Arquivojunho 2019

ZÉ TWEG (3): MAX ÉPICO

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Max comemora, Leclerc lamenta: corrida histórica do holandês

SÃO PAULO (já voltam0s) – Foi uma das maiores vitórias da história da Fórmula 1. Verstappen ganhou o GP da Áustria mostrando mais uma vez um talento transbordante depois de uma largada ruim, quando caiu da segunda para a sétima colocação. A Honda, agora com a Red Bull, voltou a vencer depois de 13 anos — a última tinha sido com Button na Hungria em 2006. Foi o sexto triunfo da carreira do holandês.

E Leclerc, segundo colocado, pode fazer o bico que quiser e reclamar com o arcebispo de Viena, se achar que deve. Ele perdeu uma corrida ganha. Com a vantagem que tinha desde o início e após a janela de pit stops, não tem cabimento não controlar a diferença para os rivais para ter alguma tranquilidade nas voltas finais.

OK, Max estava voando, mas tem momentos em que é preciso voar também. Nem que seja por três ou quatro voltas. O monegasco não perdeu a prova de Spielberg na ultrapassagem que levou na volta 69, a duas do fim. Perdeu ao não impor um ritmo que lhe permitisse ter segurança na fase derradeira da corrida. E a Ferrari deveria monitorar melhor as coisas. Parece não ter percebido Verstappinho na pista. Teve olhos apenas para a Mercedes. Quando foi ver, era tarde.

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Um bom indicativo de como Charlinho deitou na pole e na liderança, talvez acomodado pelo fato de ter o pacato Bottas atrás e Hamilton fora da briga por conta de um pit stop longuíssimo para trocar o bico, é sua diferença para Vettel, quarto colocado: 16s886 ao final da corrida. Só isso. E Sebastian largou em nono. Além de ter feito duas paradas, contra apenas uma do jovem de bochechas rosadas.

O resultado da corrida só foi oficializado três horas depois da quadriculada num comunicado cuja decisão se resumiu a três palavras: “No further action”. Ainda bem. O bate-rodas de Leclerc e Verstappen foi levado à torre de controle nestes tempos de VAR até para chupar picolé. Charles achou que Max deixou o carro espalhar e o jogou para fora da pista. O holandês, que enlouqueceu as arquibancadas tingidas de laranja por seus torcedores, devolveu: “Se não pudermos fazer isso, que sentido tem estar na F-1?”, perguntou.

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Os três que ganharam troféus em Spielberg compuseram o pódio mais jovem da história: Verstappen, Leclerc e Bottas têm em média 24 anos e 156 dias de idade. Os dois primeiros, 21. Max nasceu em 30 de setembro de 1997. Charles veio ao mundo 16 dias depois.

Não foi um pódio exatamente festivo, porque Leclerc estava emburrado até a alma. Como no Bahrein, onde perdeu uma corrida fácil porque seu motor teve problemas. Na Áustria, bobeou — mas vai se queixar até o fim de seus dias da manobra do piloto da Red Bull e da dificuldade que teve com os pneus na escaldante Spielberg, 35 graus e um sol de ferver o leite na teta da vaca.

A prova foi muito boa desde o início. Verstappen deixou entrar o ponto morto na largada e caiu de segundo para sétimo. Hamilton, Norris e Raikkonen se esfregaram num ritmo alucinante e Vettel saltou de nono para sexto na primeira volta, entrando na brincadeira. Na sétima volta, estava em quarto. Verstappinho se recuperou como deu e se estabilizou em quinto até começarem os pit stops.

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Com pneus macios, Vettel parou na volta 22 e o pit stop foi um desastre — os mecânicos não tinham preparado os pneus quando ele chegou aos boxes. A opção foi pelos duros, como todo mundo. Leclerc veio na volta seguinte e Hamilton assumiu a ponta porque Bottas também já tinha parado. Quando fez seu pit stop, Lewis teve de trocar o bico do carro, danificado numa zebra na volta 27. Verstappen veio duas voltas depois — tinha largado de médios, como os prateados. Ele e Vettel ganharam a posição do inglês e depois da janela de paradas a ordem era Leclerc, Bottas, Vettel, Verstappen e Hamilton.

