Cingapura por algum tempo. Tempo que, acredito, se encarregará de permitir que ele retome sua carreira com regularidade. Não na F-1, que ele nem quer mais, mas nos EUA, porto seguro que escolheu.

Bem, desse caso já falamos bastante. Como já escrevi em outros posts em outras eras, Nelsinho pagou e está pagando pelo que fez, e quem somos nós para estabelecer penas?

A pena para a Renault foi estabelecida pela Alta Corte de Londres, onde correu o processo dos Piquet contra a equipe, que veio a público, depois do escândalo, para acusar ambos de chantagem.

A Renault perdeu porque no dia 11 de setembro de 2009 publicou um press-release afirmando que Nelsinho e seu pai estavam mentindo quando revelaram que a batida no GP de Cingapura fora proposital, sugerida (ou ordenada, mas tanto faz) pelos seus chefes Pat Symonds e Flavio Briatore. A equipe disse que estava sendo chantageada para que Nelsinho seguisse como piloto até o fim daquela temporada.

Como a FIA descobriu tudo em suas investigações poucos dias depois, a Renault teve de admitir que as acusações dos Piquet não eram falsas. E terá de pagar uma “substancial” indenização aos dois. Não há menção a valores. O processo está encerrado. Piquet pai e filho aceitaram as desculpas e, claro, a indenização.

INDULTO DE ANO NOVO

I

SÃO PAULO (xi, choveu) – E não é que um tribunal parisiense livrou Flavio Briatore do banimento imposto pela FIA? É direito dele procurar a Justiça, claro, e lutar por aquilo que acha que merece. Mas não gosto muito de ver a Justiça Comum se metendo em assuntos esportivos. De qualquer forma, é assim que funciona. E Briatore pode voltar aos autódromos, desde que alguém lhe arrume uma credencial. Porque se é verdade que ele conseguiu reverter a proibição, também o é que a FIA tem todo o direito de não emitir credenciais em seu nome se ele não tiver função alguma em lugar nenhum. Convites de empresas, porém, podem ser feitos. VIP, sacumé?

Não sei muito bem o que Briatore teria a fazer num autódromo hoje. Mas, livre do banimento, pode continuar no negócio, se quiser. Comprando um time, por exemplo, ou se tornando sócio. Aí, a FIA seria obrigada a credenciá-lo. Vamos ver qual será a reação do presidente Jean Todt.

Os três condenados pelo escândalo de Cingapura, de qualquer forma, continuam pagando pelo que fizeram. Pat Symonds desapareceu, Nelsinho não arruma lugar para correr e Briatore, mesmo livre da punição da FIA, não é exatamente um convidado bem-vindo em qualquer paddock. Além disso, seus nomes estão eternamente manchados pelo que fizeram.

OBSERVANDO

O

BERLIM (tirando o atraso) – Vou copiar na cara dura o post do Fábio Seixas, até o título, sobre o programa “Observatório da Imprensa” desta semana, que discute a cobertura do caso Nelsinho-Cingapura pela mídia brasileira.

“Nas bancadas, Alberto Dines, Celso Itiberê, João Carlos Albuquerque e este que vos bloga”, diz o indigitado Seixas. “Participaram ainda Flavio Gomes, Ernesto Rodrigues, Reginaldo Leme, Mair Pena Neto e Lito Cavalcanti.”

Flavio Gomes sou eu. O programa está no VocêTubo em seis partes.

FELIPE & NELSINHO

F

BERLIM (por fim) – Massa e Piquet-pimpolho se encontraram na Granja Viana, treinando de kart. Vi as fotos. Estão no Grande Prêmio. Se cumprimentaram, abraçaram-se e, pelo jeito, não falaram em particular sobre o que aconteceu em Cingapura no ano passado. Felipe, no entanto, disse em entrevistas que o que houve foi um “roubo”. Mas não acha que se deve mudar o resultado do campeonato. E acrescentou que mesmo pedindo perdão, Nelsinho tem de entender que errou e que seu erro será lembrado para sempre. Muito sensato. Aliás, Massa é muito sensato em tudo que fala. Não olha para trás, não lamenta o que passou (foi assim na decisão do título de 2008 em Interlagos), é um cara positivo.

