AQUI NÃO PODE (1)
SÃO PAULO (na tenda) – Contrariando toda e qualquer estratégia de cobertura de um evento como o GP de São Paulo, ex-Brasil, não usarei redes sociais. Exceto para fazer chamadas para este blog.
Que, seguindo secular tradição, fará o que hoje pode ser chamado de “cobertura alternativa”. Porque blog virou uma mídia absolutamente alternativa. Ninguém lê. É como jornal clandestino rodado no mimeógrafo. Chegava a meia dúzia de gatos pingados. Que se pegos com um exemplar, levavam tabefes da polícia até dizerem quem é que lhes tinha entregado aquele material subversivo. Depois iam atrás de quem tinha feito o material subversivo, destruíam o mimeógrafo, queimavam os exemplares não distribuídos e mandavam os comunistas safados para o DOI-Codi.
Pois bem, meu mimeógrafo é meu laptop e meus exemplares clandestinos se encontram nesta página. Espero que vocês não sejam apanhados pela polícia lendo. Não me responsabilizo pelos tabefes que levarão.


Alguém há de perguntar que diabo de título é esse escolhido para a série que termina domingo à noite, quando uma deliciosa neblina descer sobre Interlagos cobrindo meu Gol GT de um orvalho sagrado.
É que em Interlagos, em fim de semana de F-1, não pode nada.
Nada do que relatarei aqui tem relevância, já adianto. Mas vou me esforçar para entregar algo que remotamente lembre, sei lá, jornalismo literário. Farei relatos pessoais, muitas vezes. Que, de novo, são miseravelmente irrelevantes. Mas não faz mal. Já cobri esta corrida muitas vezes. Desde 1988, só não estive em duas. Em 2021, porque morava na Bahia, e no ano passado, porque não recebi credencial — episódio infeliz que não merece mais do essas três palavras: não recebi credencial. Já escrevi para jornais, revistas, trabalhei em rádio ficando 12 horas por dia no ar. Nada disso existe mais — jornais, revistas, rádios que cobriam a corrida como se fosse a volta de Jesus Cristo ao planeta.
Oficialmente entrei na cobertura do GP de São Paulo de 2024, ex-Brasil, ontem ao chegar ao centro de credenciamento pontualmente às 14h, horário de abertura para a entrega dos passes. Entrei com meu carro no estacionamento do portão 8 e pela primeira vez no fim de semana ouvi um “aqui não pode”. Não podia entrar. Argumentei que tinha de pegar minha credencial e entrei.
Para quem conhece Interlagos, o local fica atrás das arquibancadas cobertas na altura da freada para o S do Senna. É uma espécie de pátio usado como estacionamento. Avistei uma vaga e um segurança me avisou: aqui não pode. Perguntei onde podia, ele me indicou uma via paralela à pista e quando me dirigi a ela outro segurança, antes mesmo que eu fizesse menção de parar o carro alertou: “Aqui não pode parar”. “Mas ainda estou andando”, retruquei. “Mas aqui não pode.”
Depois de duas voltas no tal pátio aproveitei-me da distração dos agentes e parei o carro com invejável agilidade, de modo que não pudesse ser notado até que fosse tarde demais. Saí correndo e ninguém me viu. Cheguei na fila do credenciamento.
Fazia um sol de rachar. Depois de uma hora sem que a fila avançasse um centímetro que fosse, dirigi-me à entrada do recinto em busca de informações mas fui barrado. “Aqui não pode”. Não pode o quê?, ensaiei o debate, e soube que não podia ficar na sombra. Ordens de cima, adiantou uma segurança, com quem discuti e fui muito mal educado. Isso foi ontem. Hoje me desculpei com ela e até chorei ao lhe dar um abraço.
Fiquei três horas na fila. Para saber que minha credencial, por ter sido aprovada na terça à noite, não tinha ficado pronta ainda. Só amanhã, disseram. Peguei o carro e fui embora.
