MEU PÚBLICO

SÃO PAULO (preparando o terreno) – Vocês devem ter visto esse carro na TV nos últimos dias. Foi apreendido em Brasília na casa de um cara envolvido, segundo a PF, no escândalo da roubalheira do INSS — que, diga-se, começou no governo de Bolsonaro.

Meu texto na newsletter que escrevo desde o ano passado na plataforma Substack é sobre o perfil do sujeito. Que, na prática, é bem parecido com o que chamo de “meu público”. Tem um trecho depois da foto. Volto depois dele.

Fernando Cavalcanti, o dono da réplica da McLaren de 1993 e dos outros itens listados, tinha também penduradas na parede de sua garagem outras réplicas, de cockpits de carros de F-1. Essas a PF deixou por lá, não têm valor algum. É meu público, repeti, agora em voz alta, quando Laêne chegou para ver a TV e na tela apareciam os cockpits e o carro vermelho e branco patrocinado pela Marlboro com o número 8. O sujeito era sócio até outro dia de um advogado chamado Nelson Wilians, de quem eu já tinha ouvido falar. Sendo mais específico, porque ninguém tinha me falado nada sobre Nelson Wilians, sabia de sua existência porque há alguns anos, não muito tempo atrás, notei que o dito cujo comprava volumosos espaços na “Folha” para publicar anúncios e/ou artigos genéricos sobre qualquer assunto. Chamaram-me a atenção, na época, a frequência com que seu nome aparecia no jornal — impresso, eu ainda assino jornal de papel; somos dois no meu prédio, o outro assina o “Estadão”, fico imaginando que tipo de gente é, e ele deve achar o mesmo de mim — e a grafia do sobrenome, Wilians, com um L só e N antes do S. Parecia erro de escrivão, mas foi fácil confirmar que era aquilo mesmo, Wilians. Voltarei a ele. Antes, concluamos minhas impressões sobre Fernando Cavalcanti — a quem, nunca é demais lembrar, estou me referindo como sendo “meu público”.

Voltei.

Se vocês clicarem na foto, vai abrir o link da minha newsletter. Lá vocês poderão ler o texto na íntegra. Mas só se forem assinantes. É tudo intuitivo, com três ou quatro cliques assina-se a newsletter e passa-se a receber todas as atualizações no e-mail. Não custa quase nada: 13 reais por mês. Simples e nada invasivo.

É bom todo mundo aqui começar a se acostumar. Até o fim do ano, este blog deverá ser congelado. Ele completa 20 anos no ar no dia 5 de dezembro. Sei que alguns vão reclamar, outros ficarão chateados, outros tantos compreenderão. O blog não vai desaparecer, continuará onde está, mas deixará de ser atualizado. E continuará vivendo no Substack, plataforma paga que tem sido a saída para jornalistas profissionais que querem continuar escrevendo e já não têm onde, porque seus jornais, revistas e portais fecharam. Mal comparando, é como um canal de TV que, numa mudança de parâmetros técnicos impostos pelo governo, tem de mudar de sinal analógico para digital. De canal X no seletor da antiga Telefunken, passará a ser Y no controle remoto da smartv Samsung. Mas, para acessá-lo, será preciso pagar um serviço de internet que, por sua vez, tornará possível encontrar o antigo canal X no streaming.

O Substack (e seus pares, mas só conheço esse) é a única forma, hoje, de alguém ser remunerado pela escrita. Porque a maioria dos sites de notícias no mundo inteiro já está recorrendo a ferramentas de inteligência artificial para redigir seus textos. Isso está acabando com o jornalismo e com a produção literária e acadêmica. Livros têm sido escritos por IA, assim como campanhas publicitárias, músicas, teses de mestrado e doutorado, decisões judiciais, relatórios de empresas.

O Substack não é uma rede social. É onde já estou publicando e passarei a publicar todos meus textos, sobre todos os assuntos. Na prática, continuará sendo um blog. Cuja definição, encontrei no Google, é:

Um blog é um site (ou parte de um site) onde uma pessoa compartilha textos, ideias, fotos, vídeos e outros conteúdos sobre temas variados, como moda, viagens, tecnologia, culinária, entre outros. Esses posts geralmente são atualizados de forma regular e podem ser comentados pelos leitores.