Charlinho mantinha-se seguro oscilando sua diferença para Bottas entre 4 e 6s. Com os pneus duros, Max, em quinto, começou a descontar o tempo para Vettel, que não conseguia um bom ritmo com essa borracha. Na volta 50, chegou e passou. O alemão foi imediatamente para os boxes e espetou pneus macios para a fase final da prova, caindo para quinto. A torcida delirou.

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Mar laranja: a torcida de Verstappen comemorou cada ultrapassagem como se fosse um gol

Na volta 56, Verstappen chegou em Bottas e passou por ele com uma facilidade inacreditável. O piloto da Mercedes contou depois que tinha problemas de superaquecimento do motor, como Hamilton. “Não conseguimos correr hoje”, disse o chefe do time alemão Toto Wolff. “Expusemos nosso calcanhar de Aquiles. Apenas tentamos nos manter vivos resfriando o motor.”

A 15 voltas do fim, Leclerc tinha 5s1 de vantagem para Max. Vettel, um pouco mais atrás, vinha voando para cima de Hamilton com o carro muito mais rápido. Verstappen virava tempos 1s melhores que o monegasco na caça à Ferrari. Na volta 66, chegou. À frente de Leclerc estava a outra Red Bull, de Gasly, que saiu do caminho para não permitir que o ferrarista abrisse a asa. Max, a menos de 1s, abria a sua para tentar o bote.

Foram voltas eletrizantes. Na 68ª, Verstappen tentou e Leclerc se defendeu lindamente. O autódromo estava de pé. Na volta seguinte, foi para cima decidido, viu o espaço deixado pelo rival, mergulhou na freada da curva 3, se tocaram, e levou. Na mesma hora, Vettel passou Hamilton e reassumiu o quarto lugar. O autódromo veio abaixo.

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O momento decisivo: Verstappen “espalha” e assume a liderança para desespero de Leclerc

“Eu achei depois da largada que já era”, falou Verstappinho com um sorriso de orelha a orelha. “Mas após a parada nosso ritmo era muito bom e consegui atacar todo mundo. Estou muito feliz pela equipe e pela Honda”, concluiu. Todos ficaram felizes — exceto, claro, a turma da Ferrari. Ainda que a decisão dos comissários tenha demorado uma eternidade, fez justiça a um piloto que lutou até o fim. E que não fez nada de errado. Leclerc foi juvenil quando abriu para fazer a tomada da curva 3 deixando um buraco enorme para Max se atirar. A “espalhada” na saída da curva foi normal e todo piloto faz isso. Não é proibido.

Depois de um GP modorrento na França, domingo passado, a Áustria ofereceu um espetáculo de encher os olhos. Mas não se deve tomar essa corrida como padrão. Exceção define melhor a prova do que redenção. Tipo de pista, calor, posições de largada da Mercedes, problemas de Hamilton com o bico e a temperatura do motor, Vettel em nono no grid, tudo isso contribuiu para montar um roteiro inesquecível. Que teve, ainda, atuações ótimas da McLaren (Norris em sexto e Sainz Jr. em oitavo, este depois de largar em 19º), da Alfa Romeo (com os dois nos pontos, Raikkonen em nono e Giovinazzi pontuando pela primeira vez em décimo) e do próprio Vettel, incansável na luta por um pódio que não veio por meros 0s650.

A vitória de Verstappen interrompeu a série de dez triunfos seguidos da Mercedes (oito neste ano) e levou o holandês para o terceiro lugar no Mundial, com 126 pontos — ele ainda fez o ponto extra da melhor volta. Hamilton segue firme na liderança com 197, 31 à frente de Bottas. É provável que as coisas voltem ao normal em Silverstone. Mas que deu gosto de ver essa corrida, deu. E é com ela na retina que ficaremos nas próximas semanas, até chegar o GP da Inglaterra.

