TIRA UMA FINA (2)

SÃO PAULO (mais leve) – Lando Norris desbancou o nativo Charles Leclerc e fez a pole para o GP de Mônaco, oitava etapa do Mundial. É apenas a segunda vez no ano que o inglês da McLaren parte da primeira posição do grid. A outra tinha sido na Austrália, na abertura do campeonato. E é a primeira pole da equipe no Principado desde 2007, com Fernando Alonso. Leclerc ficou em segundo no grid e Oscar Piastri, com o outro carro papaia, larga em terceiro.
Foi uma surpresa, a pole de Landinho. Pela forma como aconteceu e pelo que estava sendo visto nas ruas de Monte Carlo desde ontem, quando começaram os treinos.
Às explicações, portanto, porque elas são necessárias.
Leclerc vinha dominando o fim de semana desde a primeira sessão livre, garoto cascudo que foi criado nas perigosas comunidades monegascas, naqueles morros íngremes e sorrateiros, nas ladeiras de paralelepípedo, ralando os joelhos e brigando com os moleques na rua. Por isso, era o grande favorito à pole na corrida de sua terra. Além de andar bem no Principado, Chaleclé, como é conhecido no pedaço, manja todo mundo por ali: o padeiro das melhores baguetes da Riviera, a costureira que fazia a barra de suas calças Diesel, a vendedora da Lacoste, o relojoeiro que consertava seu Rolex. Correr em casa é correr em casa, qualquer um sabe disso. Dá um ânimo extra.


E foi assim que o ferrarista foi para a pista na classificação: cheio de esperança. No Q1, sua primeira tentativa de volta rápida não foi grande coisa, é verdade. O cenário era meio nebuloso para todos. Alguns pilotos saíam com os pneus macios, os tais C6. Outros, com os médios. “Outros” é exagero: só dois, os da Alpine, no primeiro segmento da sessão que definiria o grid.
Com muito tráfego, os tempos ainda não batiam os da sessão matinal. Vinte carros gigantescos andando ao mesmo tempo naquelas vielas estreitas não permitem grandes ousadias. Faltando menos da metade do Q1, as voltas estavam ainda na casa de onze alto, se é que me entendem.
(Nós, pilotos, falamos assim: “onze alto”, “onze baixo”. Alto é com mais de 5 na primeira casa decimal. Baixo, menos de 5. “Fiz oito baixo”, foi o que eu disse em Interlagos na minha última corrida. Ou seja: 2min08s339. Mas na classificação virei “dez alto”, a saber: 2min10s755. Entenderam?)

Então, Piastri e Norris, adormecidos nos treinos livres, acordaram na classificação e saltaram para primeiro e segundo, com Oscar virando onze baixo: 1min11s385. Charlinho, porém, resolveu dar a resposta nos últimos minutos: 1min11s229. A pista ia ficando emborrachada e melhorando, com algumas surpresas despontando lá na frente. Esteban Ocon e Nico Hülkenberg, por exemplo, estavam em sexto e oitavo a menos de dois minutos do final.
E quando a quadriculada já era mostrada para os primeiros que fechavam suas voltas, bandeira vermelha: Kimi Antonelli triscou o guard-rail na saída do Túnel do lado esquerdo e bateu. Pediu desculpas dez vezes. Toto Wolff disse que não tinha problema nenhum, que era para ficar tranquilo porque “não vou contar pra sua mãe”. “Se ela não vai mais deixar eu sair de casa até segunda de manhã!”, afligiu-se o piloto. “Calma, Kimi, ela não viu nada, hoje é reunião de pais na escola”, tranquilizou-o o chefe. “Volta pra cá, não conversa com nenhum estranho na rua e não esquece a lancheira dentro do carro.”
Leclerc, Norris, Piastri, Max Verstappen e George Russell foram os cinco primeiros no Q1. Os eliminados, pela ordem: Gabriel Bortoleto, Oliver Bearman, Pierre Gasly, Lance Stroll e Franco Colapinto. O brasileiro da Sauber bateu na trave para avançar ao Q2. Já o argentino da Alpine manteve o lugar cativo na rabeira do grid. A batida em Ímola fez mal a Colapinto. O menino parece meio assustado, com medo de Briatore. Para não bater, anda devagar. Mas andar devagar, na F-1, não é lá uma estratégia das melhores. Nem em corrida de autorama.
(A registrar no Q1: Verstappen ficou louco da vida com Hamilton — que tinha batido no terceiro treino livre, só para constar. O inglês atrapalhou sua volta. Acabou sendo punido com a perda de três posições no grid. Mas foi culpa da Ferrari, que pelo rádio informou que Max vinha devagar atrás dele. Aquela zona tradicional da comunicação ferrarista. Nada de muito novo.)



