TagGP de Portugal 2020

SOBRE ONTEM DE MANHÃ

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RIO (estilo é tudo) – O abraço carinhoso de Hamilton em seu pai, depois do GP de Portugal, está eternizado. Mas tem também uma outra foto carregada de ternura que gostaria de destacar neste “day after” da corrida em que o inglês bateu o recorde de vitórias na F-1, status que ficou nas mãos de Michael Schumacher de 2001 até ontem. O número mágico de 91 vitórias foi alcançado pelo alemão na China em 2006. Mas ele se manteve como recordista desde a 52ª, na Bélgica, em 2001 — quando superou o então recordista Alain Prost.

A foto acima foi tirada de tardezinha, depois do tradicional registro com todos os integrantes que as equipes fazem após vitórias em GPs. Para aparecer junto de sua turma em Portimão, Lewis fez questão de buscar Roscoe, seu cãozinho, com quem tem dividido dias e noites no motorhome que vem usando nos autódromos. Quem não gosta de cachorro nem gente é!

O GP de Portugal de 2020 já está na história por ter sido o do recorde. Mas fica a pergunta: até onde irão os números de Hamilton? Eu acho que ele bate nas 100 poles nesta temporada, ainda. As 100 vitórias, no ano que vem. Tenho dó dos que tentarem superar essas marcas, no futuro. Não será nada fácil, não.

Dupla imbatível: Hamilton e Mercedes, fábrica de recordes

Bem, este rescaldão é dedicado aos temas que acabaram passando batidos no fim de semana, então vamos atualizar logo de cara algumas coisas.

  • Vocês viram que o pai de Vitaly Petrov foi assassinado? História mais doida, sô! Petrov voltou ao noticiário por ter sido escalado como comissário esportivo do GP de Portugal. A escolha foi muito criticada por Hamilton, porque o piloto russo andou falando umas merdas aí sobre racismo e preconceito.
  • O crime aconteceu no sábado. Petrov, obviamente, não ficou no Algarve para a corrida.
  • Esqueci de falar ontem que Hamilton reclamou de cãibras durante a prova. Disse que teve de tirar o pé no fim da reta algumas vezes, para combater a dor.
  • Na hora, anotei no meu bloquinho: “É no maxilar, de tanto dar risada do Bottas”. Pura maldade.
  • Hülkenberg estava no Algarve para trabalhar na TV. Quem o viu garante que tinha levado um capacete. Just in case. Acabou não precisando.
  • A AlphaTauri completou nove corridas seguidas nos pontos. Gasly já somou, em 12 etapas, 63. O mesmo que fez pela Red Bull no ano passado, também em 12 etapas.
  • A Red Bull abusou nos pit stops. Fez dois abaixo de 2s, um no carro de Albon (1s86) e um no de Verstappen (1s96). O segundo de Albon também foi bom (2s1). Ou seja: em 5s92, foram trocados 12 pneus.

A FRASE DE PORTIMÃO

Mattia Binotto: punhalada em Vettel

Espero que Sebastian possa se classificar melhor em Imola e mostrar do que é capaz na corrida. Charles é muito bom. Mas esperávamos um pouco mais do segundo piloto.

O “segundo piloto” é Vettel, como todos podem imaginar. A alfinetada do chefe da Ferrari, Mattia Binotto, doeu no alemão. E veio em resposta às entrevistas que ele deu depois da corrida. Sebastian terminou em décimo. Charlinho, em quarto. “É óbvio que o outro carro é mais rápido que o meu nos trechos onde perco tempo. Qualquer idiota consegue ver isso na telemetria, e eu não sou um idiota. Do outro lado tudo parece mais fácil”, disse o alemão assim que terminou a prova. Então veio a espetada.

O clima não é bom. Vettel não vê a hora de terminar este campeonato.

Voltemos a Hamilton, o recordista. Na pena do nosso Marcelo Masili, o cara que foi aplaudido por todos seus antecessores domingo. Todos aqueles que superou e que, ao mesmo tempo, admira e respeita.

