SOB O SOL DA RIVIERA (2)

O carro de Leclerc: todo estropiado

SÃO PAULO(forcei, na história do sol; o dia foi mais nublado que ensolarado, em Mônaco) – Corro o risco de fazer uma longa elegia a Charles Leclerc e previsões mirabolantes sobre o GP de Mônaco que daqui a algumas horas serão desmontadas se a Ferrari tiver de trocar o câmbio do moço. Sim, porque esse carro aí em cima, acreditem vocês que não viram a definição do grid no Principado, é o que fez a pole para a quinta etapa do Mundial. Depois de fazer a pole, por supuesto.

Charles Leclerc, quem diria… Depois do ano de merda que a Ferrari teve em 2020, quem apostaria numa melhora tão acentuada da equipe italiana? Eu é que não. Embora tenha dito com todas as letras no incrível “Fórmula Gomes” (procurem no fim do vídeo, na hora dos palpites) de quinta-feira que Leclerc faria a pole hoje. Mas nem eu acreditava nisso. Foi só um palpite para dar uma de gostosão e lembrar dele se acertasse. Se errasse, não tocaria no assunto.

Porque, no fundo, eu achava que a pole seria desse outro moço aí embaixo.

Verstappen: chance de pole perdida com a bandeira vermelha

E ele também. Verstappinho ficou meio emburrado com o final do Q3, encerrado alguns segundos antes da bandeirada porque Leclerc, em sua segunda tentativa de volta rápida, bateu antes da Rascasse causando uma bandeira vermelha que abortou as voltas de todos que ainda buscavam melhorar seus tempos na classificação. Max era um deles. E a briga pela pole estava sendo travada basicamente entre o holandês da Red Bull e Leclerc — Sainz e Bottas também fizeram biquinho e disseram que podiam conseguir desbancar o monegasco, mas não creio, não; de qualquer forma, nunca saberemos.

Como se vê, comecei do fim falando do Q3. Então vamos passar a régua nos dez primeiros e depois falamos sobre Q1 e Q2, o purgatório da F-1.

Ferrari e Red Bull, principalmente, e McLaren e Mercedes, marginalmente, vinham registrando os melhores tempos na classificação até a hora da verdade, que começou com Verstappen fazendo uma ótima volta em 1min10s576. Na sequência, Charlinho, que conhece aquelas vielas de Mônaco como ninguém — afinal, cresceu nos morros da comunidade, de pés descalços e vendendo sacolé na porta do cassino –, cravou 1min10s346.

Ooooh!

Charlinho: sacolé no cassino

Sainz, que se chama Carlos, que é o mesmo que Charles, e que por isso chamo de Carlinhos, virou direitinho, também: 1min10s611. Mas logo foi superado por Bottas e nas quatro primeiras posições, nesta parte inicial do Q3, tínhamos Ferrari-Red Bull na primeira fila e Mercedes-Ferrari, na segunda.

O resto tinha ficado para trás, incluindo um apagadíssimo Lewis Hamilton. O inglês, líder do Mundial, aparecia apenas em sétimo, atrás ainda de Norris, o quinto, e Gasly, o sexto. “Estou na frente de uma Red Bull e de uma Mercedes!”, festejou o francesinho da AlphaTauri, que também deixara Pérez para trás.

Todo mundo se preparou com trajes de gala para a segunda saída dos boxes, mas poucos melhoraram suas voltas e as posições do “primeiro tempo” acabaram sendo mantidas. Isso porque na sua segunda volta voadora Leclerc deu no guard-rail depois dos “Esses da Piscina” e parou do outro lado arrebentando o carro.

Batida de Leclerc: risco de punição

A sessão foi interrompida e não havia mais tempo para nada. “Eu teria de vender muitos sacolés para consertar o estrago, ainda bem que já estou rico”, pensou o rapaz ao ver seu carro estatelado na defensa metálica.

Não sei se ele pensou exatamente isso. Mas, ao encerrar o treino prematuramente e impedir Verstappen, Sainz e Bottas de melhorarem seus tempos, disse, antes que insinuassem qualquer porcaria: “Se eu tivesse de fazer isso de propósito, bateria mais fraco”. Isso porque a parte traseira também ficou esmagada na grade, o que pode ter machucado o câmbio de seu carro. Se tiver de trocar, a Ferrari será punida e ele perderá posições no grid. Saberemos mais tarde.

O fato é que, por enquanto, Leclerc está na pole. Se confirmada, será a oitava de sua carreira e a primeira dele e da equipe desde o GP do México de 2019. O resultado foi comemorado com um buzinaço nos iates de seus amiguinhos de infância que conviveram com ele nos morros da Riviera.

