11/9, 20

Vinte anos atrás, escrevi isso aqui.

**

O planeta das baratas

Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.

Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocréias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.

Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos.

O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir à lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de convivência que deveriam fazer parte de algum código genético interno, como o das baratas, das lacraias e das mocréias. O homem fabrica armas que têm como único objetivo matar outros homens. E transforma suas criações mais formidáveis, como aviões, em mísseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.

A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie, é pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milhões de anos. E o 11 de setembro de 2001 será emblemático, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.

Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espetáculo de mídia. Nada mais formidável, cardápio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma violência e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrogância do poder econômico e político recebeu sua lição, sentiu na pele o que é ter medo, o mesmo medo disseminado pela força ao longo dos anos.

Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no último século, que se sentem incomodados pelas nações que não tiveram a competência de construir suas disneylândias e não jogam basquete direito, estão radiantes. É a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.

Estes devem ter adorado a figura patética do presidente caubói garantindo a vingança com discurso hollywoodiano, “não se enganem, já vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo”, um Forest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justiça nos quais só quem nunca esteve nos EUA pode acreditar. (Basta meia hora em território americano para perceber a falácia dos tais ideais. Que liberdade existe num país vigiado por câmeras e satélites, onde jogar um chiclete na rua é motivo para ser detido pela Swat? Que democracia é essa que referenda uma eleição fraudulenta e coloca na presidência um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justiça é essa que faz com que esse país se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e miséria?)

Os EUA apanharam. Não sabem de quem, mas talvez saibam por quê. E, se não sabem, era hora de alguém se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-dúzia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, é porque muito mal esse país andou fazendo a outros povos por aí para ser tão odiado. Infelizmente, o caubói não é esse alguém. Sob a sombra e o cheiro fétido de 20 mil cadáveres, o caubói estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidadãos que “a economia americana está aberta aos negócios como sempre”.

Eu e as baratas nos espantamos com essa declaração. Aliás, nos espantamos também com palestinos festejando a morte de milhares de inocentes, em Beirute e Jerusalém. Ouvi alguém dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no coração. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em minúscula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade Média. Foi o excesso de deus no coração que conduziu os judeus na expulsão dos palestinos de seu território depois da Segunda Guerra. É o excesso de deus no coração que faz os árabes a explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, aviões e prédios pelo mundo afora.

O que há, e nisso eu e as baratas concordamos, é um excesso de deuses no coração dos homens. Um deles, citado pelo caubói, é o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter roído um dia, de um maço escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava — não apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das várias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espetáculo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.

Não há guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a próxima guerra será muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.

As baratas são bem melhores do que nós.

Comentários

  • ”A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie…”
    Infelizmente é verdade, tanto assim que a Adidas, ao invés de caracterizar e batizar a bola da última Copa do Mundo, que foi na Rússia, de ”Sputnik” (o que faria todo o sentido, pois o primeiro satélite artificial era soviético/russo, um orgulho para os russos ainda hoje, era esférico como uma bola de futebol, e com sinais perceptíveis em todo o mundo, assim como um grande evento esportivo transmitido globalmente, como a própria Copa do Mundo, a Fórmula 1 e as Olimpíadas de Verão), caracterizou e batizou a bola de ”Telstar”, o que evoca ou remete justamente aos Estados Unidos, o inimigo da Rússia; o Freddie Mercury do filme Bohemian Rapsody foi interpretado pelo Rami Malek (que me lembra bem mais o Ian Curtis, vocalista da Joy Division, até mesmo nos trejeitos) ao invés do Sacha Baron Cohen (este sim, bem mais parecido com o Freddie Mercury); e o Dom Pedro II da novela Nos Tempos do Imperador é interpretado pelo Selton Mello (que me lembra bem mais o Dom Pedro I, primeiro governante do Brasil independente e pai do Dom Pedro II) ao invés do Fábio Assumpção (este sim, bem mais parecido com o Dom Pedro II, até mesmo no sotaque carioca).

