Arquivofevereiro 2014

QUE FOGO NO BAR, HEIN?

Q

fogocaterhamSÃO PAULO (quente) – Marcus Ericsson sacou o celular da sua família e gritou! “Fogo! Fogo!”. Talvez o rádio não estivesse funcionando, e por isso ele usou o aparelho com seu nome. Não precisava tanto, sempre tem bombeiro por perto e o carro da Caterham tem extintor, claro. Por sorte, ontem Kobayashi abasteceu pelas redondezas e o frentista perguntou se o extintor dele estava vencido. Koba disse que não, mas frentista que vende extintor é uma das raças mais insistentes do mundo, e ele enfiou a cabeça no cockpit e vibrou: “A-há, tá vencido, sim!”. E nosso mito nipônico não teve outra opção que não trocar.

Foi a sorte.

Quando chegou aos boxes, Ericsson, emburrado, cruzou com Raikkonen. “Fogo, né?”, falou. Marcus, ainda um garoto ingênuo, chegando agora, confirmou. “É, esquentou essa droga de unidade de força, acho que começou no MGU-K e passou para o MGU-H, e então…”, mas Kimi interrompeu o moço, “tô falando de ontem, que fogo no bar, hein?”, gargalhou o ferrarista, e continuou seu caminho, falando sozinho “esse Marbundas nem bebe, coitado”. O apelido foi Raikkonen que criou, e me parece indelicado, é como chamar cuscuz de “bundas-bundas”, típica piadinha sem graça.

A Caterham, como todos sabemos, usa unidades de quebra Renault, e aparentemente o fogo foi lá mesmo, e por superaquecimento. Já tive esse problema — curiosa e coincidentemente, com meu Corcel 1970. O motor é Renault, também. O jeito foi, nas descidas, colocar em ponto-morto e rezar para o vento baixar um pouco a temperatura da água — é o maior charme, o recipiente de expansão é de Pirex®; aprendi a fazer esse ®, agora me aguentem.

Nem é preciso dizer que Ericsson ficou em último, a 7s de Pérez, o mais rápido de hoje no Bahrein. Faltam dois dias para terminar a pré-temporada. A Force India está toda animadjenha, apesar de um de seus sócios ter sido preso por fraude fiscal. Mas dois dias em primeiro, aí é para comemorar, mesmo. Dizem, não consegui confirmar, que Pérez mandou o dedo do meio para o pitwall da McLaren cada vez que passou pela reta dos boxes. Foram 108 dedos.

Button viu alguns deles, porque seu carro teve um problema de câmbio e ficou parado um tempão. “Qualquer coisa ligada às unidades de pane atualmente demora muito para arrumar”, disse o inglês. Segundo ele, a equipe já sabe como usar as traquitanas todas em corrida. “Mas em termos de performance e acerto, ainda falta bastante coisa.”

Incêndio não foi exclusividade da Caterham. Maldonado, quando voltou para os boxes, ouviu de Raikkonen a mesma piadinha. “Fogo, né?”, falou o finlandês, mas o venezuelano não é mais nenhum garoto e, ao contrário de Ericsson, não deu nenhuma explicação para o colega. Antes, ameaçou partir para cima, “¡hijo de puta!”, no que foi contido pelos mecânicos da Lotus. Quando se acalmou, Kimi se dirigiu a ele e disse, colocando a mão sobre seu ombro direito: “Desculpe, Pastor. Não quis ofender. Mas me diga, é verdade que você tem medo de piscina?”. O colega não entendeu direito e, de modo rude, perguntou “¿Que dices?”, e então Raikkonen emendou: “É, você se afoga porque é mal do nado”, e saiu correndo serelepe, deixando o bolivariano espumando.