Seu pai, Anthony, acabou sendo um dos personagens do fim de semana, e o abraço no filho ao final da corrida foi dos momentos mais comoventes do ano. Depois, foi corujar o filho descendo o dedo na câmera de seu tablet. Abaixo, algumas das imagens que também ficarão para a posteridade. Um pai e seu filho. Nada mais.

Ah, pode ser mais uma pequena galeria com abraços e festa? Pode, né? O cara merece.

Tem abraço com o engenheiro, o famoso Bono — ex de Schumacher na Mercedes, com Lewis desde o início no time –, abraço com Bottas, banho de champanhe de Verstappen e o carinho no carro, que muitas vezes a gente negligencia nessas horas. Que automóvel esse W11, putz.

Ah, vale a menção: Bottas chegou 25s592 atrás de Hamilton. Sim, é um grande automóvel, o W11. Mas nas mãos de Lewis, é mais.

O NÚMERO DE PORTUGAL

…vitórias. Não dava para ser outro, né? Noventa e duas vitórias, a primeira delas no Canadá em 2007, seu ano de estreia, pela McLaren. Foram 21 pela equipe inglesa, sempre com motores Mercedes. As outras 71, defendendo o time alemão, onde está desde 2013. Hamilton ganhou corridas em todas as temporadas que disputou. A pior foi justamente a da estreia pela Mercedes, em 2013, com apenas um triunfo — no GP da Hungria.

Acho que não faltou mais nada sobre a corrida. Mas vale, de novo, celebrar a volta de Portugal ao calendário e reforçar a torcida para que essa etapa permaneça no calendário. Dizem que a Liberty quer 30 milhões de euros dos promotores. Não sei se vai ser fácil arrumar essa grana num país pequeno, de mercado restrito — que vai bem economicamente, mas não rasga dinheiro. 

Para fechar, falta apenas o nosso tradicional termômetro de cada GP.

GOSTAMOS

Kimi: fenomenal

…da fenomenal largada de <<< Kimi Raikkonen, que só pelo que fez na primeira volta no Algarve já merece ser confirmado pela Alfa Romeo no ano que vem. Se você não viu, está aqui. Veja, reveja, veja de novo e fique admirando, o tempo que for preciso, a pilotagem de um veterano extra-classe.

NÃO GOSTAMOS

Stroll: excesso de bobagens

…das barbeiragens de Lance Stroll >>>, que nos treinos se enroscou em Verstappen e, na corrida, tentou passar Norris pelo lado errado e estragou a corrida de ambos. Esse moço, de vez em quando, surta.

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RIO (92!) – Não é pouco o que Lewis Hamilton conseguiu hoje no bom GP de Portugal, em Portimão. Tornou-se o maior piloto de todos os tempos. O título de melhor de todos os tempos, ou “GOAT”, na sigla em inglês que será usada à exaustão, está em ótimas mãos. Hamilton dá mostras, corrida a corrida, de seu enorme talento como atleta e de seu gigantesco valor como cidadão do mundo. Sobram elogios, e todos são merecidos. Como é muito justa sua reverência, permantente, ao time que o cerca.

“Obrigado por acreditarem em mim” foi o que Lewis disse pelo rádio à sua equipe assim que recebeu a bandeirada em Portimão, numa corrida divertida do início ao fim — ainda que a vitória em si tenha sido bem tranquila. Seus números são superlativos graças à Mercedes, também. E os números da Mercedes são igualmente impressionantes graças a ele.

92 vezes Hamilton: méritos divididos entre um piloto fantástico e uma equipe fabulosa

É um dia histórico, este 25 de outubro, porque cai um recorde que muitos acreditavam inatingível, já que era difícil imaginar uma hegemonia tão longeva quanto a que Schumacher e a Ferrari estabeleceram na F-1 no início deste século. Ela se repetiu e se ampliou, porém, pouco tempo depois. E quando cabe a um piloto como Hamilton fazer valer a superioridade de seu equipamento, é quase impossível deter a marcha dos recordes.