Depois de Hamilton, o sétimo, fecharam o top-10 Vettel, Pérez e Giovinazzi. Dois destaques positivos aí: Tião Bond no Q3 à frente de Stroll, dando algum sinal de vida, e o italiano em décimo — primeiro Q3 da Alfa Romeo no ano. E um negativo: Pérez em nono, 1s mais lento que Verstappen. Por enquanto, a Red Bull perdoa o mexicano: “Ele ainda está se adaptando. Estamos vendo as dificuldades de todos os pilotos que mudaram de equipe este ano”, disse Christian Horner, seu chefe, mencionando especificamente Checo e Ricciardo, da McLaren, que só toma tempo de Norris. O australiano larga em 12º, apenas.

Norris: na McLaren, ele vai bem e Ricciardo vai mal

Dos emburrados no Q3, a maior tromba era de Sainz. Companheiro de Charlinho, o espanhol falou que “é muito difícil aceitar essa situação”. Referia-se à bandeira vermelha. “Eu tinha uns dois décimos para tirar na minha volta. Na minha cabeça, sei que tenho ritmo para ganhar a corrida, e algo me diz que ainda posso”, disse.

Já Hamilton era uma cabeça baixa só. “Vitória está fora do meu alcance. Minha classificação foi terrível. Meus pneus não funcionaram. Foi um desastre.” É sua pior posição de largada desde o 14º no grid do GP da Alemanha de 2018. Prova que, diga-se, ele venceu. Mas foi em Hockenheim, não em Mônaco. “Aqui é impossível passar”, lamentou o britânico, repetindo frase que todo mundo diz pelo menos cinco vezes por fim de semana em Monte Carlo.

Hamilton: fim de semana ruim

Verstappen, apesar de cabreiro com a perda da pole, estava satisfeito com a recuperação da Red Bull de quinta para hoje. Anteontem, depois dos primeiros treinos livres, tinha dito que seu carro não estava lento. Estava “muito lento”. Mas a equipe, claramente, encontrou alguma coisinha para melhorar. Se Leclerc for punido, ele ganha amanhã. Se tiver de brigar com o ferrarista nas ruas estreitas de Monte Carlo, a tarefa é um pouco mais complicada.

“A gente nunca espera uma bandeira vermelha, embora sabendo que sempre pode acontecer. Eu tinha carro para bater o tempo de Charlinho. Mas sabe como é, ele conhece bem aqui, vendia sacolé no cassino quando era criança, meu pai até comprou um de mousse de limão siciliano dele, uma vez”, relatou o jovem nederlandês.

Verstappen lembra a infância difícil de Leclerc: “Meu pai comprou sacolé dele na porta do cassino”

Isso tudo dito, falemos agora da turma do fundão.

O Q1 começou com a ausência de um piloto, Mick Schumacher, que bateu no treino livre da manhã e não pôde ir para a pista porque o carro ficou destruído. Larga em último amanhã. Foram degolados Tsunoda (será que ele não é tudo isso?), Alonso, Latifi e Mazepin. Decepção maior, a de Fernadinho. O ex-Fodón de Las Astúrias empacou no Q1. “Fomos lentos, só isso”, resumiu o espanhol. Percebemos.

No Q2, a foice da classificação passou por Ocon, Ricciardo, Stroll, Raikkonen e Russell. A Alpine, como relatado por Alonso, andou para trás de novo, depois de apresentações razoáveis em Ímola e Portimão. Ricardão não se entende com a McLaren. Raikkonen também deu mais uma demonstração de que talvez a hora de parar esteja chegando — não dá para ficar tomando tempo de um piloto normal como Giovinazzi. Russell fez a dele, de novo, indo ao Q2.

Alpine: cada vez mais distante de Ferrari e McLaren

O clima anda instável no sul da França, e por isso não dá para cravar ainda se a corrida de amanhã será disputada com pista seca. Olhando o campeonato como um todo, caberá a Hamilton, como se diz, minimizar o prejuízo porque, se tudo acontecer dentro da normalidade, perderá pontos para Verstappen na luta pelo título. Ele tem 14 de vantagem. Favorito à vitória, Max ainda pode receber de bandeja a pole se Leclerc for punido. Mesmo largando atrás do piloto da Ferrari, ainda acho que pode vencer. Não sei se os italianos, apesar da melhora em relação a 2020, estão com essa bola toda para ganhar corrida, não.

Mas é Mônaco. Em Mônaco — isso todo mundo também diz –, qualquer coisa pode acontecer.

