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Magnussen, primeira pole da carreira: milagre dinamarquês em Interlagos

SÃO PAULO (aqui é demais) – Kevin Magnussen, 30 anos, piloto da pequenina Haas, fez a pole-position para o GP de São Paulo, em Interlagos. Roteiro inimaginável escrito — alguém vai dizer isso, então digo eu — pelos deuses do automobilismo que sempre inventam alguma coisa quando a F-1 aparece por aqui. Como acontece com frequência, a instabilidade climática da região sul da cidade foi decisiva. Estamos na primavera, chuva não é algo raro por estas bandas, e foi ela, de novo, que produziu a maior surpresa de um grid nos últimos anos.

O dinamarquês, que até dias antes de começar a temporada estava fora da F-1, chegou à primeira pole de sua carreira em seu 140º GP. A Haas levou sete anos e 142 corridas para chegar lá. K-Mag é o terceiro, entre os que já largaram na pole, que mais demorou para alcançar a honraria — perde para Pérez, 216 GPs de espera, e Sainz, 151.

Será ele, amanhã às 16h, a pontear o grid para a Sprint, corrida de meia hora que vai definir o grid do GP propriamente dito, marcado para domingo às 15h. Max Verstappen estará a seu lado na primeira fila, com George Russell e Lando Norris atrás deles. O grid da prova principal, como se sabe, será definido pelo resultado da Sprint. Mas de acordo com o que reza o regulamento atual da categoria, para efeitos estatísticos Magnussen é o detentor, até o fim dos tempos, da pole deste GP. A primeira da Dinamarca. Mesmo se terminar em último amanhã.

A sexta-feira cinzenta e chuvosa da metrópole foi cenário de uma bela fábula da velocidade, que será contada a partir de agora.

PIloto da Haas estava fora da F-1 até saída de Mazepin: guerra ajudou

Como choveu entre o treino livre e a classificação, o tempo fechou, o asfalto molhou, o vento soprou, o frio se achegou, o povo encharcou, e todos se perguntavam nos boxes quando a luz verde se acendeu: e agora, José?

Mas foram só algumas voltinhas com pneus intermediários para perceber que a chuva parou, e por isso a pista secou, ou pelo menos iria secar com os carros passando, e em algum momento a borracha lisa seria possível. Faltando 9 minutos para a conclusão do Q1, Gasly foi o primeiro a arriscar pneus slicks.

As primeiras voltas vinham sendo cronometradas na casa de 1min19s com os pneus de chuva. O francês da AlphaTauri pulou para 1min17s626 na primeira volta que fez com os macios lisos, indicando que a opção era a mais apropriada, apesar de em alguns pontos o piso se mostrar traiçoeiro e aleivoso. Depois, baixou para 1min16s557, escorregando aqui e ali. Mas os slicks eram bem mais rápidos, mesmo.

Todo mundo, então, fez a mesma coisa e foi à luta. Quando o cronômetro concedia ainda um minuto de tempo disponível aos competidores, creiam, Latifi era o mais rápido com 1min15s969. Mas estavam todos na pista e as marcas foram caindo uma a uma, com vários pilotos se revezando na honrosa primeira colocação de um Q1: Albon, Alonso, Norris, Hamilton, todos por ali passaram. Quedaram, submetidos à implacável foice da eliminação, Latifi, Zhou, Bottas, Tsunoda e Schumacher. Norris, que se apresentou à McLaren hoje mais leve do que ontem, quando faltou ao trabalho, ficou com a melhor marca: 1min13s106. Hamilton, Alonso, Vettel e Pérez concluíram o Q1 nas cinco primeiras posições.

Verstappen: segundo com a Red Bull, favorito amanhã

Para o Q2 já não havia mais dúvidas. Pneus macios, slicks, e todo cuidado do mundo com o piso úmido do autódromo paulistano. O uso da asa móvel, que havia sido vetado no Q1 por causa das condições da pista, foi autorizado. A temperatura seguia na casa dos 19,2°C, ou 66,5°F para aqueles que nos leem em Illinois. Os tempos despencaram, finalmente, para o patamar de 1min11s, algo bem adequado à data, 11/11.

O problema era a chuva. São Paulo, os mais jovens talvez não saibam, é conhecida desde tempos imemoriais como terra da garoa. E ela, a garoa, ia e vinha. Dizem que da represa, mas para isso não há confirmação científica. Outro obstáculo para os pilotos: enquanto na represa, que dizem que manda a chuva, o barquinho vai, no resto da cidade a tardinha cai. E começou a escurecer. Verstappen notou o fenômeno, que de inédito não tem nada — na medida em que as horas passam, a noite se aproxima; é assim no mundo inteiro. Eram 16h30 quando o holandês se queixou do visual plúmbeo e soturno. E voltou a chover com perceptível intensidade, especialmente no último setor do traçado, onde não há represa alguma, e sim alguns prédios do antigo projeto Cingapura (com C, mesmo) do ex-prefeito Paulo Maluf.

