Ilusões de uma criança

SÃO PAULO (eu nem dormia…) – Quando eu tinha uns dez anos, era doido por bonequinhos de cavaleiros medievais que vendiam aqui no Brasil. Lindos, detalhados, pareciam ter vida. Eram caros, e eu ganhava um no Natal e outro no aniversário. Mas depois de uns dois Natais e dois aniversários, eram já quatro, quase uma Cruzada. Como me apropriava dos dos meus irmãos, e meu pai às vezes comprava uns avulsos sem os cavalos, que eram mais baratos… Bem, tinha meus castelos.

Guardava tudo numa lata de sorvete da Kibon. Fascinavam-me particularmente os que montavam cavalos com mantas brancas, cruzes vermelhas, malhas de metal cobrindo o corpo. E eles viajavam para glebas distantes entre os sofás da casa da minha avó, o quintal, a vitrola Telefunken do meu avô.

Sempre gostei da Idade Média, tanto que consegui gostar até de “Codigo Da Vinci”, o livro (não vi o filme ainda), e vivo entrando em igrejas minúsculas na França atrás de pistas do Santo Graal.

E hoje, finalmente, a recompensa veio. Por e-mail, como sói acontecer nestes tempos. Um convite para participar da Ordem dos Templários!

Trêmulo, cliquei no link indicado, certo de que fui escolhido a dedo, talvez o vendedor dos bonequinhos 30 anos atrás fosse um Templário, que me observou esse tempo todo, me seguiu pelas igrejas francesas, até se convencer de que eu merecia tal honra.

Aí vieram à minha tela os Cavaleiros da Minha Infância, até eu descobrir que para ser um Templário eu deveria pagar 39 reais de inscrição e 35 reais por mês. Depois descobri outro site da Ordem que é mais barato, 35 reais para me inscrever, 32 por mês.

São valores justos, creio, para me juntar aos seculares cavaleiros de tão nobre causa. Mas acho que vou fazer uma pesquisa de preços.


(Meus bonecos eram assim. Vou procurá-los,
quem sabe encontro alguma mensagem secreta
escondida sob o manto branco de plástico…)

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