Arquivodezembro 2020

RIO

R

Rio,

despeço-me de ti olhando o mar pela janela e lembrando da primeira pizza, muito ruim, no hotel onde morei por um mês (terei problemas com as pizzas), mas foi só um mês, porque depois me instalei onde dava para ver o mar e o pôr-do-sol, e a pizza lá embaixo, que já fechou, era boa, e passei a acordar todos os dias com o cara da kombi-geladeira-velha-ar-condicionado-velho, então comprei uma bicicleta com pneus brancos e com ela atravessava a balsa todos os dias para ir trabalhar olhando o mar e escutando a rádio paradiso de berlim, achtundneunzig two (por que não é zwei?, preciso aprender alemão), no meu fone sem fio, e então um dia precisei tirar meu passaporte e fui com a bicicleta dos pneus brancos ao shopping e no meio da ponte os moleques agarraram o bagageiro e falaram alguma coisa e me assustei e fui em frente sem olhar para trás e quando tive de ir buscar o passaporte fiz outro caminho e quase tomei um tombo enquanto dava a volta num lago porque tinha muita areia na calçada, e então na casa nova no segundo dia desci com o cachorro e levei no lugar onde ficam os cachorros, e a moça com seu cachorro contou que estava se mudando para o prédio do lado, olha só, porque se separou do marido que era músico, mas ela sustentava porque o pai dela era militar e morreu e deixou os apartamentos e mais umas salas em campo grande e você sabe que eu não trabalho, né?, não, eu não sabia, pois é, e no outro dia outra moça no elevador com seu cachorro falou a mesma coisa, você sabe que eu não trabalho, né?, e aquilo me causou a falsa sensação de que ninguém trabalhava aqui, ou ao menos as moças com os cachorros do meu prédio, e é claro que isso não era verdade, todo dia às oito da manhã a voz metálica da kombi-fogão-velho-ar-condicionado-velho me lembrava que todos trabalhavam e desde cedo, porque às oito da manhã se a kombi-microondas-velho-ar-condicionado-velho não me acordava, me acordavam os moços cortando a grama e assoprando as folhas no condomínio do outro lado da rua, e assim foram os primeiros meses, bicicleta de pneus brancos, balsa, calçadão da praia, rádio paradiso, musik zum verwöhnen, vou estudar alemão, e então entrei na escola de alemão e comprei os livros, mas não fazia as lições de casa, então não adiantou muita coisa, mas duas vezes por semana pegava a bicicleta de pneus brancos e ia ao shopping estudar alemão, aqui onde morei nesses anos tudo fica dentro de shoppings, gardens, squares, villages, malls, tem até uma estátua da liberdade, downtown, city, aí fui ao grande mercado, guanabara, tudo por você, vi na TV, café pimpinela nove e noventa e oito, óleo de soja leve ou soya sete e noventa e nove, e embaixo do mercado tinha tudo para comprar, pratos, garfos, facas, copos, panelas, jarra de plástico, foi difícil encontrar o escorredor para macarrão mas achei, aí veio o calor e as pessoas me olhavam de um jeito estranho no calçadão com minha bicicleta de pneus brancos e calças compridas, na balsa tudo bem porque os caras da balsa já me conheciam, e um deles queria toda semana que eu entrasse no bolão da megasena, mas nunca entrei porque não jogo, acho muito difícil ganhar, depois uma vizinha convidou para passear de barco nas ilhas tijucas, mas foi meio esquisito porque não conhecia ninguém e era um barco pequeno e no fim eram só umas rochas no meio do mar, e todo mês eu metia o pé e pegava o avião e ia lá para onde morava, e às vezes durante a semana tinha um jantar dos amigos que também haviam se mudado para cá, e eu ia de metrô, riocard, metrôrio, e voltava de táxi amarelo, ônibus eu não pegava porque desde pequeno morria de medo dos ônibus daqui, os motoristas são todos loucos, dizia meu pai, e eram, são, mesmo, aí meu livro ficou pronto, e quando chegou pelo correio peguei a bicicleta de pneus brancos e fui ao rosas, é um condomínio, ou um bairro, é aqui perto, perto do shopping onde estudava alemão, então me sentei sozinho no bar do rosas, pedi o prato que gostava, tomei duas caipirinhas e li o livro todo e voltei para casa chorando e escutando só o zumbido do dínamo que acendia as luzes da bicicleta, aqui é silencioso