Hamilton não é só um cara que tem vontade de vencer. Ele parece disposto a melhorar o tempo todo, e isso é que faz dele alguém tão especial — e nos torna privilegiados por poder testemunhar essa bela história sendo escrita. Há outros componentes que o aproximam da epopeia igualmente bonita de Schumacher, também ele um garoto de família pobre que se fez graças a uma capacidade rara de lutar por aquilo que quer.

A vida nunca foi fácil para o menino negro que fez a vida num ambiente branco e elitista, e foi subindo os degraus que apareceram à sua frente com altivez e dedicação. Michael, filho do zelador do kartódromo que corria com pneus velhos abandonados na pista de que seu pai cuidava, também teve um início difícil e sofrido.

Ambos chegaram ao auge jovens, e nele se mantiveram durante bastante tempo — o que é muito difícil. Michael decidiu parar em 2006, quando sentiu ter cumprido sua missão. Lewis continua firme e uma hora vai parar, deixando para trás um legado de empenho e profissionalismo. Tais legados, de ambos, se traduzem em números, claro. Mas vão além. Estão nas camisetas de Hamilton e nas mensagens que manda para o mundo. Estão no vira-lata que Schumacher adotou em Interlagos e nos milhões de dólares doados às vítimas do tsunami que atingiu a Ásia em 2005. Cada um, à sua maneira, se esforçou para ser mais e melhor. Na pista e fora dela. São feitos do mesmo material. A F-1, isso é inegável, talhou duas figuras extraordinárias como expoentes máximos de seus 70 anos de história.

Vitória tranquila: Hamilton sabe como construir um resultado como ninguém

O abraço no pai Anthony, da foto lá no alto, é imagem deste domingo que ficará eternizada. Significa a gratidão pelo esforço familiar para que ele seguisse na carreira com todos os percalços previsíveis para quem escolhe fazer das corridas de carro um meio de vida. Percalços que passaram, até, pelo rompimento “comercial” com o pai nos primeiros anos de F-1. Hamilton é um sujeito que teve de amadurecer rápido. Já na temporada de estreia começou a ganhar GPs, em 2007, e bateu de frente com um bicampeão mundial. Na segunda, conquistou o título. Depois, passou cinco anos em branco para renascer na Mercedes de forma avassaladora. E ainda amargou uma perda de campeonato em 2016 que para muitos poderia representar um baque difícil de superar.

Há os que usam a derrota para Rosberg como argumento para questionar a posição de Hamilton na história da F-1, esquecendo-se, talvez, que Schumacher foi batido por Hill e Villeneuve, Senna por Mansell, Prost por um Lauda quase aposentado, e os exemplos são muitos ao longo das décadas. Não se ganha sempre. O que muitas vezes diferencia os excelentes dos bons é exatamente a capacidade que cada um tem de se levantar quando cai. Lewis caiu algumas vezes. E sempre que se ergueu, o fez mais forte.

No pódio, como mais um troféu: são 161 na carreira, em 262 GPs

Portugal voltou ao calendário em grande estilo num domingo nublado, 20°C nos termômetros e gotinhas de chuva prontas para brincar com os 20 pilotos que alinharam diante de 27.500 torcedores nas arquibancadas de Portimão. Ainda que no momento de uma segunda onda de contágios pelo novo coronavírus na Europa não fosse indicado juntar multidões em lugar algum, é um pequeno consolo saber que a marca histórica de 92 vitórias tenha sido testemunhada por gente de verdade — tomara que as aglomerações não tenham consequências.

A prova começou bem louca, com uma dificuldade enorme de todos para aquecer seus pneus. Assim, apesar de partir bem, Hamilton na metade da primeira volta já tinha sido ultrapassado por Bottas que, por sua vez, perdeu a liderança para um surpreendente Sainz, sétimo no grid. Com carros escorregando de um lado para o outro — até alguns pingos d’água foram relatados, deixando a condição do asfalto ainda mais traiçoeira –, o espanhol da McLaren foi driblando todo mundo e, de repente, apareceu em primeiro.

