SOBRE ONTEM DE MANHÃ

Hamilton, 100: maior que o drama de Norris

SÃO PAULO(histórico) – Como vai ser lembrado, daqui a alguns anos, o GP da Rússia? Como a corrida em que Lewis Hamilton chegou a 100 vitórias ou pelo drama juvenil de Lando Norris?

Entendo que, num primeiro momento, a derrota do jovem piloto da McLaren possa causar um pouco mais de comoção. Afinal seria sua primeira vitória, muita gente torcendo por ele, é uma simpatia, talentosíssimo, e a maneira pela qual perdeu a corrida foi triste, sim. É só ver a carinha sempre sorridente do menino tomada pela decepção.

Mas 100 vitórias, meninas e meninos, é mais importante. Por isso, a foto da corrida fica sendo essa aí em cima. Depois, Norris vencerá na F-1, claro. Terá seus números para ostentar com orgulho quando parar de correr. E a lembrança de Sóchi/2021 será apenas isso: a memória de uma prova que fez parte de seu processo de crescimento. Mal comparando, porque não dá para adivinhar com exatidão o que o futuro lhe reserva, o GP da Rússia entrará para sua história como Mônaco/1984 ficou inscrito na trajetória de Ayrton Senna. A “quase-vitória” que faz parte de sua história, mas não é a mais relevante.

RÚSSIA BY MASILI

É isso: paciência e saber esperar o momento da chamada de sua senha. Marcelo Masili, nosso cartunista oficial, desenhou o GP da Rússia para nós. Uma hora chega.

Apesar de espetacular, o GP da Rússia não teve uma audiência estrepitosa na Bandeirantes. Na média, da abertura da transmissão até o encerramento, foram 3,3 pontos, contra 7,8 da Globo, que liderou o horário com três programas: “Globo Rural”, “Auto Esporte” e “Esporte Espetacular”. A emissora do Morumbi comemorou ontem outro índice: os 5,2 de média da transmissão da final do Brasileiro de Futebol Feminino, de noite, entre Corinthians e Palmeiras.

Continuo achando pouco, apesar da vice-liderança no horário. Para a Bandeirantes, a F-1 é um presente. Evento bom, importante, global. Para a F-1, sair da Globo foi ruim. Perder a F-1, para a Globo, idem.

A FRASE DE SÓCHI

“Você não quis parar? Eu também não!”

Hamilton para Norris, depois da corrida

O diálogo foi captado pela Sky inglesa quando Norris e Hamilton se encontraram assim que saíram de seus carros. Lewis sorrindo, aliviado e feliz pela 100ª vitória. Lando, ainda de capacete, macambúzio e decepcionado. O piloto da Mercedes perguntou ao novato da McLaren sobre a decisão de não trocar os pneus, e Norris respondeu que não quis parar. Hamilton respondeu que também não queria, como se dissesse: não se culpe, pode acontecer com qualquer um.

Agora se sabe que a Mercedes foi dura com Lewis na segunda chamada: vem pro box e não reclama! Obedece quem tem juízo. A equipe tinha visto que Verstappen havia colocado intermediários uma volta antes. Sua disputa é com a Red Bull, não com a McLaren. A marcação tem sido forte entre as duas equipes, e assim será até o fim do ano.

A tristeza de Norris: passa logo

É importante dizer que para a McLaren o mais difícil, neste ano, já aconteceu: ganhou corrida e fez pole-position. Ricciardo, em Monza, acabou com o jejum de nove anos sem vitórias. Norris, no sábado, fez o mesmo em relação à primeira posição no grid.

Claro que a equipe ainda não está de volta à briga por títulos, mas a recuperação é clara. A última taça já tem 13 anos, foi a de 2008 com Hamilton, numa disputa ferrenha com Felipe Massa na Ferrari. Depois vieram a Brawn, os anos Red Bull e a hegemonia da Mercedes desde 2014. Assim, não é só a McLaren que amarga uma seca de conquistas. O time passou por maus bocados na transição necessária após a saída de Ron Dennis, na tentativa de parceria com a Honda, no rápido casamento com a Renault. Mas a perspectiva para o futuro, agora, é alvissareira.

