SPANTOSAS (2)

Russell e Verstappen: pole do holandês, inglês brilhante em segundo

SÃO PAULO(este ano está demais, admitam!) – Foi um sábado daqueles, em Spa-Francorchamps. No fim, deu a lógica na pole, pelo menos: Verstappen, que é bom na água como poucos. Eu diria que um dos melhores de todos os tempos, pelo que já vi fazer. Mas foi só isso que tivemos na categoria “normal” quando falamos em definição de um grid. Porque ao lado dele larga George Russell. Sim, da Williams. Não, ele não está de Mercedes ainda. Sim, de Williams. Sim, sim, essa é a primeira fila: Verstappen e Russell.

Parece conversa pelo orelhão entre duas pessoas separadas por milhares de quilômetros, o outro lado perguntando aos berros se era verdade ou conversa fiada. Foi de verdade. Graças à chuva e às condições absolutamente imprevisíveis que historicamente marcam o GP da Bélgica. Hamilton ficou na terceira colocação e Ricciardo, da McLaren, conseguiu sua melhor posição de grid pela equipe e larga em quarto. Seu companheiro Lando Norris acabou sendo a única vítima do asfalto molhado no meio da Floresta das Ardenas. Depois de fazer o melhor tempo no Q1 e no Q2, sucumbiu à água e bateu forte na Eau Rouge no Q3.

A chuva foi a personagem principal do dia. A direção de prova atrasou o início da classificação em 12 minutos, por causa da quantidade de água na pista. Assim que os boxes foram abertos, a chuva tinha parado e até sol aparecia em alguns pontos do circuito.

Não houve unanimidade nos pneus. Russell e Latifi, por exemplo, saíram de intermediários. Os demais, com pneus para chuva forte. O problema de Spa é que esse “teste de asfalto”, por assim dizer, toma muito tempo, pela extensão do circuito. E tempo, em sessão que define o grid, é escasso.

A condição da pista era muito pior do que pela manhã, no último treino livre – que teve Verstappen em primeiro. Latifi rodou e quase atolou na grama. Espalhou água para todo lado. Russell conseguiu se manter na pista e fechou a primeira volta cronometrada do Q1 em 2min11s727 – só para comparar, 1min56s924 fora o tempo de Max no TL3, com o asfalto, digamos, apenas úmido.

A Williams de Russell: destaque absoluto do sábado

Mas os tempos começaram a cair bastante na segunda volta dos pilotos da Williams, mostrando que os pneus intermediários eram mesmo uma opção melhor que os “wet”. Russell fez 2min02s068, com Latifi a 0s669 dele. Norris, o terceiro colocado, estava 4s7 atrás de Jorginho. Foi todo mundo para os boxes copiar os cobaias da coirmã de Grove.

Mas o tempo era curto, como já dito, e os pilotos passaram a ser informados por seus engenheiros pelo rádio que era melhor fazer uma volta logo, porque a chuva iria apertar. A loteria mais do que tradicional de Spa-Francorchamps estava no ar. Verstappen foi o primeiro a baixar de 2min, seguido por Norris, logo depois. O inglês da McLaren melhorou ainda mais na sua última volta rápida e cravou o melhor tempo do Q1: 1min58s301. Sinal dos tempos: seu companheiro Ricciardo ficou 3s282 atrás, em 12º. Um vexame.

O negócio, para todo mundo, era se garantir sem arriscar uma rodada ou batida, e assim foi. No fim, foram eliminados Giovinazzi, Tsunoda, Schumacher, Raikkonen e Mazepin. Apesar de animada, a primeira parte da classificação terminou sem surpresas ou dramas inesperados. E Kimi deu mais um passo para uma aposentadoria que já começa a dar ares de melancólica.

Batida de Norris no Q3: mais uma vítima da Eau Rouge

Ao contrário do que previram os engenheiros, que nada entendem de chuva – que, como todos sabem, vem da represa –, o Q2 começou sem que os céus mandassem mais água. Ainda assim, os pilotos se apressaram em sair dos boxes, alguns com pneus usados para dar uma checada nas condições e trocando por novos logo depois.

Norris seguiu forte, apresentando ao distinto público mais uma qualidade até então senão desconhecida, ao menos pouco propalada: a de ser muito bom também no molhado. Durante alguns bons minutos, manteve a primeira posição com 1min57s235, melhorando depois para 1min57s041. Só foi superado a 4 minutos do final por Verstappen, que fez 1min56s559.

