CategoriaGira mondo

VAI, CAMICLETA

V

SÃO PAULO – Flávio Migliaccio e Paulo José foram heróis da minha infância. Eles, Shazan & Xerife, e sua Camicleta. Isso foi lá por 1972, 1973. A dupla surgiu numa novela, depois virou série.

Flávio não aguentou o Brasil. Espero que encontre a Camicleta e que consiga montar a bicicleta voadora.

25 de abril

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Portugal saiu das sombras com flores. Aqui, não sei o que será de nós. 

  • A Banda 365 gravou “Grândola, Vila Morena” com o Canindé ao fundo. É uma das coisas mais fodas da história. Se não viram, vejam. É foda mesmo.

MURO, 30

M

RIO (aplausos) – Hertha Berlin x RB Leipzig pela Bundesliga no dia 9 de novembro, exatamente nos 30 anos da queda do Muro. Um time da RFA, outro da antiga DDR. A cerimônia, tão simples quanto bela. Com um Trabi para alegrar nossos corações.

MURO, 30 (2)

M

RIO (verão, enfim!) – Seguindo com nossa errática série sobre os 30 anos da queda do Muro de Berlim, nosso personagem de hoje é o Ampelmann, um dos símbolos da Alemanha Oriental.

Foi um dia 13 de outubro, em 1961, que a nova comunicação semafórica criada pelo psicólogo de tráfego Karl Peglau foi introduzida no país. Tem um pouco dessa história aqui e aqui. Obrigado ao Anderson Grzesiuk pela lembrança!

Aliás, será minha próxima tatuagem.

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MURO, 30 (1)

M

RIO (Berlim, te amo) – De hoje até o dia 9 de novembro, quando se completam 30 anos da queda do Muro de Berlim, vou tentar postar todos os dias alguma coisa que ainda não tenha sido vista ou dita (por mim, que fique claro) sobre a DDR, a Guerra Fria, Berlim.

Começo com este ótimo vídeo feito pela BWM, que me foi enviado pelo Wilson Payossin pelo Facebook. Ele lembra a história real do alemão-ocidental Klaus-Günter Jacobi, hoje com 79 anos, que em 1963 ajudou a tirar de Berlim Oriental seu amigo de infância Manfred Koster, que havia sido convocado para o Exército da DDR.

Jacobi e sua família haviam fugido da Alemanha Oriental antes da construção do Muro, que se deu em 1961. Manfred ficou. Um belo dia, atravessou a fronteira com os documentos do irmão Hans, que tinha autorização para ir a Berlim Ocidental, e contou ao amigo que queria desertar.

Klaus, então, bolou o plano. Tinha uma BMW-Isetta comprada dois anos antes e possuía noções de mecânica. Fez uma modificação atrás do banco de forma a criar um espaço ao lado do motor para alojar o fugitivo. Basicamente, foi necessário tirar o tanque original de 13 litros e trocar por uma pequena lata de dois litros, com gasolina suficiente apenas para cruzar a fronteira. O problema é que Manfred tinha 1,87 m de altura.

Outras mudanças foram feitas, como cortar o para-lama para proteger o passageiro clandestino do cano de escapamento. Ninguém iria desconfiar de uma BMW-Isetta, que mal acomodava duas pessoas no seu único banco. Essa era sua esperança. Mas ele não podia ir para Berlim Oriental buscar o amigo, porque era também um fugitivo.

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Quem atravessou o carrinho para o lado comunista foi uma dupla de estudantes, dispostos a ajudar na fuga. Um foi atrás de Fusca, para dar cobertura. Em Berlim Oriental, encontraram Manfred e o levaram para uma área distante da cidade onde trocaram o tanque original pela pequena lata, abrindo espaço para o amigo de Klaus.

A operação demorou mais do que o esperado, um fazendeiro chegou a desconfiar do movimento esquisito daquele pessoal, e eles ainda ficaram uma hora na fila da inspeção suando frio. Klaus, do lado ocidental, fumava um cigarro atrás do outro, desesperado com a possibilidade de os guardas da fronteira descobrirem seu amigo. Se isso acontecesse, a vida de Manfred estava acabada.

No fim, perto da meia-noite, eles conseguiram. Os guardas, de fato, não suspeitaram que aquele carro minúsculo fosse capaz de esconder alguém.

Inspirados pelo sucesso da empreitada, os estudantes ainda conseguiriam levar mais oito alemães-orientais para Berlim Ocidental em outra BMW-Isetta transformada seguindo o projeto de Klaus. A original, que fez a primeira fuga, foi destruída. Dela sobrou apenas uma chave do compartimento do motor. Uma réplica se encontra hoje no museu de Checkpoint Charlie, na Friedrichstrasse — onde Klaus trabalha e conta sua história aos milhares de turistas que visitam o local.

A história, com gráficos das modificações, fotos e mais detalhes, está no site da BMW (em inglês).

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GRÂNDOLA, VILA MORENA

G

RIO (não demora muito, tô indo) – Hoje Portugal comemora os 45 anos do fim da ditadura salazarista com a tomada do poder pelo Movimento das Forças Armadas, naquela que ficou conhecida como Revolução dos Cravos. A senha para que ela acontecesse foi “Grândola, Vila Morena”, canção de Zeca Afonso executada pouco depois da meia-noite no dia 25 de abril pela rádio católica Renascença — essa história está contada aqui.

E é de Portugal que têm chegado as mais precisas leituras do momento pelo qual passa o Brasil. Porque aqui a imprensa — ou ex-imprensa, como costumo chamar — insiste em tratar com verniz de normalidade a sequência inacreditável de absurdos protagonizados pela família que tomou o poder graças a uma eleição que não pode ser chamada de outra coisa que não fraudulenta — o candidato favorito, Lula, foi preso sem provas e excluído do processo eleitoral por um juiz que meses depois juntou-se ao governo que ajudou a eleger.

Recomendo a leitura, sobre o tema, da entrevista feita pelo site “Migalhas” com o ex-primeiro-ministro português José Sócrates. Que define, sem meias-palavras e com enorme precisão, o tipo de gente que está levando o Brasil em passos acelerados para a Idade Média.

Viva Portugal. A cegueira, felizmente, não cruzou o Atlântico.

LÁ E CÁ

L

RIO (quanta diferença) – A Justiça argentina condenou dois ex-executivos da Ford por terem colaborado com a ditadura militar  no sequestro e tortura de pelo menos 24 sindicalistas entre 1976 e 1977. O centro de detenção ilegal ficava numa área para churrascos da fábrica de Pacheco, na Grande Buenos Aires. Anderson Grzesiuk mandou a notícia.

Aqui, a VW comprovadamente colaborou com a ditadura brasileira nos anos 70. Mas quem está investigando o caso é a própria Volkswagen.

Na Alemanha.

FORDarg

NOVOS TEMPOS

N

SÃO PAULO (pensativo) – Fala aí, macacada.

Nestes últimos dez dias, tudo que vi foi sol, areia e mar.

Nesse meio tempo um fascista de merda invadiu uma casa em Campinas e matou 12 pessoas, incluindo a ex-mulher e o filho de 8 anos.

[bannergoogle]Não deu tempo de discutir direito o tema, porque logo depois, em Manaus, 56 presos morreram num presídio de gestão privatizada. Em seguida, mais 31 em Roraima. Um pouco mais longe, um atirador matou 39 numa boate em Istambul e um outro, 5 no aeroporto de Fort Lauderdale, nos EUA. Tudo isso fez com que se esquecesse rápido do ambulante assassinado a pontapés numa estação de metrô em São Paulo porque defendia travestis que estavam sendo agredidas por valentões paulistanos.

Dá para falar de automobilismo num mundo assim?

Bem, é o que temos. Para cada vez menos gente aqui, visto que o público migrou para outras redes sociais — é a segunda vez que toco no assunto, o que pode indicar uma tendência de, de uma hora para outra, dizer apenas: acabou, por falta de leitores.

O ano do esporte a motor começou com o Dakar, como sempre, e hoje tem… corrida virtual. Me tirem os tubos. A Fórmula E abre 2017 com uma prova em Las Vegas (argh) com os 20 pilotos das dez equipes e mais dez “gamers” (é esse o nome?) que vestirão macacão e farão uma corrida em simulador. Provavelmente uns gordinhos sedentários que passam o dia diante de um computador em vez de viver a vida. Olha só a cara do mané da equipe do Lucas di Grassi.