A derrota de ontem não deve abalar ninguém. Ao contrário, a turma papaia precisa, sim, se debruçar sobre os fatos verificados em Sóchi para não repetir os mesmos erros. Ricciardo foi um dos primeiros a colocar intermediários e deu certo. Por que não foi feito o mesmo com Norris? Faltou comando? Confiou-se demais na opinião do garoto?

LH100: Mercedes foi dura no rádio, ao contrário da McLaren

Na hora, é muito difícil emitir sentenças definitivas. Tudo acontece em questão de segundos e as decisões têm de ser tomadas a toque de caixa. Ao final, sabe-se se foram corretas ou não. Mas a McLaren não foi a única a errar — parcialmente, porque acertou com o australiano. AlphaTauri (manteve Gasly na pista e chamou Tsunoda para colocar pneus macios!), Aston Martin e Alpine fizeram o mesmo. A Ferrari acertou com Sainz e errou com Leclerc. E a Mercedes matou a charada chamando Bottas rapidinho, mas quase pôs tudo a perder com Hamilton.

Em algum momento, porém, o time foi assertivo e, como disse Pebolim Wolff, “inflexível”. Faltou pulso ao pitwall mclariano. Mas, de novo, é fácil julgar agora. Na hora fica todo mundo que nem barata tonta. Como contei no textão de ontem, até a Red Bull empurrou a escolha para seus pilotos. Verstappen acertou. Pérez errou.

O NÚMERO DA RÚSSIA

120

…vitórias tem a Mercedes agora na F-1, sendo 79 delas de Hamilton. A equipe alemã só perde para Ferrari (238) e McLaren (183). Lewis, se fosse uma equipe, estaria em quinto lugar no ranking com seus 100 triunfos. À frente dele ainda teria a Williams, com 114. Com mais uma, Hamilton iguala as 101 vitórias de pilotos brasileiros na categoria.

Outro número que merece um registro é a quebra da barreira dos 4 mil pontos por Hamilton, o primeiro a conseguir isso na F-1. Ele chegou a 4.024,5 com a vitória em Sochi. Mas como o sistema de pontuação mudou muito ao longo dos anos, essa estatística é apenas uma curiosidade. Em todo caso, só para constar, no top-5 temos, atrás do inglês, Vettel (3.053), Alonso (1.957), Raikkonen (1.869) e Bottas (1.663).

Antes de encerrar, pequenas notícias irrelevantes, apenas para não deixar nenhuma ponta solta:

Stroll foi punido em 10s no seu tempo total de prova por ter batido em Gasly no fim.

Mick Schumacher não terminou uma corrida pela primeira vez no ano, com problemas técnicos que fizeram a Haas retirar seu carro da prova.

Giovinazzi correu o tempo inteiro sem rádio, que quebrou na primeira volta.

Norris foi investigado por cortar a linha branca da entrada dos boxes quando parou no fim, e chegou a correr o risco de perder o sétimo lugar. Recebeu apenas uma reprimenda.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS da persistência de Carlos Sainz, que liderou a primeira parte da prova, despencou no pelotão depois do pit stop (eu disse sábado que o ritmo de corrida da Ferrari é uma bomba), sofreu muito com os pneus duros, mas na hora H tomou a decisão de parar e pulou de oitavo para terceiro, para chegar ao quinto pódio de sua carreira, terceiro no ano de estreia pelo time italiano.

NÃO GOSTAMOS da pífia apresentação da Aston Martin, inclusive com uma confusão entre Vettel e Stroll, que se tocaram no fim da prova. A equipe não aproveitou a boa posição de largada do canadense e no momento em que alguém precisava decidir no pitwall, nada foi feito e os dois se estreparam no asfalto molhado com pneus slicks. Nas últimas cinco corridas, o time marcou apenas 11 pontos. A Williams, no mesmo período, fez 23. A AlphaTauri, 35.

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