Ajudou o enrosco entre Verstappen e Pérez, que acabou atirando o mexicano para último. Norris, com a outra McLaren, saltou de oitavo para quarto. Os dois largaram de pneus macios, que foram bastante úteis nos primeiros metros da prova, já que são mais aderentes e tracionam melhor. E Raikkonen fez uma das primeiras voltas mais espetaculares da história, saindo de 16º para sexto, em imagem que merece ser vista, revista e vista de novo até o fim dos tempos — o vídeo está aqui.

Kimi: largada espetacular, com dez ultrapassagens na primeira volta

Pena que o carro de Raikkonen, quase uma Alfa Romeo 2300 ti, não permitiu ao finlandês fazer nenhum milagre, ainda mais porque no circuito do Algarve a longa reta dos boxes acabou se mostrando uma excelente amiga das ultrapassagens. Como todo mundo usou paredões de asa para garantir alguma eficiência nos trechos mais travados do miolo, aqueles que vinham com a asa móvel aberta não tinham dificuldade nenhuma para passar quem tinha de percorrer quase 1 km de reta sem o recurso. Kimi terminou em 11º, e quando perguntaram a ele sobre sua histórica primeira volta, fez um muxoxo e disse: “Não serviu pra nada”.

Sainz, Bottas, Hamilton, Norris, Verstappen, Raikkonen, Ricciardo, Leclerc, Gasly e Stroll eram os dez primeiros colocados na terceira volta, quando os pneus começaram a chegar à temperatura ideal de funcionamento e o rascunho de chuva que se desenhava foi embora. Aí, a realidade passou a se impor. Na sexta volta, Bottas já era líder, e na 12ª o espanhol do carro laranja caíra para quinto. Lá na frente, Hamilton iniciava a caça a Bottas, que estaria consumada na volta 20, com uma ultrapassagem tranquila no final da reta dos boxes. Daí em diante, Lewis não teria mais com o que se preocupar.

Largada maluca: ao final da primeira volta, Sainz era o líder

Um incidente na volta 18, pouco antes, chamou a atenção: Stroll foi para cima de Norris e errou o lado. Tentou passar por fora e os dois se tocaram. Lance rodou e jogou sua corrida no lixo. No pelotão intermediário, as brigas eram boas e alguns pilotos se destacavam com atuações bem convincentes. Foi o caso de Pérez, que caiu para último na largada e foi escalando sua montanha particular para chegar à quinta posição no fim, que só não sustentou porque, já com pneus macios rapidamente detonados, acabou sendo superado nas últimas voltas por Gasly e Sainz — chegou em sétimo, o mexicano da Aston Point.

O francês da AlphaTauri, quinto, foi um dos bons nomes da prova, assim como Leclerc — que terminou em quarto fazendo muito mais do que a Ferrari poderia esperar. Sainz, que chegou a liderar — lembram? –, recebeu a bandeirada em sexto. Ocon, Ricciardo e Vettel — apagadíssimo — fecharam a zona de pontos.

Quase todo mundo parou apenas uma vez, e os que largaram com pneus médios puderam esticar o primeiro stint sem maiores problemas. Hamilton, por exemplo, só foi parar na volta 41. Bottas, na 42ª. Ocon foi até a 54ª, o que lhe possibilitou terminar a corrida na frente do parceiro Ricciardo.

Mecânicos da AlphaTauri comemoram: nas últimas voltas, Gasly subiu até o quinto lugar

Como sempre, também, alguns pilotos decepcionaram. Albon viu Verstappen terminar pela nona vez no ano no pódio, em terceiro, e ficou só em 12º com o mesmo carro. Está na marca do pênalti na Red Bull. Kvyat se arrastou em 19º, enquanto seu companheiro comemorava um belo quinto lugar. Norris, em 13º, pelo menos tinha a quem culpar: Stroll, pelo toque na volta 18.