Pela piada e pelas parcas 31 voltas interrompidas pelo fogo na unidade de queima Renault, claro. Ah, Renault… Pelo menos com Vergne, na Toro Rosso, não quebrou nada. Mas foram só 61 voltas, pouco para quem precisa de milhagem. E ele ficou 4s atrás de Pérez. Melhor sorte teve a matriz. Ricardão fechou 66 voltas e foi até rápido, considerando os tempos de hoje: menos de 0s2 atrás do primeiro colocado. Motivo para festa na Red Bull? Longe disso. Outras equipes já viraram tempos bem melhores do que os registrados hoje. O time aproveitou para treinar pit stops. Tinha mecânico que nunca tinha visto o carro de perto. Amanhã e depois, Vettel deixa as funções de assessor de imprensa e assume o volante.

O alemão esteve na coletiva de Alonso e, segundo testemunhos, estava visivelmente alterado. Quando o espanhol comemorou as 122 voltas dizendo que “mais de 600 km são sempre bem-vindos, mas é difícil saber a posição em que a gente está”, Tião pediu o microfone para fazer uma pergunta e mandou: “E que posição vocês preferem? De quatro? Papai-e-mamãe? Meia…”, aí um segurança da Ferrari arrancou o microfone dele e o arrastou para fora da salinha, mas ele continuou gritando: “Cachorrinho? Boto cor-de-rosa? Canguru perneta?”. Raikkonen acompanhava a entrevista e comentou com um jornalista: “O cara tá mal. Viu ontem, que fogo no bar, hein?”.

Na Mercedes, uma quebra de câmbio tirou Hamilton da última hora e meia de treino. “Noventa minutos! Noventa minutos!”, gritava Paddy Lowe. O resultado não foi grande coisa, mas Lewis disse que o negócio é quebrar tudo agora para funcionar na primeira corrida, em Melbourne. A Sauber não teve problemas com Gutierros, assim como a Marussia, que fez seu melhor teste com Bianchi completando 75 voltas. Por fim, a Williams também fechou o dia aliviada depois que Massa percorreu 103 voltas. “Foi bom ver um sorriso em seu rosto”, falou o meigo Biela Nelson, engenheiro-chefe da equipe de testes.

Amanhã e depois, em pleno Carnaval, todo mundo na pista de novo. Como se sabe, no Bahrein os festejos momescos não são muito animados desde que cancelaram os desfiles na avenida Sheik de Sapucaih, e por isso mesmo corre-se o risco, apenas, de a paz ser perturbada por Vettel. Ele aprendeu uma versão de conhecida marchinha e foi visto, no bar, ensaiando o refrão “atravessamos o deserto na segunda/Renault estava quente/e queimou a nossa bunda”.

Por via das dúvidas, a Red Bull pediu a Ricciardo que fique até domingo na cidade.

GRANDE ZÉ

G

SÃO PAULO (em breve) – José Trajano lança no mês que vem “Procurando Mônica”. Conheço a história mais ou menos, falamos bastante dela quando eu apresentava com ele o “Pontapé Inicial” na ESPN Brasil. Que bom que virou livro mesmo! O Zé, melhor chefe que eu já tive, escreve divinamente. Um grande cara, jornalista puro. Vai ser um sucesso.

DIÁRIO DE UMA BUSCA (1)

D

gol82SÃO PAULO (querência) – Tudo começou quando meu contato nos arquivos empoeirados do Céu dos Carros, a quem chamo de “Dolglas” por ser um nome que ninguém jamais teria, me colocou no encalço do Twingo que vocês já conhecem.

Achei a dona do Twingo, fiquei amigo dela, terei o carro de volta, vocês vão acompanhar tudo aqui, no ritmo certo, com tranquilidade e critério.

Mas aí aconteceu uma outra coisa, eu nem sei de devia contar, mas não consigo guardar segredos muito tempo. E para que vocês entendam direitinho, preciso voltar algumas semanas no tempo.

Dia desses, começo do mês, talvez, recebi um e-mail de um leitor perguntando se me interessaria por uma Vemaguet de um amigo dele. Eu sempre me interesso por Vemaguets, mesmo não precisando de mais Vemaguets. Tudo bem, é compulsão que um dia irei tratar com algum psicólogo, talvez quando tiver uns 90 anos, se lá chegar.