Tomara que volte, e bem.

Quanto a Nelsinho, já gravou a entrevista da semana para o Reginaldo Leme, e será levada ao ar no “Fantástico” de domingo. O site da Globo diz que ele pede “desculpas ao povo brasileiro”. Menos. Digamos que o “povo brasileiro” se preocupa com coisas mais importantes que a F-1. E que pilotos não representam “o povo brasileiro”. Ninguém passou a ter vergonha de ser brasileiro porque Nelsinho se arrebentou no muro de propósito. Temos muitos motivos para nos envergonhar, certamente. Mas esse não é um deles. Quem deve se envergonhar do que fez é Nelsinho, não o povo.

FRACA (2)

F

PARIS (longe, o 2D) – Bonjour, macacada. O blog ficou meio abandonado ontem por conta de um breve voo, mas a primeira parte está cumprida e aproveitei a pausa para ler todos os comentários sobre a entrevista de Piquet-pai a Reginaldo Leme.

Ontem, antes de sair, assisti à íntegra no GloboEsporte.com. Sim, ficou claro que o problema maior do que foi ao ar no “Fantástico” foi a edição desastrosa. Por isso pareceu tão ruim a entrevista. Só escolheram trechos desimportantes e confusos. O problema é que Piquet não chorou, tirando as referências dos editores do programa. Se tivesse chorado, seria fácil: fecha no rosto, nos olhos vermelhos, nas rugas, gran finale, volta para o apresentador com ar contrito, padrão Globo.

Bem, algumas das perguntas a que me referi abaixo foram feitas e, mesmo sem ter sido muito incisivo, o Regi conseguiu tirar de Piquet — ao menos entendi assim — que se Nelsinho não fosse demitido, o caso que ele chama de “crime” teria caído no esquecimento familiar e seria varrido para baixo do tapete da sala.

O ponto que dei a Nelson-pai por ter procurado a FIA no fim do ano passado, pois, retiro agora.

Seu discurso é muito contraditório. Odes à FIA, à preocupação com a lisura e a honestidade, alívio por ajudar a melhorar o automobilismo, elogios à pureza da F-1, tudo certo, tudo legal. Mas só porque o filho perdeu o lugar. Se o contrato com a Renault tivesse sido mantido, ninguém saberia de nada. E aí não haveria lisura, preocupação em melhorar o automobilismo, pureza, picas.

Muito raso, o raciocínio.

FRACA

F

SÃO PAULO (e a mala?) – Reginaldo Leme deu o furo mundial, escolhido que foi — por sua história, competência, seriedade — por Nelson Piquet para revelar que a FIA estava investigando o escândalo que ele, Piquet-pai, decidiu encaminhar às autoridades competentes. Ontem à noite, a Globo levou ao ar no “Fantástico” a entrevista que Regi fez com o tricampeão do mundo.

Fraca, muito fraca.

Não sei se Piquet impôs (tem acento, isso?) condições, coisas como “não pergunta isso que eu não respondo”. Mas faltou apertar o homem. Não como num interrogatório, porque nós jornalistas não somos paladinos da justiça ou coisa que o valha. Mas somos curiosos. A grande pergunta não foi feita: se Nelsinho não tivesse sido demitido, o escândalo seria varrido para baixo do tapete?

Piquet diz (já se sabia) que procurou a FIA durante o GP do Brasil, tão logo soube da batida proposital. Mas ficou tudo meio no ar. A FIA não acreditou? Pediu que Nelsinho desse um depoimento? Abriu investigação? Pelo jeito, nada disso. E Nelsão se calou para, como disse, “proteger o filho”. Depois, com o contrato rompido, atirou tudo ao ventilador.

