N’ALGARVE (2)

N

RIO (na folga) – Não tem necessidade. Acho que já está chegando num certo grau de sadismo que pode, sei lá, levar Bottas a desaparecer. Não se apresentar em Imola na semana que vem, desligar o celular, sumir sem deixar uma carta, um bilhete, nada, para ser encontrado numa casinha no interior do Uruguai daqui a alguns anos e ser entrevistado pelo “Fantástico” depois de muito esforço.

Hamilton faz do companheiro gato e sapato, com o perdão do trocadilho calçadista. Pode até não ser por mal, não, certamente não é, Lewis não é má pessoa, mas o efeito é o mesmo. Senão, vejamos.

Leão de treino: quando precisa, Valtteri sucumbe

Bottas foi o mais rápido em todos os treinos livres em Portimão. No Q2, fez o melhor tempo do fim de semana, 1min16s466, de pneus médios — já falaremos disso. No Q3, na primeira saída, ambos com pneus macios, conseguiu uma volta 0s047 melhor que a de Hamilton. Na segunda, os dois já com pneus médios — já falaremos disso, calma! –, Hamilton conseguiu baixar o tempo para 1min16s934 e pulou para a pole.

Aí Bottas se enfezou. Nada disso. Estou sendo melhor que ele desde sexta. Na verdade, desde quinta, porque na hora de passar pela catraca da entrada do autódromo eu passei primeiro. E também tomei o primeiro café da máquina de espresso, e consegui que o cozinheiro fizesse meu prato de macarrão antes do dele. Na primeira reunião com os engenheiros sentei do lado do Toto Wolff antes dele. OK, Toto mudou de lugar depois, mas mostrei meu cartão de visita. E quando ele levantou pra fazer xixi, corri na frente dele e entrei no banheiro antes.

Ah, não. Hoje não. No cu, Jaú. (Aprendi essa expressão lendo um blog de um brasileiro, me explicaram mais ou menos o que é e gostei.) Quanto ele fez? Dezesseis novecentos e trinta e quatro? Deixa comigo. Não falem comigo.

E Bottas baixou o tempo. E não foi pouco: 0s180, quase dois décimos, 1min16s754 de pneus médios!

Quanto virei?

Quase dois décimos mais rápido, Valtteri.

U-hu! Pole! Chupa Lewis! Aqui não! No cu, Jaú! Chega! Já deu! Pensa que aqui é a casa da mãe Joana? (Aprendi essa outra expressão no mesmo blog, mas até agora não entendi direito e não sei quem é Joana.)

Valtteri.

Opa! Fala pessoal! Pole! Grande trabalho time! Valeu! Obrigado! U-hu!

Valtteri.

Que é? Quem é?

James.

O que você quer, James?

Lewis abriu outra volta.

Como assim?

Então.. O cronômetro não zerou ainda.

Não fode, James. Como não zerou? Então eu vou também!

Valtteri.

Que foi agora?

Agora o cronômetro zerou.

Bom, foda-se, o pneu dele deve estar velho, todo arreganhado! É pole! É tetraaaaaaaaaaa! U-hu!

Valtteri.

Que é?

P2, amigo.

Bottas: mais uma vez perde a pole depois de ser o mais rápido nos treinos livres

Hamilton fez uma volta a mais. Virou 1min16s652. Foi 0s102 mais rápido que Bottas. Que, neste momento, está no Google pesquisando “Kuinka paljon talo Uruguayn sisätiloissa maksaa?”.

Pobre Valtteri.

Lewis larga na frente amanhã no GP de Portugal em busca do recorde absoluto de vitórias na F-1. São 97 poles agora, nove em 12 etapas deste ano. Feita com pneus médios, e agora explico. Sim, os pneus macios são mais rápidos quase sempre, mas num asfalto novo e liso como o da pista do Algarve demoram mais do que o normal para atingir uma boa temperatura, e esse mais do que o normal acaba prejudicando a borracha, que começa a ficar toda arrepiada e granulada, então é mais jogo usar pneus médios que podem ser aquecidos por mais tempo sem perder muito rendimento.

Isso é algo que pilotos e equipes foram descobrindo com o passar do tempo em Portugal, uma vez que o circuito é novidade na categoria e ninguém tinha referências muito claras do comportamento da borracha no sobe-e-desce do traçado lusitano. Nem a Pirelli, que por precaução levou para o Algarve a gama mais dura e resistente de seus pneus para 2020. Resumindo, para alguns carros os pneus médios funcionaram melhor. Foi o caso da Mercedes, da Ferrari e até da Red Bull — com Albon, já que Verstappinho, terceiro no grid, fez seu tempo no Q2 com pneus macios e se manteve com eles no Q3.