Com 256 pontos na classificação, Hamilton apenas conta os dias para festejar seu sétimo título mundial, igualando Schumacher de novo e se preparando para superá-lo em taças no ano que vem. Bottas tem 179 e sua preocupação agora é não perder o vice para Verstappen, 17 pontos atrás. Depois deles vêm empilhados Ricciardo (80), Leclerc (75), Pérez (74), Norris (65), Albon (64) e Gasly (63), brigando ponto a ponto num campeonato que, se não fosse pela existência da Mercedes e de Verstappen, seria um dos mais equilibrados de todos os tempos. Entre as equipes, a briga também é muito boa pelo terceiro lugar: Racing India (126), McLaren (124) e Renault (120) lutam pelas migalhas que mercêdicos e rubro-taurinos deixam pelo caminho.

Leclerc em quarto: anda mais que o carro e faz um grande campeonato

Semana que vem tem corrida de novo, a volta de Imola depois de 14 anos ao calendário. Outra prova que, pela novidade, deve ser das mais interessantes do ano — nunca esses carros híbridos andaram na pista e, da turma que disputa o Mundial, o único que já correu lá foi Raikkonen. Será o primeiro GP com apenas dois dias de atividade na era moderna da F-1, com treinos no sábado e corrida no domingo. É um ensaio da Liberty para um calendário, no futuro, com 25 etapas — atividades mais enxutas, gastos menores, chance de engordar a lista de GPs por temporada e rechear a conta bancária da empresa que há alguns anos assumiu o controle da categoria.

Imola é muito especial, sempre foi. Vai ser um fim de semana bacana, cheio de lembranças.

N’ALGARVE (2)

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RIO (na folga) – Não tem necessidade. Acho que já está chegando num certo grau de sadismo que pode, sei lá, levar Bottas a desaparecer. Não se apresentar em Imola na semana que vem, desligar o celular, sumir sem deixar uma carta, um bilhete, nada, para ser encontrado numa casinha no interior do Uruguai daqui a alguns anos e ser entrevistado pelo “Fantástico” depois de muito esforço.

Hamilton faz do companheiro gato e sapato, com o perdão do trocadilho calçadista. Pode até não ser por mal, não, certamente não é, Lewis não é má pessoa, mas o efeito é o mesmo. Senão, vejamos.

Leão de treino: quando precisa, Valtteri sucumbe

Bottas foi o mais rápido em todos os treinos livres em Portimão. No Q2, fez o melhor tempo do fim de semana, 1min16s466, de pneus médios — já falaremos disso. No Q3, na primeira saída, ambos com pneus macios, conseguiu uma volta 0s047 melhor que a de Hamilton. Na segunda, os dois já com pneus médios — já falaremos disso, calma! –, Hamilton conseguiu baixar o tempo para 1min16s934 e pulou para a pole.

Aí Bottas se enfezou. Nada disso. Estou sendo melhor que ele desde sexta. Na verdade, desde quinta, porque na hora de passar pela catraca da entrada do autódromo eu passei primeiro. E também tomei o primeiro café da máquina de espresso, e consegui que o cozinheiro fizesse meu prato de macarrão antes do dele. Na primeira reunião com os engenheiros sentei do lado do Toto Wolff antes dele. OK, Toto mudou de lugar depois, mas mostrei meu cartão de visita. E quando ele levantou pra fazer xixi, corri na frente dele e entrei no banheiro antes.

Ah, não. Hoje não. No cu, Jaú. (Aprendi essa expressão lendo um blog de um brasileiro, me explicaram mais ou menos o que é e gostei.) Quanto ele fez? Dezesseis novecentos e trinta e quatro? Deixa comigo. Não falem comigo.

E Bottas baixou o tempo. E não foi pouco: 0s180, quase dois décimos, 1min16s754 de pneus médios!

Quanto virei?

Quase dois décimos mais rápido, Valtteri.