No Q2, novamente alguns pilotos optaram pelos pneus médios, mais consistentes que os macios, dependendo do carro. Lembrando — sempre é bom lembrar — que os macios C6 foram usados pela primeira vez em Ímola, semana passada. Os médios deste fim de semana, pois, são os macios que vinham sendo usados até o GP da Emilia-Romagna, quando a Pirelli jogou na roda a nova borracha mais aderente e nem sempre funcional, porque podem perder rendimento antes do final da volta.
Começa o Q2 e Norris foi o primeiro na classificação a andar abaixo de onze: fez dez alto. Estou tratando vocês como colegas pilotos. Mas OK, se querem números precisos, vá lá: 1min10s959. Um bom tempo. Verstappen virou 0s165 pior. Mas quando faltavam dez minutos para o fim da segunda parte do quali (de novo, estou usando termos que só nós usamos, como “quali”, com “i”), quebrou o carro de Russell dentro do Túnel.
Na verdade, o piloto percebeu o problema bem antes, já no meio da volta, ao passar por uma ondulação. Apagou tudo, depois voltou a funcionar, até parar de vez. Pelo rádio, o piloto relatou à equipe o que tinha sucedido. “Amigos, meu automóvel estancou. Suponho ser algum problema eletrônico, o painel acende e apaga, alumbra e desliga, alumia e se extingue. Já tive isso num carro de rua certa vez, precisei chamar a seguradora. Que bom que tinha sinal de celular! Vocês não imaginam o… posso usar uma palavra feia? Vocês não imaginam o perrengue! Motoristas buzinando impacientes, alguns mais grosseiros até me xingando! Tentei fazer funcionar, mas a bateria se foi. Vou ver se consigo aqui, embora ninguém esteja buzinando para mim neste túnel escuro e sombrio”, informou, sucintamente. Toto Wolff entrou no rádio: “Pega no tranco, George! No tranco!”. Ao que Russell sorriu. “Toto, Toto… No seu tempo isso seria possível. Era só colocar segunda, o pé no desembraio, soltar de repente e pronto, o motor funcionava. Meu pai vivia fazendo isso. Claro, quando tinha alguém para empurrar. E olha que aqui tem, há muitos rapazes solícitos vestindo roupas cor de laranja, será que trabalham na McLaren? Desculpe, não resisti à piada. Mas nossos carros modernos são diferentes, querido! Nem pedal de embreagem temos mais! Seu pândego!”
O carro não pegou, Russell ficou fora da classificação.


A sessão foi retomada depois que a Mercedes do inglês foi removida para local seguro. Dois dos 15 que havia passado ao Q2, portanto, nem tempos fariam: Russell e Antonelli, com seus carros parados. Assim, eram 13 na pista. Leclerc voltou à ponta com 1min10s581. Norris deu o troco: 1min10s570. Pneus médios apareceram aqui e ali: com Fernando Alonso e a dupla da Williams, Alexander Albon e Carlos Sainz. Fernando fez uma boa volta e comemorou pelo rádio, antes mesmo de saber se iria passar ao Q3. Passou. Quem ficou fora foi o outro espanhol. Albon, seu companheiro, acabou colocando pneus macios e saltou para terceiro. Carlos abriu a lista dos eliminados, que teve ainda Yuki Tsunoda e Hülkenberg, além dos dois desafortunados da Mercedes.
Avançaram as duplas de McLaren, Ferrari, Aproxima Aqui Atrás, mais um da Haas, Ocon, grande surpresa, Alonso, da Aston Martin, Albon, da Williams, e Verstappen, da Red Bull. Sete equipes diferentes entre os dez primeiros, nada mal. Um grid sortido, como os dropes Dulcora – foi o que me ocorreu agora, quando escrevi “sortido”.