Faltou, também, uma menção ao tal relacionamento que Briatore insinuou haver entre Piquet-pimpolho e “um homem mais velho”. Quem é o cara, afinal? É verdade que Nelson-pai quis afastá-lo do filho? Por quê? Era alguém prejudicial a sua carreira? Nelsinho foi mesmo morar no mesmo prédio de seu empresário?

No fim, o que se viu foi um Piquet soltando, aqui e ali, frases indignadas sobre o que aconteceu: “crime”, “eu não faria”, “se ele tivesse falado comigo antes, não faria de jeito nenhum”, “Senna e Prost fizeram o mesmo” e por aí vai.

Nada contra um pai defender o filho, perdoá-lo, sofrer por ele. Mas acobertar não é bem o que se deve fazer nessas situações, e no fim das contas foi o que Piquet-pai fez, depois que o contrato com a Renault foi renovado no fim do ano passado.

Faltou também falar sobre o futuro. E agora? Nelsinho tem lugar na F-1? Você, como chefe de equipe, contrataria um piloto que fez isso? Qual o caminho a seguir a partir de agora?

paiefilho

Notei um Piquet envelhecido, com o rosto marcado pela mágoa que, certamente, está sentindo. Afinal, investiu tempo, dinheiro, esforço, dedicação e carinho na carreira do filho, que pode ter ido por água abaixo por conta de decisões erradas — uma delas de sua responsabilidade, a de vincular o garoto a uma cascavel como Briatore, sabendo direitinho de quem se tratava.

Gosto muito de Nelson-pai. Convivi razoavelmente com ele nos seus últimos quatro anos de F-1, de 1988 a 1991, sempre admirei sua história e seus feitos na pista, sempre o achei uma figura muito interessante fora dela. Não sei se esse caso todo vai mudar demais a imagem que as pessoas em geral têm dele — seus fãs mais encarniçados, seus críticos ferozes, os “sennistas” (sim, isso existe) e por aí vai. Sei, apenas, que tem muita coisa errada nisso tudo, todos agiram de forma condenável, e usar vingança como motivação para denunciar algo tão sério não é algo que eu faria.

Poderia, até, acobertar a cagada de meu filho assim que dela soubesse. É compreensível, por parte de um pai. Trata-se de defender a cria. E, felizmente, ninguém morreu, ninguém se feriu. Tudo se transformou “só” num crime moral e ético. Mas jamais permitiria que ele ficasse sob o mesmo teto, sob as ordens de pessoas que considerasse desprezíveis. O que Piquet fez, com seu silêncio, foi, ao descobrir que seu filhote estava numa jaula ocupada por hienas famintas, atirar a elas uns nacos de carne e esperar, ingenuamente, que nunca mais ficassem com fome. Deixou o menino num ambiente contamidado. E isso um bom pai não deveria fazer. Piquet agiu como pai protetor ao não escancarar a denúncia, mas como um frio homem de negócios ao guardá-la numa gaveta para usar quando fosse preciso.

Que reflita sobre o que fez. Não há santos nessa história, isso já se disse, e Piquet-pai se encaixa na turma que, se houvesse um Céu, teria de parar no meio do caminho por uns tempos antes de receber a credencial permanente.

NELSÃO FALOU

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SÃO PAULO (el furón) – E falou a Reginaldo Leme, que está lavando a égua este ano. Com todos os méritos, claro. A entrevista, já gravada há alguns dias, será levada ao ar no “Fantástico” deste domingo. Entre outras coisas, Piquet-pai disse que prefere perder a trapacear, e que não resolveu contar tudo só depois da demissão de Nelsinho. Revelou a falcatrua à FIA já no fim de semana do GP do Brasil do ano passado.

Ponto, enorme ponto para Nelson Piquet. Não se calou, pelo menos no primeiro momento.

Ah, e por que a coisa só veio à tona depois da demissão do filho? Porque a FIA precisava pelo menos de alguém envolvido dizendo o que tinha acontecido. E Nelsinho, pelo que estou entendendo, só resolveu falar depois de perder o emprego. Forçado pelo pai.