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ZÉ TWEG (2): DÁ-LHE CHARLINHO!

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Mercedes, Ferrari e Red Bull: três equipes diferentes nas três primeiras posições, o que é bom (mas Hamilton foi punido)

SÃO PAULO (jornalismo dinâmico) – Charlinho foi o cara do sábado em Spielberg. Aliás, muito legal o Sérgio Maurício, do SporTV, chamá-lo de Charlinho na transmissão. Fosse eu um escriba pretensioso e metido a besta, diria que ele lê este modesto blog. Mas é pretensão, mesmo. O que acontece é que temos o mesmo carinho por pilotos jovens, já vimos tantos…

E Lec-Lec é a coisa nova desta temporada, que já é da Mercedes e de Hamilton. Tem altos e baixos, naturais da juventude, mas é um menino diferenciado, como se diz. Chegar a uma equipe como a Ferrari e não se intimidar com o companheiro de equipe, um tetracampeão mundial, não é para qualquer um.

O monegasco das bochechas rosadas fez sua segunda pole no ano. A outra foi no Bahrein, onde não ganhou porque o carro pifou no final. Tem uma chance razoável de conseguir sua primeira vitória amanhã, mas muita coisa vai depender dos pneus. Ele larga com macios. A dupla da Mercedes e Verstappinho, com médios. Vão parar mais tarde, e podem fazer apenas um pit stop. Os que largam com macios, pelas simulações da Pirelli, não descartam duas paradas. Mas não é a melhor opção, não.

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O dia foi marcado por mais uma desgraça pessoal para Vettel. No fim do Q2, seu carro não ligou mais. A Ferrari detectou uma queda na pressão de ar no sistema pneumático que aciona alguns componentes do motor. Seus mecânicos tentaram loucamente consertar o defeito, mas não houve tempo hábil. Sebastian ficou sem tempo no Q3. Ao sair do cockpit, fez questão de agradecer a cada integrante da equipe pelo esforço. “Não é fácil tirar tudo e trocar”, concedeu.

Leclerc virou em 1min03s003 na sua melhor volta e foi 0s259 mais rápido que Hamilton, o segundo. “Subestimamos a Ferrari”, reconheceu o inglês, que perdeu três posições no grid por decisão da direção de prova. No Q1, ele se atrapalhou com mensagens de rádio da equipe. Seu engenheiro avisou que Giovinazzi e Raikkonen vinham em voltas rápidas e ele teria de dar passagem. “Vi um deles passar e não vi o outro”, desculpou-se o líder do Mundial. Quando percebeu que havia mais uma Alfa chegando, atravessou a pista na frente de Kimi e recebeu de volta um dedo do meio do finlandês. Algumas horas depois veio o pênalti merecido.

A antiga Sauber, de qualquer forma, fechou bem o dia com seus dois pilotos entre os dez primeiros. Raikkonen foi o sétimo e Giovinazzi, o oitavo.

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Hamilton cruza a pista na frente de Kimi: cai de segundo para quinto no grid com a punição

Quem se destacou na tarde ensolarada e quente da Áustria foi Magnussen, quinto tempo. Vai perder posições por troca de alguma coisa, mas achou uma volta espantosa com a Haas. Verstappen ficou em terceiro (mas dividirá a primeira fila com Leclerc) e Bottas, com sua habitual discrição, terminou a classificação com o quarto tempo, também subindo uma por conta da punição ao seu parceiro. Norris em sexto e Gasly em novo foram os outros que se colocaram no top-10. O grid completinho está no Grande Prêmio, com todas as punições atualizadas — Albon, Hülkenberg, Russell, Magnussen, Hamilton e Sainz Jr. perderam posições por motivos diversos.

