JÁ DÁ (4)

ITACARÉ (voltou) – Tive um dia, digamos, labiríntico no que diz respeito às conexões com o mundo. Agora que tudo se normalizou, segue um breve post policromático para vocês se prepararem para o GP da Arábia Saudita, que começa amanhã — e pode decidir o título de 2021.

As três Corniches de Nice a Menton: caminho para Mônaco

O circuito se chama Jeddah Corniche. Corniche é uma palavra francesa normalmente usada para definir estradas junto a montanhas, abismos, penhascos, praias, mares, oceanos, o que for. Vem do italiano “cornice” — moldura. Quando a gente vai de Nice para Mônaco, por exemplo, dá para escolher três caminhos diferentes: a Grande-Corniche, a Moyenne-Corniche ou a Basse-Corniche. São paralelas. A Grande fica lá no alto e foi construída por Napoleão. É onde morreu a princesa Grace. A Moyenne fica no meio e a Basse, mais perto do mar. Quando nos hospedávamos em Nice, antes da fase Menton, época em que adotamos os trens para cobrir o GP, pegávamos a Basse-Corniche se estivéssemos com tempo para tomar um café olhando para o Mediterrâneo. É a mais bonita, mas demora muito. Na pressa, o melhor caminho é a Grande, mas não é tão legal. A Moyenne era nosso caminho mais usual.

Essa pista de Jeddah não existia, começou a ser construída em fevereiro, mas está sendo tratada como “circuito de rua temporário”. Coisa esquisita, porque normalmente se faz de um conjunto de ruas um traçado para corridas. As ruas vêm antes e as pistas depois, entendem? Mas em Jeddah será o contrário: a pista que nunca foi rua vai virar… rua. Imagino que depois do GP vão abrir essa linguiça para o tráfego ao largo do Mar Vermelho. Ela tem 6.174 metros de extensão, foi projetada pelo filho do Hermann Tilke e é a segunda mais comprida da F-1, só perdendo para Spa-Francorchamps.

O circuito em construção: nasce como pista e vira rua

Jeddah Corniche tem nada menos do que 27 curvas, 17 para a esquerda, 10 para a direita. Mas chamar de curvas alguns trechos é um preciosismo. São minhocas, retas levemente tortas, se é que me entendem. A sequência da 14 até a 27 é praticamente de pé embaixo. Uma pista esquisita, sem sombra de dúvidas. Mas considerando que tecnicamente são curvas essas pequenas entortadas nas retas, nenhum traçado tem mais curvas do que Jeddah no calendário da F-1.

Como se vê no mapa abaixo, serão três zonas de DRS, a asa-móvel. Apenas Bahrein, Áustria e México têm três trechos onde os pilotos podem abrir suas asas. O problema é que essa pista é estreita e cercada de muros. Eu diria que se ninguém se arrebentar no fim de semana será quase um milagre. É um circuito que, nesse sentido — o dos muros –, realmente se assemelha a um traçado de rua. Mas com média de velocidade que deve passar dos 250 km/h, com picos de 330 km/h em pelo menos três pontos. Bem perigosa, para falar o português bem claro.

A linguiça árabe: pista estranha

De acordo com as simulações das equipes, em 79% dos 6.174 m da pista o piloto estará com o pé cravado no acelerador. Quando essa conta é convertida para o relógio, é pé no fundo por 72% do tempo de volta. Tem uma curva, a 13, inclinada a 12°. Yes, we have banking. A curva mais lenta é a 2, de 90 km/h. A mais rápida, a 26: 310 km/h. Da posição da pole até a primeira freada são apenas 220 m.

Esse troço aí será iluminado por 600 postes de luz, já que será uma corrida noturna. Podem anotar: vão dizer que o cenário é lindo e incrível. Vou esperar para fazer meu julgamento. O mundo árabe rico e artificial adora luzes coloridas que acendem e apagam, prédios enormes, cenários feéricos. Serão 50 voltas. Horários? Amanhã treinos livres às 10h30 e 14h, sábado treino livre às 11h e classificação às 14h e domingo a corrida às 14h30 — todos, claro, acertados pelos relógios de Brasília. Abaixo, fotinhos de hoje. Vejam como os muros são próximos. E já precisam de pintura!

Comentários

  • Engraçado que as pistas clássicas da Europa necessitam investimentos milionários pra se adequarem aos padrões de segurança da F1 moderna. Aí vem a Arábia Saudita e encaixa uma pista estreita, com muro colado a 330 km/h, quase uma Macau. Vai entender!

    PS.: Já fiz a Corniche Inférieure de Nice a Monaco, só que de busum transporte público mesmo, porque sou relativamente pobre! Muito bonito mesmo, as vistas pro mar mediterrâneo com os Alpes Atlânticos do outro lado são fenomenais

  • O que o dinheiro não compra. Em Spa exigem áreas de escape que quase chegam na Holanda e no petroistão fazem os carros sem espremerem a 300km/h.
    Bem a cara de um lugar onde os manda chuvas usam trajes feitos para beduínos aguentarem o calor do deserto e não devem ficam fora de um ambiente artificialmente climatizado nem 24 horas por ano.

  • Disse tudo, ao fazer menção à estrada que liga Nice a Mônaco, Esse “circuito” de Jeddah é um misto de Mônaco e Monza. Pista estreita, cercada de muros, com trechos de alta velocidade. Um autêntico monstro de Frankenstein. Damon Hill demonstrou toda sua preocupação em relação à segurança dos pilotos. Mesmo usando as barreiras Safers (utilizadas na Indy) a falta de áreas de escape é um motivo de preocupação para Hill. Outra coisa a se notar é o fato de que o projeto desse circuito é de autoria de Carsten Tilke, filho de Hermann Tilke. Assim já não bastava o pai ter projetado alguns circuitos bem ruins (com algumas e poucas exceções) lá vem o filho fazendo o mesmo.
    Hamilton e Vettel essenciais, utilizando a visibilidade que ambos têm, para levantar e discutir temas de fundamental importância. Ainda mais em se tratanto de Arábia Saudita.
    E pensar que em 1985, as equipes francesas da F1, Ligier e Renault boicotaram o GP da África do Sul em protesto contra o regime de segregação racial vigente naquele país.
    É como diz a música, “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas…”
    Enfim, treino quase começando…

  • Flávio, me corrija se estiver errado, mas o asfalto não tem um tempo de maturação?? Ele ainda estaria , como dizem suando?? Será que teremos algo parecido com o que teve em Interlagos nos anos 70, na curva 3? Tudo bem que a tecnologia é outra, mas também a pressão aerodinâmica dos carros aumentou bastante. Esperar pra ver. Eu ainda sou da opinião que as coisas demandam tempo para serem consolidadas. Nestes tempos de fast tudo. Fazer uma pista da noite para o dia e atribuir a ela uma excelência, pra mim, sem chance. Mas como canta Caetano Veloso:

    Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
    Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
    Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas