CALORING DA PESTE (1)

Norris na frente: inglês briga pela pole amanhã

BUENOS AIRES (já com saudades) – Lando Norris foi o mais rápido da sexta-feira nos primeiros treinos livres para o GP da Hungria. Foi um dia escaldante em Hungaroring, depois da tempestade de anteontem que teve até chuva de granito. Eu sei que é granizo, mas adoro dizer que choveu granito, então não me irritem. O granito, o vento e o aguaceiro detonaram o motorhome da McLaren. Chamamos erroneamente essas estruturas que ficam nos paddocks europeus de motorhomes. Não são mais. Motorhome é um busão com varanda de lona, uns sofás dentro, TV e DVD. O que usam agora na F-1 são edifícios pré-montados transportados por gigantescas carretas. A equipe já tinha sofrido um incêndio em Barcelona. Melhor benzer essas coisas.

Mas eu falava do calor escaldante, e termômetros servem para isso: 31°C no ambiente, que no caso é uma cratera onde fica o autódromo de Budapeste, e 58°C no asfalto, o bastante para fritar ovos e esquentar goulash. Aliás, é minha obrigação dizer, outro erro que cometemos é chamar essa localidade de Budapeste, como escrevi acima. A pista fica mesmo em Mogyoród, monótono vilarejo de 8 mil habitantes à beira da autoestrada M3 onde antigamente tinha muito pé de avelã e por isso se chama Mogyoród, que na Antiguidade era a palavra usada para Nutella. Mas fica perto de Budapeste, então falamos Budapeste mesmo, que é bem mais bacana que Mogyoród, inclusive, embora não tenha avelãs – mas tem Nutella.

A Ferrari tinha começado bem o fim de semana, com Sainz fazendo o melhor tempo no primeiro treino. O time italiano via no GP da Hungria uma chance de se recuperar no campeonato, já que depois de Mônaco andou para trás nas pistas velozes que se seguiram. Budapeste é lenta e sinuosa, mais afeita à natureza dos carros vermelhos.

Mas na segunda sessão Leclerc jogou água no Brunello di Montalcino de Maranello. Com 17 minutos de treino, rodou e bateu forte, paralisando as atividades para reparos no guard-rail. O carro voltou sobre uma plataforma, com o lado esquerdo todo arrebentado. O trabalho da Ferrari para o resto do dia ficaria a cargo de seu companheiro espanhol, que cumpre aviso prévio na fábrica. Dizem que seu crachá já nem passa na catraca, precisa sempre mostrar o documento para a mocinha na recepção.

Leclerc bate: prejuízo para ele e para a Ferrari

Charlinho é simpático e carismático, seu crachá funciona perfeitamente e ele sempre sorri para a mocinha da recepção, diferentemente de Sainz, que reclama todo dia que já fez seu cadastro – “mas mudamos o sistema, señor”, diz a recepcionista enfatizando o señor, embora seja italianíssima de Bolonha. Mas erra muito, o monegasco. A batida estragou sua sexta-feira e prejudicou a de todo mundo, já que bandeira vermelha em treino livre faz os carros pararem, mas o cronômetro segue correndo. A sessão só foi reiniciada 15 minutos depois. Leite derramado não volta para o latão. Existe esse ditado, com leite e latão? Se não existe, achei legal. Enfim, 15 minutos de labuta coletiva foram perdidos por causa de Leclerc. Ponteiro de cronômetro não anda para trás. Outro ditado, copyright free.

Na retomada das ações, quase Zhou bateu em Pérez causando um incidente diplomático entre China e México. O piloto da Sauber rodou. Apenas uma barbeiragem a mais entre tantas. O moço de Xangai vive seus últimos momentos na F-1. Tem 12 corridas para aproveitar e contar para os filhos e netos, isso se se casar e tiver filhos, ou adotar uma ou várias crianças. Ninguém vai querê-lo em 2025. Não na F-1.