Teremos mais uma vitória da Mercedes amanhã? Se os prateados conseguirem, igualam o recorde de 11 vitórias seguidas da McLaren em 1988 — são duas no fim do ano passado, mais oito nesta temporada. Pode ser que sim, em ritmo de corrida a gente conhece Hamilton e os alemães são eficientes o bastante para reverter quadros desfavoráveis. Mas com Lewis largando mais atrás, vai ser complicado para ele impedir que Charlinho ganhe pela primeira vez na categoria. Tudo dependerá de uma largada boa, para se colocar rapidamente em condições de desafiar a Ferrari.

Uma certeza: vai ser uma corrida melhor que a de domingo passado na França.

ZÉ TWEG (1): CALOR E PANCADAS

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Raikkonen em sétimo à tarde: escolhi a foto porque achei bonita

SÃO PAULO (parte 1 resolvida) – Fez muito calor hoje na região de Spielberg, mais de 30 graus de tarde, e ventou às pampas no pé dos “alpes andinos”, como disse uma vez um locutor de rádio com quem trabalhei. Ele usava também, alternativamente, “andes alpinos”.

Com isso, o melhor tempo do dia foi registrado na sessão matinal, Hamilton virando na casa de 1min04s838. De tarde, Leclerc foi o amis rápido, mas andou na casa de 1min05s.

O dia foi marcado pelas duas pancadas de respeito no segundo treino livre. Primeiro, Verstappinho. Depois, Bottas. O finlandês arregaçou o carro e o impacto de frente na barreira de contenção chegou a 23G. Viva o HANS.

[bannergoogle]Outra marca desta sexta-feira foi o tanto de asas dianteiras quebradas ou lascadas nas altas zebras austríacas. Haja silvertape para remendar tudo.

Albon e Sainz Jr. já sabem que vão largar atrás domingo por conta de trocas de motores. E o mercado de pilotos começou a se agitar. Começaram a falar em Ocon na Renault com Hülkenberg na Red Bull. Dançaria Gasly, no caso. Outra história interessante vincula Verstappen à Mercedes. Dançaria Bottas.

São boatos em estágio inicial de elaboração. Por enquanto não passam disso, boatos.

FOTO DO DIA

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Garry Paffett e Stoffel Vandoorne (a dupla com mais letras dobradas da história da humanidade) concluíram ontem dois dias de testes em Varano, na Itália, com o carro que a Mercedes está fazendo para estrear na Fórmula E na temporada #6 (que começa no final deste ano). Acho que os alemães entram com força. O que não é novidade nenhuma. Eles têm muito a ensinar.

Varano, 24.-25. Juni, 2019

KOMBI DO DIA

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RIO (gostamos) – Ah, que linda! Segue a mensagem do José Antonio, que mandou a foto.

Boa tarde Flavio, sou seu fã, acompanho as matérias do seu blog desde o começo. Estive um tempo atrás em um lava-rápido no bairro do Jabaquara, em São Paulo, e vi essa belezura estacionada. Sabendo que você, como eu, gosta de carros antigos e aviões, decidi enviar-lhe a foto caso você ache legal postar em seu blog. Desculpe enviar através do seu e-mail mas eu sou como o Sebastian Vettel, não tenho nenhum tipo de rede social, quando muito uso o WhatsApp pela praticidade. Um grande abraço.

Deu saudade da VASP, ah, se deu… Não sei se é original, mas ficou demais.

SOBRE ONTEM DE MANHÃ

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Jornal holandês: não precisa nem do tradutor do Google

RIO (tá bom) – A nova dobradinha da Mercedes no Mundial, sexta em oito corridas, deveria acionar algum tipo de sinal de alerta na Fórmula 1. Não é possível continuar como está.