Recebo e-mails com ofertas de carros com bastante frequência. A maioria, se eu tivesse dinheiro, compraria na hora. Alguns não me falam ao coração e agradeço a oferta e a atenção. Outros são encrencas ambulantes, é comprar e quebrar. Segundo meus critérios de irresponsabilidade fiscal, vou descartando quase tudo para não me afundar ainda mais na falência iminente.

Mas de vez em quando um carrinho olha para mim através da tela do computador e diz: “Preciso de um dono legal. Não me abandone”. E lá vou eu pelo menos conhecer o carro, o dono, a história, e na pior das hipóteses ganho novos amigos.

Essa Vemaguet se encaixa nessa categoria. Mas alguma coisa além de seu olhar de cachorrinho precisando de uma casa nova me levou a buscar mais informações sobre ela, e eu não sabia bem o quê. São mistérios que não me esforço muito para desvendar. Chamou, vamos ver o que ela quer comigo.

E então, quarta à noite, recebi do leitor um pacotinho de fotos digitais e dois vídeos, e sorri para ela e resolvi conhecê-la pessoalmente. O carro estava perto, em Caieiras, um pequeno município da Grande São Paulo a uns 40 km daqui. Minha quinta-feira estava razoavelmente tranquila, seria até bom pegar uma estradinha para espairecer. O dono parecia ser uma figura ímpar, de apelido Magirus, portanto com o dobro da minha altura, e segundo meu leitor, o que indicou a Vemaguet, um cara legal que eu adoraria conhecer.

Caieiras, OK. Registrado. Se der, vou amanhã à tarde.

Voltemos à noite de quarta. Depois de ver as fotos da Vemaguet, estava fazendo a última ronda pelo Facebook e percebi que “Dolglas” (eu podia ser mais criativo para inventar nomes) estava on-line. Do nada, depois de um gentil boa noite, perguntei a ele se seria possível me ajudar a achar meu primeiro carro, o Golzinho LS 1982 que vendi em 1985. Nem sei por que perguntei isso. Afinal, já estou com o projeto do Twingo Goiabinha em andamento, e sou só um. Do Gol, eu só tinha a placa. Mas era amarela. “Número do chassi?”, perguntou telegraficamente “Dolglas”. “Como vou saber?”, retorqui. Mas me deu um estalo. Pode ser que eu tenha, sim. “Espera aí”, escrevi, e fui ao setor de caixas de sapato do meu guarda-roupa. Nelas, há tesouros. Na segunda caixa, encontrei um envelope plástico e, dentro dele, alguns papéis do Gol. Entre eles, uma nota fiscal de uma revisão feita na revenda Santa Luiza em 1983. Na nota, o número do chassi. Uau. Anotei. Voltei ao computador e mandei a informação para “Dolglas”, que achou graça de eu ter guardada, há mais de 30 anos, uma nota fiscal de uma revisão de 15 mil km.

Tenho, “Dolglas”. Tenho cada coisa que você nem imagina…

Era tarde, e fui dormir com a promessa de “Dolglas” de que assim que abrisse o expediente do Céu dos Carros ele tentaria descobrir.

Quinta-feira cedo, abri meus e-mails. Lá estava uma mensagem criptografada de meu contato no Céu dos Carros. A ficha do Gol. Nome do proprietário, placa atual, endereço. Carro em circulação, segundo a mensagem. Registrado em Caieiras.

Caieiras.

Caieiras?

OK, é apenas uma coincidência, pensei. Eu vou hoje a Caieiras ver uma Vemaguet. Sim, é uma grande coincidência o carro estar registrado na mesma cidade. Grande mesmo. Puxa vida, que coincidência. Caieiras. Anotei o endereço num papel. Apenas para ilustrar, vou inventar um nome de rua: Celestino Turíbio, número tal.

