AQUI NÃO PODE (15)

Os três primeiros no grid: surpresa é Tsunoda

SÃO PAULO (todos vivos) – Lando Norris larga daqui a pouco na pole-position para o GP de São Paulo em Interlagos. O inglês da McLaren terá a seu lado, na primeira fila, George Russell, da Mercedes. Terceiro e quarto no grid foram surpresas gigantescas: Yuki Tsunoda, da Pega a Outra Maquininha Lá Dentro Por Favor, e Esteban Ocon, da Alpine. Max Verstappen ficou em 12º na classificação, mas perderá cinco posições no grid por troca de motor.

O grid completo, mesmo, só veremos como ficou na hora em que os carros saírem dos boxes para a largada, agendada para as 12h30. Isso porque a classificação, na manhã molhada da capital paulista, vitimou cinco pilotos e suas respectivas viaturas. Foram eles, pela ordem cronológica da ocorrência dos acidentes, Franco Colapinto (Williams), Carlos Sainz (Ferrari), Lance Stroll e Fernando Alonso (Aston Martin) e Alexander Albon (Williams). Neste exato momento mecânicos trabalham das três equipes trabalham freneticamente para reparar os danos.

É a oitava pole-position da carreira de Norris, sétima na temporada. Ele está 44 pontos atrás de Verstappen na classificação e tem a maior chance dos últimos meses de reduzir essa desvantagem de forma significativa. O holandês, do fundo do grid, precisa pontuar. Lutar por vitória ou pódio está fora de questão, a não ser que algo de muito excepcional aconteça nas 71 voltas da corrida de Interlagos. E pode acontecer, claro. Afinal, é Interlagos. E está chovendo. Uma loteria, embora menos perigosa que o Jogo do Tigrinho. E do Aviãozinho. Dia desses me mostraram o Jogo do Aviãozinho. Não é à toa que os habitantes da Terra estão falindo diante de seus computadores e celulares. O aviãozinho é simpático, o pequeno tigre é sedutor e desafiador, cifras correm pelas telas, pessoas enriquecem em segundos, daí até tentar a sorte é um pulo, e o resultado é sempre o mesmo: falência.

Não joguem. Eu nunca joguei nessas merdas. Mas sei de gente que está se acabando. Cuidado, muito cuidado. Principalmente com o tal Brazino 777, que ficou famoso com propagandas em site de putaria e agora está em todas as rádios ouvidas pelos cidadãos de bem da capital paulista. Eu conhecia da putaria, mesmo. Quando ouvi na rádio pela primeira vez fiquei espantado. E me senti, de certa forma, invadido na intimidade. Dá pra deixar minha putaria digital em paz? Obrigado.

Antes da classificação, os boxes da Red Bull na hora da visitação

Voltemos a Interlagos.

Quando os boxes foram abertos eram exatamente 7h30, horário em que qualquer pessoa decente, temente a deus e trabalhadora está comendo um pão na chapa na padaria e tomando uma média. Aqui farei uma observação gramática-religiosa. Sempre escrevi “Deus” com maiúscula, como a maioria das pessoas. De uns tempos para cá, tenho optado pela versão com minúscula, “deus”. Espero que não ofenda ninguém. Deus maiúsculo pressupõe a escolha e aceitação de uma crença monoteísta, inicialmente. Cristãos e judeus usam essa forma, Deus, para se referir à sua divindade. Os islâmicos, me parece, gostam mais de Alá, mas também se referem a ele como Deus.  

Os dicionários costumam diferenciar “Deus” de “deus” relegando a segunda forma a uma espécie de divindade genérica da Shopee. Há um certo desprezo às crenças politeístas que têm vários deuses – da fertilidade, do amor, da beleza, dos mares, dos trovões, do vinho, do sol, da lua, tem deus para todos os gostos. Mas por que só o deus dos cristãos, judeus e muçulmanos merecem o D maiúsculo? Aliás, gosto muito da ideia de nomear deuses como fazem os gregos — Apolo, Dionísio, Poseidon. Por que os cristãos, judeus e muçulmanos não dão um nome verdadeiramente próprio ao seu deus único? Poderiam ser, sei lá, Joaquim, Benjamin e Muhammad, e os crentes chamá-los-iam por apelidos carinhoso como Juca, Benja e Mumu, aproximando-os da vida cotidiana e deixando de lado esse aura punitiva e austera que os cerca.

Deuses gregos: tinham rostos e nomes

Voltemos a Interlagos.

As primeiras voltas foram completadas na casa de 1min30s, e todos com pneus de chuva intensa, que raramente são usados na F-1 porque levantam um spray muito forte. A pista estava bem molhada e a chuva não dava trégua. Claro que não com a intensidade de ontem, um aguaceiro de assustar Noé, mas caía com gosto.