  • ”A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie…”
    Infelizmente é verdade, tanto assim que a Adidas, ao invés de caracterizar e batizar a bola da última Copa do Mundo, que foi na Rússia, de ”Sputnik” (o que faria todo o sentido, pois o primeiro satélite artificial era soviético/russo, um orgulho para os russos ainda hoje, esférico como uma bola de futebol, e com sinais receptíveis em todo o mundo, assim como um grande evento esportivo transmitido globalmente, como a própria Copa do Mundo, a Fórmula 1 e as Olimpíadas de Verão), caracterizou a bola de ”Telstar”, o que evoca ou remete justamente aos Estados Unidos, o inimigo da Rússia; o Freddie Mercury do filme Bohemian Rapsody foi interpretado pelo Rami Malek (que me lembra muito mais o Ian Curtis, vocalista da Joy Division) ao invés do Sacha Baron Cohen (este sim, bem mais parecido com o Freddie Mercury); e o Dom Pedro II da novela Nos Tempos do Imperador é interpretado pelo Selton Mello (que me lembra muito mais o Dom Pedro I, primeiro governante do Brasil independente e pai do Dom Pedro II) ao invés do Fábio Assumpção (este sim, bem mais parecido com o Dom Pedro II, até no sotaque carioca).

  • Não existem criaturas piores do que nós, humanos, pra demonstrar o quão sórdidos, canalhas e bandidos somos posso afirmar pela minha formação profissional: Aquelas aeronaves não teriam como causar o colapso total das estruturas das edificações, sem contar que o terceiro prédio também caiu apenas pelo “susto”. Foi uma trama sórdida e muito bem planejada, os fanáticos de Osama nem imaginavam o que aconteceria na verdade.

  • Em relação às baratas, o ser humano é desprezível também por matar um outro ser simplesmente por que tem “nojo”.

    O maior “crime” das baratas (e ratos, e afins) é conseguir sobreviver nos locais imundos criados pelo próprio ser humano.

    Mas essa natureza mortífera vem desde a raiz da nossa espécie. Eliminamos os concorrentes (outros animais e outros humanos) desde a gênese. Brigas tribais e disputa por territórios, independente daa consequências, sempre houveram. Os próprios Neandertais, com seu cérebro maior, não foram páreos para o autointitulado “Sapiens”.

    O “11 de setembro” é bastante superestimado pra exemplificar a perfídia humana. As duas grandes guerras foram de uma imbecilidade e brutalidade muito maior como espécie (só pra ficar na idade contemporânea).

  • Texto com um certo ressentimento e seguindo a linha “anti-imperialista”. Classificando toda uma nação e a colocando em uma caixinha. Muitos americanos discordam da política externa do país. Você encontra fácil vídeos da década de 70 com multidões protestando contra a guerra do Vietnã. Muitos foram contra a invasão do Iraque. Muitos judeus discordam das políticas de Israel. No 11 de setembro morreram vários imigrantes, pessoas que saíram de seus países em busca de uma vida melhor. Foram massacrados, usando uma palavra do texto. Uma ideologia, quando fica bem velhinha, vem morar no Brasil.

  • Espetacular!
    Sensacional!
    Admirável!
    Eu me considero privilegiado por ler seus textos, Flávio Gomes.
    Estou aqui no seu site desde dos idos de 2005, qdo. o mesmo se chamava Warm Up(salvo me engano) porque foi em 2005 que passei a ter acesso residencial à banda larga mas antes disso já era um assíduo telespectador da Fórmula 1(como fã da equipe McLaren).
    Soteropolitano, torcedor do Vitória e um leitor cativo do seu Blog.

  • E pode ser pior do que você imagina, porque, apesar de não ser adepto de teorias da conspiração, existem indícios e evidências de que foi provocado pelos próprios americanos. Existe documentário da TV portuguesa RTP2, matéria em TV de um país nórdico que não lembro qual e um video de uma associação de engenheiros e arquitetos dos EUA com provas de que as Torres Gêmeas tinham nanothermite nos escombros, e os prédios caíram com características de implosão.Se isso não é suficiente, o que explica um avião comercial abrir um buraco numa fortaleza, que é o pentágono, e não sobrarem nem as asas, nem as turbinas.Se ainda sobram dúvidas, o que dizer da queda do prédio 7, em que não houve colisão?Engenheiros e Arquitetos Contra a Farsa do 11 de Setembro de 2001 – Full HD – World Trade Center
    https://www.youtube.com/watch?v=joqROC0lGR8

  • Os Gafanhotos do Norte se habituaram ao revide. Qualquer ataque, seja em que nível for, terá sempre uma resposta à altura. É a Roma Moderna que continua, como seus antecessores, não aceitando um insulto!
    Pobres Gafanhotos! Não sabem que esse poder é efêmero, como efêmero foi o poder de seus antecessores.