TESTANDO N’AREIA (1)

SÃO PAULO (cozinhando aqui também) – A primeira coisa que RB18 disse para AT03, assim que viu W13 na garagem ao lado, foi: “Você viu como tá raquítica? Deve estar faltando comida lá, não é possível perder tanto peso em tão pouco tempo”. AT03 respondeu: “Isso aí é lipo”. MCL36, um pouco mais adiante, chamou F1-75 num canto. “Fez bariátrica, tá na cara”, falou. “Eu bem que tô precisando…”, suspirou a outra. “Vivo brigando com a balança.” Numa rodinha à parte, outras três partiram para a fofoca explícita. “Só tem osso. Povo gosta de carne, de curvas. Não vai pegar ninguém”, disse a A522, venenosa. “É a moda, cinturinha fina. Faz sucesso no Tinder”, discordou FW44. C42 foi mais maldosa: “Tá saindo com o personal, certeza”. VF-22 se juntou ao grupo para tentar se enturmar e mandou a tese: “Dieta de internet. Dá resultado rápido, mas depois volta tudo de novo”.

AMR22 percebeu que W13 estava meio isolada e se aproximou. “Menina, como você emagreceu! Olha, isso é coisa de quem tá namorando, hein? Tá malhando? E essa sobrancelha, fez onde?” W13 deu uma paradinha, se olhou no espelho, voltou-se para a amiga e perguntou: “Gostou mesmo ou tá falando só pra me agradar? Não ficou meio esquisito, não?”. “Nada, tá linda!”, elogiou AMR22. “No começo as pessoas estranham, mas depois todo mundo vai querer fazer igual. Depois me passa o telefone do teu projetista”, falou, dando uma piscadinha e pedindo licença porque estava atrasada. Mas saiu falando baixinho, para ninguém ouvir: “Me dá o telefone pra eu não ligar nunca pra ele, magricela horrorosa…”.

O carro que a Mercedes levou Bahrein para a abertura da segunda sessão da pré-temporada na F-1 é completamente diferente daquele que foi usado há alguns dias nos treinos de Barcelona. Os “sidepods”, conhecidos também como “laterais”, foram reduzidos a quase nada. “Zeropods”, trocadilhou o Grande Prêmio. A equipe partiu para uma solução bem… radical, para dizer o mínimo. Imagino a conversa no departamento de projetos do time, na Inglaterra. “O que é que está atrapalhando o fluxo de ar?”, perguntou Toto Wolff. O engenheiro-chefe ajeitou os óculos, empertigou-se e se preparou para desfiar toda sua erudição aerodinâmica. “Ah, os ‘sidepods’ são o ponto nevrálgico”, começou. “O senhor sabe, Herr Wolff, com este novo regulamento e a perda de relevância das asas, sem os ‘barge boards’ e dependendo da eficiência dos tubos venturi que reduzem a pressão sob o assoalho e produzem o efeito-solo, é muito difícil encontrar um compromisso entre…”, mas antes que o sujeito — insuportável, diga-se, embora competente — concluísse o raciocínio incompreensível, Toto o interrompeu e decidiu: “Então arranca tudo. Tira essa merda toda, faz o carro sem ‘sidepod’ nenhum e acaba logo com essa história!”.

A magreza do W13 no deserto de Sakhir não despertou comentários invejosos e/ou desdenhosos apenas de suas colegas sobre rodas. Christian Horner, chefe da Red Bull, já saiu atirando (depois negou que tenha falado o que falou, mas ele falou). Disse que o automóvel rival “desrespeita o espírito das regras” e que a base para os espelhos retrovisores que a Mercedes bolou na nova configuração “são asas, e não suportes”. “E ainda têm defletores verticais”, concluiu. Toto rebateu em tons definitivos. “O cara fala isso meia hora depois de ver o carro pela primeira vez? Não tem nada ilegal. Não nos encham o saco!”.

(A última frase eu imagino que ele tenha dito, mas ele não disse.)

Russell na noite barenita: chocou, mas não impressionou

Se é verdade que o carro esquelético chocou a concorrência, com as laterais magérrimas e o assoalho praticamente exposto, tão delgado que nem tinha onde espetar um espelhinho, não é menos verdade que ao fim do primeiro dia de treinos ninguém ficou muito impressionado com os resultados na folha de tempos.