No grid, o contraste ferrarista: Leclerc em quarto, Vettel em 15º

Fazer mais de uma volta rápida com o mesmo jogo de pneus foi o pulo do gato de Hamilton na parte final da classificação. “Eu tenho um grande carro nas mãos, mas é preciso guiar no limite, também. E fui melhorando aos poucos, porque Valtteri estava muito rápido. A equipe nos deu a opção de tentar mais de uma volta rápida com os médios no Q3 e eu vi ali uma chance de batê-lo”, explicou candidamente Lewis, disfarçando o sadismo.

Ao seu lado, enquanto esperava para ser entrevistado por David Coulthard, Bottas pesquisava no Google, pelo celular, “turska-resepti, joka antaa vatsakipua vihollisille”.

A classificação para o GP de Portugal começou com meia hora de atraso, depois que parte de uma grelha de escoamento de água, embutida na zebra da penúltima curva do circuito, se desprendeu à passagem de Vettel no terceiro treino livre. A engenharia portuguesa resolveu o problema, e sob um sol cálido e temperatura de 21°C as atividades começaram sem grandes novidades no Q1, que eliminou Raikkonen, Giovinazzi, Grosjean, Magnussen e Latifi.

Russell: 33 a 0 nos parceiros em classificações desde a estreia na categoria

Jorginho Russell foi o destaque do Q1, enfiando 0s846 no lento companheiro de equipe e chegando a incríveis 33 a 0 sobre seus parceiros em classificações — no ano passado, o surrado foi Kubica.

No Q2, as duplas de Mercedes e Ferrari optaram pelos pneus médios para fazer tempo, mais para começar a corrida com esses compostos do que, propriamente, por acreditar que eles seriam mais rápidos que os macios. Pelo menos essa foi a impressão na Mercedes. Na equipe italiana, a convicção era de que a borracha com letras amarelas era melhor, mesmo. Tanto que, mesmo fora dos dez primeiros, Vettel seguiu com eles para tentar salvar o pescoço. E nada conseguiu.

Vettel: P15, atrás até de um carro da Williams

Pobre Vettel.

Ficou em 15º, atrás até de uma Williams, a de Russell. Vexame ainda maior porque Leclerc terminou essa fase da classificação em oitavo. Pela oitava corrida seguida Tião Italiano empaca antes do Q3 — a pior série de fiascos classificatórios de sua carreira. “Não sei mais o que fazer. Não consigo ser tão rápido quanto Charles, ele está numa categoria diferente”, falou, e não sei se foi um elogio ou ironia.

Também quedaram no Q2 Ocon, Stroll (com Pérez em quarto) e Kvyat (tendo de engolir Gasly em sétimo). Foi no Q2 que Bottas virou 1min16s466, o melhor tempo do fim de semana — que de nada lhe serviu.

Trapalhada de Ricciardo: sem tempo no Q3

Como todas as poles do ano foram obtidas pela Mercedes, não foi surpresa nenhuma a briga pela posição de honra se limitar aos dois pilotos do time alemão. Ainda que Max tenha ensaiado alguma coisa diferente, no fim as contas terminou 0s252 atrás de Hamilton e larga em terceiro. Surpresa foi ver Leclerc em quarto, apenas 0s438 mais lento que a pole. Pérez conseguiu um ótimo quinto lugar e depois dele vieram Albon, Sainz, Norris, Gasly e Ricciardo. O australiano nem fez volta no Q3. No finalzinho do Q2 rodou, deu uma encostada na barreira de pneus com a asa traseira e não houve tempo hábil para consertar.

Como aconteceu em Mugello, outra pista desconhecida de todos, é possível que a prova de amanhã traga algumas novidades pela falta de traquejo de todos com o circuito português. Há boas chances de safety-car porque o traçado é tinhoso, com suas curvas cegas e áreas de escape de brita. Para ajudar, há uma possibilidade de chuva — gostamos, porque também somos sádicos. Portugal voltou com estilo.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

31 Comentários

  • Nossa!! Eu ri muito!! Você também é sádico, Flávio. Eu juro que pagaria para gargalhar assim todos os dias rs. Bem, Hamilton é Hamilton. Já se firmou como o maior de todos. O que vier é apenas lucro. Mas eu tenho a impressão de que o Bottas não é nem de longe ruim e venceria grande parte do grid hoje em dia.. Ele aprendeu muito.. Ficou muito rápido.. óbvio.. Você evolui de acordo com o tamanho dos desafios. Pena que Lewis parece que ainda está no auge de suas forças que se estabeleceram por completo ao final de 2016. Vamos ver se ano que vem ele tem mais chances. Abraço e parabéns pelo texto.