Naquele momento, por incrível que pareça, Hamilton estava em décimo, na zona de corte, e Bottas, fora do Q3. Os dois carros da Mercedes colocaram um novo jogo de pneus e foram à luta com alguma pressão debaixo do capacete. Já havia um trilho insinuando asfalto seco nos mais de 7 km de Spa. E quem estava na pista naquele momento se deu bem. Norris, brilhando intensamente no molhado, voltou a bater Max com 1min56s025. Hamilton subiu para segundo e Bottas saltou para terceiro. Russell, em oitavo, ganhou o troféu de destaque do Q2. Leclerc, 11º, e Sainz, 13º, colocaram o chapeuzinho de burro das antigas histórias em quadrinhos: duas Ferrari degoladas. Latifi, Alonso e Stroll também ficaram pelo caminho. OK, trofeuzinho para Latifi também, em 12º. Ele merece, pela simpatia. E porque é a melhor posição de largada da vida dele. Aliás, vai para 11º com o pênalti de Bottas. Palmas para Latifinho!

Guarda-chuvas abertos: chovia e parava, chovia e parava

O tempo enlouquecia todo mundo nos boxes. Assim que a quadriculada do Q2 foi apresentada, guarda-chuvas, capas e galochas foram convocadas novamente pelos torcedores nos barrancos ao longo do circuito, indicando que a chuva, agora sim, apertava. E, por isso, assim que os primeiros pilotos apontaram na saída dos boxes para a abertura do Q3, já calçavam pneus para chuva forte, deixando os intermediários de lado. Eram apenas três: Norris, Gasly e Vettel. E, nas outras garagens, toca mexer nas asas, nas molas, nos freios, na calibragem, no estado de espírito. Ah, Bélgica, que delícia é você! Gostamos de ver pilotos e engenheiros enlouquecidos.

Só que a delícia acaba quando acontece alguma coisa séria, e estava perigoso. O Q3 deveria ter sido protelado por alguns minutos. Assim que foram para a pista, Norris e Vettel relataram problemas. “Tem de dar bandeira vermelha”, clamou o alemão. “Estou aquaplanando”, alertou Lando. Mesmo assim, o inglês abriu volta. E, segundos depois do alerta, bateu forte na Eau Rouge. A bandeira vermelha, então, foi acionada. Vettel, que vinha logo atrás, gritou pelo rádio: “Eu falei! Eu falei que era bandeira vermelha!”. Sebastian diminuiu a marcha e parou ao lado de Norris, preocupado com a pancada. Só seguiu em frente quando viu que o colega estava bem, fazendo sinal de positivo para ele. Lando saiu sozinho do cockpit, mas com o braço esquerdo dolorido. E seu carro ficou totalmente destruído.

Vettel checa se Norris estava bem: solidariedade e revolta

Mais de meia hora depois, quando a chuva deu uma diminuída, a direção de prova liberou a pista para os pouco menos de 9 minutos restantes do Q3. De novo os pneus não foram unanimidade. Alguns foram de “wets”. Outros, de intermediários – casos das duplas de Red Bull e Mercedes, além de Vettel. Quem saiu de “wet”, faixa azul que nem o queijo, parou rapidinho e trocou para os pneus de faixa verde.

Mas precisava confiar muito nos pneus e na sensibilidade. Porque tinha água pacas, o que dava para notar pelo enorme spray levantado pelos carros. Dava até medo. Lewis virou 2min01s552 na primeira tentativa. Bottas passou 1s541 atrás dele. Max, 0s973. Não haveria tempo para colocar novos pneus. A segunda tentativa seria sem tirar de dentro – o carro de dentro da pista. Uma volta de preparação, e outra com o pé no porão. Pérez fechou sua participação subindo para segundo, provisoriamente, 0s560 atrás de Hamilton.

Verstappen: nona pole e chance de virar o jogo de novo

Mas, aí, veio a chamada hora da verdade. A pista melhorou nos últimos instantes e Russell assumiu a ponta com 2min00s086. Hamilton ficou 0s013 atrás. Hamilton atrás? Sim. Russell na frente? Sim, Russell! Muito prazer, sou bom de chuva também! OK, seu sonho de verão durou apenas alguns instantes, porque Verstappen acabou fazendo uma volta espetacular em 1min59s765 e ficou com a pole — a nona da sua carreira. Sua volta foi 0s321 melhor que a de George, que conseguiu a façanha inimaginável de colocar a Williams na primeira fila. Demais, um espetáculo!

