SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

A IMAGEM DA CORRIDA

Mamãe Cisca e papai Adam: orgulho do filhote

SÃO PAULO (pequena pausa, agora) – Lamento dizer que não teve A foto desse GP de Abu Dhabi. Talvez porque nada de muito interessante tenha acontecido na pista. A McLaren fez a lição de casa direitinho, soltou Oscar Piastri em cima de Max Verstappen e ficou protegendo o terceiro lugar de Lando Norris para 1) garantir o título do inglês oferecendo a ele uma corrida tranquila para chegar no pódio; ou 2) na eventualidade de ele ter algum problema, tipo o 3I/Atlas cair sobre sua cabeça ou atropelar um dromedário, ter o australiano em condições de atacar o holandês para ganhar a corrida e ser campeão.

Então, as melhores imagens ficaram reservadas para depois da prova: os abraços, a emoção, o choro, os cumprimentos dos rivais e colegas, aquelas coisas. E a mãe de Lando acabou sendo uma das estrelas da comemoração. Cisca, seu nome, é belga. Adam, o pai, um milionário que ficou rico muito cedo com planos de pensão e, depois, scooters elétricas.

Coloquei alguns abraços no textão de domingo. Os que sobraram estão abaixo.

Voltarei às aparas de Yas Marina depois. Mas o bom jornalismo me obriga a, antes, registrar aqui a notícia mais importante de hoje, já que o rescaldo veio um dia depois do que de hábito. Estou falando de Helmut Marko. O austríaco de 82 anos, guru e consultor da Red Bull desde sempre, anunciou hoje que está deixando a F-1. A equipe, em 2026, será bem diferente do que nos acostumamos a ver. Adrian Newey já tinha saído. Christian Horner foi demitido na metade do ano. Agora, Marko.

Ex-piloto de F-1, vencedor das 24 Horas de Le Mans em 1971, Marko teve de encerrar a carreira precocemente depois que uma pedra — lançada pelas rodas traseiras do March de Ronnie Peterson no GP da França de 1972 — perfurou a viseira de seu capacete e ele perdeu um olho. Largou as pistas, se formou advogado em Graz (daí o “Doktor” usado toda hora para se referir a ele) e em depois fundou uma equipe de F-3000 que virou o time júnior da Red Bull em 1989. O dono da marca de energéticos, Dietrich Mateschitz, era seu amigo pessoal.

O resto, como se diz, é história. Quando a Red Bull virou equipe de F-1, em 2005, Marko assumiu a função de consultor do time com a missão principal de descobrir e formar pilotos. Não se pode dizer que foi mal-sucedido. Vinte de seus meninos chegaram à categoria principal. Dois foram tetracampeões: Verstappen e Sebastian Vettel. No total, contando a filial que hoje se chama Racing Bulls, na era Marko o grupo venceu 132 GPs, fez 112 poles e levou seus pilotos 239 vezes ao pódio. Além dos oito títulos de Max e Vettel, foram mais seis de Construtores.

Marko em 2023 num BRM antigo: carreira de piloto abreviada

Marko não é exatamente uma unanimidade na F-1. Falou e ainda fala muita bobagem, faz ataques gratuitos a outros pilotos e equipes, é daqueles velhinhos que vão perdendo o filtro com o passar dos anos — o que nunca se justifica, idade não é salvo-conduto para ofender ninguém. Grosseiro, mal-educado, excessivamente crítico e rigoroso com jovens pilotos, inaugurou uma espécie de moedor de carne na gestão da garotada que passou por suas mãos. Se duas dezenas chegaram lá, outras tantas ficaram pelo meio do caminho — traumatizadas, até.

Mas o fato é que na função que lhe delegaram, funcionou. A família Verstappen o adora. Max ameaçou deixar a equipe se ele saísse no ano passado, quando atritos com Horner passaram a ser cada vez mais frequentes e incontornáveis. No fim, percebe-se, Marko ganhou o braço de ferro. Christian foi embora antes. E Doktor Marko está indo por vontade própria.

Essas artes aí em cima já foram publicadas ontem, mas é praxe no rescaldo dos GPs para passar a régua na etapa que acabou de ser realizada. E neste caso, na temporada toda. O sexto lugar de Fernando Alonso colocou o espanhol entre os dez primeiros. “Ficar em décimo é horrível”, disse o espanhol, que não comemorou o resultado. Ele ampliou um recorde e igualou outro em Abu Dhabi. O primeiro, de maior intervalo de tempo entre o primeiro e o último GP disputado: 24 anos e nove meses, e contando — porque ano que vem tem mais. O segundo, de 343 GPs concluídos, vendo a bandeira quadriculada. Lewis Hamilton também tem 343. Aliás, sobre Hamilton, acho que faltou falar que esta foi a primeira temporada de sua vida sem um pódio. Nenhuma tacinha. Um horror.

