TURQUINHAS (2)

Hamilton mais rápido, Bottas pole: Mercedes domina

SÃO PAULO(normal) – Quando os carros começaram a sair dos boxes no Q1 hoje em Istambul, fiquei animado. Pelo rádio, engenheiros enviavam aos seus pupilos mensagens carregadas de apreensão. “Vai chover em dez segundos na curva 2, em 18 segundos na curva 7 e amanhã o dia todo em Curitiba”, disse um. “Faz uma volta logo e vamos embora porque vai inundar o autódromo e temos poucos botes”, alertou outro. “Alagamentos previstos. Datena a caminho”, avisou um terceiro.

Do outro lado da linha, os pilotos respondiam, nervosos. “Está pingando mais forte!”, gritou Norris, assustado. Era uma goteira nos boxes. “Estou vendo nuvens negras e carregadas!”, assustou-se Pérez. Era Helmut Marko passando ao lado de seu carro. “Então tira essa merda de slick, porra!”, berrou o valente Tsunoda. Era a manta térmica que cobria seus pneus.

No fim, como sempre, estavam todos exagerando. Choveu, mesmo, só de manhã, no último treino livre — que teve Gasly em primeiro, registre-se. Mas na classificação para o GP da Turquia, nada de água. Pista um pouco úmida no começo, secando depois, zero drama. Até o sol saiu no final. Tímido, mas era o sol sobre Bizâncio, como não?

Gasly saindo dos boxes: no fim, até o sol apareceu

Uma pena, porque uma chuvinha pegando alguns pilotos de calças curtas e galochas escorregadias cairia bem para dar uma embaralhada num grid que acabou ficando bem normalzinho. Valtteri Bottas larga na pole, com a Mercedes #77. E Lewis Hamilton, com a #44, fechou o dia com o melhor tempo, mas sai em 11º porque, como todo mundo já sabe desde os tempos do Império Otomano, trocou o motor e perdeu dez posições no grid como punição. É a segunda pole de Sapattos no ano, 18ª na carreira. Verstappinho larga ao seu lado na primeira fila.

De qualquer maneira, apesar da obviedade do resultado, sempre tem o que contar depois de uma classificação. Então vamos em frente.

Verstappen sai dos boxes: pressa no Q1

Uma fila de carros se formou na saída dos boxes meia hora antes de começar o Q1. Tinha até flanelinha cobrando o absurdo de 100 liras turcas por um lugar lá na frente. Um medo danado de começar a chover e pegar a pista molhada. Como já dito, paúra exagerada e desnecessária. É verdade que a pista estava úmida e, como dizem os pilotos, “tricky”. “Tricky” é algo como “tinhoso”, “complicado”, “traiçoeiro”. No caso, tudo no feminino, porque estamos falando da pista: tinhosa, complicada, traiçoeira.

Mas “tricky” não é “ensopada”. Com algum cuidado, dá para levar na boa. Mesmo assim, muita gente rodou na primeira fase da classificação, ainda que sem grandes consequências — exceto para a autoestima de cada um. Até fiz uma lista, mas não sei se anotei todo mundo: Sainz, Verstappen, Tsunoda, Mazepin, Rosset, De Cesaris, Brambilla e Katayama. Ninguém bateu.

Os primeiros tempos foram registrados na casa de 1min30s, o mesmo que Gasly fizera de manhã no molhado. Mas rapidamente começaram a cair, e a única dificuldade era chegar à temperatura ideal dos pneus. Hamilton fechou o Q1 em primeiro com uma volta em 1min24s585, com Max a 0s007 dele em segundo e Gasly em terceiro. Decepção? Ricciardo em 16º, degolado implacavelmente enquanto seu companheiro Norris passava com tranquilidade em sétimo. Surpresa? Mick Schumacher em 14º. Foi a segunda vez que o alemão da Haas passou do Q1 — a outra, na França. Junto com o australiano da McLaren dançaram, pela ordem, Latifi, Giovinazzi, Raikkonen e Mazepin.

Schumaquinho em 14º: bom resultado para o alemão

Antes de começar o Q2 os flanelinhas já tinham ido embora e não teve fila nenhuma na saída dos boxes. Em vez de escutarem seus engenheiros, os pilotos preferiram mandar mensagens de texto para Anne Lottermann, que respondeu para todos a mesma coisa: “Slicks médios”. Apenas Tsunoda replicou, com a educação de sempre: “Tá louca, médios? Quer me ferrar, quer? É amiguinha de alguém de olho no meu carro, é?”. Foi de macios. Schumacher também, mas explicou sua opção com toda gentileza do mundo: “Anne, meu carro é muito ruim, você se importa se eu for de macios?”. E recebeu a resposta: “Claro que não, querido”.