A premiação bate no milhão de dólares. Estão todos elogiando. Ah, que bacana, se aproximar dos jovens, dos videogames, dos computadores!

Eu acho tudo, sinceramente, uma merda.

Formula E CES Las Vegas

GIRA MONDO, GIRA

G

SÃO PAULO – Nasci em 15 de julho de 1964. Portanto, depois do golpe que instalou a ditadura militar no Brasil. Vivi, na adolescência, a distensão iniciada por Geisel. Na juventude, o fim do regime, a luta pelas Diretas, a morte de Tancredo, os anos Sarney, a eleição e a deposição de Collor, a dignidade de Itamar, a farra privatista de FHC, a chegada dos trabalhadores ao poder.

Vivi, desde o início de 2003, num país melhor, num lugar em que pela primeira vez o andar de cima olhou para baixo.

Isso tudo acabou neste 31 de agosto cinzento e deprimente. É nisso que o Brasil se transformou: num país cinzento e deprimente. E, aos 52 anos de idade, vivi algo que jamais imaginei que poderia viver. Um golpe de Estado que derrubou uma presidenta honrada e eleita democraticamente.

Um país que apontou a proa para a modernidade, para buscar a redução da desigualdade, para atender às minorias, para oferecer oportunidades a quem nunca teve, mudou de rumo.

A direção é a pior possível. Perceber que o Brasil voltou às mãos de quem sempre se valeu da miséria alheia para enriquecer e subjugar os mais frágeis é algo que entristece profundamente aqueles que têm algum caráter humanista e solidário.

Tristeza talvez seja a única palavra que defina o que sinto agora. Meus filhos estão prestes a entrar na sua vida adulta num país que guinou violentamente para o conservadorismo, que sucumbiu ao poder de uma elite econômica, midiática, industrial e jurídica, elite que nunca engoliu um retirante operário como seu presidente. E que não pensou duas vezes para sabotar um projeto de país não combina com suas ambições e sua ganância desmedida.

Dias horríveis vêm pela frente. Os últimos dois anos serviram para revelar personalidades, trouxeram à tona uma clara divisão de pensamentos e visões de mundo.

Me decepcionei amargamente com amigos, colegas e parentes. E com centenas, milhares de desconhecidos. Saber, com nitidez, que pertencemos a lados tão distintos é algo doloroso. Não me refiro, aqui, a ideologias ou preferências partidárias. Seria reducionista pensar desse jeito.

Trata-se, sim, de escolher com quem ficar. Com quem alimenta o ódio de classe, exerce o preconceito e a misoginia, perpetra o desprezo, perpetua a ignorância, pratica o obscurantismo?

Jamais. Jamais.

Olhem para os lados. Vejam quem se decidiu por qual lado neste embate escancarado. Observem bem aqueles que discursam raivosamente contra aquilo que se fez no Brasil nos últimos 13 anos. Reparem na ira, no rancor, na fúria, na agressividade das palavras, das atitudes, do olhar.

As feridas abertas nos últimos meses não vão ser fechadas tão logo.

Este país se tornou um péssimo lugar para viver. Talvez tenha sido pior, em passado já levemente remoto. Mas de alguma forma, em algum momento, tivemos a impressão de que uma flor poderia brotar deste solo árido e lanhado. O sangue de muita gente precisou verter para que chegássemos a algo próximo de uma nação digna e decente.

Receio que tenha sido inútil. Porque aqueles que tinham inventado a tristeza, em vez de desinventar, reinventaram.

ALI E O BRASIL

A

SÃO PAULO (tô cansado) – A morte de Muhammad Ali, na madrugada de sábado, deixou o mundo do esporte triste e, ao mesmo tempo, orgulhoso de tê-lo tido como um de seus representantes. Nenhum atleta, na história, fez o que Ali fez. Não estou falando de boxe, apenas. Falo do ativismo — seja ele contra o racismo, seja pela paz, ao recusar-se a defender os EUA numa guerra infame no Vietnã —, da coragem na defesa de posições, na honestidade de princípios, na dignidade como homem.