Cheguei hoje ao centro de credenciamento às 16h40, 20 minutos antes do encerramento das atividades do local. Entrei com o carro pelo portão 8. Não deu tempo de me dizerem “aqui não pode”, entrei. Mas quando fui parar, aqui não pode — disse o primeiro segurança. E o segundo. E o terceiro. E o chefe da segurança de alcunha “Alemão”. E um senhor cujo nome esqueci que atua há 40 anos como uma espécie de zelador do autódromo quando tem F-1. Ele me recomendou, às minhas queixas e sabendo-me jornalista: “Desce a caneta”.
Consegui parar, distante dos olhares atentos da segurança. Ao contornar barreiras metálicas dispostas no estacionamento para ir ao local onde retiraria o passe, outro segurança me alertou que aquele trajeto, a pé, não podia. Era pelo outro lado. Que dava na entrada dos carros, o já famoso postão 8. Faltavam alguns passos para ganhar a calçada. Entre mim e ela, a calçada, uma segurança de colete amarelo. Houve uma troca de olhares. O meu, culpado — na minha testa devia estar escrito que tinha acabado de roubar um motor da Red Bull para sair com ele dentro da mochila. O dela, ferino. “Aqui não pode”, disse finalmente a moça que estava na entrada dos carros. Apertei o passo, não olhei para trás e consegui chegar à calçada para, às 16h53, entrar em nova fila.
Peguei a credencial. Pedi meu “car pass”. Sem ele não se entra de carro no autódromo. Não consegui pregar na janela do carro, ainda. Não tem cola, sei lá como vou fazer isso. Peguei o carro e fiz uma curva muito fechada em direção ao túnel que passa por baixo da pista, observado pelo busto de José Carlos Pace, para onde seus restos mortais foram levados outro dia. Estavam instalando telões no túnel, passava um carro por vez. Quem tentava sair não conseguia. Quem tentava entrar, tampouco. Travou tudo. Uma van enorme que vinha lá de baixo tentou fazer um retorno rumo ao paddock. “Aqui não pode!”, gritou um agente que orientava o trânsito. O motorista alegou que estava indo buscar pilotos. Desconfiado, o sujeito cancelou o “aqui não pode”.
Fiquei 40 minutos ali. Havia caminhões descarregando material ao lado do que me parece ser o Senna Club, camarote cujos ingressos são vendidos a R$ 24.800 e dão direito a um pedaço do asfalto do S do Senna sobre o qual Senna nunca passou porque morreu há 30 anos e a pista já foi recapeada um par de vezes desde então. Mas eu já passei com meu Lada, quem ganhar esse pedaço de asfalto que saiba disso.
Não tem sala de imprensa este ano. A área usada normalmente pela mídia formal está em reforma, disseram, e montaram uma tenda no estacionamento que fica na área interna da antiga Curva do Sol. Noto que há menos jornalistas neste ano do que nos anos anteriores, e muito menos do que na época em que viajava para as corridas. A imprensa está morrendo. Os jornalistas estão acabando.
Para ir ao paddock, é preciso subir uma escada com 62 degraus. Quando cheguei ao topo, notei duas meninas debruçadas sobre o parapeito produzindo “conteúdo”, que não deve ter ficado muito bom porque rapidamente se aproximou um segurança para dizer que ali não podia.
Gosto do paddock de Interlagos porque o frequento amiúde, na condição de piloto de carro velho. Na F-1 fica tudo muito bonito e percorri os fundos dos boxes de ponta a ponta para realizar excepcional ensaio fotográfico batizado de “Luzes”, que será postado aqui daqui a pouco.
E encerro estas primeiras impressões deixando aos meus parcos leitores uma espécie de guia para seguir o GP de São Paulo, ex-Brasil, por aqui. Vai ter notícia? Vai. Vai ter textão de treino, Sprint, corrida? Vai. Muitas notinhas? Sim. Ao final do domingo você vai ter a impressão de que ficou sabendo das coisas por aqui? Talvez. Mas espero que, pelo menos, todos tenham algum prazer em ler. Porque é o que farei, escrever. Não farei dancinhas, “reels”, “stories”, “combos”.