Norris foi o único piloto no fim de semana a completar uma volta abaixo de 1min18s, fazendo 1min17s788 na melhor delas. Faltavam 20 minutos para o fim e, àquela altura, algumas equipes já estavam preparando suas simulações de corrida, com sequências mais longas de voltas e experiências com os pneus, que na Hungria são sempre um problema – por causa das altas temperaturas e pelas características da pista. Todo mundo sabe que domingo a estratégia padrão será de duas paradas e pode ser que alguém largue com os macios, antecipando o primeiro pit stop. Pelo sim, pelo não, nos últimos dez minutos pneus duros e médios foram avaliados, sem que os tempos baixassem.

Os tempos da sexta: menos de 1s entre o primeiro e o 14º

Quem acabou saindo do autódromo um pouco mais aliviado foi Pérez, com o quarto tempo. A Red Bull usou duas especificações diferentes em seus carros, e o do mexicano agradou mais. Embora Verstappen tenha ficado à sua frente na tabela de tempos, ficou a impressão, pelo bom desempenho de Checo, que a sua seria mais adequada. Afinal, para Pérez andar bem o carro tem de estar bom demais. Alguém no time deve ter feito esse raciocínio.

Foram 38 GPs disputados em Hungaroring desde 1986, e não é novidade para ninguém que largar na frente é importante. Até hoje, 16 pilotos que largaram na pole venceram (42,1%) e sete ganharam partindo do segundo lugar no grid – o que dá uma taxa de 60,5% de vencedores a partir da primeira fila; ampliando essa conta até a segunda fila, batemos em 34 vencedores, 89,5%. Sendo assim, a classificação de amanhã se torna o primeiro ato de um GP disputado em duas partes. Pelos resultados de hoje, McLaren, Red Bull e Ferrari, nessa ordem, brigarão na frente. A Mercedes, que milagrosamente ganhou as últimas duas provas do Mundial, não vai andar bem nessa pista. Hamilton já venceu oito vezes na Hungria. A nona vai ter de esperar mais um pouco.

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Renato
Renato
1 ano atrás

Zhou tem mais chances de ficar na F1 do que qualquer piloto brasileiro tem de entrar na F1, Ocon tá mais pra Williams do que pra Haas, e o Zhou deve ser o novo companheiro de Bearman, se não, ele deve ir ficar na Sauber/Audi

jader
jader
1 ano atrás

Hoje, nem os computadores funcionaram na Mercedes…

Plinio
Plinio
1 ano atrás

Eis hungaroring. Gosto de reclamar de algumas pistas e essa supera todas as expectativas de ruindade. A chatissima Mônaco tem tradição é belas paisagens. O cartodromo de Hungaroring só tem ruindade mesmo, apesar de ter sido palco em 1986 da ultrapassagem com a estética mais bonita que a f1 já viu. Só resta torcer para uma prova improvável como aquela vencida por Ocon.

Leon Neto
Leon Neto
1 ano atrás

Não sei se eu ri mais do título do post ou da chuva de granito 😆. A linda Buenos Aires está lhe fazendo muito bem, Flavio. Feliz Aniversário atrasado. Curta bastante e se der coma um choripan com alfajor de sobremesa.

Paulo Leite
Paulo Leite
1 ano atrás

Ótima resenha com ótimos ditados.
Sobre mais uma sobrada de Leclec, vale o ditado pro garoto de Mônaco : ‘você tem dois pés para cruzar a ponte’.
E mais outros ditados para os outros.
Para George: ‘e não pense que a vitória está perdida’.
Para Lewis: ‘levante sua mão sedenta e recomece a andar’
Para Logan: ‘se é de batalhas que se vive a vida’.
Para Alonso: ‘uma voz que gira, bailando no ar’
Para Max: ‘você será de sacudir o mundo, pense’
Para: Carlos: ‘basta ser sincero e desejar profundo’
Para Magnussen: ‘tenha fé em Deus, tenha fé na vida, vai’
Para Oscar: ‘há uma voz que canta, há uma voz que dança’
Para Lando: ‘e não diga que a vitória está perdida’
Para Pérez: ‘tente, tente, tente outra vez’.

O crítico
O crítico
Reply to  Paulo Leite
1 ano atrás

Toca Raul!