Hamilton, a 0s334, larga em terceiro, com Ricciardo num bom quarto lugar seguido por Vettel, Gasly, Pérez, Bottas (que perde cinco posições no grid e larga em 13º, punido pela Hungria) e Ocon. Norris ficou sem tempo e será preciso ver o que a McLaren terá de trocar em seu carro para que ele parta na nona posição original, já contando a punição a Bottas. Liberado para correr ele está, depois de uma avaliação médica.

George quase não acredita: Mercedes, estou chegando…

Russell foi o primeiro a ser entrevistado pelo ex-piloto Mark Webber. “Nem sei o que dizer. Achei que só de chegar ao Q1 já tinha sido um grande trabalho, e agora estou na primeira fila. Estava muito confiante, acho que fui à pista na hora certa, não tinha muito a perder. Acelerei tudo que pude e estou feliz demais pelo resultado. Agora quero fazer pontos amanhã.” George lembrou muito o Barrichello de 1994 lá mesmo em Spa, em sua primeira pole com a Jordan, em condições muito parecidas. Se a Mercedes ainda tinha dúvidas sobre o que fazer com ele no ano que vem, talvez o segundo lugar no grid ajude… Desde 2014, na Alemanha, que a Williams não conseguia um segundo tempo em classificação, com Bottas. Mas em 2017, na Itália, por conta de algumas punições à frente, Stroll largou em segundo pela equipe — sua última aparição na primeira fila.

Verstappen aparentava menos euforia e mais tranquilidade. “A pista é maravilhosa, mas muito difícil na chuva. Consegui a volta certa na hora certa, e estou muito feliz. Estar na pole aqui é muito bom.” Hamilton, sob um guarda-chuva e bem menos animado, admitiu que a situação foi difícil. “Tenho de me manter positivo e calmo. Parabéns ao Max e parabéns ao George pelo trabalho fantástico deles”, falou. Para a corrida? “Se ficar assim vai ser muito difícil achar um equilíbrio entre velocidade de reta e de curva. Estou satisfeito pela equipe. Amanhã é outro dia e vamos torcer para dar um bom espetáculo. Espero que não chova tanto.”

Hamilton, entre surpreso e preocupado: muito trabalho amanhã

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Com chuva, meu palpite é bem claro: Verstappen leva. Capaz de voltar à liderança do campeonato, dependendo do resultado de Hamilton, claro. Mas, com chuva, como todo mundo diz o tempo todo – e é verdade –, tudo pode acontecer. A gente viu na Hungria, com Ocon. A gente viu hoje com Russell em segundo no grid.

Às 19h tem “Fórmula Gomes” no YouTube para falar de tudo isso ao vivo, não esqueçam!

Comentários

  • Bom dia Flávio Gomes sou seu fã estou assistindo sua live agora concordo em muitos aspectos com sua opinião, mas eu não entendo a questão das duas voltas para validar uma corrida, na minha grande ignorância em entender competições de todos os gêneros é que nenhum piloto competiu e se tivesse somente 2 voltas em bandeira verde tenho quase certeza que o resultado não seria esse. Acho que somente o cancelamento seria o mais justo.

  • Flavio, seguinte:
    Dizer que seu texto é primoroso, em meio a tantas “groselhas” com as quais nos deparamos atualmente, é chover no molhado, com o perdão do trocadilho inspirado em Spa.
    Agora é o seguinte:
    Aquele pitaco de que todos sabem que a chuva vem da represa, simplesmente extraordinário!
    Agora uma pergunta técnica, até porque você também é piloto:
    Pelo som ambiente na panca do Lando, salvo engano meu, dá para perceber nitidamente uma brusca tirada de pé no contorno da Eau Rouge.
    Tenho para mim que foi justamente essa tirada de pé, com o consequente freio-motor, o gatinho causador da perda de controle.
    Abraço e agora é aguardar o domingo, com mais chuva vindo da represa. . .

  • Acho o Hamilton muito bom de chuva também. Achei que os que vieram atrás dele na volta levaram uma leve vantagem. Imagine..Verstappen, Hamilton, Norris, Russell e talvez…Alonso…nas 5 primeiras posições…na chuva…seria um espetáculo essa disputa…

  • Oi Flávio, gosto muito de ler e acompanhar suas publicações neste blog. E acredito que ainda tem muito seguidores que adoram te acompanhar por aqui. Uma dúvida. A mudança nos títulos dos comentários de sexta e hoje foi de propósito? Forte abraço.