U-hu! Pole! Chupa Lewis! Aqui não! No cu, Jaú! Chega! Já deu! Pensa que aqui é a casa da mãe Joana? (Aprendi essa outra expressão no mesmo blog, mas até agora não entendi direito e não sei quem é Joana.)

Valtteri.

Opa! Fala pessoal! Pole! Grande trabalho time! Valeu! Obrigado! U-hu!

Valtteri.

Que é? Quem é?

James.

O que você quer, James?

Lewis abriu outra volta.

Como assim?

Então.. O cronômetro não zerou ainda.

Não fode, James. Como não zerou? Então eu vou também!

Valtteri.

Que foi agora?

Agora o cronômetro zerou.

Bom, foda-se, o pneu dele deve estar velho, todo arreganhado! É pole! É tetraaaaaaaaaaa! U-hu!

Valtteri.

Que é?

P2, amigo.

Bottas: mais uma vez perde a pole depois de ser o mais rápido nos treinos livres

Hamilton fez uma volta a mais. Virou 1min16s652. Foi 0s102 mais rápido que Bottas. Que, neste momento, está no Google pesquisando “Kuinka paljon talo Uruguayn sisätiloissa maksaa?”.

Pobre Valtteri.

Lewis larga na frente amanhã no GP de Portugal em busca do recorde absoluto de vitórias na F-1. São 97 poles agora, nove em 12 etapas deste ano. Feita com pneus médios, e agora explico. Sim, os pneus macios são mais rápidos quase sempre, mas num asfalto novo e liso como o da pista do Algarve demoram mais do que o normal para atingir uma boa temperatura, e esse mais do que o normal acaba prejudicando a borracha, que começa a ficar toda arrepiada e granulada, então é mais jogo usar pneus médios que podem ser aquecidos por mais tempo sem perder muito rendimento.

Isso é algo que pilotos e equipes foram descobrindo com o passar do tempo em Portugal, uma vez que o circuito é novidade na categoria e ninguém tinha referências muito claras do comportamento da borracha no sobe-e-desce do traçado lusitano. Nem a Pirelli, que por precaução levou para o Algarve a gama mais dura e resistente de seus pneus para 2020. Resumindo, para alguns carros os pneus médios funcionaram melhor. Foi o caso da Mercedes, da Ferrari e até da Red Bull — com Albon, já que Verstappinho, terceiro no grid, fez seu tempo no Q2 com pneus macios e se manteve com eles no Q3.

No grid, o contraste ferrarista: Leclerc em quarto, Vettel em 15º

Fazer mais de uma volta rápida com o mesmo jogo de pneus foi o pulo do gato de Hamilton na parte final da classificação. “Eu tenho um grande carro nas mãos, mas é preciso guiar no limite, também. E fui melhorando aos poucos, porque Valtteri estava muito rápido. A equipe nos deu a opção de tentar mais de uma volta rápida com os médios no Q3 e eu vi ali uma chance de batê-lo”, explicou candidamente Lewis, disfarçando o sadismo.

Ao seu lado, enquanto esperava para ser entrevistado por David Coulthard, Bottas pesquisava no Google, pelo celular, “turska-resepti, joka antaa vatsakipua vihollisille”.

A classificação para o GP de Portugal começou com meia hora de atraso, depois que parte de uma grelha de escoamento de água, embutida na zebra da penúltima curva do circuito, se desprendeu à passagem de Vettel no terceiro treino livre. A engenharia portuguesa resolveu o problema, e sob um sol cálido e temperatura de 21°C as atividades começaram sem grandes novidades no Q1, que eliminou Raikkonen, Giovinazzi, Grosjean, Magnussen e Latifi.

Russell: 33 a 0 nos parceiros em classificações desde a estreia na categoria

Jorginho Russell foi o destaque do Q1, enfiando 0s846 no lento companheiro de equipe e chegando a incríveis 33 a 0 sobre seus parceiros em classificações — no ano passado, o surrado foi Kubica.