A tendência natural seria, agora, retirar todas as críticas que fiz, e muita gente faz, a Piquet-pai. Mas não vou retirar, não. Ter entregue o caso à FIA e ficar quieto depois não é a atitude mais louvável. Continuo achando que se Nelsinho não perdesse o emprego, essa história toda seria varrida para debaixo do tapete da família. Piquet pode até ter restrições ao que o pimpolho fez. Dizem até que ficou dois meses sem falar com ele. Mas, como pai, não podia permitir que o filho ficasse na mesma equipe, muito menos negociar o silêncio em troca do emprego.

Resumindo, a indignação de Piquet é digna de elogios. Mas ter empurrado o caso com a barriga, não. Era o caso de, depois da negativa da FIA de investigar a denúncia, chamar o menino, conversar com ele e tornar tudo público. Ao contrário, tudo indica que ele usou o fato para que Nelsinho ficasse na Renault. A isso se chama de conivência.

No fim das contas, a motivação para fazer o filhote abrir o bico foi vingança pura e simples. E a FIA também pecou feio. Ao receber uma denúncia desse porte, teria de abrir as investigações imediatamente. E preferiu esperar que o caso morresse, ou usá-lo como munição quando fosse conveniente.

O comportamento de todos foi bem feinho nesse episódio.

O QUARTO ELEMENTO

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SÃO PAULO (vem mais) – Engana-se, pelo jeito, quem acha que o escândalo Cingapura acabou. Quem se deu o trabalho de ler o relatório final da FIA, como Marcus Lellis, do Grande Prêmio, notou que há um quarto elemento nessa história, além dos três patetas Nelsinho, Briatore & Symonds. Depois de fazer suas investigações internas, a Renault informou à FIA que se convenceu de que houve a manipulação do resultado graças ao depoimento de alguém que é chamado de “Testemunha X”, e que estava na reunião de sábado em que foi cogitada a ideia do acidente proposital.

O nome do sujeito está sendo mantido em sigilo.

CASO ENCERRADO

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SÃO PAULO (segue o bonde) – A FIA deu agora há pouco seu veredito. Flavio Briatore está banido da F-1 e de qualquer competição chancelada pela entidade. Não poderá sequer entrar em autódromos. Pilotos que têm suas carreiras gerenciadas pelo italiano (Kovalainen, Alonso, Di Grassi, Webber…) terão de escolher outro manager. Aqueles que tiverem contratos com Briatore não terão suas superlicenças emitidas ou renovadas.

O mesmo vale para Pat Symonds, mas por cinco anos. A FIA considera que o fato de ele ter confessado atenua um pouco as coisas. Flavio, não. A entidade não se conforma que ele mente até agora e nega tudo. Max Mosley conseguiu o que queria: a cabeça do italiano numa bandeja. Tchau e bênção. É uma punição dura. Afinal, o cara está na F-1 há quase 20 anos, foi dono de equipe, empresário de pilotos, uma figura influente.

A Renault foi suspensa por dois anos, mas com efeito suspensivo. Ou seja: até o fim de 2011, não pode mijar fora do vaso. Se fizer qualquer outra dessas, é riscada da F-1. Foi pouco. Pegaram leve. Se pegassem mais pesado, talvez a montadora deixasse a categoria.

Nelsinho não recebeu sanções. Ele entrou num esquema de delação premiada. Em comunicado, diz que se sente arrependido, que terá de começar a carreira do zero, que espera nova chance, que a verdade é sempre o melhor caminho, que sua vida na Renault foi um pesadelo, que mantém a paixão pelas corridas, que será o piloto mais esforçado do mundo se alguém lhe der um emprego.

Alonso disse que não sabia de nada e acreditaram nele. Saiu inocentado.

Daqui a pouco voltamos.

OLHAR 43

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Sem maiores comentários, reparem no olhar de Nelsinho para Briatore no pitwall (Victor Martins publicou a imagem congelada em seu blog) assim que Alonso recebeu a bandeirada em Cingapura.