Tomei banho, me vesti e saí. No caminho, telefonei para Magirus, o dono da Vemaguet. De fato, uma figura. Perguntei se podia ir à tarde ver a peruinha, peguei indicações de caminho, era fácil, e antes de encerrar a conversa perguntei: “Seu Magirus, o senhor conhece bem Caieiras?”. Ele, claro, conhecia. “Então, aproveitando o ensejo, o senhor conhece a rua Celestino Turíbio?”. “Sim. É a minha rua.”

Na hora, e juro que é verdade, senti um calafrio. Não era possível. Sou misteriosamente atraído por uma Vemaguet, pela qual não teria nenhum interesse especial em condições normais, apenas o interesse de sempre por qualquer DKW, mas ela me chamou a Caieiras, por alguma razão. Na mesma noite em que decido ir a Caieiras resolvo procurar meu Gol, meu primeiro carro, e na manhã seguinte descubro que meu Gol, meu primeiro carro, está registrado na mesma rua da Vemaguet.

Como pode?

Era, realmente, algo inacreditável que estava acontecendo. Fiz o que tinha de fazer e no meio da tarde liguei de novo para seu Magirus e avisei: o senhor vai ouvir hoje a história mais louca da sua vida. Peguei o caminho para Caieiras.

Se eu tivesse de usar uma figura de linguagem, diria que fui de respiração presa de São Paulo a Caieiras. Encontrei o condomínio onde fica a rua Celestino Turíbio (que não aparece no Google Maps, diga-se; a verdadeira, não essa cujo nome inventei) e Magirus me esperava na portaria, com a linda Vemaguet sorrindo para mim. Fomos até sua casa e contei toda a história. “Vamos lá já”, ele falou. A casa do suposto dono do meu Gol 82 ficava a não mais que 300 metros da casa do Magirus.

magirusguetParamos diante dela e a garagem estava vazia. A campainha não funcionava. Batemos palmas, ninguém apareceu. Vamos embora, Magirus. Um dia você passa aí e tenta descobrir alguma coisa. Fizemos a volta, mas quando passamos diante da casa de novo havia um carro. Um carro novo, não lembro qual. Paramos de novo. Batemos palmas, uma jovem saiu na varanda. Perguntei se ali morava Fulano de Tal, o dono do Gol cujo nome aparecia na ficha do Céu dos Carros. “Ah, ele morava aqui, sim, mas se mudou há uns nove anos. Não sei onde anda, não. Mas sei que ele se separou e a ex-mulher dele mora ali perto do mercadinho do Paulinho. Numa casa azul, acho.”

Olhei para Magirus, ele olhou para mim, e falou: “Vamos achar esse Fulano de Tal”. Não preciso dizer que Magirus já virou um de meus melhores amigos, e que comprou a ideia da busca com enorme alegria. Não é para menos… Ex-piloto, correu nos anos 70 de Divisão 1 de Fusca, conhece toda a turma dos anos 60, Bird, Marivaldo, Gallina, Moco, foi jogador de basquete da Portuguesa (sim, da Lusa!), coleciona e restaura bicicletas antigas, tem a Vemaguet e uma Belina, e está meio ralado de um tombo de moto que tomou outro dia. Aos 68 anos. Um garoto de 68 anos, com o dobro da minha altura e o triplo da minha energia.

Lá fomos nós atrás da casa azul perto do mercadinho do Paulinho — nome fictício, também. Encontramos uma. Uma senhora nos atendeu e quando perguntamos se ela conhecia Fulano de Tal, ela disse que sim, que ele era parente do Bidu da Escolinha. E fomos à casa do Bidu da Escolinha, e a esposa dele nos atendeu, e disse que sim, claro que conhecia Fulano de Tal, casado com sua cunhada. “Mas não se separaram?” Já tinham se reconciliado. A casa dele fica ali, depois da subida, após a descida, antes do muro, está em construção.