Mas não serei eu a falar de Ali. Tudo já se escreveu nos últimos dias, gente com conhecimento de causa, gente que tinha o que dizer dele. De minha parte, dou apenas uma dica: leiam “A Luta”, de Norman Mailer, e assistam a “Quando Éramos Reis”, de Leon Gast. Assim se compreende o maior boxeador de todos os tempos.

Isso à parte, no que nos toca há uma passagem curiosa na vida de Muhammad Ali relativa a carros. No fim dos anos 80, ele esteve em Curitiba e em Porto Alegre interessado em… Puma e Miúua! A história com a Puma está aqui e aqui. A visita à Miura, aqui.

No fim os negócios não saíram, mas só de saber que Ali curtia esses fora-de-série brasileiros, creio que é motivo de orgulho para quem tem esses carrinhos na garagem.

alimiura

KOMBI DO DIA

K

[bannergoogle] SÃO PAULO (como pode?) – Na verdade, a foto é apenas um pretexto para indicar este link. Trata-se de uma coletânea de fotos feitas em 1967 no Afeganistão — a página foi recomendada por um blogueiro anônimo nos comentários de postagem abaixo.

O autor das imagens é Bill Podlich, que era professor universitário na época e tirou dois anos de licença para trabalhar para a Unesco em Cabul.

Nesse período, fez fotos do cotidiano do país, que parecia ser muito mais amigável e interessante do que hoje.

O Afeganistão começou a ruir quando foi invadido pela URSS em 1979. A tomada do país acabou dando origem a vários grupos de resistência, e entre eles estava a galera do Talibã — muçulmanos radicais que tomaram a frente nos combates aos soviéticos, obviamente financiados pelos EUA.

Quando a URSS se mandou, depois de levar um cacete que em algum nível se assemelha ao pau que os americanos tomaram dos vietcongues, os talibãs assumiram o poder. O país já estava destruído. Então, veio o 11 de setembro. E Bush mandou invadir o já detonado Afeganistão para derrubar os fanáticos que eles mesmos, os americanos, armaram até os dentes nos anos 80. São as voltas que o mundo dá.

Sempre que vejo essas imagens de países do Oriente Médio prósperos e felizes, me dá uma tristeza enorme — assim como quando vejo fotos do Irã pré-aiatolás, ainda que o país fosse um puteiro do xá, mancomunado com o Ocidente na tarefa de enriquecer sozinho e empobrecer o povo. É que nelas se percebe que a convivência entre as tradições islâmicas e o estilo de vida mais, digamos, moderninho e ocidental é absolutamente possível. Ninguém precisa se matar porque uma usa minissaia e a outra veste burca.

No fundo, é disso que se trata: um confronto entre minissaia e burca que encobre a verdadeira disputa por poder e dinheiro, no caso petróleo, razão de todas as guerras.

kombiafega

GOSTEI DELE

G

SÃO PAULO (hehehe) – Não tem nada a ver com nada, mas achei este vídeo num site uruguaio e resolvi dividir com vocês. O Marrocos tem um príncipe de 12 anos, Moulay Hassan. Reza o protocolo que em cerimônias oficiais é de bom tom beijar a mão do futuro monarca.

Bem, parece que o moleque não curte muito esse negócio de ficar com a mão babada cada vez que tem de aparecer eum público. Neguinho vem beijar, ele arranca na hora.

Gostei da figurinha. Será um bom rei.

ALL IN BLACK

A

SÃO PAULO (lindo) – Tem uma única equipe de esporte coletivo que admiro na vida, além da Portuguesa: a seleção neo-zelandesa de rúgbi. Semana passada, os All Blacks perderam um grande ídolo do esporte, Jonah Lomu, que morreu aos 40 anos vítima de uma rara doença nos rins. As cerimônias fúnebres aconteceram no Eden Park, histórico palco de jogos da seleção, em Auckland — uma das cidades que mais amo no mundo. O “haka” puxado por Buck Shelford, antigo capitão dos All Blacks, é uma das coisas mais emocionantes que já vi.