de noite, então esse zumbido do dínamo era tudo que escutava, aí virou o ano e conheci a moça da tijuca, que na verdade é do ceará, e ela tinha muitas tatuagens, tem, e uns olhos que falam e uma boca muito bonita, então a gente saiu, mas era um pouco longe para ir de bicicleta, então fui de táxi amarelo, e naquela noite ela falou muito pouco e só tomou água mineral, dois copos, aí veio o carnaval e a turma do trabalho resolveu sair tudo junto, eu nunca tinha saído numa escola, e a moça da tijuca me ajudou a colocar a fantasia, tinha uma cabeça enorme com uns limões, a mais bela arte, o samba me deu, fiz da são clemente o retrato fiel, decorei algumas partes, e ela foi comigo de metrô até a central do brasil e falou salta aqui, e me deixou no lugar certo pedindo para eu tomar cuidado com meu dinheiro meus documentos e meu celular, e a porta fechou e ela seguiu para a tijuca e eu fui para a avenida, convidei debret, e quando terminou e o portão da avenida fechou eu falava para todo mundo, suado e cansado, foi a coisa mais importante que fiz na minha vida, e guardei aquela cabeça com limões por um tempo, e a moça da tijuca, que na verdade é do ceará, já disse isso, entrou na minha vida e com ela vi tudo que tinha para ver por aqui, comprei outra bicicleta, um dia fomos ao aterro e fizemos piquenique, três sanduíches diferentes, um deles com abacate e não sei mais o quê, e ficou ótimo, até vinho tinha, mas antes derrubei a caixa do piquenique na escada rolante do metrô e ela rachou de rir, mas nada se compara ao dia em que fomos a um bar do outro lado da ponte que atravessa um canal perto do morro onde tocavam samba e bebíamos batidas, e bebemos muitas batidas, de amendoim, maracujá e coco, e quando saímos com a bicicleta tomei um tombo feio no asfalto cheio de areia e ela ria sem parar, e até chegar em casa foram mais dois tombos, no primeiro quase caí da ponte dentro do canal e no segundo deitei na grama  e uma mulher parou o carro para saber se estava tudo bem, e a moça da tijuca continuava rindo sem parar e disse que estava tudo bem, e foi com a moça da tijuca que atravessei a baía de barca para comer bacalhau na cidade vizinha, sempre de bicicleta, e nesse dia levamos quatro horas para chegar ao bacalhau, e só quando chegamos ela disse que não gostava de bacalhau, mas valeu a pena e dormi no ombro dela na barca, e quando saíamos de noite íamos nos arcos e na lapa e num show na glória que acabou as cinco da manhã com uma chuva que estragou nossos tênis na lama, e teve uma noite que voltamos no metrô bêbados cantando o bêbado e o equilibrista, a gente vivia de metrô e bicicleta pra todos os lados, mas quando fomos numa praia em que as pessoas ficam peladas fomos de carro, mesmo, e eu trouxe minha lambreta, também, e com ela um dia saímos da praia onde conhecemos um moço de uma barraca que vendia cajuína e subimos o morro onde lá em cima tinha um bar com vista para o mar, mas até chegar lá passamos por uns moleques com fuzis, você tá com medo?, ela perguntou, e eu disse que não, mas estava um pouco, se bem que medo, mesmo, aqui, eu tenho é dos motoristas de ônibus, mas nem falo sobre o assunto porque pode parecer besteira, e só sei que na hora de descer o morro a lambreta empacou numa vala no meio da rua e veio um monte de gente ajudar a empurrar, e um gordinho risonho sem camisa com um revólver enfiado no calção azul foi o que mais ajudou, você ficou com medo?, e eu disse que não, e descemos o morro com a lambreta passando pelos meninos com fuzis, mas acho que estou me adiantando, estava no carnaval, e naquele primeiro carnaval outros amigos, também da tijuca, me chamaram para um café da manhã que parecia ceia de ano-novo e me vestiram de mulher, cisne negro, para sair no bola preta, e aquela manhã acabou na rua do ouvidor e então eu percorri as ruas do centro vestido de mulher de peruca vermelha, nas calçadas pedras portuguesas, intelig, vésper e light, light!, perdi as asas do cisne negro, e quando estava no metrô voltando para casa dois caras olharam para mim e disseram, você é aquele viado da TV, e eu disse viado não, viado é o caralho, mas como tinha mais gente