E fomos seguindo as indicações da senhora Bidu da Escolinha até encontrar a casa. Nenhum sinal do carro, nem de Fulano de Tal. Depois de palmas insistentes, aparece a filha de nosso alvo. O pai não estava. Mas eu já tinha um telefone, e disse à menina que ligaria mais tarde, apenas para que ela já avisasse Fulano de Tal, para que ele não estranhasse um telefonema de um estranho. Antes de ir embora, perguntei: “Seu pai tem um Gol assim-assado?”. “Ih, ele vendeu faz tempo. Faz anos!”.

É a última informação disponível. Fulano de Tal vendeu o Gol, mas ele ainda está em seu nome. De acordo com “Dolglas”, do Céu dos Carros, em circulação, com todas as taxas em dia. Tem um valor aberto em multas, o que significa que o cara que comprou o Gol de Fulano de Tal precisa tomar mais cuidado, e passar o carro para seu nome.

Ou para o meu.

Não consegui falar com Fulano de Tal à noite, o número não atendeu. Tento de novo hoje durante o dia. Se o Golzinho ainda existe, eu vou encontrá-lo. Tenho certeza que essa Vemaguet me chamou até a rua onde mora em Caieiras para isso.

Chamou, tá chamado. Vou te achar, garotão.

BRINQUEDINHOS

B

SÃO PAULO (eu gosto) – O Ervino Haupt, de Curitiba, fazia as miniaturas para ele mesmo. Aí começaram a encomendar e ele começou a vender. Suas últimas criações são essas aí das fotos: o Simca do Vigilante Rodoviário, a dupla de resina F-75 e Gurgel X-15, e a Kombi customizada da Transbrasil. Já encomendei as minhas… Quem se interessar deve entrar em contato direto com o artista pelo e-mail [email protected]

MOTOLAND

M

SÃO PAULO (meu pai…) – Como a gente diz por aí, “morri”. Vejam esta moto! A indicação é do Eugenio Chiti. É feita nos EUA, em Indiana, pelas Janus Motorcycles. Cinquentinha, dois tempos, em quatro cores. E esse visual. Custa 5.300 dólares. De graça. Alguém vai nos fazer o favor de importar? Vocês já tinham visto algo mais lindo?

janus50

E O BAR, HEIN?

E

FSÃO PAULO (é bom…) – Daniel queria mais. Damerum também. Vettel, idem. Os três se encontraram hoje cedo com olheiras e voz pastosa no autódromo. “E o bar, hein?”, perguntou Raikkonen, todo animado. “Fechou cedo”, resmungou o engenheiro. Kimi, falante, retrucou: “Melhor fechar cedo o bar do que os boxes”, e depois mandou um whatsapp para o grupo que ele batizou como “Red Bomb” dizendo apenas “kkk”.

Os boxes da Red Bull fecharam cedo hoje de novo. Até reabriram no final, mas a saideira foi de apenas sete voltas. Ricardão conseguiu 25 numa manhã relativamente calma. Mas aí os sensores de temperatura começaram a apitar. Um engraçadinho da telemetria baixou um aplicativo que imita uma chaleira. Para tudo. Segundo a equipe, o problema foi o escapamento. Segundo todo mundo, superaquecimento na unidade de força Renault, popularmente conhecida como motor.

Foi dia da Force India, no Bahrein. Não por acaso, uma das equipes mercêdicas de 2014. Pérez completou 105 voltas, fez longas e curtas sequências de voltas e testou vários tipos de pneus. A Red Bull ainda nem sabe a cor das faixas dos pneus. Na Austrália, daqui a duas semanas, quando a Pirelli perguntar alguma coisa, o time de Tião Alemão vai dizer que usa qualquer um, desde que seja redondo. “Mas e os compostos?”, insistirá o piréllico. “Que sejam compostos de borracha e do que mais vocês quiserem colocar na fórmula”, ouvirá de Helmut Marko. “Não nos incomodem com essas questões.”