Mas não são as cifras mais relevantes do fim de semana. Tomemos outra, que representa bem o que foi esta breve geração de carros inaugurada em 2022 e que sai de cena agora, com a mudança radical de regulamento para 2026.

O NÚMERO DE ABU DHABI

55

…vitórias foram conquistadas pela Red Bull nos 92 GPs disputados desde 2022, 59,8% do total. As outras equipes que ganharam corridas nesse regulamento foram McLaren (20), Ferrari (10) e Mercedes (7).

“Se olharmos para onde estávamos em Zandvoort [104 pontos atrás do líder Oscar Piastri] e para onde estamos agora, não está ruim, não”, disse Verstappen sobre o encerramento do campeonato, apenas dois pontos atrás do campeão Norris. Ele tem razão. Claro que depois da corrida um jornalista inglês perguntou a ele sobre os pontos perdidos em Barcelona, após a punição que o jogou de quinto para décimo por conta de um toque em George Russell. Max, que vive às turras com a imprensa britânica, deu uma resposta meio atravessada. Mas falou, antes, o que todos com um mínimo de lucidez entendem: um campeonato não se ganha ou se perde em uma única corrida.

Norris se tornou o 35º piloto a conquistar um título mundial, o primeiro para a McLaren desde 2008, com Hamilton. E ele já decidiu que, no ano que vem, exercerá o direito de correr com o número 1. Verstappen, que usou o número destinado aos campeões nas últimas quatro temporadas, deve voltar ao 33. Mas ele já andou dizendo por aí que gostaria de correr de 69. Não sei se era brincadeira ou uma referência, mesmo, ao meu carro, o famoso Meianov. Se ele pedir, eu cedo.

Todos os campeões: inglês vai de #1 na próxima temporada

A FRASE DE YAS MARINA

“Ter dois pilotos disputando [o título], para nós, sempre foi uma ambição e um desejo, não um problema.”

Andrea Stella, chefe da McLaren
Stella: política interna colocada em dúvida

Muita gente criticou a McLaren por decisões esquisitas ao longo do ano, como mandar Piastri trocar de posição com Norris em Monza porque o pit stop do inglês tinha sido ruim. Mas há um fato inquestionável: a equipe ganhou os dois títulos, de Pilotos e Construtores. E como só um piloto pode ser campeão, nada a acrescentar.

Deu tudo certo, ao fim e ao cabo. Foi a primeira conquista dupla do time papaia desde 1998, quando também ganhou as duas taças — o campeão foi Mika Hakkinen. No ano passado, só veio o título entre as equipes. E quando Hamilton ganhou o Mundial em 2008, a campeã de Construtores foi a Ferrari.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… de acompanhar, desde a primeira corrida em 1993, a história bonita da Sauber, que deu adeus hoje da categoria — com o teste de pós-temporada lá mesmo em Abu Dhabi. A partir do ano que vem, todos sabem, o time passa a se chamar Audi. Quatro brasileiros levaram o “S” no peito nesse período: Pedro Paulo Diniz, Felipe Massa, Felipe Nasr e Gabriel Bortoleto. Peter Sauber, que já não tem mais nenhuma participação na equipe, foi convidado para a prova de despedida. É um querido do meio. A última foto desse carrossel aí embaixo é belíssima. Um olhar que diz tudo. Sorte à Audi, outra marca histórica nas pistas (90 anos, considerando os tempos da Auto Union). Vai ser uma aventura muito bacana de seguir. Com Bortoleto ao volante.

NÃO GOSTAMOS… de ouvir ontem no “Fantástico”, da TV Globo, o (ótimo) apresentador Lucas Gutierrez dizer que Verstappen, “da RBR”, venceu o GP de encerramento da temporada. RBR é o caralho. Entenda, Globo: a F-1 que você deixou em 2020 não é a mesma de 2025. Fica a dica.

Subscribe
Notify of
guest

26 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Heriank
Heriank
5 meses atrás

Se alguém tinha dúvida sobre a “ pobreza “ que será o tratamento da Globo em relação a F1 agora não tem mais.

Vitor Rodrigues
Vitor Rodrigues
5 meses atrás

Falando nos traumatizados, lembro como o Marko acabou com a carreira do Alguersuari. Se não me engano, o motivo foi por ter bloqueado o Vettel, o menino dos olhos do Doktor na época. É verdade que lançou muita gente entre os “descartados” que sobreviveram, alguém até comentou dia desses o número de ex-taurinos que compõe o grid. Mas pelas besteiras que nunca cansou de dizer, já vai tarde.

Glauson
Glauson
5 meses atrás

Tô em dúvida se faço assinatura da F1TV ou da sportv … Depois desse RBR , acho que vou ficar com a primeira opção

antonio seabra
antonio seabra
5 meses atrás

Flavio, desde o GP da França de 1972, em Charade, (Clermont Ferrand) que ouço dizer que a pedra que furou a viseira do capacete e depois o olho do Marko foi lançada pelo Lotus 72 de Emerson Fittipaldi.