FIM DE PAPO

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crashcingSÃO PAULO (pela porta dos fundos) – As seis linhas do comunicado da Renault divulgado hoje pela manhã dizem mais do que todas as palavras já escritas sobre o caso Cingapura-Nelsinho (ainda não arrumei um nome legal para esse escândalo).

A equipe começa dizendo que não vai contestar as alegações da FIA. Ou seja: foi tudo armado, mesmo. As investigações internas chegaram a essa conclusão.

Depois, informa que Flavio Briatore e Pat Symonds não fazem mais parte da equipe. Nelsinho já não fazia. E são as cabeças dos três que vão, com justiça, para a guilhotina.

A Renault vai tentar tirar o seu pescoço francês da reta. É possível alegar, e é até provável que seja verdade, que a corporação francesa não tem nada a ver com isso. Não foi ordem de cima. Foi decisão de três indivíduos que resolveram fazer aquela merda toda à revelia, por conta própria. Para salvar seus empregos, pode-se dizer. Nelsinho, porque queria ter o contrato renovado; os outros dois, porque a equipe precisava de um resultado marcante, já que a empresa ameaçava puxar o carro da F-1, ou reduzir seus investimentos.

Symonds e Nelsinho entregaram tudo por delação premiada. Não serão punidos pela FIA. Serão pela F-1. Estão acabados. Briatore negou até agora, e tudo que lhe restou, além da justificada fama de mau elemento, foi o acréscimo de “mentiroso” à sua biografia. Está acabado, também.

Não há mais dúvidas de que tudo foi combinado. Há a confissão do piloto, o depoimento de Symonds (que não responde às perguntas mais importantes, o que é uma admissão de culpa) e a demissão de todos pela chefia em Paris.

briasymBriatore é um escroque. Symonds, outro. Nelsinho, um fraco. O que fizeram é desprezível, vergonhoso. A Renault, agora, teria de processar os três, pelo que fizeram com sua marca e reputação. Arrancar as calças de todos. E de outros que, dentro da equipe, possam estar envolvidos.

A FIA deve punir a equipe duramente. Mesmo que tenha sido uma decisão de indivíduos, todos estavam a serviço da empresa. Ninguém mandou contratar escroques. Pode não haver culpa da Renault, mas há responsabilidade. O time deve pagar. Com multa, exclusão, o que for.

Está claro que Max Mosley sai ganhando nessa história toda. Odeia Briatore e as montadoras. Deram-lhe munição para bater no peito e falar: eu não disse? E ninguém poderá tirar sua razão.

Mas há algumas pontas soltas nesse caso todo. A primeira, a posição de Alonso. Ele não pode calar. Por enquanto, está limpo. Pode argumentar que não sabia de nada. Que a estratégia era esquisita, mas já houve outras na história, que não deram certo. O melhor a fazer seria devolver o troféu. E a FIA, mesmo que isso não mude muito a história, deveria mudar o resultado da corrida e dar a vitória a Nico Rosberg.

Alonso sabia? Não sei, e não vou chutar. Acho apenas difícil que, pelo menos, não tenha sabido depois. Ou desconfiado. Mas se foi algo restrito aos três patetas, mesmo, vá lá. Que desfrute do benefício da dúvida.

Massa seria campeão se não fosse a presepada do trio? Difícil dizer. Ele não perdeu a corrida porque parou nos boxes, apenas. Perdeu porque a Ferrari fez bobagem no pit stop. Poderia fazer também mesmo se não houvesse acidente algum. É algo que nunca se saberá.

A outra ponta se chama Nelson Piquet, o pai. Foi ele que procurou Mosley depois da demissão de Nelsinho para acender o pavio da bomba. Provavelmente sabia de tudo antes, mas só resolveu falar quando o filho perdeu o emprego. Por que fez isso? Apenas para cortar a cabeça de Briatore? Será que não imaginava que Nelsinho sairia igualmente queimado? O que será que disse ao pimpolho quando soube de tudo, muito provavelmente bem antes de sua demissão? “Vamos esperar para usar no momento certo”? “Você é um idiota, como faz um negócio desses”?