Pérez, a Maria do Bairro, comemorou o primeiro ligar dizendo que sua equipe “precisava muito disso”, sendo “disso” começar e terminar um dia sem dificuldades técnicas, para poder explorar tudo que o bom carro indiano tem.

Mais ainda andou Sapattos, 128 voltas, e a Williams parecia estar escarnecendo da Red Bull ao descrever tudo que foi feito hoje: teste de novos componentes aerodinâmicos, simulação de corrida com procedimento de largada e pit stops, avaliação de compostos para a Pirelli, sessão de prova de novos uniformes para mecânicos e funcionários do motorhome, testes com novas marcas de macarrão e degustação de vinhos. “A gente só experimentou novas cervejas”, falou Vettel, que trabalhou como porta-voz da equipe já que só pega o carro amanhã. “E estavam quentes, e a polícia muçulmana ainda veio dar uma dura na gente. Aí eu falei: porque não pode beber aqui e pode no bar, hein?”.

Na Ferrari, Raikkonen respondeu um extenso questionário preparado pelos engenheiros depois do treino. O dia não foi 100%, porque um defeito antes do almoço, não revelado, fez o time perder algum tempo na garagem. Como Kimi não se expressa com muita desenvoltura quando precisa falar de coisas do carro, a equipe elencou 56 perguntas técnicas e 14 comportamentais, e cada uma tinha ao lado três quadradinhos para ele assinalar as respostas: “OK”, “+/-” e “BAD”. Raikkonen respondeu “OK” para todas, o que irritou Stefano Domenicali. Ele rasgou o papel, pegou outro e disse, energicamente: “Lê direito isso aí e responde direito”. Aí Kimi assinalou “BAD” para todas, o que deixou o pessoal de análise de dados e comportamento bem confusos.

“Uma hora, uma hora!”, gritava Paddy Lowe, na Mercedes, o homem que controla o tempo. “Perdemos uma hora!” De fato, o treino de Rosberguinho terminou antes do previsto. “Não foi um bom dia”, admitiu o piloto. A ideia era simular “um dia em Melbourne”. Pela simulação, Nico não terminou a corrida. Hamilton vai tentar amanhã.

Na McLaren, céu de brigadeiro. Acertos de carro pela manhã, simulação de GP à tarde. A cada passagem pelo pitwall da Red Bull, Magnussen fazia tchauzinho e Vettel devolvia com o dedo do meio. Foram 109 dedos do meio. A Sauber ficou contente com as 89 voltas de Sutil. “O carro aguenta bem, agora precisa ser rápido”, falou. Vettel, que na condição de porta-voz da Red Bull foi à coletiva do rival, pediu para fazer uma pergunta: “Como é um carro que aguenta bem? Ele não grita quando tem alguém por trás?”. Os seguranças da Sauber retiraram o alemão, visivelmente alterado, do recinto.

A Lotus tentou um novo escapamento, Kadron, e quebrou. Volta ao antigo, Roncar, amanhã. Maldonado foi quem andou hoje. De Marussia, Toro Rosso e Caterham, não tenho grandes informações. Sei que Kobayashi andou perguntando se seria possível fazer uma nova vaquinha na internet para ele comprar um GP2.

OS DEZ MAIS

O

SÃO PAULO (vamos tentar) – Me mandaram um link do sempre ótimo “Autoentusiastas” avisando que ali havia uma lista dos dez melhores carros criados por brasileiros. Pensei em fazer a minha sem espiar a original, elaborada por Marco Antônio Oliveira. Mas não resisti e dei uma olhada.

“Criados por brasileiros” foi critério adotado sem muita ortodoxia pelo autor, e nem poderia ser diferente. A indústria brasileira, com algumas exceções, quase sempre importou projetos de fora. O Opala deriva do Opel Reckord alemão, por exemplo. Os Dodges eram todos de origem americana. Claro que muita coisa se adaptou aqui, o que explica a relação de Marco Antônio.