vestida de mulher, e de padre, e de índio, e de tudo no metrô, ficou por isso mesmo, e daquela fantasia só sobrou a cara toda borrada, então eu e a moça da tijuca, cearense, continuamos a bater perna por aí, circo voador, bonde de santa tereza, feira de são cristóvão, onde me acabei de dançar forró e ela ria o tempo todo, aí tive de viajar para longe por um tempão, uma vizinha ficou com o cachorro, e quando voltei fomos a outros shows e bares e lugares, e então veio mais um carnaval, e saímos nos blocos todos, um dia choveu muito, simpatia, quase amor, e de noite fomos na lapa e ela foi vestida só com umas fitas isolantes tampando os seios e nunca fomos tão livres na vida, e acabamos de madrugada numa boate gay suados e felizes, enchardados de amor e liberdade, metrô, uber, bonde, menos ônibus, que sempre me assustaram um pouco, um dia subimos na igreja da glória, mas estava fechada, uma noite subimos no bondinho, noites cariocas, nando, uma tarde sentamos na mureta e conhecemos uma senhora divertida e seu marido e seu filho, e naquele dia foi foda, porque pegamos um caminho estranho e atravessamos um túnel que saía no cemitério, e os ônibus não sei se viam a gente no túnel, na volta achamos melhor colocar as bicicletas no metrô, então veio o moleque mais novo morar aqui, e fomos fazer aula de futevôlei, chapa esquerda, chapa direita, peito, ombro direito, ombro esquerdo, pingo, o moleque é bom, mas aí começou a trabalhar numa loja embaixo do guanabara, tudo por você, e virou o melhor vendedor da loja, e foi com a gente na lapa e no lamas, mas sabe como são esses moleques, fez seus amigos, viveu esse tempo todo do seu jeito, e teve também o dia que ela me levou na rocinha fazer tatuagem, passou o braço em volta dos meus ombros e disse você tá com medo?, eu disse que não, via appia, roma, laboriaux, fomos num churrasco no laboriaux e subimos de mototáxi, você ficou com medo?, não, só que na volta o meu mototáxi saiu antes e perguntou aonde eu ia, e ainda bem que tinha escutado ela dizer trapiá e falei trapiá, era um bar, no fim deu certo, ficou com medo?, eu não, falei pra ele ir pro trapiá aqui estou, e todo dia, na hora do almoço ligava no jornal da TV antes de sair para o trabalho, mundial, o menor preço total, cif cremoso quatro e noventa e nove, tixan dois quilos doze e noventa e oito, hidratante monange quatro e noventa e nove, tiroteio na praça seca, o que fazer, edmilson?, água marrom nas torneiras, o que fazer edmílson?, desabou prédio na muzema, o que fazer, edmílson?, é preço, é perto, é supermarket, açúcar guarani dois e noventa e nove, massa com ovos renata três e vinte e nove, coxa de frango seara pacote de um quilo dez e noventa e oito, guanabara, tudo por você, e quando precisava era só ir no posto aqui do lado, aberto vinte e quatro horas, acho que aqueles caras ali são da milícia, você tá com medo?, pergunta a moça da tijuca, eu não, mas olha aquela moto ali sem placa, deve ser milícia, claro que é, aqui só tem milícia, a van é milícia, o quiosque é milícia, os caras tomando cerveja no posto são milícia, não esquece que tenho quilômetros de vantagem, os caras pagando gasolina em dinheiro são milícia, você tem medo?, eu não, bala perdida no alemão, o que fazer, edmílson?, barricada na vila do joão, o que fazer, edmílson?, vamos ver os fogos na praia?, vamos, tem de comprar o passe do metrô, hora marcada, são lindos os fogos na praia, fica perto de mim, cuidado com o celular (ela falando, não eu), e aí, e o mengão?, fala bem do meu mengão!, já tem bastante gente falando (só respondo isso), e o vasco?, tá feia a coisa (só respondo isso), e o fogão?, fala bem do meu fogão!, tá difícil falar bem do seu fogão (só respondo isso), e então vamos sair na tuiuti, e fomos ao ensaio da tuiuti, e fomos buscar as fantasias na cidade do samba, e vimos os carros, as fantasias, as alegorias, e nos vestimos com lâmpadas que piscavam, no morro do tuiuti, no alto do terreirão, o cortejo vai subir pra saudar sebastião, e voltamos com as lâmpadas piscando, e então acabou o carnaval, e então fechou tudo, e então nos fechamos em casa, e então os meses foram se passando.