Nelsão é o maior mistério dessa história toda.

COLUNA 2

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SÃO PAULO (no news) – Já a minha coluna é um resumão do que já falei aqui no blog, um enxerto aqui, outro ali, um palavrão trocado, essas coisas. Afinal, os leitores dos meus jornais e do Grande Prêmio são de familia… De qualquer maneira, para manter a mesma tradição, segue o link.

MILANESAS (4)

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mila4SÃO PAULO – O Grande Prêmio teve acesso a um relatório da FIA com o primeiro interrogatório de Pat Symonds. Suas declarações são incriminadoras. Em nenhum momento ele nega a armação de Cingapura. Recusa-se a responder a quase todas as perguntas. Parece claramente acuado diante de evidências de que Nelsinho bateu mesmo de propósito e de que a FIA sabe que ele estava por trás da combinação.

Temos uma situação clara: Briatore no ataque, partindo para o lado pessoal, afirmando que é tudo mentira, e Symonds enrolado. Pode ser que sobre para ele, no time.

O relatório é longo e contém imagens da telemetria, que apontam um comportamento “incomum”, nas palavras de Symonds, de Nelsinho na hora do acidente. Há também detalhes das conversas de rádio que indicam que talvez ninguém mais na Renault, exceto Symonds e (talvez de novo) Briatore, soubesse do que estava acontecendo.

As desconfianças que eu tinha, e manifestei no último post, de que uma hipótese a ser considerada era a de que Nelsinho poderia estar inventando tudo já não existem mais. Pelo tom das respostas de Symonds, não tenho mais dúvidas de que foi tudo combinado.

MILANESAS (3)

M

mila03SÃO PAULO (ui) – Pois o caso Briatore-Nelsinho-Renault-Cingapura assumiu proporções nunca antes vistas na F-1. Virou um tiroteio de acusações pessoais que hoje chegaram ao auge, suponho, com as insinuações de Briatore de que Nelsinho tinha um caso homossexual com um homem mais velho.

(Claro que se a família Piquet resolver responder no mesmo tom, terá farta munição sobre a não muito ortodoxa vida sexual-porno-erótica de Briatore, que vive posando de tanguinha nas praias da Sardenha. Portanto, o auge ainda pode ser mais alto. Ou baixo, dependendo do ponto de vista.)

O diretor da Renault soltou o verbo em Monza. Disse que a Renault já entrou com processos criminais contra Nelson Filho e Nelson Pai — e se for preciso, vai Nelson Espírito Santo para a roda. Acusações: chantagem e extorsão.

“Nós não fizemos nada. O fato de estarmos processando os dois prova que estamos confiantes. Nelsinho nunca teve performance. É um garoto mimado que sempre correu com sua própria equipe, o melhor carro, sempre teve seu pai do lado. Quando chegou numa competição de verdade, perdeu a cabeça. É muito frágil.”

Aí vem a parte mais escabrosa e cabeluda. Que não carece de apuração. Não tem nada a ver com as coisas da pista. Expõe ressentimentos. Porque mesmo se forem verdadeiras as afirmações de Briatore, dizem respeito à vida pessoal de Nelsinho, e não à sua atividade profissional. Briatore é um escroto. Mas se Nelsinho está mentindo só para implodir sua cabeça, como ele afirma, é compreensível e nada surpreendente que um escroto como ele diga o que disse:

“Ele [Piquet Jr] me acusou pesadamente de lhe fazer romper um relacionamento com um amigo, e isso eu devo dizer, porque foi seu pai quem me pediu isso. Ele vivia com esse senhor. Não se sabe que tipo de relação eles tinham. O pai estava muito preocupado. Viviam juntos, e o pai me pediu para interferir. Fiz Nelsinho se mudar de Oxford para meu prédio em Londres, onde eu podia mantê-lo sob controle.”