Assim, meu critério é ligeiramente diferente. Em vez de “criados”, optei por “produzidos” no país. E cheguei aos meus dez mais — avisando, desde já, que DKW e Fusca não entram na lista porque são hors-concours. Mandem os seus, também. A ordem é aleatória. Como o colunista do “Autoentusiastas”, eu teria muita dificuldade em ranquear essa galera toda. Alguns dessas fotos aí embaixo são meus.

GOL

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Esse foi criado aqui, mesmo. Apesar do desastre (delicioso) da primeira versão, com motor a ar de 1.300 cc, deixou uma família completa: os esportivos (GT, GTS, GTi), a perua (Parati), o sedã (Voyage), a picape (Saveiro) e o popular (1000). É o queridinho do Brasil. Desenho moderno para a época e até hoje, com suas linhas retas inspiradas nos desenhos de Giugiaro, caiu no gosto do país. Desconsidero as gerações posteriores, a partir de 1994.

PASSAT

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Muita gente acha que o Pointer, o último dos Passats, foi o melhor carro já fabricado no Brasil. Pode ser. Incluo o Passat na lista por vários motivos. Um deles, memória afetiva. Quando guiei um pela primeira vez, fiquei encantado com o câmbio, seus engates precisos e curtos. Claro que não estou falando dos primeiros, 1974, que quando você engatava a primeira entrava a ré. Depois, memória afetiva de novo, quem da minha geração não sonhou com um TS?

OPALA

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Nenhum carro sobrevive tanto tempo, de 1968 a 1992, se não for um fenômeno. E sobreviveu quase igual do começo ao fim, com as alterações estéticas de sempre — lanternas, faróis, bancos, painel, essas coisas. Também rendeu uma irmã, a Caravan, e versões cupê de duas portas e sedã de quatro, além dos inesquecíveis SS. Deu origem a uma categoria que mudou os rumos do automobilismo nacional, a Stock. Enfim, um queridão.

CORCEL

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Aqui faço uma concessão à segunda geração, a do Corcel II, já que é um projeto inteiramente nacional — com as/os filhotes Belina, Pampa e Del Rey. Deve ser incluída na lista junto com os primeiros, igualmente inovadores e belos. Eram ágeis e econômicos. Um projetinho esperto da Renault que a Ford encampou com picardia. Duas e quatro portas, sedã e cupê, uma das mais lindas peruas, a Belina (uma woodie segue sendo sonho de consumo), e verso de música de Raul Seixas. Precisa mais?

GALAXIE

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Dá para dizer que foi o único grande carro feito no Brasil. Ao Galaxie 500 juntemos todos os LTDs e Landaus. Foi durante décadas a tradução mais fiel para a expressão “carro de luxo” fabricado no país. Carregava milionários, presidentes e autoridades. Refestelar-se em seus sofás e desfrutar de sua suspensão macia era fetiche de muita gente. Continua sendo.

BRASÍLIA

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Criação genuinamente nacional, foi um dos maiores sucessos de venda da história da indústria brasileira. Era para substituir o Fusca. Acabou convivendo pacificamente com ele. Compare uma Brasília com qualquer carrinho compacto de hoje. Tirando o motor traseiro, o design é praticamente o mesmo.

MONZA

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A GM teve a felicidade de emplacar dois blockbusters no segmento de carros médios (e não muito baratos) ao lançar o Monza quando já planejava a aposentadoria do Opala — que acabou sendo adiada várias vezes, e eles acabaram se tornando contemporâneos. Tanto o hatch quanto o sedã atravessaram os anos vendendo muito e ostentando ótima reputação. Quando o primeiro foi apresentado, em 1982, era um estouro. Ótimo acabamento, inovações tecnológicas, atualizado com o que se fazia na Europa, garantia de sucesso. Não nos esqueçamos do S/R, nem do Classic. As alterações estéticas dos últimos anos, no entanto, nunca me encantaram.