Se Anne Lottermann falou “slicks médios”, então slicks médios. Mas o asfalto ainda não estava do jeito que o diabo gosta e, de novo, um pequeno festival de rodadas inconsequentes se verificou. Fiz outra lista: Pérez, Leclerc, Stroll, Alboreto, Belmondo, Pantano e Morbidelli. Na medida em que a pista foi secando de vez, porém, as coisas se acalmaram. Nenhum sinistro foi anotado.

Vettel, Ocon, Russell, Schumacher e Sainz foram os cortados do Q2, cada um com sua história. Os dois primeiros andaram mal, mesmo — Stroll e Alonso, seus parceiros, avançaram sem grandes problemas. Russell, por sua vez, vinha numa volta boa, mas chacoalhou na última curva e se autoflagelou pelo rádio com um longo “oooooohhhhhhhhhh sorry guys”. Para Mick, o 14º ficou de ótimo tamanho. E Sainz, já sabendo que irá largar em último porque trocou tudo no carro — menos a cor e o número –, não se esforçou muito e sequer completou uma volta cronometrada.

Pérez rodou de novo: mexicano na marca do pênalti

Hamilton fechou o Q2 em primeiro com um tempo excepcional para os pneus médios, 1min23s082. “Os méritos são todos da Anne”, falou, humilde. Bottas foi o segundo, seguido por Verstappen, Gasly e Alonso. Norris passou raspando em décimo e Stroll, em nono.

Sete equipes foram representadas no Q3 — todas menos Alfa Romeo, Williams e Haas. Só três levaram seus dois carros à fase final da classificação: Mercedes, Red Bull e AlphaTauri. Legal, isso. Deixa as primeiras filas sortidas e coloridas. Chuva, àquela altura, era tema tão distante quanto as tempestades de poeira do interior de São Paulo. Ninguém mais incomodou Anne Lottermann em sua folga. Só Tsunoda mandou mensagem dizendo “viu como era macio?”. E ela, para sacanear, respondeu prontamente: “Agora médios, samurai”.

A Mercedes se impôs desde as primeiras voltas, com Bottas e Hamilton se alternando na primeira posição. Na primeira saída, deu Valtteri. Na segunda, Lewis, que optou por ir à pista sozinho, antes que todo mundo, e cravou 1min22s868, 0s130 melhor que seu companheiro de equipe. Verstappen ficou em terceiro a 0s328, sem nunca ameaçar a dupla do time alemão. Na sequência vieram Leclerc, Gasly, Alonso, Pérez, Norris, Stroll e Tsunoda — que, estranhamente, acatou a sugestão de Anne.

Alonso, quinto no grid: melhor desde 2014

Com a punição para Hamilton, todo mundo atrás dele, do segundo ao 11º, ganhou uma posição no grid. Assim, Max alinha na primeira fila ao lado de Bottas, com Leclerc e Gasly dividindo a segunda. Alonso, deste modo, conseguiu sua melhor posição de grid desde o GP do Japão de 2014, quando ainda era piloto da Ferrari e largou também em quinto em Suzuka.

A McLaren, depois de uma vitória em Monza e uma pole em Sóchi, mergulhou na discrição. Norris ficou a 1s086 do tempo de Hamilton. Pérez, com o sétimo tempo (larga em sexto), voltou a decepcionar. O mexicano está ficando sem boas desculpas. Anda muito atrás de Verstappen o tempo todo e não ajuda a Red Bull em nada. Até Bottas, já demitido pela Mercedes, tem sido mais útil. Bem mais. Tanto que larga na pole com a chance de segurar Max o máximo que puder.

Aliás, é até injusto com o finlandês atribuir a ele apenas a missão de atrapalhar Verstappen. Pelo que vêm andando os carros pretos na Turquia, Valtteri é o grande favorito à vitória amanhã.

Max: missão é chegar na frente de Hamilton

Com um carro não tão competitivo, Verstappen sabe que o objetivo em Istambul é chegar na frente de Hamilton, ainda que não vença a prova. É o jeito de recuperar a liderança do Mundial, já que está dois pontos atrás.

Lewis terá algum trabalho para se livrar dos carros à sua frente até se colocar em situação de brigar pelo pódio. Não sei se vai inventar alguma estratégia ligeiramente diferente, como largar com pneus duros para esticar o primeiro “stint” e tentar ganhar algumas posições assim. O que parece claro é que, em algum momento, ele e Max estarão próximos na pista. E é disso que o povo gosta.

Hoje às 19h estaremos ao vivo no “Fórmula Gomes” para falar de tudo isso e também da Anne Lottermann, que colocou todos os meteorologistas da F-1 no bolso.

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