Rio,

despeço-me de ti olhando o mar pela janela e levando junto a moça da tijuca, que é do ceará, isso já foi dito, mundial, o menor preço total, molho de tomate pramesa noventa e nove centavos, picanha bovina maturata quarenta e nove e noventa e oito, hospital de campanha fechado, o que fazer, edmílson?, e acho que já não tenho mais tanto medo dos motoristas de ônibus, acho que já não tenho medo de mais nada.

DICA DO DIA

D

RIO (last week) – Talvez, mas não tenho certeza, seja repeteco. De qualquer forma, este documentário aparentemente concluído em 1975 é das melhores coisas jamais realizadas sobre o universo da Fórmula 1. Vale cada segundo. Fotografia maravilhosa, grande trilha sonora, excelentes entrevistas. Foi o Kleber Sampaio que mandou a dica.

TOMARA

T

RIO (90 graus) – Pietro Fittipaldi incluiu “Haas F1 Driver” em seu perfil. Nikita Mazepin tirou Haas do perfil dele. Pode não ser nada. Pode ser tudo. Se esse russinho assediador perder a vaga porque fez o que fez, perfeito. Quanto a Pietro, é um piloto que pode correr na F-1 sem problemas. Provou isso em duas corridas sem fazer nenhuma besteira. Não brilhou, tem um currículo discreto, mas não é nenhum paraquedista.

PÉREZ

P

ITACARÉ (ligadão) – Fez muito bem a Red Bull em agarrar Sergio Pérez. O cara fez um campeonato excepcional, ganhou sua primeira corrida de forma espetacular, eu arriscaria dizer que, Hamilton à parte, foi o melhor piloto do ano.

É a primeira vez desde 2007, quando contratou Mark Webber, que a equipe abre mão de alguém formado em sua escolinha de base, também conhecida hoje como AlphaTauri — de onde saiu gente boa como Vettel, Ricciardo, Verstappen…

Albon, no entanto, não virou. É cruel, perverso, mas é assim. E quem caminha nessa chuva de energético sabe que uma hora pode se molhar e ficar meio melecado. O problema dos que tiveram de pegar Max pela frente nos últimos anos é que o holandês é bom demais e nem todos se adaptam a um carro construído para seu estilo de pilotagem.

Pérez é macaco velho e saberá lidar com a situação. Vai ser importante para o time, vai fazer pontos de balde, vai ser um segundo piloto com condição de ganhar corrida, também, ou pelo menos de chegar ao pódio com frequência. Além do mais, apesar da cara de mau e de falar muita merda de vez em quando, não há histórico de confusões de Max com companheiros de equipe. Ele faz o dele. E Pérez pode ajudar também no seu desenvolvimento — Verstappinho aparenta que já sabe tudo da vida, mas duvido que consiga fazer uma margarita equilibrada ou um guacamole decente.

Quanto a Albon, não está morto, ainda. Sofre um baque, como já sofreram antes Kvyat e Gasly, por exemplo. Mas se recuperaram — o russo, inclusive, teve mais chances do que o normal e não pode reclamar do destino. Outros, como Alguersuari, Buemi, Félix da Costa, foram fazer outra coisa da vida. Todo mundo que se dispõe a correr pela Red Bull sabe está sujeito a um rodo desses uma hora. Não chega a surpreender. A questão é como reagir. Se entrar em depressão, já era. Se souber esperar alguma chance, que pode aparecer do nada, é um menino que tem qualidades e não deve ser desprezado.

ANOTHER COMMENT

A

Espero que o pessoal que divulgava press-releases de mentiras sobre Deodoro e o tal consórcio sossegue, agora. Jornalismo que não questiona não é jornalismo. Parabéns a todos do Grande Prêmio, que nunca engoliram esse festival de barbaridades.

