Arquivojunho 2016

NADA COMO A VIDA

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SÃO PAULO (aprendam, crianças) – Sou um ácido crítico de quem acha que tudo que se faz no mundo virtual é espetacular e fantástico, que diante de uma tela, um teclado, um mouse, um controle de videogame, consegue-se reproduzir a realidade. Às vezes troco umas farpas com a galerinha de corridas virtuais, a turma que acha que, de verdade, um sujeito capaz de se sair bem num simulador pode ser, automaticamente, um bom piloto aqui fora.

[bannergoogle]Acho uma puta cascata. Ah, mas a Nissan e a Sony e o PlayStation… A Nissan, a Sony e o PlayStation fazem uma coisa muito interessante do ponto de vista de marketing. Partem de uma massa de, sei lá, um milhão de pessoas, para “selecionar” possíveis pilotos em função de seus desempenhos em videogames.

Claro que de uma massa de um milhão de pessoas vão aparecer três ou quatro capazes de se tornarem pilotos na vida real. Isso não depende do videogame. Se você pegar um milhão de marceneiros, padeiros, ourives ou estafetas, também é capaz de encontrar três ou quatro que, bem treinados, podem guiar um carro de corrida.

Mas, aí, pinga um egresso do PlayStation num campeonato qualquer e pronto: lá vem a turba do X, quadrado e bolinha, que gasta a vida conectada a um console, afirmar sem medo de errar que videogames podem, sim, produzir pilotos.

Bom, faço esta enorme digressão, que já fiz outras vezes, para mostrar o vídeo postado nos comentários pelo blogueiro Mickey Mouse. A Jaguar simula um simulador e…

E aí acontece o que vocês verão abaixo. Lamento, jovens. Na vida real, o buraco é mais embaixo.

SCHUMAQUINHO

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SÃO PAULO (muita curiosidade) – Falamos ontem de Mick Schumacher, falemos de novo. Depois de ler a matéria no Grande Prêmio, fiquei curioso pelos resultados globais do moleque na F-4. Como já informado, ele disputa dois campeonatos da categoria, na Itália e na Alemanha. É pauleira. Sempre rodadas triplas, uma corrida em cima da outra.

No Alemão, Mick é vice-líder depois de quatro etapas — 12 corridas, portanto. Tem 182 pontos, contra 202 do australiano Joey Mawson. Os resultados são bem sólidos. Em Oschersleben, na abertura da temporada, em abril, foram dois quartos lugares e uma vitória. Na sequência, em Sachsenring, quarto, segundo e quarto. Depois, em Lauzitsring, o melhor desempenho até agora: duas vitórias e um sexto. De volta a Oschersleben, há cerca de dez dias, terceiro, segundo e 26º. É candidato ao título.

[bannergoogle]No Italiano, o filho do maior de todos os tempos também ocupa a vice-liderança, com 108 pontos. O líder, com 148, é o argentino Marcos Siebert. O desempenho é igualmente consistente. Na estreia, em Misano, duas vitórias e um quarto lugar. Da etapa de Adria, ele não participou. Foi no começo de maio, quando surgiram fortes boatos sobre uma possível piora no quadro de saúde de seu pai, e isso explicaria a ausência do filho. Na verdade, a Prema, sua equipe, tinha priorizado as provas do Alemão de uma semana antes. Em Imola, segundo, primeiro e quarto. Também luta pelo título.

Dezoito provas, portanto, em seis rodadas triplas em dois países. Ganhou um terço delas e subiu ao pódio em outras quatro.

É para ficar de olho. Sem forçar barra nenhuma, sem colocar o carro à frente dos bois. Mas chama a atenção a paixão do moleque pelas corridas. “Correr é o que eu sonho. Atualmente, correr está constantemente nos meus pensamentos. É exaustivo, é difícil, é desafiador, é complicado. É simplesmente maravilhoso”, diz nesta reportagem publicada no site da Pirelli, que fornece pneus à F-4.

Gosto de quem gosta do que faz. Vamos continuar seguindo o menino. Sua história, seja qual for o desfecho, será necessariamente muito rica.