O problema não reside unicamente na supremacia da equipe alemã. Não é a primeira vez que isso acontece. Na F-1 recente já testemunhamos uma McLaren dominante (fim dos anos 80), uma Williams imbatível (meados dos anos 90), uma Ferrari hegemônica (começo dos anos 2000) e uma Red Bull soberana (início da segunda década deste século).

O que sucede agora é que essa superioridade não pode ser interrompida por ninguém, ao contrário do que acontecia no passado senão com frequência, às vezes, pelo menos.

Antes, um bom engenheiro podia ter uma grande sacada aerodinâmica no meio de um campeonato e mudar o rumo da temporada, ou ao menos de algumas corridas. Já alegrava a galera.

Às vezes, uma fábrica era capaz de modificar seu motor rapidamente para ganhar alguns cavalos inesperados e virar um jogo que parecia perdido. Até mesmo a divertida guerra de fornecedores de pneus presenteava os fãs com possibilidades distintas de competição — tinha borracha que funcionava bem em Mônaco, mas era um desastre em Monza; ainda que na marra, isso fazia com que houvesse uma alternância de vencedores e disputas menos previsíveis.

Hoje, não.

Um intrincado e engessado regulamento limita as possibilidades de uma reviravolta de quem quer que seja. No meio de um campeonato, nem pensar. De um ano para o outro, dificilmente. Quase impossível.

A F-1 não oferece alternativas de crescimento para ninguém, neste modelo adotado com o início da era híbrida, em 2014. Suas regras escritas para durar anos praticamente congelaram as relações de forças. No ano que vem, completam-se sete temporadas nessa configuração, com uma coisinha ou outra modificada aqui e ali — uma asinha maior, outra menor, um defletorzinho aqui, uma aleta ali. Mas nada de mexer no essencial: os complicadíssimos e caríssimos motores híbridos.

[bannergoogle]Desde a adoção das tais unidades de potência, foram 108 GPs disputados na categoria. A Mercedes ganhou 82 deles (76%). Ferrari e Red Bull dividiram as migalhas que sobraram: 14 triunfos dos italianos (13%) e 12 dos rubro-taurinos (11%). Não é preciso dizer que os últimos cinco títulos mundiais de pilotos e construtores ficaram com os prateados, sendo quatro de Hamilton e um do Rosberg. Lewis será campeão neste ano de novo.

Quem aguenta tanta mesmice?

Não se trata, aqui, de punir a competência e dar uma canetada na Mercedes para acabar com sua força. Ela está de parabéns e o que fez, está feito. Palmas para ela que ela merece. Mas acho que nem a própria está gostando muito da situação da qual usufrui. O campeonato que a Mercedes disputa e ganha, hoje, desperta mais indiferença do que paixão. Mais raiva do que admiração. Seus carros, às vezes, nem aparecem nas transmissões da TV. Na inglória batalha para segurar a audiência de um espetáculo ruim, a turma que seleciona as imagens que chegam aos lares do distinto público vive à cata de disputas infames pelo 12º ou 16º lugar, atrás de trapalhadas nos boxes em pit stops, ou em busca de marmotas perdidas na pista e de garotinhos simpáticos de bochechas rosadas nas arquibancadas.

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Bottas e Hamilton no pódio: mais uma dobradinha mercêdica

O próprio Hamilton admitiu que as corridas estão chatas e disse que a culpa não é dos pilotos, mas dos dirigentes que tomam decisões, “muitas vezes ruins”. Tem toda razão. É o menor dos culpados, o inglês. Caminha para se tornar o maior de todos os tempos tendo desfrutado como ninguém de um período longo de dominação de uma só equipe. Se é dele tal primazia, quem há de lhe tirar os méritos? Outros pilotos dividiram o mesmo teto com Hamilton e não foram capazes de fazer o mesmo. OK, foram só dois — Rosberg e Bottas. Mas ele engoliu ambos. Quando Nico conseguiu a façanha de batê-lo, pegou o boné e foi para casa.