SOBRE ONTEM DE MANHÃ

S

CAMPINAS (on my way) – Zak Brown comemorando o terceiro lugar da McLaren no Mundial de Construtores. Na falta de coisa melhor, foi o que selecionei como a imagem mais marcante do GP de Abu Dhabi, que fechou a temporada ontem.

Ah, vai, foi legal. A alegria da equipe laranja era autêntica, também para ela foi um domingo de despedidas — Sainz e Renault –, e desde 2012 o time não conseguia nada parecido. De quebra, ainda anunciou a venda de parte de suas ações a um grupo americano cujo nome está anotado em algum canto, mas não importa. Foi um pedaço pequeno, mas que ajuda a capitalizar a McLaren, que andava meio mal das pernas.

O orgulho pelo terceiro lugar: McLaren dá sinas de que pode renascer

Bom, campeonato encerrado, alguns números interessantes, para depois pinçar um só para ser o nosso número de Abu Dhabi.

  • Foram 5 vencedores diferentes: Hamilton (11), Bottas (2), Verstappen (2), Gasly (1) e Pérez (1)
  • Nas poles, 4: Hamilton (10), Bottas (5), Stroll (1) e Verstappen (1)
  • Foram 9 os pilotos que lideraram voltas: Hamilton (613), Bottas (188), Verstappen (87), Russell (59), Stroll (32), Gasly (26), Pérez (26), Sainz (5) e Albon (1)
  • Entre as equipes, 7 foram ao pódio: Mercedes (25 troféus), Red Bull (13), Racing Point (4), Ferrari (3), Renault (3), McLaren (2) e AlphaTauri (1). Alfa Romeo, Haas e Williams não levaram nenhum tacinha

O NÚMERO DE ABU DHABI

…pilotos foram ao pódio em 2020, maior número desde 2012. Foram eles: Hamilton (14 vezes), Verstappen e Bottas (11 cada), Leclerc, Ricciardo, Albon, Pérez e Stroll (dois cada) e Norris, Gasly, Sainz, Vettel e Ocon (um para cada um).

Esse número, além de ser o que qualquer cidadão em pleno exercício de suas faculdades mentais deveria ter digitado em 2018 para que não vivêssemos o pesadelo que estamos vivendo, mostra como um campeonato montado às pressas pode ter resultados legais.

Não há dúvida que a inclusão de pistas novas e o formato de provas seguidas nos mesmos circuitos, levando todo mundo a um trabalho frenético para fazer tudo funcionar, sem tempo para trabalho nas fábricas, com tudo sendo resolvido nos autódromos, trouxe alguma imprevisibilidade a certas corridas. 

Não à toa equipes como AlphaTauri e Racing Point conseguiram vencer corridas, algo praticamente impossível nos últimos anos. E uma, que frequentava pódios e ganhava GPs com regularidade, acabou amargando uma temporada inteira sem liderar uma volta sequer.

Oh!

Vettel a Leclerc, no capacete: “Mais talentoso que vi em 15 anos. (…) Aconteça o que acontecer, seja feliz”

Pois é. Esses dois aí da foto não só passaram o ano em branco quanto a vitórias, como conseguiram zerar nas voltas lideradas. Isso só tinha acontecido duas vezes na história da Ferrari: em 1973 e em 1992. É algo que a equipe precisa estudar direitinho.

Vettel acabou sendo o grande personagem da noite árabe, ao se despedir do time de Maranello cantando — o vídeo está no post de ontem. Mas o Mundial de 2020 teve muitos outros. E é claro que nosso cartunista oficial Marcelo Masili notou todos!

Brilhante, como sempre! Obrigado, Masili, publicamente, por mais um ano com a gente. Você é demais! E só você sabe como é duro criar tanto com prazos tão curtos, e com corrida quase todo fim de semana… Espero que continue em 2021! O povo aqui te ama!

A FRASE DE YAS MARINA

Hamilton: debilitado pela Covid-19

Estou fisicamente destruído. O vírus não é uma piada, a doença é muito séria. Não sei como alguns líderes mundiais ainda têm coragem de rir e fazer brincadeiras com isso.

Hamilton, embora discreto — e claramente baleado depois de uma semana de cama — deu mais um recado importante. Que seja ouvido.

Aliás, Lewis recebeu uma homenagem legal dos donos do autódromo de Silverstone, revelada no fim de semana em Abu Dhabi. A reta dos boxes será batizada como Reta Hamilton. Chique, não?