Pela definição, é fácil concluir que são a mesma coisa, um blog e o que vocês encontrarão no Substack. Eu vivo de escrever. Vou continuar vivendo. O blog, que nasceu em 2005 como “blig”, porque era hospedado no portal iG — que ainda existe, mas receio que tenha perdido relevância; nem sei quem é o dono, não sei quem escreve lá, não sei de nada –, é onde escrevo no dia a dia. Não existiam Instagram, Twitter, TikTok, WhatsApp, Facebook, YouTube. Assim, minha página fazia, de alguma forma, todas as funções dos que vieram depois dela: textos curtos, fotos, vídeos, troca de mensagens, comentários, debate, tudo. Passou por várias fases nessas duas décadas e, no fim, foi nocauteado pelas redes sociais.

Mas não vou fazer nenhum obituário hoje. Ainda estamos em setembro. Vão lá na newsletter — ela se chama “Gira Mondo”, numa referência explícita a uma seção nascida aqui que todo mundo gostava. Já tem um ano e meio de vida, quase cinco mil assinantes, sendo pouco mais de 500 pagos. Muita coisa inédita foi publicada lá, e só quem assina leu.

Assinem, pois. Assim, este blog viverá para sempre.

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Cristiano
Cristiano
5 meses atrás

E vai ter obituário no blog?

Diogo
Diogo
8 meses atrás

Sei lá que ano eu vim pra cá, a primeira vez. Faz tempo. Se não foi no início, não digo nada, mas eu não sei! Tinha o Seixas e esse que eu via. Mas entre idas e vindas sempre lembro deste espaço! Sua escrita parece ter sido evoluído, Sr. Flávio. O que posso dizer? (Isso foi bem Orkutico): Como sou prático e pragmático, posso dizer que o Sr. tem um saco monstro pra aturar esse tempo todo, essa gente toda, rsrs. Meus parabéns, e longos anos pela frente. E, sim, já se eternizou em terabytes e terabytes.

Diogo
Diogo
8 meses atrás

Golpe baixo. Pagarei, eu acho. Veremos, rsrs.

Marcos Alencar
Marcos Alencar
8 meses atrás

Momentos interessantes esses. Música, textos, imagens etc por IA mas ao vivo, só pessoas de vdd. Parece um ciclo, artistas ao vivo serão(?) mais valorizados simplesmente pq só assim pra ter contato com algo feito por pessoas, na hora. Os blogs tb.. se no futuro vc por exemplo, der espaço para na sua “coluna” no substack pra outro jornalista pra falar algo muito específico, esporádico, teremos voltando o conceito de…. Jornal! Jornalismo de vdd. acho curioso. Abrs

Sebastian Koerk
Sebastian Koerk
8 meses atrás

“COM O Flávio onde o Flavio estiver,,,”

Vamos nessa direção

Alex
Alex
8 meses atrás

20 anos, incrível… e sou um dos que estão aqui desde o início.

Tive o primeiro computador em casa em 2004, e logo que comecei a usar a internet, ainda discada, uma das primeiras coisas que pesquisei foi sobre F-1. Encontrei na época o Grande Prêmio, que passou a ser um dos primeiros sites que acessava quando entrava na então rede mundial de computadores. Um tempo depois lembro de ter visto o blog num dos banners, a passei a acessá-lo frequentemente também.

Alguns anos depois, aliás, começou uma fase com muita gente boa escrevendo sobre automobilismo em blogs – e acho que o único que sobrou até o momento foi este.

Uma pena a decisão em congelar o blog, mas eu, como muitos, já havia notado que estava minguando nos últimos tempos. Apesar de ser uma decisão compreensível, fico chateado em ver algo que tanto acrescentou em minha vida acabar assim. Tomara que no Substack o conteúdo continue tão enriquecedor quanto era aqui! Valeu Flavio!

Paulo Leite
Paulo Leite
8 meses atrás

Não sei se a Academia Brasileira de Letras tem cacife para tanto, no entanto, não há dúvida que deveria convidar FG para ser mais um imortal, porque o que ele escreve é melhor e mais útil do que o que a maioria dos atuais mortais escreve. Na verdade, a ABL é uma entidade quase inútil. A referência ao comentário de SM é demais. E o texto, um delícia de leitura.
QUAC.

Walter
Walter
8 meses atrás

Então, que assim seja. O jornalismo profissional tem que se adaptar mesmo.
Quase nunca comento, mas minhas referências (e indicações) sempre foram este blog e o portal do Grandepremio.

Obrigado por toda qualidade, dedicação e acessibilidade ao longo dos anos por aqui. Tenho muitos interesses, mas automobilismo sempre foi paixão.

Sucesso nos novos formatos, Flavio!

Obs.: Os cortes no YouTube foram certeiros, não por questão de preguiça, mas pelo direcionamento algorítmico.