No Q2, as duplas de Mercedes e Ferrari optaram pelos pneus médios para fazer tempo, mais para começar a corrida com esses compostos do que, propriamente, por acreditar que eles seriam mais rápidos que os macios. Pelo menos essa foi a impressão na Mercedes. Na equipe italiana, a convicção era de que a borracha com letras amarelas era melhor, mesmo. Tanto que, mesmo fora dos dez primeiros, Vettel seguiu com eles para tentar salvar o pescoço. E nada conseguiu.

Vettel: P15, atrás até de um carro da Williams

Pobre Vettel.

Ficou em 15º, atrás até de uma Williams, a de Russell. Vexame ainda maior porque Leclerc terminou essa fase da classificação em oitavo. Pela oitava corrida seguida Tião Italiano empaca antes do Q3 — a pior série de fiascos classificatórios de sua carreira. “Não sei mais o que fazer. Não consigo ser tão rápido quanto Charles, ele está numa categoria diferente”, falou, e não sei se foi um elogio ou ironia.

Também quedaram no Q2 Ocon, Stroll (com Pérez em quarto) e Kvyat (tendo de engolir Gasly em sétimo). Foi no Q2 que Bottas virou 1min16s466, o melhor tempo do fim de semana — que de nada lhe serviu.

Trapalhada de Ricciardo: sem tempo no Q3

Como todas as poles do ano foram obtidas pela Mercedes, não foi surpresa nenhuma a briga pela posição de honra se limitar aos dois pilotos do time alemão. Ainda que Max tenha ensaiado alguma coisa diferente, no fim as contas terminou 0s252 atrás de Hamilton e larga em terceiro. Surpresa foi ver Leclerc em quarto, apenas 0s438 mais lento que a pole. Pérez conseguiu um ótimo quinto lugar e depois dele vieram Albon, Sainz, Norris, Gasly e Ricciardo. O australiano nem fez volta no Q3. No finalzinho do Q2 rodou, deu uma encostada na barreira de pneus com a asa traseira e não houve tempo hábil para consertar.

Como aconteceu em Mugello, outra pista desconhecida de todos, é possível que a prova de amanhã traga algumas novidades pela falta de traquejo de todos com o circuito português. Há boas chances de safety-car porque o traçado é tinhoso, com suas curvas cegas e áreas de escape de brita. Para ajudar, há uma possibilidade de chuva — gostamos, porque também somos sádicos. Portugal voltou com estilo.

N’ALGARVE (1)

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RIO (saudades da terrinha) – Como sou o rei das irrelevâncias, confesso que hoje minha maior expectativa era pela paisagem, na volta da F-1 a Portugal. E como é lindo, o Algarve! Lá pra 1989 ou 1990, não lembro direito, o GP de Portugal era seguido do GP da Espanha. Domingo no Estoril, domingo seguinte em Jerez. Aí resolvi ir de uma corrida para a outra de carro, junto com o Celso Itiberê, d'”O Globo”. Era uma viagem de pouco mais de 500 km, tranquilo.

Ao final do primeiro dia, resolvemos pernoitar no Algarve. Havia — há — uma estatal chamada Pousadas de Portugal, uma rede de hotéis em prédios históricos administrada pelo governo. E caímos na Pousada Sagres, que, se vocês olharem o mapa de Portugal, fica bem na quina. Não é figura de linguagem. Portugal é quase um retângulo de pé, com um dos lados menores na base. O canto esquerdo inferior é a quina. Exatamente ali ficava a Pousada Sagres.

Pousada Sagres: na quina de Portugal

Para provar que não estou exagerando, vejam o mapa das Pousadas de Portugal. Daquele precipício pra lá, meu filho, na era das Grandes Navegações, só havia incertezas. Aliás, a Escola de Sagres é tida como a grande alavanca para os descobrimentos dos portugueses e a expansão do reino para além mar. Dom Henrique, no século 15, foi quem estimulou a fundação de uma vila lá embaixo, onde o oceano faz a curva, como ponto de apoio a quem se jogava no Atlântico. E também teria sido ele a estimular o estudo mais detalhado de disciplinas como cartografia, astronomia, matemática, engenharia naval e tudo que fosse necessário para construir boas embarcações que pudessem ajudar a estender os limites de Portugal. A essa barafunda se chamou genericamente de Escola de Sagres, que os historiadores garantem que não era escola nenhuma, com salas de aula, carteiras, lousa, giz, professores e intervalo para recreio.