A Fórmula 1 tem de entender que é preciso estancar essa sangria logo, em nome da própria sobrevivência. Hoje as pessoas têm muitas opções de entretenimento em suas telas, grandes ou pequenas, cada vez mais abertas para o mundo. A corrida está ruim, um toque no controle remoto ou uma arrastada no visor do celular mudam o programa na hora. Ficar parado olhando um desfile de belos carros de corrida por quase duas horas sem que um chegue perto do outro, ou sem que algo de importante/épico/inesquecível aconteça, é coisa de masoquista.

Feito o longo editorial, vamos ao rescaldinho da corridinha no circuitinho francesinho.

A FRASE DE PAUL RICARD

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Disputa no fim: Ricciardo punido

“Prefiro tentar alguma coisa do que não fazer nada. Tenho certeza que o público francês gostou.”

Daniel Ricciardo, da Renault, que terminou a prova em sétimo mas levou duas punições de 5s na última volta e caiu para 11º. Uma por voltar à pista perigosamente numa disputa com Lando Norris e outra por ultrapassar Kimi Raikkonen por fora dos limites da pista.

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Ao lado, a leitura do GP pela pena do nosso cartunista oficial Marcelo Masili: uma comissão de pilotos se explicando ao desenhista, que já não aguenta mais fazer charges monotemáticas.

E ele tem motivos de sobra para estar de saco cheio. Cansa. Vejam só. Além dos preocupantes dados que mencionei lá em cima, sobre a predominância da Mercedes desde 2014, há alguns outros números só desta temporada que mostram bem o brejo em que a F-1 se meteu. A saber:

– A Mercedes tem 338 pontos conquistados Mundial de Construtores. Os sete times classificados de quarto a décimo, juntos, somam 143. Menos que a metade.

– Hamilton lidera o Mundial de Pilotos com 187 pontos. O total de pontos marcados por 12 pilotos entre o sexto colocado, Gasly, e o 17º, Grosjean, é de 180.

– A Mercedes chegou a dez vitórias seguidas com o resultado de Paul Ricard — oito neste ano mais as duas últimas de 2018. Com mais uma, iguala o recorde de 11 consecutivas obtidas pela McLaren em 1988.

Números, números… Até chegarmos ao…

NÚMERO DA FRANÇA

frad194…GPs nos pontos completou Hamilton em Paul Ricard. Como foram 237 corridas disputadas, a taxa de pontuação do inglês chega a 84,4%. Não dá para reclamar muito de um piloto assim. Com a vitória na França, ele chegou a 79 na carreira.

Foi bem  difícil, depois de uma corrida tão ruim, encontrar uma ou outra coisinha positiva para entrar no famosíssimo “Gostamos & Não gostamos”, que tanto sucesso faz neste blog há anos.

Fiz um esforço hercúleo e, confesso, vou perpetrar uma picaretagem apenas para registrar um dado curioso. Mas é picaretagem mesmo.

GOSTAMOS – Do décimo lugar de Pierre Gasly (mentira). Afinal, ele se tornou, com as punições a Ricciardo, o primeiro francês a pontuar em casa desde 2003, quando Olivier Panis terminou a corrida de Magny-Cours na oitava colocação (e daí?).

NÃO GOSTAMOS – Da Haas, que segundo seu chefe Günther Steiner teve “o pior fim de semana de sua história”, em Paul Ricard. “Foi uma merda”, resumiu.

Na verdade, até que gostamos da sinceridade do chefe da equipe americana — que, apesar do nome germânico, é italiano. Mas, como disse, hoje fui obrigado a algumas ginásticas verbais para cumprir as metas do dia. Espero não ter melindrado ninguém. E que ninguém tenha se achado tonto por isso. Se foi o caso, peço escusas.

AMOR DE PORSCHE

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RIO (será que anda?) – O Werner Sauter mandou este link aqui falando do leilão deste… desta…

Disto!