Não sei quem é a tal pessoa. Também não me interessa minimamente. Mas sei que Nelsinho é o que a molecada chama de “pegador”. Já ouvi histórias. E foda-se, a vida sexual de ninguém me interessa muito. Neste caso, o que interessa é perceber a que nível as coisas chegaram. Briatore está espumando de ódio. Diz que as denúncias à Renault foram feitas pelos dois Nelsons, e que o pai “todos conhecem”:

“Ele degradou a imagem de todo mundo. Fez isso com Senna, com a mulher de Mansell, todos sabem como ele é.”

Virou briga de rua. Mas que não será tratada como tal pelo Conselho Mundial da FIA — embora o interesse pessoal de Max Mosley pelo caso possa ter aumentado depois do surgimento desse, hum, componente picante na história.

crashpiquetNelsinho terá de provar que lhe deram a ordem de se espatifar no muro. Provar que fez de propósito não bastará. No máximo, vão lhe dizer que é uma besta, ou um barbeiro. O crime precisa de um mandante. Se não tiver, o criminoso será só ele. Que terá feito o que fez apenas para garantir o emprego e, pior, estaria mentindo para arrastar com ele os pescoços de desafetos.

Existe a chance, ainda, de nada ter acontecido. Sim, de Nelsinho ter apenas errado, batido, feito cagada (não teria sido a primeira), e um ano depois, por conta de uma relação tumultuada e horrorosa com a equipe e seus chefes, elaborar essa história toda para incriminar os inimigos, mesmo sob o risco de dar um tiro na própria cabeça e acabar com sua carreira.

É difícil acreditar em imaginação tão fértil, porém. O depoimento de Nelsinho é muito detalhado, embora Briatore contra-argumente (tem hífen, essa merda?) que seria impossível desenhar uma corrida na 14ª volta, prever tudo que aconteceria depois.

“Massa teve problemas, Kubica teve problemas, seis ou sete tiveram problemas. Como prever isso depois de 14 voltas?”

Já não sei direito o que pensar disso tudo — se é verdade que a Renault pediu e ele obedeceu e se arrependeu, se o time insinuou e ele captou a mensagem, se Nelsinho está mentindo, não pediram nada e ele fez mesmo assim, se não foi nada disso e ele apenas bateu o carro, como disse à época, e Alonso deu um rabo inacreditável.

Dizer que fico triste pelo esporte seria hipocrisia. Caguei, isso não afeta o esporte, e mesmo se afetasse, não tenho nada com isso. No fundo, é apenas um barraco digno dos piores programas de TV. Do ponto de vista jornalístico, o caso é ótimo, rende manchetes e audiência. O povo gosta de uma putaria, quem há de negar?

Sinto, sim, pelo nome Piquet e tudo que representou no passado, para a história do automobilismo brasileiro e internacional. É uma tristeza biográfica, digamos assim. Porque, no fim das contas, ele, ídolo de tanta gente, está metido nessa baixaria toda.

Os ídolos são mesmo de barro. Todos eles.

SOBRE ALONSO

S

SÃO PAULO (passando a régua) – Num episódio que tem um réu confesso e dois vilões se escondendo, Briatore e Symonds, não para deixar de lado quem se beneficiou da armação toda, Fernando Alonso. Hoje, em Monza, ele se disse amigo de Briatore. E alegou que não sabia de nada, falou que está concentrado na corrida de Monza, desconversou.

Não pode. Do alto de dois títulos mundiais, Alonso é alguém que, se realmente não sabe de nada, precisa procurar saber. Ligar para Nelsinho, e perguntar: é verdade? Chamar Briatore e Symonds de canto, olhar nos olhos dos dois e perguntar: é verdade?

Conclusões tiradas, é alguém de quem se espera alguma postura. Para casos especiais, atitudes idem. Devolver o troféu. Deixar a equipe. Exigir a saída de ambos.

Qualquer coisa. Menos calar.