Porque aqui, e agora falo deste blog, não pode.
E tem como não ler? O Flávio sabe que tem muita gente que lê e fica nesse migué KKKKKKK que texto Flávio, você é demais!
“Porque é o que farei, escrever. Não farei dancinhas, “reels”, “stories”, “combos”.
Porque aqui, e agora falo deste blog, não pode.” (GOMES, Flavio)
É por isso que entro nesse blog todos os dias, religiosamente, e assim o farei até o (longínquo, espero) dia em que você parar de escrever.
“A imprensa está morrendo. Os jornalistas estão acabando”. Estão virando influencers que não influenciam em nada.
A imprensa está morrendo por suicídio. Estão se igualando aos blogueiros…
Olha, só em não postar no Twitter (o nome é esse) você já está fazendo um favor a humanidade.
O melhor texto da crônica esportiva (e não esportiva também). Desde a coluna Warm Up. Parabéns, Gomes. Seguimos firmes aqui.
O dia que você fizer dancinha o mundo terminou de ir pro brejo.
Aqui escreve com orgulho um dos seus parcos leitores. Obrigado pelo excelente texto. Este blog é um oásis nesse deserto de coisas inúteis que virou a Internet.
Azar do mundo e sorte dos seus parcos leitores… mas é uma pena a agonização do jornalismo profissional e uma grande perda para a sociedade, pois é um pilar fundamental.
É muito bom o seu blog.
Me diverti muito o lendo.
Muito obrigado por seu trabalho.
Sensacional.
Ganhar o pedaço de asfalto? Pagando 24k…
Saudades de ver seu Lada em Interlagos, Classic Cup, bons tempos!
Aqui não pode:
deixar de frequentar este longevo blog;
deixar de comentar alguma coisa;
deixar de admirar bons textos!
Longa vida a este espaço!
Não pode ficar sem essa cobertura
Show de bola FG
Que legal ver o nome Warmup. Top. Sou leitor desde o começo. \0\
Foi sensacional o texto . Sei que não pode mas ri e chorei ao mesmo tempo.
Obrigado por tudo. Um abraço daqui de Natal RN
Alexandre Medeiros
Belo texto Flavio!
Flávio te acompanho nas midias (Placar, Youtube, Instagram e agora no Blog). Você é um cara diferenciado! Abraço
Texto sempre refinado. Parabéns, Flávio! Acompanho o blog há mais de 12 anos.
A esperança é que a SAF da porra da XP não passe sem levar o que resta do meu time
Flávio, é ótimo ter você para nos salvar da programação enlatada da televisão!
Na verdade o que não pode é “nosotros” ficarmos sem suas pérolas, sempre maravilhosas
Flávio, te leio desde os tempos do Lance e olha que nunca fui vidrado em automobilismo. Por favor, não pare com o blog!
Ah, e também assino sua carta de notícias no Substack, que também é sensacional!
Texto espetacular Flávio! Não abandone este blog nunca!
Ah, que prazer ler sua cobertura literária novamente. É uma aula de redação a cada postagem. Vida longa ao blog, Flavio. Ainda que pra nós, meia dúzia de gatos pingados.
Falvio, você esta de parabéns, os seus texto sempre são claros e parece que realmente isto esta com os dias contatos, infelizmente em tempo de influencers, esta aumentando o numero de idioters,
A impresa escrita de forma a transportar as pessoas a sentirem o que está acontecendo realmente, sem firulas, achismo, opniões particulares de egocentrismo, esta acabando, não desista ainda estamos aqui e se preciso for levamos até uns tabefes se precisar.
Texto daqueles dos tempos áureos deste blog! Que bom ter esse oásis ainda para acompanhar esse GP e sentir um pouco do mundo que aprendemos a gostar. Obrigado e boa cobertura!
Aqui pode ter mais textos! Os leitores (ainda existem!) e agradecem!
Uma batalha para pegar credencial…
Viva a mídia escrita!
Lembrei de uma cobertura em que o título era pastel alguma coisa que não lembro..
Lembro até hoje, foram muitas postagem, achei muito sensacional.