  • Nada como um contrato que possua uma cláusula de subserviência. E o segundo piloto assina, já sabendo que ficará à frente de todos os primeiros pilotos das demais equipes.

    Deu pra entender, galera?

  • Ah se os sigilos contratuais viessem à tona, quanto peso seria retirado das costas do Bottas! O livro do Rubinho não saiu até hoje, mas aquela ultrapassagem pra cima do Michael Shumacher no gp da Hungria de 2010, uma Williams contra uma Mercedes, Rubinho mostrou pro mundo quem era quem. Com um super carro nas mãos, contrato de primeiro piloto, e sem carros adversários à altura fica fácil, extremamente fácil, como diz Jota Quest na sua canção. É o mar bravo que faz o bom marinheiro e enquanto Hamilton estiver navegando num mar em excelentes condições, não se pode dizer que é melhor nem mesmo que seu team mate, pois um contrato que exige sigilo impede Bottas de expor o real motivo de tanta humilhação.
    O Hamilton tem que lutar para que haja igualdade de condições…..para seu companheiro de equipe. Amanhã veremos mais do mesmo, infelizmente.

  • Alonzo está voltando
    Acho q para tomar sacode do amilton, mas…
    Amilton vai emplacar mais de 120 vitórias,
    E umas 150 poles
    Facin facin
    Bottas é o Rubinho, Massa, Patrese desse tempo?
    Bottas é vasco! KKKK
    E o GP F1 no Rio, hem?
    Sinistro, muito sinistro

  • A FIA deveria promover o Russell na próxima corrida substituindo o Bottas na Mercedes.
    Será uma chance de ouro pra interromper um recorde que provavelmente nem Schumacher nem Hamilton têm, o de surras consecutivas em companheiros de equipe na classificação.
    O risco dessa medida é que periga do Jorjão meter uma naba no Lewis e fazer a pole.
    Eu indicaria pro Bottas um lugar nas montanhas, pacato, e sem multidões. Aqui no Brasil, Visconde de Mauá é a minha primeira opção. E o clima é ameno. Claro que não é a Finlândia, mas, pros padrões brasileiros, o inverno de lá é frio. Ou Penedo, que é uma colônia finlandesa. Vai se sentir em casa.

      • Cowboy, sem contar as vezes que Bottas largou em 2º com Hamilton também atrás, umas 10 vezes no mínimo.
        Amaral, Russel é um ótimo piloto porém falta amadurecimento. Ele sem duvidas é destaque nos treinos, mas nas corridas não tirou nenhum coelho da cartola. Embora não mereça, é lanterna do campeonato.
        Russel hoje na Mercedes terminaria o mundial em terceiro, perderia o vice para Verstappen e seria humilhado por Hamilton.

    • Bottas é inferior a Rubens e a Massa. Em resumo , o inglês corre sozinho e pra ele o Bottas é o parceiro ideal . Nem o Russell ele aceita. Verstappen , Leclerc , Ricciardo , Norris e até o Russell fariam muito melhor

    • É verdade meu caro Simão, basta ver as insignificantes diferenças de tempo entre os dois nas classificações de todas as corridas. Bottas é tão rápido quanto Hamilton nos treinos, mas o caso é que este é um piloto muito mais completo e experiente. Todos sabem disso, mas parecem gostar mais de desvalorizar o melhor do que analisar de fato as corridas, fazer o que…

  • Sensacional ! Uma receita de bacalhau, que dá dor de estômago aos inimigos !

    Mais do que um texto, uma narrativa pessoal do que se passou hoje em Portimão e nada devemos acrescentar, a não ser esclarecer o ” Vai tomar no c…Jaú “…expressão usada no final dos anos 60, quando o Santos jogava contra o XV de Jaú e um torcedor mais exalto gritou depois da derrota de 10 X 0 e logo após, os meios acadêmicos adotaram como Chula, mas válida a expressão para demonstrar insatisfação contra derrotas, malogros e demais infortúnios….

    Salve a semana negra ! Pelé e Hamilton…

    Abs

Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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