Fiquem com o grid aí embaixo e não se esqueçam, às 19h, de pingar lá no meu canal iutúbico para assistir ao “Fórmula Gomes”, analisando a classificação de hoje!

Comentários

  • Só quero saber aonde está Lewis Hamilton, segundo alguns o maior e melhor de todos os tempos, o gênio da F1. A pachecada deve estar hoje repensando a esse piloto regular, apenas igual aos demais mas bom de lábia que nunca correu ao lado de um bom piloto em condições iguais.

  • Batidinha pra lá de marota essa.
    Isso não é justo. Isso não é honesto, Carlos Sainz sobre como Leclec segurou a pole – CALA A BOCA, BURRO, todo mundo viu.
    Sem chance de ter quebrado qualquer coisa na caixa e de fato não quebrou. Já viu qdo aquele zagueirão dá uma voadora no atacante craque e fica no chão simulando? É o leclec falando da caixa de cambio. Ele bateu a roda, nao freou e deixou o carro ir quebrar a asa no guard rail. Carro parado ainda, a traseira encostou de leve no guard-rail.

  • Coincidência ou não a batida do Leclerc deu a Pole a ele, e com isso o maior prejudicado foi o Hamilton que no pior das hipóteses teria feito o terceiro tempo no curso normal do treino no Fim.
    A Ferrari vai ter que fazer alguma mágica para evitar a troca de câmbio e a perda de cinco posições do Leclerc no grid, se isso acontecer o Verstappen agradece.
    Vettel o oitavo, para ele foi o melhor treino do ano até aqui, só falta ver se o final vai ser compensador.
    Mazepin só não larga em último quando alguém não treina, e nesse caso foi o parceiro Schumacher filho que ficou sem carro pela batida no TL3.

  • Ah, essa do sacolé, genial sacada! E se o Charlinho ganhar ele vai chupar um sacolé de groselha (Milani) ao lado do Príncipe, depois de estourar a champanhe. Justa homenagem aos seus amiguinhos de infância, vários deles que ainda moram nas comunidades espalhadas nos morros…

  • Do jeito que o grid ficou embaralhado é de se esperar uma corrida com um desfecho potencialmente diferente (entenda-se “pode haver outros pilotos além de Verstapen e Hamilton na liderança).

    De resto fica a torcida.

    E o Ocon, heim?! Ele lembra muito o meu filho, lembro do Bruno pequeno a apanhar de mim no videogame, boliche, kart e no basquete… hoje ele tem 27 anos… e não sei porque ele ganha de mim em todos os esportes que Eu era melhor que ele… achoo que é porque sou da Categoria SUB-60.

  • Apenas fatos.
    Ímola, 2019 (ou foi Monza ou outro?). Leclerc então na pole assume a dianteira do comboio, desacelera de forma proposital e impede que todos façam a segunda volta rápida no Q3.
    Mônaco, 2021. Leclerc então na pole bate e impede que todos façam a segunda volta rápida no Q3.
    A divulgação dos dados da telemetria seria bem-vinda, para espancar qualquer dúvida, até porque a justificativa pós-treino é plausível. Mas é inegável haver uma intringante semelhança, “por supuesto” (*FG, como sempre, enriquecimento meu dicionário).

  • Pessoal usando os resultados da classificação de Mônaco como parâmetro kkkkkkkkkkkk Ferrari teve uma evolução tão acentuada kkkkkkkkkkkkk ganhei a gargalhada do final de semana ….

  • Que texto absolutamente delicioso, Flávio! “Meu pai comprou sacolé dele na porta do cassino”… hahahah!
    É muito bom rir um pouco, ainda mais nesses tempos tão bicudos que estamos atravessando!
    **
    O carro do Charlinho agora foi pra oficina… Será que vai precisar trocar câmbio, bronzina, rebimboca da parafuseta e todos os breguenaites?!?

  • Caro Gomes, você fala e com razão, que Alonso e Vettel precisam analisar uma possível aposentadoria. Concordo, mas eu colocaria mais um nessa lista: Daniel Ricciardo. O australiano já disputa sua 11ª temporada e o que vimos até agora? Um brilhareco na Red Bull e nada mais. E ainda me arrisco a dizer, ele está cada vez mais parecido com seu conterrâneo Mark Webber, que correu na mesma Red Bull e também ficou no brilhareco.

  • Hamilton, cadê o super piloto? Maior de todos tempos? Quando a situação de equipamento se equipara, ele some. Só foi tantas vezes campeão pelo equipamento e companheiro de equipe fracos.