FUTURO SOMBRIO

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[bannergoogle]SÃO PAULO (não quero ver isso) – Outro dia falamos aqui da Roborace. O pessoal da Fórmula E pretende colocar os carros sem piloto na pista ainda neste ano. Por enquanto, só exibição. Mas a ideia é criar um campeonato em breve, muito breve.

OK. É o futuro, talvez. Um carro sem motorista, guiado pelo Waze ou pelo Google, cheio de sensores, câmeras, com WiFi, telas de led, conexões USB, essas merdas todas. A gente chama pelo celular. Entra, diz para onde vai, e o carro vai. Cobra no cartão. Se tiver alguém junto, divide a conta.

Só que isso pode acabar com as corridas de verdade. A opinião, mais do que pertinente, é de Lucas di Grassi. Para ele, na medida em que as pessoas vão deixar de dirigir, obviamente o interesse por competições em que pessoas dirigem não existirá. Corrida de carro vai ser algo tão excêntrico e extemporâneo como, por exemplo, o venatio ou arco e flecha com uma maçã na cabeça do incauto como alvo.

Faz todo sentido. Não há mais bestiários enfrentando feras em anfiteatros romanos, nem quem se disponha a levar uma seta no meio da testa à guisa de competição. Cada época tem a modalidade que merece. Sem motoristas na vida cotidiana, a tendência é que qualquer esporte que deles faça uso tenda à extinção.

Lucas também critica o excesso de tecnologia nas categorias de ponta que, a cada dia que passa, tira dos pilotos a autonomia para controlar seus carros. O piloto não pode se tornar irrelevante, diz o brasileiro que, neste fim de semana, decide o título da Fórmula E em Londres.

De novo, está coberto de razão.

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CRISPIM & JAN

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SÃO PAULO (espetaculares) – Duas lendas estiveram no “Fox Nitro” esta semana. Falaram dos bons tempos, das Mil Milhas de 1966, do Emerson que achava que comendo cenoura enxergaria melhor à noite, das corridas de antigamente… Como perder?

S.O.S. KARMANN-GHIA

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SÃO PAULO (que horror) – Reproduzo abaixo texto que acabo de receber da noiva, repórter da CBN:

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC decidiu entrar na Justiça com pedido de falência da empresa de autopeças Karmann-Ghia, por abandono de patrimônio. A decisão foi tomada após a análise do departamento jurídico e aprovação dos trabalhadores, que foram consultados em assembleia realizada na segunda-feira (27). A medida foi considerada a alternativa mais viável para que se possa iniciar um processo de retomada das atividades na fábrica. “Estamos certos de que a abertura do processo de falência é a única forma de garantir os direitos dos trabalhadores do ponto de vista legal. O interesse maior é que a empresa continue viva”, explica Rafael Marques, presidente do Sindicato. A medida judicial deverá ser proposta nos próximos dias.

Na assembleia, os trabalhadores também decidiram pela continuidade do movimento de luta e ocupação da fábrica, que completa hoje 47 dias. “A ocupação é importante para garantir a permanência do maquinário e, assim, poder defender o que é de direito dos trabalhadores. É com a luta e a união dos companheiros que vamos encontrar soluções e exigir respeito”, reforça Marques.

A ocupação teve início em 13 de maio, após a Justiça dar parecer favorável aos antigos proprietários da empresa, confirmando o não cumprimento pela direção atual dos pagamentos previstos na negociação de compra da fábrica. O impasse jurídico gerou, na prática, uma indefinição em relação à propriedade da autopeças e agravou a situação da empresa, que já vinha sofrendo com a crise econômica e problemas de má gestão. Atualmente não é possível nem mesmo saber quem são os reais donos da Karmann-Ghia. A empresa está abandonada.

Os trabalhadores estão sem salários desde o final de 2015, o último valor pago foi o correspondente a 25% do salário de um mês, depositado em dezembro. Marques reforça que o Sindicato tem também dialogado com várias empresas credoras da Karmann-Ghia na busca de soluções: “O maior patrimônio da empresa são os trabalhadores. Não estamos pensando somente nos direitos, mas em construir alternativas e voltar a operar”.

Lembro que há alguns anos se falou até em um novo Karmann-Ghia, que poderia sair de um concurso público. Foi em 2013, muita gente participou e o ganhador foi esse aí embaixo.