E olha, acho que deu para esse GP de Abu Dhabi. A corrida não foi grande coisa e todos concordamos. Vamos fechar então nossa temporada de “Sobre ontem…” com nosso famoso…

GOSTAMOS

Ricciardo: volta mais rápida

…da melhor volta da prova na despedida de <<< Daniel Ricciardo (e gostamos da máscara, também). O australiano conseguiu o ponto extra na última volta da corrida, fechando com dignidade seus dois anos de Renault. “Minha última volta com esse carro foi também a melhor de um GP. Fui muito feliz aqui”, falou, emocionado.

 

NÃO GOSTAMOS

Pietro: discreto até demais

…de Pietro Fittipaldi >>> na corrida. Achei o brasileiro muito passivo, concentrado apenas em terminar a prova. Tem gente dizendo que a Haas o chamou para o terceiro pit stop só para não chegar na frente de Magnussen, mas a tese não faz sentido — Kevin está de saída da equipe. OK, chegou ao fim, não cometeu erros, mas não fez nada de diferente. E na F-1 precisa ser diferente.

RÁDIO BLOG

R

Você lembra, lembra
Daquele tempo
Eu tinha estrelas nos olhos
Um jeito de herói
Era mais forte e veloz
Que qualquer mocinho de cowboy
Você lembra, lembra
Eu costumava andar
Bem mais de mil léguas
Pra poder buscar
Flores de maio azuis
E os seus cabelos enfeitar
Água da fonte
Cansei de beber
Pra não envelhecer
Como quisesse
Roubar da manhã
Um lindo por de sol
Hoje, não colho mais
As flores de maio
Nem sou mais veloz
Como os heróis
E talvez eu seja simplesmente
Como um sapato velho
Mais ainda sirvo
Se você quiser
Basta você me calçar
Que eu aqueço o frio
Dos seus pés

Vai na paz, Paulinho.

N’ABU DHABI (3)

N

RIO (valeu por tudo) – Se tivesse de resumir numa frase o GP de Abu Dhabi, que encerrou a temporada hoje, seria: Verstappen largou na pole, dominou a corrida toda, não foi ameaçado por Bottas, o segundo colocado, e Hamilton, o terceiro, sentiu os efeitos do pós-Covid e ficou muito longe do piloto que conquistou o hepta neste ano.

Mas é claro que uma última corrida de campeonato nunca é uma corrida comum. O GP, falando do ponto de vista estritamente técnico, foi mais ou menos o que escrevi aí em cima, sim. Só que teve muito mais. E o ponto alto da noite de domingo nos Emirados foi isso aí embaixo:

Vettel, Vettel… Como muitos pilotos, hoje ele se despediu de alguma coisa. No caso, de seus seis anos de Ferrari, onde escreveu uma história de 119 GPs, 14 vitórias, 12 poles e dois vice-campeonatos, em 2017 e 2018. Ouçam o vídeo acima (vocês entenderam, é um vídeo que não tem imagem nenhuma, só áudio). Ao final da corrida, ele cantou, em italiano, uma musiquinha de sua própria autoria. Aliás, nas imagens “on-board” dessa volta musical Sebastian aparece sem luvas e dá para ver um papelzinho no qual escreveu a letra, que foi cantarolando até chegar aos boxes.

Foi o momento mais bonito do fim de semana, um dos mais belos de toda a temporada. Se bobear, um dos mais queridos de toda a história da F-1. Afinal, foi um ano duro, duríssimo para Vettel. Desde o início tardio do Mundial ele já sabia que a equipe não tinha interesse em renovar seu contrato, e mesmo assim tocou o barco com a dignidade possível. Justo num ano em que a Ferrari tinha um carro de merda, lento, cheio de problemas.

Não pôde se despedir como gostaria. Foi apenas o 14º colocado, subiu ao pódio só uma vez — terceiro na Turquia — e terminou o campeonato em 13º com parcos 33 pontos, contra 98 de seu companheiro Leclerc. A Ferrari ficou em sexto no Mundial de Construtores, seu pior resultado desde o 10º lugar de 1980 — nos 39 campeonatos seguintes, foram dez títulos, 13 vices, nove terceiros, seis quartos e um quinto.