SORRY, GUYS

S

SÃO PAULO (outro olhar) – Juro que não tenho 100% de certeza, mas acho que foi naquele GP de Cingapura que, depois da batida, a FOM colocou no ar a comunicação de rádio de Nelsinho com a equipe. Ele bateu e disse “sorry, guys”.

Lendo o depoimento de Nelsinho à FIA, fica claro, ao menos nas suas palavras, que apenas Briatore e Symonds, além dele, claro, sabiam o que iria acontecer. Ele diz que seu engenheiro questionou o incidente. E acrescenta que qualquer engenheiro inteligente notaria, pela telemetria, que continuou acelerando onde deveria frear.

Acho que aquele “sorry, guys” é a única coisa bonita que Nelsinho fez. Pedir desculpas (sem saber que aquilo seria ouvido fora da equipe) aos seus mecânicos, funcionários da Renault, amigos dentro da equipe, gente que passou horas preparando seu carro, resolvendo problemas, ajudando a melhorar as coisas, pela cagada que estava fazendo. Um momento quase íntimo — porque acabou se tornando público — de dizer a si mesmo “o que é que eu estou fazendo?”.

Não tira sua culpa, não atenua nada. É só um detalhe que humaniza um pouco a questão.

FOI ELE

F

SÃO PAULO (fim de linha) – Nelsinho Piquet confessou, por escrito, que causou deliberadamente o acidente que deu a vitória a Alonso em Cingapura. A íntegra de sua confissão à FIA está aqui.

Nelsinho isenta Alonso, afirmando que apenas Symonds, Briatore e ele sabiam dos planos. Justifica-se por um “estado emocional frágil”, por conta das incertezas sobre seu futuro na Renault.

Piquet-pimpolho revela-se dono de personalidade frágil, isso sim. Não há justificativa para o que fez. Que pedisse demissão, nem corresse, metesse a boca no mundo. “Ah, é fácil falar”, dirá alguém. É fácil, mesmo. Se ele fizesse isso, não estaria em jogo sua vida, sua carreira, nada. Ao contrário, jogaria luz nas trevas da Renault e da F-1, poderia dormir em paz.

Uma coisa é aceitar fazer o inaceitável diante de ameaças irreversíveis. Perder a casa, a vida, um filho, um braço. Essas coisas de filmes, torturas, mutilações. Outra, bem diferente, é se agarrar a um emprego medíocre cometendo um ato indefensável. O que poderia lhe acontecer de pior se não aceitasse? Perder a vaga? Deixar de correr na F-1? Bela merda.

A carreira do menino acabou. E tenho pena dele. O que fez é desprezível, mas sinto mais pena do que desprezo. De gente como Briatore, Symonds e todos da F-1, que conheço bem, pouca coisa me surpreende. Esses que se fodam, serão punidos, acho que nunca mais aparecerão num paddock. Quem mais vai se sujar nisso tudo, justamente por ter se sujeitado à ganâncias dos patrões que são reconhecidamente maus elementos, é Piquet Jr. Porque de um piloto se espera um comportamento diferente, o que resta de pureza num esporte mau.

Há alguns anos, quando Nelsinho ainda estava na GP2, escrevi um texto sobre ele depois de um entrevero com um piloto turco em Mônaco. Fiquei muito mal-impressionado com o rapaz, a quem não conhecia direito, pois ele estava chegando, vinha da F-3 inglesa, não tínhamos muito contato. Achei-o um merdinha, para dizer o português bem claro.

Mas depois parei de viajar com a F-1, não o encontrei mais, e nos últimos meses ele até ganhou uma certa simpatia da mídia — e do público, por que não? — por sua atuação no Twitter, sempre dando a impressão de ser muito franco e sincero, disponível, interativo nas suas mensagens, revelando algumas inseguranças e esperanças, um jovem em busca de um lugar no mundo. Causava uma certa consternação ouvi-lo, sempre em voz baixa, preocupado com o futuro, sofrendo numa F-1 dura e competitiva, alvo de críticas e incertezas.

O “franco e sincero”, pelo jeito, ficaram na impressão.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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