Hamilton andou com o carro de manhã e Russell, de tarde. O inglês ficou com o 11º tempo da quinta-feira entre os 15 pilotos que andaram. Russell foi o nono. O mais rápido foi Pierre Gasly, da AlphaTauri, com 1min33s902 cronometrados em sua melhor volta, usando os pneus mais macios da Pirelli. Carlos Sainz, de médios, e Charles Leclerc, idem, colocaram a Ferrari em segundo e terceiro.

Sempre vale recordar os tempos de referência para entender quanto os novos carros estão mais lentos que os modelos aposentados ao final da última temporada. No ano passado, Verstappen fez a pole no Bahrein em 1min28s997. A melhor volta, em corrida, foi de Bottas: 1min32s090. Bom lembrar, também, que o objetivo do novo regulamento não foi deixar os carros mais lentos, e sim reduzir custos de construção e, sobretudo, permitir que eles andem mais próximos uns dos outros sem perda de eficiência aerodinâmica.

Os tempos de hoje: Gasly mais rápido com pneus macios

Todos sabemos que cada equipe estabelece seu próprio programa de testes em função das necessidades, e que por isso nem sempre os resultados indicam exatamente o que vai acontecer no campeonato. Na melhor das hipóteses, dão algumas pistas. A Ferrari, que começou bem em Barcelona, parece seguir a passos firmes sem se preocupar em emocionar sua apaixonada torcida. Red Bull e Mercedes, a exemplo do que aconteceu em Barcelona, não comoveram ninguém até agora. A AlphaTauri tem recebido elogios. O resto está mais ou menos onde se esperava que estariam.

Mas vamos às nossas notinhas policromáticas que a gente ganha mais…

VOO ATRASOU – Apenas para registrar e não cometer injustiças, ontem Hamilton não tirou foto com os outros pilotos pedindo o fim da guerra na Ucrânia porque seu avião ainda não tinha chegado a Manama. Mencionei outros dois que ficaram fora do retrato, Fittipaldi e Kubica. O primeiro, provavelmente, estava atrapalhado fazendo o banco de seu carro. Já o polonês nem está escalado pela Alfa Romeo para o testes, então przepraszam za to, Robert.

PELA PAZ – Ainda no “contexto da guerra”, como diriam os comentaristas, Vettel está treinando no Bahrein com uma mensagem pacifista em seu capacete, que ganhou faixas em azul e amarelo — as cores da Ucrânia.

Capacete de Vettel: pela paz

ENGORDA – O regulamento da F-1 aumentou de 752 kg para 795 kg o peso mínimo para o conjunto carro-piloto neste ano, uma engorda que se explica principalmente por causa das rodas maiores de 18 polegadas e do reforço em algumas estruturas. Mas quase nenhuma equipe conseguiu fazer carros dentro do peso — estão todos mais pesados, com exceção de McLaren e Alfa Romeo, que chegaram perto. Por acordo comum, esse peso mínimo será ampliado em 3 kg na próxima reunião da Comissão de F-1.

MAIS TEMPO – A Haas teve dificuldades com a logística e chegou ao Bahrein 36 horas depois que todas as outras equipes — o avião teve problemas técnicos na Turquia. Por isso, perdeu o período da manhã hoje e não treinou. Só andou de tarde, com Pietro Fittipaldi. O time pediu autorização para compensar no domingo, mas McLaren, Alpine e Alfa Romeo votaram contra. O máximo que as rivais aceitam é dar duas horas a mais para a Haas testar amanhã e sábado à noite. A equipe ainda não decidiu se vai fazer isso. Günther Steiner, o chefe, acha que é trabalho demais para seus mecânicos esticar jornadas que já serão longas nos próximos dois dias.

MISSÃO CUMPRIDA – O neto de Emerson completou 47 voltas e ficou com o último tempo do dia, registrado com o pneu protótipo da Pirelli, um composto que ainda não se sabe se será usado nesta temporada. Seu trabalho pela Haas, neste ano, terminou — dificilmente participará de novos testes, que são muito limitados e precisam ser aproveitados pelos titulares. Amanhã, Schumaquinho treina de manhã e o repatriado Magnussen, de tarde.