Ainda assim, antes de a água voltar a embeber o asfalto, três pilotos entraram na casa de 1min10s, acabando com a graça de 1min11 no 11/11: Verstappen, Sainz e Leclerc. Max fez 1min10s881, para os registros. Albon, Gasly, Vettel, Ricciardo e Stroll foram, desta feita, os que padeceram no Q2. Seguiram na labuta as duplas de Red Bull, Ferrari, Mercedes e Alpine, ladeados por solitários representantes da Haas (o já àquela altura surpreendente Magnussen) e McLaren (Norris).

Fila na saída de box: Leclerc, o único com pneus intermediários

Como costuma acontecer nesta região, em finais de semana de GP em particular, parou de garoar mais uma vez e os dez pilotos habilitados ao Q3 enfileiraram na saída dos boxes para aproveitar o que havia ainda de pista seca antes que o céu desabasse sobre suas cabeças — o maior medo de figuras históricas da humanidade como o gaulês Obelix, por exemplo.

Sinal verde, saíram todos em desabalada carreira com um detalhe curioso: um único piloto com pneus intermediários, Leclerc. Pelo rádio, o polido monegasco perguntou à equipe: “Seria eu o único a exceder na cautela?”. “Acreditamos que sim”, respondeu educadamente seu engenheiro. Foi para a pista, viu que o pneu era uma merda para aquela situação, voltou aos boxes, naturalmente, e colocou os corretos para tentar uma volta rápida — trapalhada, mais uma, que entra para o folclore ferrarista.

E, então, eis que George Russell se perde na freada para a curva do Lago e atola na brita numa tentativa circense de dar um cavalo-de-pau para voltar ao leito da pista. Faltavam 8min10s para o encerramento das atividades e Magnussen ostentava, orgulhosa e esperançosamente, a primeira posição provisória do Q3 com o tempo de 1min11s674.

A bandeira vermelha foi desfraldada, comunistas!, gritaram alguns nas arquibancadas. A sessão foi interrompida. Depois do dinamarquês da Haas apareciam, pela ordem, Verstappen, o infeliz Russell, Norris, Sainz, Ocon, Alonso, Hamilton, Pérez e Leclerc.

Informado de que estava em primeiro e que se a chuva voltasse largaria na pole, Magnussen exultou, pelo rádio: “Nunca me senti assim na vida”. Já começava a sonhar com a pole, indiferente à vergonha de Russell, encostado numa barreira de pneus à espera do “transfer” para os boxes. Para o piloto da Haas, naquele momento, que o céu desabasse de vez; era tudo que ele queria.

Freir, deus nórdico ligado à chuva: caiu do céu, a pole de K-Mag

“Frey, Frej, Freyr ou Freir é um deus nórdico do clã dos Vanes, geralmente representado como belo e com o falo à mostra, de acordo com os achados arqueológicos”, informa texto que pesquei rapidamente na Wikipedia quando vi que, após a breve interrupção, o primeiro piloto que voltou à pista, Pérez, estava com pneus intermediários. Se fez isso, é porque a chuva apertou. Se a chuva apertou, Magnussen está na pole. “É a divindade da prosperidade, das boas colheitas e da agricultura”, segue o texto, donde concluo que a entidade tem algo a ver com a chuva, e portanto atribuamos à formidável piroca de Freir a pole-position mais louca desde a de Lance Stroll no GP da Turquia de 2020 com um carro da Racing Point, hoje Aston Martin. Aqui mesmo em Interlagos, em 2010, vivemos algo parecido com Nico Hülkenberg, da Williams, em 2010.

Hamilton também saiu dos boxes com intermediários, viu que nada podia fazer diante do gigantesco falo de Freir, voltou aos boxes e Magnussen começou a comemorar. Festa de equipe pequena é, sempre, o que de melhor a F-1 oferece, de tempos em tempos. Como a vitória de Vettel em Monza com a Toro Rosso em 2008, de Gasly lá mesmo em 2020 com a AlphaTauri, de Ocon na Hungria no ano passado. Abraços, urros, socos no ar, sorrisos rasgados, sangue, suor e lágrimas. “Nem sei o que dizer. A equipe me mandou para a pista na hora certa, nem acredito”, disse o veterano dinamarquês.

“Quando chove sopa, é preciso ter uma colher. Tínhamos uma colher!”, filosofou o chefe da Haas, Günther Steiner, figura que se tornou uma das mais carismáticas do paddock graças às suas atuações exemplares nas temporadas de “Drive to survive” na Netflix. “Não foi só sorte, fizemos tudo certinho.”

Não se pode negar. Pole é pole. Verstappen poderia ter feito uma volta melhor? Sim, se não tivesse cometido um erro sutil na curva 8, que pela numeração não sei exatamente qual é em Interlagos — conheço todas pelo nome.

O grid da Sprint: vai ser divertida

Para amanhã, a previsão do tempo é mais ou menos parecida com a de hoje. Em algum momento, chove. Agendada para o final da tarde, a Sprint tende a ser divertida. Max é muito favorito à vitória, porque Interlagos é um circuito de ultrapassagens fáceis em pelo menos um ponto, a freada para o S do Senna, e não tão difíceis em outro, o final da Reta Oposta. Com asa móvel e carro rápido, o grau de dificuldade não é muito alto.