Um desfecho, certamente, distante do que ele idealizava quando chegou a Maranello, em 2015. Vettel imaginava que poderia ser uma espécie de sucessor de Schumacher em Maranello. Seria injusto dizer que não se esforçou. Mas esbarrou na incrível hegemonia da Mercedes, que não dá chance a ninguém desde 2014.

Mesmo assim, apesar de todas as agruras, de um certo desprezo a que foi relegado em 2020, não saiu atirando. Ao contrário. Expressou gratidão e amizade a todos no time, que considera “mágico”. Inclusive a Leclerc, que muitos acusavam de ter se transformado numa espécie de prima donna do time. “Charles é incrivelmente rápido e tem um estilo muito próprio de pilotar. Há duas ou três coisas que aprendi com ele, assim como com Kimi. A gente sempre aprende com outros pilotos”, falou, com humildade.

Pérez chega aos boxes da Racing Point: lágrimas na sua última prova pela equipe

Teve emoção também na despedida de Sergio Pérez da Force Point. Na oitava volta, o mexicano, que largara em último, parou com o motor quebrado. Ficou frustrado num nível que só mesmo as imagens da TV conseguiram traduzir. Quando chegou aos boxes do time rosa, tinha mecânico chorando.

Foram sete anos num time que, em 2018, só não fechou as portas por sua causa. Pérez pagou do bolso salários de funcionários e entrou com um uma ação na Justiça contra a própria equipe numa manobra jurídica que impediu sua falência pura e simples. Graças a essa ação, a empresa entrou em regime de recuperação judicial e teve tempo para encontrar um comprador — no caso, Lawrence Stroll, pai de Lance. “Salvar os empregos da equipe foi minha melhor decisão nesses anos todos. A Racing Point [que na época da quebradeira geral ainda era Force India, como todos se lembram] será sempre o time do meu coração.”

Verstappen vence com a Red Bull: Pérez ainda sonha em ser seu companheiro em 2021

Pérez pode acabar na Red Bull do vencedor Verstappen no ano que vem. Segundo alguns setores da imprensa inglesa, há uma chance de um anúncio ser feito amanhã. No mais tardar, até o fim da semana. Alexander Albon, quarto colocado hoje, ainda tem esperança de ficar. “Fez seu melhor fim de semana no ano”, elogiou o chefe Christian Horner.

Não sei, sinceramente, o que vai acontecer. No máximo, faria uma aposta, bem modesta, em Albon. Acho que fica. Mas acho, também, que o melhor para a equipe — e para a F-1 — seria ter Pérez. O cara fez um campeonato excepcional, terminando a temporada em quarto lugar com 125 pontos. Não fossem as duas provas que perdeu por causa do Covid-19 e mais algumas que zerou por problemas alheios à sua vontade — como as quebras de hoje e de algumas semanas atrás, no GP do Bahrein –, poderia ter ficado ainda mais distante de Ricciardo, quarto colocado na classificação com 119.

McLaren: quinto e sexto de Norris e Sainz deram ao time laranja o terceiro lugar entre as equipes

Os 125 pontos de Pérez não foram suficientes para a Aston India (tá bom, Racing Point!) terminar o Mundial em terceiro, o que seria um resultado excepcional para o time rosa. A equipe acabou sendo superada na última etapa do campeonato pela McLaren, que com o quinto lugar de Norris e o sexto de Sainz fechou o ano com 202 pontos, contra 195 da futura Aston Martin. Seriam 210 se a FIA não tivesse punido a equipe no começo do campeonato tirando dela 15 pontos por copiar peças da Mercedes. Para a equipe laranja, ótimo: melhor resultado desde 2012, quando também terminou em terceiro.

Na McLaren, também foi um dia de despedida. No caso, de Carlos Sainz Jr., que já fez as malas para correr na Ferrari no ano que vem. O espanhol também fez um bom campeonato, com 105 pontos na sexta posição.

A turma que fechou a temporada 2020: muitas despedidas

Dos 23 pilotos que participaram do Mundial de 2020, sete não estarão no grid em 2021: Pietro Fittipaldi, Kevin Magnussen e Romain Grosjean, da Haas; Daniil Kvyat, da AlphaTauri, que disse querer “férias da F-1”; Jack Aitken, que fez uma prova pela Williams, e Nico Hülkenberg, que correu três vezes pela Racing Point, também não terão vagas; e Pérez ou Albon — um dos dois vai dançar.