PORPOISING – Você vai ouvir muito esta palavra ainda neste ano. Vem de “porpoise”, boto, sim, o mamífero aquático, também conhecido como golfinho. Já viu um golfinho nadando? Pois o que está acontecendo com os carros novos em altas velocidades é parecido com o movimento dos golfinhos nadando — eles têm a pele muito elástica e deformam o corpo como se ondulassem, para ganhar impulsão. Na F-1, como os carros estão andando muito próximos do asfalto para acelerar a passagem do ar sob o assoalho, às vezes falta… ar! E o carro bate no chão, porque perde pressão aerodinâmica. Quando bate, levanta. E o ar volta a passar. E aí abaixa, bate de novo e a pressão some. E isso acontece em frações de segundo numa frequência muito alta, o que faz com que os pilotos quiquem na pista, como se estivessem em alta velocidade numa estrada de terra cheia daquilo que chamamos de “costelas de vaca”.

Gasly depois do treino de hoje: pospoising

PERIGOSO – Em Barcelona ficou claro que os engenheiros terão de encontrar soluções para isso. Imagens de Gasly hoje, tomadas pela câmera que fica de frente para seu capacete, foram assustadoras. Não dá para guiar daquele jeito. A solução mas fácil é erguer um pouco o carro, para evitar que o assoalho bata no chão. Mas isso vai reduzir o efeito-solo. Até agora a FIA não falou nada. Mas é bom começar a se preocupar.

“NÓIS CAPOTA…” – Das grandes, a McLaren foi quem teve mais problemas hoje. Deu apenas 50 voltas com Norris, que enfrentou dificuldades com os sistema de refrigeração dos freios. Segundo o piloto, talvez a equipe leve algum tempo para resolver, o que preocupa. Daniel Ricciardo deve treinar amanhã. Mas ele passou mal e ainda não está confirmado.

Norris: problemas nos freios

SEM F-1 – A Liberty confirmou hoje que rompeu o contrato de transmissão do Mundial que tinha com a Match TV, da Rússia, e avisou que o sinal da F1 TV também não estará mais disponível no país nas plataformas digitais.

SEM RÚSSIA – É mais uma retaliação da categoria aos russos, que se junta ao cancelamento do GP em Sóchi e, numa esfera mais global, à proibição de eventos chancelados pela FIA na Rússia e em Belarus, além do banimento dos hinos e bandeiras desses países em competições internacionais. Pilotos russos e bielorrussos, para seguirem competindo, têm de assinar um documento condenando a invasão da Ucrânia pelas forças de Vladimir Putin.

FRASES – Para finalizar, as frases mais repetidas do dia que foram ditas por todos os pilotos e integrantes das equipes usando as mesmas palavras: “Os tempos não são representativos porque a gente não sabe o que os outros estão fazendo”; “Nós estamos focados apenas no nosso trabalho e no nosso programa, não estamos preocupados com os outros”; “Foi um dia muito produtivo, aprendemos muito e nestes testes o mais importante é entender como o carro funciona”. A última é dos comentaristas de TV, de todos os países e em todas as línguas: “O que a [equipe X] fez com esse desenho foi otimizar os fluxos de ar”.

Até mais tarde, às 19h no “Fórmula Gomes”, com análise ao vivo do dia #1 no Bahrein.

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Leandro
Leandro
2 meses atrás

Eu estou amando estas diferentes soluções em todas as equipes, espero que não “cortem” a Mercedes e que deixem mais liberdade para as equipes criarem mesmo.

Eu não sei, mas nas apresentações o carro mais “esguio” era o da Williams e a Mercedes parece ter visto algo ali. Esta redução dos sidepods me fez lembrar da Coopersucar kkkk

Até que enfim está perto da primeira corrida, quero ver estes caras correndo logo

Stephano
Stephano
2 meses atrás

Esses sidepods da Mercedes me lembraram muito os da Lambo, de 1991.

Alexandre Neves
Alexandre Neves
2 meses atrás

Ri muito com a “conversa” das equipes sobre o “corpinho esbelto da colega”! Seja como for eu achei que ficou feia, sempre gostei mais das gordinhas – sem preconceito algum. Mas como F1 não é concurso de beleza…

Falando em beleza, esse casco do Vettel além do significado ficou lindo! Bem que ele podia fazer um leilão e destinar a grana para algum fundo humanitário de ajuda aos Ukrainianos. Liga lá pra ele Flávio!