É um Porsche. Sim, macacada, uma espécie de Kombi Safari que quando nasceu levava um motor Porsche do 356. Fabricado em 1955, é um dos três exemplares construídos com o pomposo nome de Porsche Tempo Mikafa Sport Camper.

Tem a pátina do tempo que eu amo. Quem acompanhar o leilão da Mecum Auctions me conte depois por quanto foi vendida.

PAULO & RICARDO (3): A PIOR DE TODAS

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Hamilton: vitória fácil em corrida horrível

RIO (salve, sol) – Não me lembro de ter visto corrida tão ruim na F-1 nos últimos tempos. E, triste dizer isso, Paul Ricard virou uma pista muito chata. A volta da França ao calendário, ano passado, foi celebrada — com razão, é um país importante, de tradição automobilística. Mas o circuito ficou tão artificial, não só pelo visual, que hoje acabei acometido de uma imensa saudade de Magny-Cours.

O que dizer dessa prova? Hamilton venceu depois de largar na pole e liderar todas as voltas. Só não encerrou o domingo com aquilo que se chama de Grand Chelem (olha, me desculpem; já pesquisei sobre a origem dessa expressão, mas esqueci de onde vem) porque Vettel fez a melhor volta depois de colocar pneus macios em seu carro para garantir o ponto extra. Ele estava em quinto, um ano à frente do sexto colocado, com tempo de sobra até para tomar uma dose de Ricard nos boxes.

E Lewis bem que tentou fazer barba, cabelo, bigode e depilação total com cera. Mostrando que tinha sobra em seu equipamento, foi dele a melhor volta da corrida na última das 53 do modorrento GP da França. Ao receber a quadriculada, apareceu o reloginho roxo ao lado de seu nome no gerador de caracteres da transmissão da TV. Sebastian, no entanto, com pneus fresquinhos e sem ninguém na frente, cruzaria a linha instantes depois baixando o tempo.

[bannergoogle]Pequeno consolo para a Ferrari, que conseguiu ir ao pódio com Lec-Lec em terceiro, colado em Sapattos, o segundão. Falando assim, pode-se passar a impressão de alguma emoção. Seria um exagero e uma mentira. Bottas correu o tempo todo sossegado e Charlinho só chegou mesmo na última volta. Valtteri tinha a situação totalmente sob controle. Ocorre que houve uma brevíssima intervenção do safety-car virtual para retirar um cone plástico da pista no final e quando foi autorizada a retomada do ritmo normal de corrida o finlandês estava dormindo no carro. Só por isso a Ferrari do monegasco se aproximou. “Fui pego de surpresa”, admitiu Bottas.

Praticamente não houve disputas numa corrida marcada pela estratégia-padrão de uma parada (o segundo pit stop de Vettel foi só para fazer a volta mais rápida) e realizada debaixo de sol e calor no sul da França. A largada foi altamente civilizada e, do primeiro ao quarto, cada um ficou onde estava. Para não dizer que não aconteceu nada, logo no início, a dupla da McLaren foi ultrapassada por Tião Italiano, que pulou de sétimo para quinto, e daí em diante pouca coisa relevante se passou.

À frente do alemão da Ferrari, Verstappinho foi-se distanciando e terminou em quarto, sem nunca ter ameaçado Leclerc. Atrás de Vettel chegou Sainz Jr., do time alaranjado, levando bons pontos para Woking. Ricardão, Raikkonen e Hülkenberg vieram a seguir e todos ganharam suas posições na última volta por conta dos problemas hidráulicos do outro carro da McLaren, de Lando Norris, que terminou se arrastando em décimo.

Lando ficou sem asa-móvel, direção hidráulica e engates precisos de marcha. Perdeu também o ar-condicionado e o wi-fi. O cabo USB escapou do acendedor. Um caos. Resistiu quanto pôde. A refrega da última volta foi bonita envolvendo ele, a dupla da Renault e Kimi. Limites da pista foram ignorados. Os comissários chamaram Ricciardo e Lando para a torre. Algumas horas depois de encerrada a corrida, a direção de prova deu duas punições ao australiano, que caiu de sétimo para 11º. Kimi, Hulk e Norris subiram uma posição cada e Gasly faturou o último ponto do dia, alçado à décima colocação.