Abraço

Luciano
Luciano
8 meses atrás

O substack é uma plataforma bastante interessante com essa proposta (muito justa, justíssima!) de remunerar quem vive da escrita. Eu já fui assinante do Gira Mondo e digo que vale muito a pena!
E estou dizendo “fui” porque atravessei um período de perrengue financeiro que, felizmente, vai chegando ao final… Assim que eu me reorganizar por aqui, estarei lá no Gira Mondo de volta como apoiador, Flavio!
Mudam os formatos mas a mensagem permanece!

Sebastian Koerk
Sebastian Koerk
8 meses atrás

Dizem que em alguns consultórios médicos requintados, o paciente realata as queixas , o computador “ouve” e a ia faz o diagnóstico e a receita, o medico só carimba e assina a receita. Não sei se é bom ou ruim… mas eu prefiro o medico tradicional. Nas publicações também prefiro as coisas tradicionais como o Flavio, nem concordo com tudo mas são textos que sao mais empolgantes
A tal IA é mais marketing e só serve para sugar mais dinheiro, alienar mais, porém em algumas áreas ela é necessária, mas não é tudo isso que se diz por aí.
Flavio, quem é o careca do INSS ? E essa replica do carro do Senna não é das melhores…eu acho. IA no fim é apenas copia daquilo que já se sabe.

Kleber
Kleber
8 meses atrás

E quando vem o próximo romance, depois de Dois Cigarros?

Eduardo Hattori
Eduardo Hattori
8 meses atrás

Estou triste, mas vc vai ter sucesso isso é ctz

Adolfo Bras
Adolfo Bras
8 meses atrás

Fico triste de saber que as atualizações no blog aberto deixarão de ser feitas ao final do ano… Mas, entendo sua posição e ela não está errada… Assim que passar o aperto financeiro das bandas de cá, assinarei com certeza…

marcoaurelio
marcoaurelio
8 meses atrás

Tchau, Gomes

ciro
ciro
8 meses atrás

puxa vida, congelarão o blog. fico chateado, mas compreendo. obrigado pelos 20 anos

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
8 meses atrás

Faz bem Flavio. Por sua causa criei uma conta no Substack. Vou assinar a sua.

Acabei de escrever sobre as diferencas entre assistir um GP no streaming/TV e assistir ao vivo, grudado na grade da Curva 1 de Barcelona. Link no perfil.

O crítico
O crítico

Putz, se você é chato assim aqui, imagine lá no Substack…

Fernando (Pai do Clark)
Fernando (Pai do Clark)
8 meses atrás

Boa FG!
Sou assinante fundador (acho que este o termo) lá no Substack e assim serei onde o escriba deixar suas palavras (livro, rádio, blog, Substack, YouTube .. o que seja).
Ainda acho que você poderia enveredar por oferecer cursos, aulas ou mini palestras sobre automobilismo, jornalismo ou política, por exemplo.
Público você tem.
Abraço!

Last edited 8 meses atrás by Fernando (Pai do Clark)
Diego Monteze
Diego Monteze
8 meses atrás

Indo assinar agora. Vida longa aos bons textos jornalísticos feitos pela inteligência humana, e não pela artificial.

Magno Calixto
Magno Calixto
8 meses atrás

Me acostumando com o https://flaviogomes.substack.com.
Aderi ao seu ‘novo blog’, Flávio!
Continue suas ‘escribas’.
E, sem anistia…

ze otavio
8 meses atrás

Eu ate entendo, mas que vou sentir falta, vou, eh um lugarzinho da memoria, dos idos, do seu tempo de cobertura ao vivo, viajando, correndo, indo de um lado para o outro.

Pode nao fazer sentido manter, eh vintage, tem seu charme, traz boas recordacoes.

Mas o Substack esta la, o Gira Mondo esta la, seus textos estao la, sua arte, sua incrivel capacidade de escrever textos pitorescos e nos encantar esta la.

Vamos a isso.

Obrigado pelos 20 anos de Blog.

Fabio Amparo
Fabio Amparo
8 meses atrás

Caro Flávio, tudo bem?

Gostaria de aproveitar esse espaço para tirar uma dúvida: já vi posts de pessoas como o Reginaldo Leme ou o Fábio Seixas, marcando o seu perfil @meianov no Instagram. Porém, quando entro, a rede diz que não existe.

Afinal, você tem algum perfil oficial nas redes sociais?

PS: Achei o nome @meianov fantástico!

Romero
Romero
8 meses atrás

Eu lia o blig. Falava aos amigos e eles me corrigiam que era blog. Lá se vão tantos anos. Lembro quando eu comprava Lance, Folha (mesmo sendo textos seus, as vezes publicavam matérias diferentes) todas as segundas feiras pós corridas. Saudades desses tempos…