Bem, foi uma viagem deliciosa, estradas ótimas, cenários maravilhosos, eu era bem moleque, terceira ou quarta vez na Europa, primeira vez de carro — nas outras todas, trem era meu meio de transporte — e a ótima companhia do Itiberê, um poço de conhecimento e sabedoria. E como comemos e bebemos bem, putz grila!

Assim conheci o Algarve, onde muitos brasileiros têm casa de praia, inclusive — Senna era um deles. Nunca mais voltei. Capaz de, quando voltar, não sair mais de lá.

Mas vamos ao que interessa.

Bottas: mais rápido em dia cheio de interrupções em Portugal

O autódromo de Portimão é lindíssimo e o traçado deve ser muito prazeroso com suas subidas e descidas e um punhado de curvas cegas traiçoeiras. Não sei se vai resultar numa boa corrida, mas há uma boa chance — porque o lidar com o desconhecido normalmente leva a uma maior incidência de erros por parte de pilotos e equipes. E ninguém chegará 100% preparado na hora do GP.

Hoje, boa parte das três horas de treinos livres foi anulada pelos tempo desperdiçado nos testes com os pneus de 2021 e com duas interrupções por bandeiras vermelhas — que comeram 32 minutos das atividades de pista. O resultado foi Bottas em primeiro e Hamilton em oitavo a 1s3 do companheiro. Claro que isso não faz o menor sentido, tecnicamente falando.

A primeira paralisação aconteceu após um princípio de incêndio no carro de Gasly. Notei na transmissão da TV e nas chiliquentas redes sociais muitas críticas ao resgate, à demora para apagar o fogo, tirar o carro e tal. Esquecem-se, todos, que é a primeira corrida de F-1 em Portimão. Que todos os procedimentos são novos. Que não há histórico de incidentes para a categoria no circuito. E, por isso, todo rigor é bem-vindo.

O mesmo vale para para a suposta demora para recolher o carro de Lance Stroll, que foi um dos protagonistas da vespertina lusitana ao bater em Verstappinho, numa patuscada ridícula dos dois. Felizmente nada de mais grave aconteceu, porque esses toques de roda com roda, muitas vezes, resultam em tragédias. Sobraram palavrões no rádio de Max, mas não tiro a culpa dele, não. Achou que Stroll tinha fechado volta rápida, e não tinha. Na pista, a gente não tem de achar nada. Quando viu que ao emparelhar com Lance o canadense não tirou o pé, tira. E Stroll não perceber que tinha um carro ao seu lado quando tomou a curva é o fim. “Cego” e “retardado” foram as definições usadas pelo piloto da Red Bull para se referir ao colega da Martin Point.

Duas bestas quadradas, em resumo.

Dos treinos de hoje, pois, não dá para falar muito — exceto o óbvio, de que a Mercedes é favorita e tal. No segundo pelotão, ainda não está clara a relação de forças entre McLaren, Red Bull, Racing India e Renault. Esperemos pelo terceiro treino livre, amanhã.

Apesar da nova onda de casos de Covid-19 que assola a Europa, o governo português autorizou a presença de público, em número reduzido, nas belas tribunas do Algarve. Foram longos 24 anos sem F-1 no país, e fico aqui imaginando como estão se sentindo meus amigos Zé Miguel Barros, Artur Ferreira, João Carlos Costa, Luís Vasconcelos, Henrique Cardão (este, no céu) e tantos outros com a volta à terrinha.

Tomara que fique no calendário, essa corrida. Até o fim dos tempos.

Portimão: lindo cenário, que fique para sempre

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Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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