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Público pequeno: Paul Ricard é um erro?

As arquibancadas de Paul Ricard, sensação que tive vendo as imagens da TV, não estavam cheias. O espetáculo foi fraquíssimo, e acredito que o pessoal da F-1 deve ter percebido. Tem que fazer alguma coisa, talquei?

A Mercedes e Hamilton, claro, festejaram. Foi a 50ª dobradinha da história do time, que só perde para as 83 da Ferrari nas estatísticas. Lewis chegou a 79 vitórias na carreira e ampliou sua vantagem na classificação para Bottas: 187 x 151. Vettel vem em terceiro com 111. É claro que o campeonato acabou.

Mas domingo que vem tem mais, na Áustria.

PAULO & RICARDO (2): MAIS DO MESMO

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RIO (tá cansando) – O melhor do sábado em Paul Ricard foi ver a McLaren na terceira fila, com Mini Morris em quinto e Sainz Velocidad em sexto. É a melhor posição de largada da equipe desde o GP da Áustria de 2016, quando Button largou em terceiro. Foi quase um milagre, na ocasião.

Agora, menos. O time laranja vai se acertando aos poucos com a Renault e seus pilotos são bons. Lando é uma grata surpresa e tende a escrever uma história interessante em Woking. Em quarto no Mundial de Construtores, a McLaren começa a se firmar como a primeira das outras.

[bannergoogle]A primeira fila não teve surpresa alguma, com Hamilton na pole e Bottas em segundo — 63ª vez que a Mercedes larga com seus dois carros nas duas primeiras posições. Atrás deles, Lec-lec e Verstappinho. E cadê Vettel?

Tião Italiano vive um momento bem complicado. Fez uma volta tenebrosa no Q3 e ficou apenas em sétimo no grid. Não está dando para defender. Ricardão, Olha o Gás-Ly e Giovanni Bruno fecharam o top-10.

O resto foi mais ou menos dentro do previsto. No Q1 caíram os cágados da Williams, mais Strovenga, Grojã (vai mal, muito mal) e K-Vyda Loka, que já iria largar atrás mesmo porque trocou o motor. No Q2 ficaram Turo-bon, Raikkonen (anda meio atrapalhado), Hulk, Maria do Bairro e Magnólia Arrependida.

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Da turma da frente, do primeiro ao oitavo largam com pneus médios para uma única parada. É o suficiente em Paul Ricard, mas o forte calor pode incomodar amanhã. Ninguém deve esperar um espetáculo inesquecível neste GP da França. A corrida será decidida na largada. A reta é enorme e talvez Bottas tente alguma coisa sobre Hamilton até chegar à primeira curva.

Se não conseguir nada, Lewis — que fez sua 86ª pole — deve ganhar de novo.

PAULO & RICARDO (1): VERTIGEM

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RIO (tudo igual) – Eu achava, talvez desejasse, que as coisas em Pau Ricard poderiam ser favoráveis à Ferrari como em Montreal.

Nada.

A Mercedes voou, Bottas foi o primeiro hoje, Hamilton foi o segundo e a primeira Ferrari, de Leclerc, ficou a 0s6 do finlandês. Lewis errou em sua volta com pneus macios e vai melhorar amanhã. Esqueçam, este campeonato já era, é bobagem ficar torcendo por alguma reviravolta.

A equipe média da vez é a McLaren, que vem crescendo na temporada. A Alfa Romeo também melhorou. A Red Bull não andou bem.

No fim das contas, a notícia do dia na França foi a tentativa da Ferrari de reverter a punição a Vettel no Canadá. Não deu em nada.

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Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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