DICA DO DIA

D

Este vídeo super-didático ajuda a entender as tensões no Oriente Médio, por que existem muçulmanos radicais, por que o Ocidente tem de ser responsabilizado por muita coisa, por que essa região jamais estará em paz (e, por tabela, o resto do mundo).

PARIS

P

É política ou religião?

Temos de matá-los, todos?

É guerra, afinal?

Por que sentimos tanto pelos mortos de Paris e quase nada pelos do Líbano, do Quênia, do avião russo?

Quem são esses caras? O que eles querem?

Os atentados de sexta à noite em Paris finalmente apresentaram o Estado Islâmico ao Ocidente. Mais ou menos como Bin Laden fez nos EUA em 2001, mostrando ao mundo que tinha nascido um negócio chamado Al Qaeda, e que eles não estavam pra brincadeira.

Enquanto os caras do EI cortavam pescoços em vídeos do YouTube e explodiam gente no Oriente Médio, não passavam de mais um daqueles grupos de lunáticos que vivem se matando por aqueles lados. Isso não chega aqui, pensamos. E se tem japonês, inglês, italiano, australiano e americano dando a cara pra bater nos desertos iraquianos e sírios, que aprendam e da próxima vez procurem levar uma vida menos… perigosa. Sabiam o risco que corriam. É como entrar no complexo do Alemão vestido de PM e gritando que ali só tem cuzão. Vai rodar.

Mas agora parece ser mais sério. Foi em Paris. A gente podia estar lá.

Um atentado em Paris ou Nova York, ainda que com menor número de mortos do que qualquer bombardeio americano no Oriente Médio, ou qualquer ação israelense em Gaza, ou ainda do que qualquer ato terrorista do próprio EI ou outro grupo fundamentalista “naqueles lados” – estamos falando de terrorismo, afinal, seja ele de Estado, seja ele praticado por grupos não reconhecidos por organismos internacionais –, choca mais porque chegou perto. Pô, jantei ali um dia. Pô, vi um show nesse lugar aí. Pô, tomei um café nessa mesinha que aparece no vídeo.

Entendemos que se matem no Oriente Médio porque nos sentimos melhores que eles. Afinal, o Ocidente civilizado já resolveu essas questões étnicas e religiosas faz tempo. Os espanhóis dizimaram as populações que encontraram nos Andes e na América Central? Verdade. Mas os descendentes de índios nesses países não saem matando brancos que falam “buenos dias” a torto e direito. Os portugueses acabaram com os nativos no Brasil? Sim, mas nem por isso vemos botocudos avulsos esmagando crânios de lusitanos com bordunas nas padarias das esquinas de São Paulo.

Em nossa mente colonial – de colonizadores e colonizados, dominadores e dominados –, essas pendengas são coisa do passado. Convivemos bem com violências de todos os tipos, assaltos, roubos, assassinatos, mortes no trânsito, tráfico, mas olhamos com enorme estranheza para os povos do Oriente Médio e consideramos todos birutas com essa história de matar gente em nome de Alá. Que se matem, pensamos. São árabes, que se entendam.

Mas é claro que não é simples assim. Somos, no Ocidente, na grande maioria, descendentes de outra vertente religiosa que há alguns séculos fez com os seguidores do islã exatamente isso que os integrantes do EI pretendem. Não é por acaso que o autoproclamado califa do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, agora reduzido apenas a Estado Islâmico, talvez por razões mercadológicas, proclama aos seus fiéis que o próximo alvo é Roma.

Roma?

O que os italianos têm a ver com isso?

Para compreender a insanidade do EI, é preciso observar a história com um pouco mais de cuidado. Na linha do tempo da humanidade, o surgimento do Islã foi outro dia, coisa de pouco mais de mil anos. E há pouco mais de mil anos, as Cruzadas rasgavam o leste da Europa e o Oriente Médio matando, estuprando, esfolando, empalando infiéis que não acreditassem em Jesus Cristo, financiadas pelo dinheiro da Igreja – que se misturava com as monarquias reinantes.

Há motivos para os muçulmanos odiarem os católicos, para se lembrarem das Cruzadas, para quererem derrotar… Roma.

Claro que “Roma”, no caso, é algo simbólico mil anos depois. O exército do coitado do papa é formado por guardas vestidos de palhaços, incapazes de soltar o pino de uma granada. “Roma” é o Ocidente. Inteiro.