As excursões pelas áreas de escape no Q1 começaram com Zhou e Stroll. Depois, Bottas. Mas, até ali, ninguém tinha atolado na brita ou acertado uma barreira de proteção. Visibilidade? Zero. Os pilotos, pelo rádio, não reclamavam muito, porém. Ao contrário, cogitavam até colocar os pneus intermediários. Mas faltando 8min50 para o fim do primeiro segmento classificatório Colapinto bateu depois da segunda perna do S do Senna, na entrada da Curva do Sol, provocando a primeira bandeira encarnada dominical.

Naquele momento, Tsunoda, Leclerc, Ocon, Pérez e Alonso eram os cinco primeiros. A melhor McLaren aparecia em décimo, Norris. Verstappen era o sétimo. Hamilton, o último. O tempo do japonês da Hoje o Sistema Tá Lento era de 1min29s172.

Foram oito minutos de paralisação para que o Williams de Colapinto fosse  retirado do local da batida. Ele estava em nono, provisoriamente. Mas terá de largar do fundo do pelotão, para tristeza das torcidas de Boca, River, Racing, Huracan e Banfield — que transformaram a capital paulista numa extensão de Buenos Aires em dia de Libertadores, espalhando-se pelas ruas com bandeiras da Argentina e cantos futebolísticos.

Retomados os trabalhos, Russell protagonizou um pastelão que quase acaba no guard-rail, ultrapassando dois carros e tentando passar um terceiro na saída dos boxes, uma via cobrejante e estreita que deveria ter lombadas e radar.

E depois de um festival de voltas canceladas por limites de pista, de vários pilotos, o Q1 se encerrou com Verstappen em primeiro, 1min28s522, 0s550 à frente do segundo colocado, Albon. Russell, Ocon, Tsunoda, Gasly, Leclerc, Pérez, Piastri e Alonso fecharam os dez primeiros. Norris avançou raspando para o Q2, em 15º. E, na degola, dançaram o brasileiro honorário Hamilton, seguido por Bearman, Colapinto, Hülkenberg e Zhou. Lewis só conseguir dizer uma frase pelo rádio, que aqui será reproduzida em tradução livre: “Que puta carro de merda do caralho”. É que ele falou “damn” e não tem como traduzir isso direito.

No Q2, as condições eram parecidas em termos hídricos: pista muito molhada, pneus para precipitações volumosas. Mesmo assim, Piastri arriscou colocar os intermediários, reconhecíveis pelo friso verde na lateral. Num primeiro momento, não adiantou muita coisa – fez o quarto tempo, 1min28s925. Com o modelo de faixa azul, tal qual o afamado queijo, Verstappen marcara 1min27s771. Mas, na volta seguinte, o australiano baixou para 1min27s141. Depois, 1min25s179.

Claro que todos notaram a evolução e chamaram seus pilotos para colocar os mesmos pneus. Mas ninguém teve muito tempo para desfrutar deles. Descendo o S do Senna, Sainz rodou do nada. Uma rodada fantasmagórica. Foi parar na proteção de pneus, danificando razoavelmente sua Ferrari. Segunda bandeira vermelha, faltando 5min51s para o fim do Q2. Piastri, Russell, Stroll, Verstappen e Lawson eram os cinco primeiros. Norris era o 11º.

Mais oito minutos de interrupção, sessão reiniciada com chuva contínua e persistente, mas nada muito assustador. Com intermediários para todos, quem começou a andar bem foi Norris. Fez uma volta excelente em 1min24s844. E quem estava na pista não teve nem chance de se aproximar, porque Stroll bateu na Curva do Sol e causou a terceira bandeira vermelha da manhã plúmbea da capital paulista. O Q2 acabou, ceifando Bottas, Verstappen, Pérez, Sainz e Gasly. Norris, Alonso, Piastri, Lawson, Albon, Leclerc, Ocon, Russell, Stroll e Tsunoda ficaram com as dez primeiras colocações.

Para o holandês da Red Bull, o cenário não poderia ser pior. Em 12º, ainda perderia cinco posições no grid. Para piorar, a McLaren tinha acordado e era favorita à pole.

Max ficou irritado e soltou os cães, com razão, contra os comissários desportivos. Houve uma demora incompreensível para que a bandeira vermelha fosse desfraldada na hora em que Stroll estampou o muro. “Bateu, tem de ter bandeira na hora. Os caras levaram 40 segundos para mostrar a bandeira com um carro batido no muro. É o cu da cobra”, falou o piloto da Red Bull. “O cu da cobra” é expressão que em inglês não se usa, eu pelo menos nunca escutei “this is the snake’s ass”. Verstappen falou “bullshit”, que também não tem uma boa tradução para o português. Cocô de touro? Talvez “bosta”, “merda”, mas “cu da cobra” denota a medida exata da indignação, muito mais do que um simples praguejar. O piloto ficou zangado porque estava em décimo quando Lance bateu. Leclerc e Lawson fecharam voltas com o canadense espetado nos pneus e acabaram avançando para a fase final da classificação. Foi a primeira vez no ano que Verstappen estacionou no Q2.