Não deu em nada. Gostaria de saber dos vencedores se eles, ao menos, receberam o prêmio.

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AS VACAS E AS GALINHAS

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SÃO PAULO (coitadas) – Bem, o “Paddock GP” fala de tudo, vocês sabem. Hoje teve Indy, Nascar, Stock, MotoGP, F-3, F-1 e no fim contei umas historinhas sobre as vacas e as galinhas e o leite e os ovos de Spielberg. Eu gostava muito do GP da Áustria. Era uma coisa meio rural.

MINARDI, CARISSIMA!

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SÃO PAULO (que época!) – E teve o Minardi Historic Day no fim de semana em Imola — me lembra o Rafael Rego. Tem algumas fotos aqui, mas a galeria publicada na página do autódromo no Facebook é imbatível. Vários ex-pilotos de uma das equipes mais queridas de todos os tempos foram visitar Giancarlo Minardi e matar as saudades daqueles tempos luminosos dos anos 80 e 90 — OK, começo deste século também.

Numa passadinha rápida pelas fotos, identifiquei Pierluigi Martini, Jarno Trulli, Giancarlo Fisichella, Tarso Marques, Luiz Pérez-Sala, Gianni Morbidelli… Correndo o risco de cometer alguma injustiça, não encontrei Luca Badoer — se alguém encontrou, avise. Outros grandes minardistas como Fernando Alonso e Mark Webber deveriam ter aparecido. Apenas acho.

Mas fiquemos com a imagem de quem construiu tudo isso na unha. Grande Giancarlo!

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SETTE NA TORO

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SÃO PAULO (que aproveite) – Muito boa a notícia que Sergio Sette Câmara recebeu hoje. Vai fazer um dia de testes com a Toro Rosso em Silverstone logo depois do GP da Inglaterra, em julho.

O mineiro de 18 anos faz parte do programa de desenvolvimento de jovens pilotos da Red Bull. Com a marca, corre na F-3 Europeia. A Red Bull não escolhe seus pilotos à toa.

Boa sorte para o menino, pois.

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BRAWN, O SUMIDO

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SÃO PAULO (esse é bom) – Lembram de Ross Brawn? Um dos mais bem sucedidos engenheiros e estrategistas da história da F-1, arquiteto dessa Mercedes que hoje ganha tudo — ela nasceu da Brawn GP, não se esqueçam –, Ross diz que não recebeu nenhum proposta para voltar à categoria. E que, também, não sabe se voltaria. O regime de trabalho é pesado demais. Aos 61 anos, Brawn está curtindo a vida.

Mas é um desperdício de talento. Um cara que poderia ser muito útil numa reestruturação geral da F-1. Que está precisando.

BERNIE, O JUSTO

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SÃO PAULO (só vendo) – E não é que Bernie Ecclestone, num surto de justiça, andou dizendo que pode rever a distribuição da grana de TV da F-1? Ele citou o esquema da Premier League como um bom exemplo de reduzir as desigualdades na categoria. No futebol inglês, 50% do dinheiro é dividido igualmente entre todos os clubes. 25% são proporcionais ao desempenho da equipe no campeonato anterior. E 25% são proporcionais à audiência de TV que cada time proporciona. Assim, a diferença entre o que recebem os clubes mais ricos e populares e o que ganham os mais pobres e de torcidas menores não é um abismo — isso permite, por exemplo, que uma equipe como o Leicester conquiste o título, como nesta temporada.

[bannergoogle]Na F-1, nem sei dizer qual a diferença da grana que pinga nos cofres da Ferrari e dos caraminguás recebidos, sei lá, pela Sauber. É alguma obscenidade, certamente. Que está levando muitos times a um estado falimentar — é só olhar para a quantidade de equipes que fecharam as portas nos últimos anos. Não faz sentido tornar os ricos mais ricos e os pobres, mais pobres. Não é preciso ser nenhum gênio para perceber isso, mas é o que a F-1 tem feito ao longo de sua história.

Pode ser que alguém reclame. Pode ser que as declarações de Ecclestone sejam apenas mais uma bravata. Pode ser que nada mude.

Mas é essencial que mude.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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