Mas Magnussen disse que vai ao ataque amanhã e não quer nem saber. Ele tem o direito de sonhar com o que quiser esta noite. E de pedir todas as bênçãos possíveis aos melhores deuses escandinavos de plantão. São muitos, a mitologia nórdica é farta e exuberante. É só escolher.

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Carlos Sato
Carlos Sato
1 ano atrás

Nem Magnussen estava acreditando. O rádio dele após a volta mostra a incredulidade do próprio piloto. Mas ele fez uma volta muito boa. Comparando com a volta do Verstappen, o piloto da Red Bull tinha uma pequena vantagem até o miolo do circuito. Na parte mais sinuosa e principalmente na subida para a reta de chegada, KMag abriu uma vantagem suficiente para a pole. Foi o melhor e ponto final. Se Russel rodou, e choveu depois , pouco importa. è muito bom ver uma equipe pequena como a Haas ter esse momento de brilho e de glória. Interessant é que no Q2, o dinamarquês fez um tempo até melhor, 1m11,410s ficando em sétimo, sendo que Verstappen fez 1m10,881s. No Q3 todo mundo saiu rapidamente pois a chuva estava chegando. Mas nada que justificasse Leclerc com intermediários. Mais uma para a conta da equipe. Mas Leclerc também poderia ter voltado para os boxes e colocado pneus macios. Teve essa oportunidade, mas além de comprometer sua classificação, levou Perez junto. Que também bobeou. Poderia ter ultrapassado o monegasco. Enfim, vamos ver o que acontece hoje na sprint, com previsão de chuva.

Fernando
Fernando
1 ano atrás

Impagável a foto da saida dos box, com Leclerc no detalhe com viseira aberta, olhando pelo retrovisor seus concorrentes

Chagas
Chagas
1 ano atrás

Grande pole de Magnussen. Comoção geral na Hass. Narração impecável de Sergio Maurício, “Interlagos eu te amo”.
Viva a pista mais espetacular do mundo.
Viva a Hass. Viva a Dinamarca.
E a loucura do dinamarques ontem após a pole, espetacular, magico.
Viva Magnussen, o herói improvável.
Viva a F1.

FBugre
FBugre
1 ano atrás

Flávio Gomes, você já escreve bem… inspirado no poeta dinamarquês seu texto ficou excelente. Talvez a leveza do momento (estamos há alguns dias sem ouvir excrementices no tocante à cuestão) tenha ajudado

Bruno Laporta
Bruno Laporta
1 ano atrás

Só a festa nos boxes já valeu toda essa classificação.

Bruno Bertolo
Bruno Bertolo
1 ano atrás

Texto primoroso e poético, à altura das circunstâncias e da pole de Magnussen! Parabéns, Flávio! Encerrando a semana com um vinho e esse relato sensacional! Vou dormir mais leve, como domingo após as eleições…

Welton
Welton
1 ano atrás

Flávio,

Definitivamente a F1 que deveria pagar correr em SP e não SP ter que pagar pra receber a F1.

E imagina a cara do Mick chegando na festa da Hass. Acho que depois de hoje a carreira dele acabou. Infelizmente.

TYRRELL
TYRRELL
1 ano atrás

Primeira pole do Kevin Magnussen, primeira pole da Haas, primeira pole de um piloto dinamarquês. Parabéns

Pedro Leonardo
Pedro Leonardo
1 ano atrás

Kevinho, a lenda!

Marcar treino e corrida para final de tarde é sempre um risco quando falamos de São Paulo nas épocas chuvosas. Se escurecer de jeito, dependendo do horário, já era luz natural.

Faltou a organização da F1 assistir mais ao Datena pra conhecer sobre as chuvas na cidade rs.

Barreto
Barreto
1 ano atrás

Muito legal quando um piloto de uma nanica consegue algum feito memorável .

Claudio J. P. Souza
Claudio J. P. Souza
1 ano atrás

Quem será o “ÇÁBIO” que marcou a classificação para 16h e Sprint Race para 16h30? Se amanhã à tarde o tempo estiver como hoje, talvez as equipes tenham que improvisar umas lanternas na asa dianteira dos carros.
Quando vi os horários, ao estilo Capitão Nascimento, já comentei com meus amigos: “Estou avisando que vai dar merda!”.

Claudio J. P. Souza
Claudio J. P. Souza
Reply to  Claudio J. P. Souza
1 ano atrás

Na minha opinião, marcar a largada da sprint para 16h30, sem horário de verão, não deixaria muita margem de segurança, em termos de luz natural, caso houvesse a necessidade de atrasar a largada devido a uma eventual má condição do tempo. Felizmente, no sábado o tempo abriu, foi uma tarde bonita e correu tudo bem.

Marcus
Marcus
1 ano atrás

O ternurinha da F1 fez a pole. Infelizmente para o Schumaquinho.