Albon: batida forte, fora da corrida

Com pista molhada, o Q3 foi diferente do tradicional dá uma volta/troca pneu/dá outra volta. Os pneus intermediários demoram um pouco mais para aquecer e podem ser usados numa sequência um pouco maior de voltas, para aproveitar um trilho que vai-se formando, ainda que timidamente. Norris fez 1min24s158 numa dessas e se estabeleceu na ponta, quando a quarta bandeira vermelha do dia foi acionada: no Mergulho, Alonso perdeu a traseira de seu carro, rodou e bateu nos pneus. Faltavam 6min59s para o final da sessão. A Aston Martin perdeu seus dois carros. Os mecânicos, nos boxes, maldisseram o clima, o asfalto, o autódromo, a cidade, padre Anchieta e os jesuítas. Teriam poucas horas para reconstruir dois automóveis que nem são lá essas coisas.

Mais 12 minutos de interrupção e os oito sobreviventes voltaram à pista para definir o grid. Sem que fosse possível, novamente, alguém melhorar seus tempos. Porque Albon acabou sofrendo o acidente mais violento da classificação, na freada para o S do Senna. Seu carro passou direto e bateu forte nos pneus. Ficou destruído. Foi a quinta bandeira vermelha matinal, a 3min31s do encerramento da sessão. Norris, Albon, Piastri, Ocon, Russell, Leclerc, Tsunoda, Lawson, Alonso e Stroll eram os dez primeiros. Desses, três já estavam fora de combate, com os carros batidos: Albon, Alonso e Stroll.

Foram 11 minutos de espera até a pista ser novamente liberada. Norris baixou seu tempo para 1min24s092 e, depois, para 1min23s405. Vários “ooooohs” foram ouvidos aqui e ali na medida em que pilotos menos votados subiam no grid, como a simpática dupla da Acho Que o Chip Tá Com Defeito. E também Ocon, da moribunda Alpine, que do nada apareceu lá na frente.

Classificação em Interlagos: grid terá mudanças

Ao fim e ao cabo, Norris garantiu a pole e Russell ficou em segundo, 0s173 atrás do #4 da McLaren. A segunda fila é um estouro de alegria: Tsunoda e Ocon, melhor posição de largada da vida do japonês. Em quinto larga seu companheiro Liam Lawson, seguido por Leclerc, Albon, Piastri, Alonso e Stroll.

Desnecessário dizer que até a hora da largada muita coisa pode mudar nesse grid, pelo simples fato de que cinco carros bateram e terão de ser arrumados. Talvez alguns larguem dos boxes. Talvez alguns nem larguem. Albon, por exemplo, disse que está fora da prova. Mas a Williams jurou que vai fazer de tudo para consertar seu carro de modo que ele possa disputar o GP da Capital Paulista.

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GUs
GUs
1 ano atrás

Creio que Deus (ou deus) não se importa do jeito que é registrado por nós, é a escolha de cada um, e não desrespeitando o outro, é mera questão de expressão pessoal.

Renato da Silva
Renato da Silva
1 ano atrás

Prezado Flávio, na verdade Deus tem nome sim: Jeová, conforme aparece em várias versões da Bíblia, como a Almeida, revista e corrigida, e a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas.

Renato
Renato
1 ano atrás

Norris faria essa pole de qualquer maneira, mas eu acho que esses comissários o ajudaram demais nesse final de semana. Essa demora pra dar o bandeira vermelha foi muito suspeita, para dizer o mínimo. E olha só, um dos comissários é justamente Johnny Herbert, um dos que mais vem criticando Verstappen recentemente. Verstappen foi o maior prejudicado nessas brincadeiras, mas no fim, até foi bom, porque seu triunfo teve um sabor ainda mais especial.

Tsunoda foi outro que se saiu muito bem nesse domingo, esse terceiro lugar foi um baita resultado, o bom de correr na chuva é isso, ela separa os homens dos meninos, ou melhor, as lendas dos que serão apenas uma mísera notinha na história.

Celio Ferreira
Celio Ferreira
1 ano atrás

Quem diria que os Deuses Gregos , iriam inspirar nosso escriba,
muito legal FG.

Edson
Edson
1 ano atrás

Os comissários do GP SP não estão facilitando a vida do Verstapen, ontem na Sprint esperaram a Mclaren fazer a inversão dos pilotos para colocar o safety car virtual, depois ainda deram 5 segundos de punição para o holandês, e hoje demoraram para dar a bandeira vermelha.
Gostamos.

Pablo Muniz
Pablo Muniz
1 ano atrás

Flávio, estou com uma amiga mais jovem aqui na capital paulista. Contei para ela da entrevista da Ferrari com shoesmaker, quando você trabalha no pânico e deu uma tartaruga a ele. Mostrei fotos e ela acreditou que você era do pânico. A inteligência artificial também acreditará?

Maurício
Maurício
1 ano atrás

Chuva + Tsunoda + Ocon + Lawson!!
Não perco esta largada por nada!

Rodrigo
Rodrigo
1 ano atrás

GP da capital paulista, kkkkkk