JÁ DÁ (7)

Mecânicos da Red Bull incrédulos: erro tira pole de Verstappen

ITACARÉ (tradução: “Sério?”) – Foi com o carro parado, no Parque Fechado, que Lewis Hamilton recebeu o relato de seu engenheiro. “Estamos em primeiro e segundo. Max bateu na última curva”, informou Bono. “Wow”, respondeu Hamilton. Não estava falando em línguas. Estava apenas demonstrando seu espanto com uma singela interjeição. A batida de Verstappen na curva 27 do circuito de Jeddah, numa volta que até a segunda parcial era 0s244 mais rápida que a de Hamilton, deu ao inglês uma das poles mais importantes desta temporada. Foi sua quinta no ano, 103ª na carreira. Bottas larga em segundo. O líder do Mundial, em terceiro. Oito pontos separam Max de Lewis na classificação. Depois do GP da Arábia Saudita, amanha, resta um — o de Abu Dhabi, no outro domingo.

O “wow” de Hamilton se justifica pelo que vinha acontecendo desde antes da classificação. No último treino livre, Verstappen tinha deixado a Mercedes com uma pulga sobre a corcova ao virar 1min28s100. Parecia que com pneus macios a Red Bull estava melhor que o time alemão. Hamilton ficara 0s214 atrás.

Ferrari bem no Q1: surpresa depois da batida de Leclerc ontem

O começo do Q1 foi interessante porque novos “players” apareceram, ou pelo menos se insinuaram: Ferrari e McLaren lá na frente e, no pelotão intermediário, a Alfa Romeo. Mas era só início de sessão. Nos minutos finais, Mercedes e Red Bull voltaram para a ponta, com Bottas fazendo o melhor tempo do fim de semana até ali: 1min28s057. Em seguida, Pérez baixou para 1min28s021 e Verstappen abriu uma volta voadora que certamente superaria a do mexicano. Mas, no último trecho da pista, pegou um congestionamento digno de uma fila de camelos chegando a um oásis para dar aquela refrescada no meio do deserto. Teve de abortar a volta.

Um dos carros lentos nesse engarrafamento era o de Bottas, que avisou pelo rádio que seu motor tinha apagado. Conseguiu entrar nos boxes e os mecânicos foram buscá-lo. Hamilton fechou o Q1 em nono. A Mercedes começou a entrar em pânico. Latifi, Vettel, Stroll, Schumacher e Mazepin caíram na degola. A Aston Martin foi a grande decepção, com seus dois pilotos eliminados.

Gasly na noite saudita: sem sustos, passou ao Q3

Pneus médios foram a opção clássica para quase todos os pilotos na abertura do Q2. Ninguém queria largar com macios. Verstappen fez uma volta excelente em 1min27s953 logo de cara, enquanto Hamilton precisava de algumas voltas para chegar à temperatura ideal de seus pneus. Na sua primeira flying lap, ficou 0s762 atrás do holandês. Um desastre. OK, pegou tráfego. Mas a distância parecia intransponível. “Meu carro não tem aderência”, resumiu, pelo rádio, ao seu engenheiro.

Alguns sustos deixaram todos de cabelos em pé no autódromo. Sainz deu uma rodada em altíssima velocidade e não bateu por pura sorte. Voltou para os boxes com pouquíssimo tempo para tentar passar ao Q3. Verstappen também saltou sobre uma zebra numa das raras áreas de escape e se livrou de uma pancada. Lewis se recuperou na tentativa seguinte e encostou em Max, 0s115 atrás. De repente, aparece Pérez de novo, surpreendentemente rápido, para fazer um tempo 0s007 melhor que o de seu companheiro de equipe.