Ah, mas faz tanto tempo essa história das Cruzadas, como é que os muçulmanos ainda pensam nisso, esse negócio a gente nem sabe se existiu, será que eles não sabem que é coisa de filme de Hollywood?

Mais ou menos. Como disse, na linha do tempo da humanidade isso foi outro dia. Talvez não tenha acabado, ainda. Os fundamentalistas do EI acreditam piamente no que Maomé deixou escrito. A interpretação que fazem do Alcorão, segundo estudiosos do assunto, é bastante coerente e até erudita. Faz sentido, do ponto de vista teológico. Há uma batalha prevista, do islã contra os infiéis. O objetivo é dizimar quem não crê na mesma coisa, no mesmo deus, na palavra do profeta, nos desígnios de Alá.

Alguma semelhança com o que a igreja católica fez há alguns séculos?

Aceitam-se as barbaridades cometidas pelos cristão europeus na Antiguidade e na Idade Média como se fossem apenas páginas de livros de história. Não fazemos mais isso. Não queimamos mais ninguém em fogueiras, nem penduramos seus corpos decapitados em cruzes — quando isso acontece é o PCC, ou o Comando Vermelho, ou o Pablo Escobar, ou os cartéis mexicanos, e achamos tudo normal quando não há cunho religioso. É verdade. Nos civilizamos, por assim dizer. Mas quanto tempo isso durou? Que cicatrizes deixou?

Não estou aqui defendendo o EI, nem justificando o que esses malucos sanguinários fazem. Longe de mim. Creio que se vivesse na Idade Média escreveria algo parecido sobre os cristãos na “Gazeta de Roma” – e seria seviciado em praça pública sob as ordens de sacerdotes ungidos pelo Criador. Apenas tento entender o que está acontecendo neste mundo complexo e absurdo.

O EI é um grupo religioso milenar perfeitamente adaptado aos tempos modernos. Os islamitas fundamentalistas creem que sua religião tem de dominar o mundo, que os apóstatas serão derrotados, e que haverá uma batalha final que dará início à contagem regressiva para o fim do mundo. É um roteiro simples de explicar e de entender. Está tudo escrito. O apocalipse está logo ali, e é por isso que é tão fácil convencer jovens desenganados pela vida – no Oriente Médio em guerra, ou marginalizados em países ocidentais como a França – a se explodirem para chegar antes e passar a eternidade com sei lá quantas virgens à disposição.

Convenhamos: é uma proposta sedutora. Você está fodido e mal pago, passando fome, sendo discriminado, desempregado, sem dinheiro, com perspectiva zero de futuro. Vem um sacerdote qualquer, da religião que você aprendeu a seguir e acreditar desde criança, e garante que daqui a pouco o mundo vai acabar, mas enquanto isso não acontece, você pode ir um pouco mais cedo que vai encontrar sete gostosas te esperando peladas.

Eu me explodiria fácil.

É algo análogo ao crime no Brasil, nas comunidades pobres. Por que tantos jovens, crianças mesmo, se envolvem com o tráfico? Pela falta de perspectiva, pela tentação de conseguir tudo rápido e sem grande esforço, mesmo sabendo que é uma vida condenada a acabar cedo, muito cedo. Não tem muita diferença. Em algum momento, eles vão matar e ser mortos. Torturar e ser torturados. Igualzinho.

O EI é coisa nova, apareceu quando ainda nos preocupávamos em elogiar e aplaudir os americanos pela captura de Osama Bin Laden no Paquistão. Nasceu no território fértil para o fanatismo que se formou após as invasões do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003. Sim, os EUA podem ser responsabilizados. Não tem nada de direita-esquerda aqui. É um fato. Bem ou mal, Afeganistão e Iraque se equilibravam com suas mazelas sob o governo Talibã e a ditadura de Saddam Hussein. Eram, por assim dizer, problemas dos afegãos e dos iraquianos. Havia Estados consolidados, ainda que comandados por maníacos alucinados. Mas, como sempre, os EUA acharam que tinham de meter o bedelho. O 11 de setembro motivou os ataques aos talibãs – que foram financiados pelos americanos quando a URSS invadiu o país, diga-se. A falácia das armas químicas levou à caça de Saddam. Os dois países ficaram sem governo. Na vizinha Síria, milícias eram igualmente financiadas para derrubar Bashar al-Assad – que segue firme e forte no poder.

O que esperar num cenário desses, de miséria, desolação, violência, dominação estrangeira? A coisa mais fácil do mundo é surgir um grupo de fanáticos que pega um livro escrito por um enviado de deus para procurar um caminho. E no livro está escrito: vamos acabar com essa merda até o dia do fim do mundo.

Há uma diferença essencial entre o EI e a Al-Qaeda. A organização de Bin Laden, ainda que com métodos bastante questionáveis – como jogar um avião num prédio –, tinha e tem uma pauta, digamos, política: a expulsão dos não-muçulmanos da Península Arábica, o fim de Israel, a destruição das ditaduras apoiadas pelos EUA na região.

O EI, não. Primeiro, que se proclama um Estado, e um Estado precisa ter um espaço bem determinado, o que leva à necessidade de conquistas territoriais. Depois, é o bendito apocalipse que move seus seguidores, que estão à espera do Mahdi, a figura que vai liderar os muçulmanos à vitória sobre os exércitos de Roma nas planícies de Dabiq, na Síria. Aí começa a contagem regressiva para o fim do mundo, até que surja o “anti-messias” e o confronto final aconteça em Jerusalém e aí acaba a porra toda.

Mas o EI não é só um bando de lunáticos à espera do fim do mundo. Os caras são espertos, sabem usar as redes sociais e seduzem jovens do mundo inteiro para sua causa simples de compreender — de novo, derrotar os exércitos de Roma e esperar o fim do mundo. São espertos porque, em contraste com as leis medievais da Sharia – que preveem apedrejamentos, amputações, mutilações, escravidão e o caralho a quatro –, promovem um estado de bem-estar social que os governos que combatem já não conseguem prover, por caóticos e ilegítimos que são, empoderados por potências estrangeiras.

Aqui vale um parêntese. Engana-se quem pensa que o EI só ataca aviões russos e “soft targets” como lanchonetes, bares, restaurantes e casas de shows. Os caras não perdoam nenhuma corrente de pensamento islâmico que não seja sua interpretação literal (e radical) do Alcorão. Chegam até a se defrontar com alguns conflitos de consciência. Os curdos, por exemplo. O que fazer com eles? Matá-los porque são muçulmanos “errados”, ou escravizá-los porque são pagãos? Tem de ver isso aí… Os muçulmanos considerados apóstatas, infiéis, que não seguem a Sharia na literalidade que o EI propaga, se fodem de canudinho. A questão é: qual a interpretação mais legítima dos escritos de Maomé? A literal do EI, ou a mais moderada de outras correntes islâmicas, como as dos sunitas, xiitas, wahabitas (bem radicais, diga-se, dominante na Arábia Saudita, mas um poço de hipocrisia, porque os milionários sauditas sabem bem como dar uma enganada em Alá)?

Mas eu falava do bem-estar social. Se é verdade que o Alcorão – escrito, como a Bíblia, em tempos bicudos, turbulentos, o que explica sua violência e belicismo – encoraja e justifica guerras e atrocidades, olho por olho, dente por dente, é verdade também que prega a justiça social e econômica para todos, o que se traduz em casa, comida, saúde, trabalho. Nos territórios hoje controlados pelo EI, isso existe, de certa forma. Eles são de fato o Estado. Cobram impostos, instauram tribunais, proveem serviços de educação, saúde, telefonia e o diabo a quatro. Onde não havia ninguém, há alguém olhando pelos bons muçulmanos. Ainda que seja um bando de doidos. Mas se Alá está com eles, que seja.