UNO

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Esqueçam o nome “Mille”. Fiquemos com Uno, o carro mundial da Fiat lançado no Brasil em 1984 para acabar com a fama da montadora de Betim de fazer apenas caixinhas de fósforo simpáticas. É um grande nome para um carro, Uno. Deixou de ser fabricado agora, no fim de 2013, quase 30 anos de estrada. É muita coisa. As versões esportivas eram (são) de arrebentar corações, como o 1.5R, o 1.6R e o Uno Turbo — esse, de chorar. O Uno deu na Elba e no Prêmio, além dos utilitários da linha Fiorino, picape e furgão. É outro que ditou tendência: frente em cunha, traseira truncada, diversas motorizações, até desembocar na sua vocação de carro popular e barato com o motor 1.0 que o rebatizou como Mille. Foi o grande “mil” do Brasil. Grazie, Mille.

ESCORT

10maisescortA Ford também entrou na onda dos carros mundiais e no início dos anos 80 e mandou ver no Escort, carrinho médio invocado que vendia que nem pão quente mas que, no gosto deste blogueiro, só era legal se fosse XR3. Mas não se deve desprezar nenhuma das versões calminhas. Eram carros modernos e bem acabados, uma das características da Ford desde sempre. Ao contrário do Uno, porém, o Escort não criou família. Era ele e ele. Nada de derivados. Tinha versões mais simples, mais luxuosas, econômicas e esportivas. Mas de suas costelas não saíram peruas ou picapes.

DODGE

10MAISDODGENunca tive e nunca dirigi um. Mas meu pai teve. Um Charger R/T branco. E um SE, também. Se a família Dart inteira merece nosso respeito, até mesmo as últimas versões de nomes coxinhas como Le Baron, era o SE que me falava ao coração, com sua simplicidade e despojamento. Os bancos em padrão xadrez são maravilhosos. Não dá para deixar os mais notáveis V8 brasileiros fora desta lista. E, assim, o Dojão fecha a relação.

Quero ver se as listas de vocês serão tão boas. Duvido!

NAS ASAS

N

SÃO PAULO (para poucos) – Esse aviãozinho tem motor de Trabant. O Roberto Valle do Rio Doce mandou, espantado. “Como pode?”, perguntou. Podendo. Certos carros não se contentam apenas com o asfalto.

TEXAS AO QUADRADO

T

SÃO PAULO (e daí?) – Não pegou bem entre os caubóis texanos o fato de a F-1 marcar o GP dos EUA, em Austin, para o mesmo dia da Texas 500, da Nascar. Bernie, como sempre, deu de ombros. Entre uma corrida e outra há quase 400 km. A F-1 acha qie os públicos são diferentes.

Tendo a concordar.

JIPE DE VERDADE

J

SÃO PAULO (vai que passa) – Já falamos mais de uma vez aqui dos filmes do Jean Manzon restaurados pela Dana. O Cláudio Ainda selecionou este trechinho que faz uma elegia ao Candango que merece ser revisto. Muito legal é o Jorge Lettry no fim dando um gás no jipinho de fazer medo às SUVs 4×4 de hoje. Demais, ótimo para começar o dia!

BRASA SALVA

B

SÃO PAULO (menos mal) – Acho esses caras que usam essas máscaras daqueles anonymous, acho que é assim que escreve, meio ridículos. Mas fizeram algo que preste. O Itamar, que teve o Fusca queimado por manifestantes num protesto há algumas semanas, ganhou um carro novo. Fizeram uma vaquinha e deram a ele um Ka 1997. A notícia por si é boa. E fica melhor ainda porque a Brasília que ele ganhou de um empresário de Curitiba será poupada do trabalho pesado. Quem mandou a notícia foi Jawad Zurba Rahman.

Felicidades ao Itamar, portanto! E pode cuidar desse Ka que estamos de olho!

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Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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