E todo GP no Brasil ficava esperando algo do tipo. Me parece que voltou.
Sabemos que ao fim vai nos dar as estatísticas de acesso e verá que vale muito mais que seguidores em uma rede social.
Leio há 12 anos, acesso todos os dias pra ver se tem algum texto novo, e continuarei a ler!
Segue sendo meulugar de saber sobre vformula 1. nem sempre concordo contigo, mas seu conhecimento do assunto -e franqueza – são inegáveis, consistentes e únicos…
Muito bom Flavinho!!! E é minha esposa nos deliciamos com o seu texto!! Parabéns!!
Passo por aqui todo dia. Se ainda não tem texto novo, releio alguns que mais gostei. Obrigado.
“Mas espero que, pelo menos, todos tenham algum prazer em ler. Porque é o que farei, escrever. Não farei dancinhas, “reels”, “stories”, “combos”.”
PERFEITO!!!
Obrigado.
Esse “NÃOPODE”, me fez lembrar que história que virou folclore nos anos 70, a JOHN PLAYER distribuiu umas camisetas para a geral, dai o que aconteceu? Alguns gaiatos rs, chegavam para os seguranças vestindo a ditas, e com uma língua estranha, fazendo uma mímica diziam que eram da equipe e precisavam passar. Moral da história, uma galera entrou para os boxes: Velhos tempos, Belos dias.
Assim ano que vem não vai ter credencial. Para o Sistema, reclamão, assim como para o Vini Júnior, não pode.
Leio sim, e com frequência. E também digo que depois dos tabefes vou abrir o bico. Já conhece o DOI-Codi de São Paulo? Aqui no Rio fechou – pelo menos segundo os dados oficiais.
Bom, acredito que não há melhor escriba no que tange a noticiar a corrida ( que pelo jeito já é muito mais evento que corrida de fato). Quanto ao “não pode” e seu primeiro parágrafo, na atual conjuntura da situação me parece aqui de longe que não estamos sob risco do DOI – CODI, mas sim nas garras do KGB. Temos nosso próprio Feliks de Ferro tupiniquim (titio Xandão I), nosso Yagoda tropical (Barrosinho) e o Laventry Béria do terceiro mundo (Pachecão). Pena que painho de Garanhuns tá muito mais parecido com o Josef errado. É quase tão genial quanto o Goebels, mas nem de longe eficiente como o Stalin (que era eficiente pra caramba. Nas mãos dele, o Brasil já estaria andando pra valer). E esse negócio aí de ” não pode isso e não pode aquilo” é muito mais coisa de soldado raso se deleitando com seu pequeno poder do que coisa que vem de cima.
Em todo final de semana de grande prêmio minha fonte de informação é este blog.
Você, para mim, é quem fornece os melhores textos e avaliações de automobilismo e muitos outros temas. Siga firme.
Cobertura in loco é outra coisa. O grande barato são os acontecimentos nos bastidores. Sensacional. Acompanho desde as colunas no jornal Lance. Como disse Stallone naquele comercial, “keep going”.
Aqui pode, Flávio!!
Por favor, nunca pare de escrever!
Muito boa, como sempre a sua cobertura. Detalhes técnicos podemos ver no site do GP.
Vou passar a usar o apelido “Ninguém”, pois acesso o blog todos os dias ;) faz uns 20 anos. Lembro tb das suas colunas no Lance e claro da FSP
Sinceramente espero que voce esteja ganhando bem naquilo que faz, para nao desistir deste seu “hobby” que eh o blog…adoro le-lo, adoro as fotos, o humor acido, enfim, vale simplesmente muito a pena, por favor, nao pare de escrever, afinal, AQUI NAO PODE !!!
Acompanho (leio) seu blog todos os dias, há pelo menos 20 anos. Parabéns por manter essa ferramenta muito importante para os amantes de automobilismo.
Obrigado por continuar.
Obrigado pelo texto.
A habilidade do escriba em escrever textos ótimos e que prendem nossa atenção é impressionante!
Longa vida ao blog!!