Mudam de endereço Daniel Ricciardo (da Renault para a McLaren), Sainz (da McLaren para a Ferrari) e Vettel (da Ferrari para a Aston Martin). Mick Schumacher e Nikita Mazepin estão confirmados na Haas, por enquanto, mas o russo também pode rodar se a equipe levar a sério as babaquices do moleque — como o caso de assédio sexual que eclodiu na semana passada. Alonso reaparece na Renault e Yuki Tsunoda deverá ser o substituto de Kvyat. Hamilton ainda não renovou seu contrato, mas disse hoje que até o Natal as coisas se resolvem com a Mercedes.

Bottas e Hamilton: corrida discreta de uma Mercedes que dominou a temporada

Como se nota, falei pouco da corrida até agora porque pouco há a dizer. Como se esperava, foi uma prova de um pit stop para quase todo mundo, parada antecipada para a maioria quando o safety-car foi acionado para a retirada do carro de Pérez, quebrado, das voltas 11 a 13. A Ferrari foi uma que não parou na hora, o que comprometeu a prova de Leclerc e Vettel — os dois, com pneus velhos, viraram presas fáceis de seus adversários a partir da 23ª volta. “Estão nos engolindo”, reclamou Sebastian antes de fazer sua parada, na volta 36.

No fim das contas, as cinco primeiras posições registradas na sexta volta foram as mesmas na bandeira quadriculada, o que mostra claramente que lá na frente a prova não teve grandes emoções. Por isso, Verstappen pôde comemorar tranquilamente a décima vitória de sua carreira e a segunda no ano sem sustos — chegou mais de 15s à frente de Bottas, o segundo colocado.

Max chega a dez vitórias na carreira: sem nenhuma dificuldade

Chamou a atenção a prova discreta de Hamilton, que em nenhum momento tentou um ataque a Bottas pelo segundo lugar e pareceu conformado com o terceiro degrau no pódio. Depois da corrida, o inglês disse que estava se sentindo “destruído fisicamente” e alertou para os perigos da Covid-19 que, segundo ele, “não é brincadeira, não é uma piada”. Segundo ele e segundo qualquer pessoa com mais de cinco neurônios ativos, diga-se. “É algo muito sério e acho muito estranho que líderes mundiais ainda riam disso e façam brincadeiras”, falou.

Claro que se referia a figuras abomináveis como Trump e o milico brasileiro de segunda linha que virou presidente, cujo nome evito escrever para não emporcalhar a tela de ninguém. Lewis ficou debilitado, passou uma semana de cama e, agora, terá alguns meses para se recuperar plenamente.

Classificação final em Yas Marina: GP morno para encerrar um campeonato quente

Verstappinho, Sapattos, Comandante Amilton, Alex Tudo Bom, Mini Morris, Sainz Idade, Ricardão, Olha o Gás Ly, L’Ocon e Strollvenga, eis os dez que fizeram pontos no encerramento do Mundial 2020. Um campeonato bem doido, cujo calendário teve de ser remontado às pressas por causa da pandemia, que voltou a circuitos históricos como Imola, Nürburgring e Istambul, que passeou por terras nunca visitadas, como Portimão e Mugello, que teve provas seguidas nos mesmos autódromos (Áustria, Silverstone, Bahrein) e que, ao fim e ao cabo, foi bom. Teve ótimos espetáculos, muitos dramas, finais emocionantes, acidentes vistosos e o resultado esperado: Hamilton e a Mercedes campeões.

Em tese, porque ninguém sabe o que será deste mundo nos próximos meses, tudo recomeça em março na Austrália. Para nós, aqui no Brasil, resta saber qual emissora de TV vai transmitir a temporada. Hoje, na Globo, ninguém falou em tom de despedida. Poderia ser o caso, se de fato seus mais de 40 anos de F-1 terminassem com o GP de Abu Dhabi.

Não creio que tenham terminado, porém. Por tudo que andei ouvindo nos últimos dias, a Liberty terá de mandar um telegrama para o Jardim Botânico nos próximos dias para resolver de vez essa parada. Isso porque, obviamente, levou um chapéu dos aventureiros de Guadalupe. E ninguém mais se apresentou com grana suficiente para comprar os direitos. Sendo assim, plim-plim.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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