O exército de soldados que compõem a linha de frente do EI hoje tem algo entre 30 mil e 50 mil combatentes, os jihadistas – aqueles que lutam. Acreditam cegamente no que o califa diz – a propósito, o nome dele é Abu Bakr al-Baghdadi, presumivelmente nascido em 1971 no Iraque, considerado o substituto de Alá na Terra, e por isso prende e manda soltar e mija de porta aberta na mesquita. Al-Baghdadi sucedeu o fundador do grupo, Abu Musab al-Zarqawi, um ex-funcionário de videolocadora da cidade jordaniana de Zarqa — nome de batismo, com o perdão de Alá, Ahmad Fadhil. Era um jovem problemático, tatuado, beberrão e usuário de drogas que foi mandado por sua mãe para uma escola islâmica de bons modos para ver se endireitava. Mas, em vez disso, se pirulitou para o Afeganistão, onde conheceu a galera da Al Qaeda. Radicalizou o discurso, adotou métodos violentíssimos de terror, ocupou o vácuo de governo no Iraque e assim nasceu o EI. Al-Zarqawi foi morto em 2006 por um ataque aéreo americano.

O EI é bem armado, equipado e rico. Seu arsenal é composto de espólios de guerra – tudo que tomou dos exércitos do Iraque e da Síria – e de armas obtidas junto a traficantes internacionais em troca de petróleo que, igualmente, é comercializado no mercado negro. Sim, estamos falando de economia, também. Mesmo as causas mais sacras — como matar todos os católicos e judeus do planeta, ou escravizá-los e estropiá-los, para depois esperar o fim do mundo — exigem dinheiro.

Uma forma mais inteligente de minar o EI seria justamente cortar essas linhas de financiamento, e duvido que o Ocidente não saiba quem abastece os caras, quem compra seu petróleo, quem vende suas armas. Esmagar os caras com bombardeios aéreos é uma estratégia que me parece estúpida. Matam-se muitos civis e muitas vezes se erram os alvos. Um combate por terra, com todo o poder bélico de nações ocidentais, traria resultados. Mas quem é que quer um novo Vietnã, corpos de jovens voltando da Terra Santa em sacos plásticos?

É preciso cessar essa violência, disso não há dúvidas. Mas é preciso também tentar entender por que, no século 21, crenças e práticas medievais ainda encontram milhares de pessoas dispostas a morrer para defendê-las. É preciso assumir que a miséria e a violência do Oriente Médio têm um componente de culpa das potências ocidentais que está longe de ser desprezível e não pode ser ignorado. Foi o colonialismo europeu que esmagou populações inteiras depois das duas grandes guerras, tomando territórios imensos, roubando seu petróleo, explorando, escravizando, promovendo genocídios, estabelecendo fronteiras, criando países artificiais. Isso foi feito aqui também na era dos descobrimentos: ouro, prata, ferro, tudo levado à custa de matança e barbárie. Depois, o Ocidente, EUA à frente, se associou às teocracias locais para controlar o preço internacional do precioso líquido negro que move a humanidade. É só dar um pulo na Península Arábica para entender o que estou dizendo. Países (na verdade, famílias) que viraram amigos do Ocidente, como a Arábia Saudita e todos os Emirados Árabes – Catar, Dubai, Abu Dhabi, essas merdas –, são ricos, modernos, cheios de prédios lindos e de Ferraris e Lamborghinis na rua. E todos muçulmanos. Muçulmanos “do bem”, porque são aliados políticos e financeiros. Ali do lado, no Iêmem, na Jordânia, na Síria, no Iraque, no Líbano, na Palestina, é uma pobreza de dar dó, a desgraça em estado puro.

Explica-se, assim, o ódio. Explica-se, assim, a facilidade com que se convence um jovem muçulmano de que a vida na Terra é uma tragédia, e que se é assim, é porque aquilo que Maomé escreveu não é respeitado pelo resto do mundo, e que é preciso lutar até o fim para derrotar os infiéis. Aqui, voltamos ao início deste texto. Não é muito diferente do que os cristãos pregavam há alguns séculos – e alguns séculos nem é tanto tempo assim.

De tudo que vem acontecendo no mundo, a única conclusão a que chego é a de que a Idade Média ainda não terminou. E, por isso, a guerra santa também não. Até o dia em que a bosta da humanidade entender que não há santos, não há deuses, não há nada que justifique uma morte sequer, seja ela no Quênia, na Nigéria, no Líbano, na Noruega, na favela da Vila Prudente, ou em Paris.

Porque se os há, santos e deuses, o que mandaram para cá veio com defeito.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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