Verstappen concentrado: erro no fim

Então, alívio na Mercedes. A aderência reclamada minutos antes surgiu não se sabe bem de onde e Hamilton fechou uma volta em 1min27s712, 0s2 melhor que Pérez. Sainz não se recuperou, errou na sua volta e ficou fora. A asa traseira parecia torta. Terminou em 15º e, junto com ele, dançaram Ricciardo, Raikkonen, Alonso e Russell. A surpresa foi a passagem de Giovinazzi para o Q3, ao lado das duplas de Red Bull, Mercedes e AlphaTauri, além dos “avulsos” Norris, Leclerc e Ocon — que deixaram seus parceiros para trás.

A Mercedes optou por lançar seus pilotos à pista assim que a luz verde se acendeu na saída dos boxes, mas Hamilton cometeu um errinho em sua primeira tentativa e tirou o pé. Bottas cravou 1min28s143 na sua, um tempo que não era grande coisa. Lewis seguiu na pista e fez 1min28s035. Apesar do primeiro lugar provisório, também ficou longe do que se esperava, quando comparado com o tempo do Q2 com pneus médios. Então veio Max para enfiar 0s382 no inglês, com 1min27s653. O alívio da Mercedes virou preocupação de novo. Até Bottas, em sua segunda volta rápida, superou Lewis e foi para o segundo lugar. Mas Hamilton não desistiu. Saiu para sua segunda tentativa de volta voadora e bateu o tempo de Verstappen por 0s142: 1min27s511.

Max estava na pista. Era tipo duelo de faroeste. O rubro-taurino abriu bem a volta e sua primeira parcial foi a melhor de todas. Na segunda, passou 0s244 abaixo de Hamilton. Era só fechar a volta sem fazer nada de errado para comemorar a pole. Mas ele bateu. A pistola do duelo falhou quando ele já tinha sacado do coldre. Na última curva, seu carro deu uma rabeada e o pneu traseiro direito acertou forte o muro. No box da Red Bull, desolação. No da Mercedes, incredulidade seguida de sorrisos: Hamilton na pole com Bottas em segundo, primeira fila inteira para a equipe. Max ainda ficou com o terceiro lugar, sendo seguido por Leclerc, Pérez, Gasly, Norris, Tsunoda, Ocon e Giovinazzi nas dez primeiras posições.

O grid em Jeddah: melhor que a encomenda para a Mercedes

“Esta pista é incrivelmente técnica e complexa”, disse Lewis em sua primeira entrevista, assim que saiu do carro. Depois, derramou-se em elogios a Bottas. “Eu estava sofrendo com os pneus e não encontrava meu ritmo desde o último treino livre. Estou muito orgulhoso de Valtteri e de todos na equipe. A gente está trabalhando muito duro. É um grande resultado. Definitivamente, Valtteri é o melhor companheiro de equipe que alguém pode ter neste esporte. Nós trabalhamos juntos no acerto do carro, a colaboração dele é incrível.”

Verstappen se disse “decepcionado” com o terceiro lugar, ainda mais com a volta que vinha fazendo até bater. “Não entendi bem o que aconteceu. Travei a roda dianteira esquerda e bati no muro. Mas o mais importante é que estamos rápidos e vamos ver o que dá para fazer amanhã.” A pancada pode ter afetado o câmbio de seu carro. Mas só saberemos se terá de ser trocado mais tarde. “A gente espera que não”, falou o chefe Christian Horner. “Mas corridas são assim mesmo, vamos nos recuperar para amanhã. É difícil ultrapassar aqui, então acho que é uma prova que pode ser decidida na estratégia.”

Pole #103: momento importante do campeonato

O momento é de Hamilton. Vem de duas vitórias e conseguiu uma pole na bacia das almas hoje. Sua tarefa é sair de Jeddah amanhã ainda lutando pelo título — matematicamente, só Verstappen pode ser campeão. Tudo parece conspirar a seu favor, neste momento. Mas o jogo vira muito rápido nesta temporada. Max era o pole até a 26ª das 27 curvas do circuito saudita hoje. Vai dormir em terceiro no grid. Como vai para a cama amanhã, é impossível saber.

Às 19h, lá no meu canal no YouTube, a gente tenta adivinhar. Apareçam!

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