Norris abriu os trabalhos no Q3 com dez baixo (1min10s464). Piastri chegou perto, 0s067. Dos dez que saíram para suas primeiras voltas, Ocon e Albon usavam pneus médios. Os demais, macios como lençóis lavados com Comfort. Leclerc ficou 0s189 atrás do inglês papaia e Verstappen, o quarto, bateu o cronômetro com diferença de 0s205. A McLaren, realmente, estava guardando munição para o final, safadinha. Adoçou a boca de Charlinho desde a sexta-feira e, na hora de a onça beber água, resolveu andar de verdade.
E os dois pilotos do time inglês estavam verdadeiramente voando. Piastri fez 1min10s140 na segunda saída, e Lando devolveu com 1min10s125. Faltavam os dois carros da Ferrari. O povo nas arquibancadas segurou a respiração. Hamilton não conseguiu superar os líderes do campeonato. Mas Leclerc sacou uma volta do fundo da alma e virou 1min10s063, levantando os fanáticos monegascos com suas taças de champanhe e canapés de camarão. Só que a dupla da McLaren não tinha terminado o serviço, ainda – e aí a surpresa mencionada lá no primeiro parágrafo. Oscar e Norris ficaram na pista a abriram uma terceira volta rápida. “Duas sem tirar de dentro”, diria alguém nos anos 80, piada daquelas machistas de adolescentes que não caem bem hoje em dia.
O australiano melhorou, mas não o suficiente para derrotar seu companheiro de equipe ou Leclerc: com 1min10s129, ficou onde estava, em terceiro. Só que Lando tirou forças não se sabe de onde e bateu o relógio em 1min09s954, conseguindo a mais bonita de suas 11 poles até agora na carreira. Um recorde para o circuito montado nas ruas chiques de Monte Carlo.


Norris e Leclerc dividem a primeira fila, com o piloto da casa demonstrando alguma decepção com o resultado. “Não sei se dá pra ganhar largando em segundo”, lamentou. Piastri teria a outra Ferrari, de Hamilton, ao seu lado na segunda fila. Mas o inglês tomou três posições de punição por atrapalhar uma volta de Verstappen no Q1 e caiu para sétimo. Max herdou o quarto lugar (a 0s715 da pole). Isack Hadjar ficou com a quinta posição, excelente, e Alonso larga em sexto — igualmente ótimo. Depois de Lewis, completando os dez primeiros, Ocon, Liam Lawson e Albon. Palmas para a dupla da Maquininha, que eles merecem. E muitos aplausos para Esteban, também. A Haas é uma verdadeira montanha russa.
Discreto em todas as atividades de pista em Mônaco até chegar a classificação, Lando virou o favorito imediato à vitória amanhã. Sim, a corrida terá duas paradas obrigatórias para troca de pneus e isso pode mexer em alguma coisa. Mas não necessariamente com quem está na ponta. Este tem a prerrogativa de estabelecer o ritmo da prova e se precaver contra eventuais entradas de safety-car. Tem de ficar esperto, de olho em tudo que está acontecendo atrás dele. A equipe, idem. Vai ter muita estratégia casada dentro dos times. Se não bobear, a McLaren vence amanhã. Mas surpresas são sempre bem-vindas. Vamos torcer.
Eu vendo a cobertura, a Mari Becker bem loka lá no meio do fervo, hahaha. Não deixo de lembrar das elocubrações do Flavinho sobre cobertura in loco, o fato da Band mal mandar um cinegrafista pros circuitos, é uma pobreza mesmo. Mas voltando, como vai pra Globo, vai ser a mesma coisa, pra pior. Foi se o tempo, agora é só pobreza. Alguém paga a minha pro próximo GP de Mônaco , Jesus, ia dormir na pista acho. Dormir…Aliás eu quero SPA ou Silverstone, bora fazer uma vaquinha, eu podia tá matando, eu podia tá roubando :)
Quem falou que o Galvão não sabe nada de F1 não fui eu, foi o Piquet…
Uma das coisas que lembro dele falando que o Frentzen errou tudo numa freada que rodou e o Reginaldo falando que parecia um defeito dos freios da Williams, que posteriormente ficou confirmado…
E aí como fica?
Tem a história do Piquet dormindo/concentrando para a corrida também…
Ah é tanta bobajada que nem cabe aqui.
Aqui no RJ só mudamos o gênero: “tira um fino”
Mônaco é tão pequeno que nunca me acostumo com o fato de ter um piloto monegasco, e dele ser tão bom. Ver a raiva do Leclerc no rádio ao perder a pole em casa é um espírito competitivo que deu gosto de ver. Torcerei por ele amanhã, já que é um grande piloto e a Ferrari em geral atrapalha muito mais que ajuda.
Desembraio 👏👏👏 para os jovens:
Interromper a comunicação que unia a árvore motora de um aparelho a uma árvore secundária ou a qualquer peça do mesmo aparelho. Origem etimológica: des- + embraiar.
Fonte: priberam
Parei no quarto parágrafo, não sei se o resto me interessa… A vida de Charle Leclerc, ou Chaleclé (como o malandro é conhecido na quebrada) é digno de uma crônica machadiana… Esporte, literatura e política que desavisados não entendem… Obrigado Flávio por seus textos
Esse Mônaco será diferenciado. Vai ser uma boa prova, sem aquela modorra de sempre. O que acontecerá aí já é pedir demais, mas escreve aí, não perca!
Curioso para saber quais serão as estratégias adotadas pelas equipes….. será que as que ocupam a parte de trás do grid farão 2 paradas em sequência?
Se você quiser viver, melhor drops Dulcora do que balas Soft
Quem diria, Norris num dia de Verstappen.
As Macs. vão se enrOLar, vence Chall lecler ou Max, talvez podio de Hamiltom ou Fernando Alonsete. ALBON VAI RECUPERAR 5 A 6 POSIÇÕES. OS DEMAIS fica imprevisivel, sera o banquete dos mendigos. Podem me cobrar amanhã!
O vegetal estava a fim de levar uma cobrada na segunda-feira.
Será o Comandante Amilton, depois da perda de 3 posições, falou: Entenderam porque queria meu engenheiro dos tempos de Mercedes?
Lando dessa vez não deu mole.
Agora é só a maclaren não bobear, e esse é o problema. A favor dos pilotos da maclaren está o fato de que a Ferrari também adora uma trapalhada na estratégia.
Lando Norris fez uma volta simplesmente espetacular, irretocável, irreparável, irresistível, incrível, irritantemente imbrochável. No apagar das luzes, quebrou o recorde da pista. Só. Nunca ninguém tinha percorrido os 3 mil e picos metros da pista de Mônaco em menos de 70 segundos. Palmas, palmas e palmas para o garoto, que andava meio acabrunhado com o companheiro de equipe, o saltitante e falante Oscar Piastri, representante da antiga colônia britânica na Oceania. Reparem vocês que essa volta do Norris é mais de 10 segundos (!) mais rápida que a volta de Ayrton Senna em 1988, aquela em que ele teria se teletransportado para o além e só depois de muito tempo voltado à Terra. Fiquei me perguntando depois do final do treino se Lando Norris também teria sido abduzido por algum alienígena durante a volta que lhe conferiu a pole de hoje. Bem que a Mariana Becker, sumida que estava, poderia fazer essa pergunta ao inglês da McLaren. Mas querem saber? Quem me impressionou mesmo foi Fernando Alonso: quase 50 anos nas costas, pagando os pecados com esse carro da Aston Martin e dizendo todos os dias a récita do terço “Vem Adrian Newey! Salva-me desse Vale de Lágrimas! Porque a messe é grande e o meu sofrimento também!” Isso quem me contou foi um amigo, parece que chegado ao piloto espanhol. Adrian Newey que estava lá, inclusive, pela primeira vez nos boxes da sua nova equipe. Sétimo lugar no grid com esse carro não é para qualquer um não. Palmas para o asturiano também.
Em todas as pistas os carros são mais rápidos do aquela época. Deve ter colocado uns 6 segundos no Dick tb. Natural, a F2 anda perto dos carros de outras décadas
Flavio: acabou de dar aqui no perfil da F1 (aplicativo): Hamilton punido com perda de 3 posições por bloquear Verstappen.
Treino em Monaco e 5, 6 pilotos disputando a pole.
Faz tempo que nao tinha isso na F1.
Independente da corrida, ja e uma boa novidade…
Adorei ser tratado como “colega piloto”.
Drops Dulcora! Sortidos! Boa lembrança!
O grid está sortido também! Foi de arrrrrepiiaaarr (como diria Galvão, que participará da transmissão amanhã).
Vamos ver como será essa corrida pelas ruas do Principado…e semana que vem Catalunha!
Como se sabe, a largada deve definir o vencedor. Somente uma variação climática inesperada durante a prova para apresentar alguma surpresa