Hilton Vaz Pezzoni
Hilton Vaz Pezzoni
5 meses atrás

Também sou leitor do FG, desde a coluna Motor na Folha, lá se vao mais de 30 anos…
E lembrei que Dr Marko já dividiu carro com o saudoso e fantástico piloto José Carlos Pace…..

Zé Maria
Zé Maria
5 meses atrás

Pequena correção:
Quem acabou com a carreira do “Herr Doktor” foi Emerson Fittipaldi, não Ronnie Peterson.
By the way, ele já vai tarde, deveria ter sido defenestrado junto com o Horner.

Zé Maria
Zé Maria
Reply to  Flavio Gomes
5 meses atrás

Vivendo e aprendendo, já com 6.6, e passados 53 da ocorrência.

Cezinha Dias
5 meses atrás

RBR!!! Putz, Já começaram a estragar tudo…

Barreto
Barreto
5 meses atrás

Como seria legal se algum entrevistado ao vivo se referisse a emissora como RGT.

Luis
Luis
5 meses atrás

O melhor texto da F1. Sempre.

Ednaldo
Ednaldo
5 meses atrás

Na-na-ni-na-não, Meianov é marca registrada! Velocidade, paixão, glamour e uma pitada de duplo-sentido que pertencem a nós, 69ers (née 1969ers transitórios).

Rodrigo Brayner
Rodrigo Brayner
5 meses atrás

Texto sempre cirurgico.

O detalhe no final:
RBR puta que pariu…

Vai ser essa merda de novo.
Sabe Flávio, eu em 2021, comprei a F1TV, bom pra cacete, e ainda ouvia a narração em.português daquele BABACA, mas ai teve a vitória do Lewis aqui em SP, e eu perdi a paciência, o cara quase teve um parto de 7 meses, de tanto que gritava e qnd o Lewis pegou a bandeira do Brasil.. foi um tal de “emulou senna”.. arrrghhh odeio essa merda… e passei a ouvir com a narração da Sky Sports..
Pra mim, uma maneira de ficar ouvindo a língua inglesa e pegar fluência… e outra, eles torcem, mas são bem mais polidos em tudo, com o humor ácido inglês por detrás, mas tem Jenson, Nico, Karum, Anthony, Martin, muitos ex pilotos que dão uma palhinha e tem tb a entrevista com os chefes de equipe durante as corridas, tipo quando entrevistavam os técnicos durante os jogos de futebol antigamente (não muito antigamente).

Enfim, que venha a F1 2026, vai ser uma loucura esses carros novos e essa tecnologia 50/50.

Eu que sou Game Design e estou criando jogos de F1, já tô estudando isso a uns 8 meses pra entender tudo, cara que parada que vai ser. Diversão na certa!

Abraços e bom fim de ano a tu!

Jader
Jader
5 meses atrás

Voltamos ao RBR. Negócios são negócios… propaganda de graça não dá lucro.

Igor
Igor
Reply to  Jader
5 meses atrás

Pra merda ficar completa poderia mudar as outras marcas também: MBZ, FER, MCL…

Glaucio Pessoa Branco
Glaucio Pessoa Branco
Reply to  Jader
5 meses atrás

Já que é para usar SIGLAS que tal :

Red Bull = RBR
Racing Bulls – RBL
Ferrari = FST
Mercedes Benz = MBZ
McLaren = MCL
Audi = AUD
Aston Martin = AST
Williams = WIL
Alpine = ALP
Hass = HSS
Cadilac = CAD

e finalmente

Globo = RGT

Danilo
Danilo
5 meses atrás

Eu não tenho apreço pelo Dr H Marko, muito em razão das características ja citadas pelo Flavio, porém creio que ele teve papel relevante – muito além do programa para descobrir novos talentos – de fazer que uma empresa que vende latinhas se transformasse em um das das equipes mais bem sucedidas na história da F1, lembrando que montadoras já fracassaram nesse intuito. É óbvio que o mérito não é só dele, mas era uma peça importante da engrenagem e por mais que fica aquela sensação de que vai tarde, só não foi antes para terminar com o trabalho C Horner, acho que a equipe sentirá a ausência dele e não me surpreenderá se a Red Bull se tornar uma equipe média com o passar dos anos. Há cultura vencedora, bons profissionais e dinheiro, mas são figuras controversas como ele, Ron Dennis e Bernie que fazem as coisas acontecerem.

Eu mesmo critiquei a política papaya…, mas creio ser inegável que apesar de uma preferência pelo Norris, o que explica algumas decisões, de forma geral eles deixaram os pilotos disputarem entre si…, criticamos a passividade e declarações dos pilotos em alguma situações, mas somos senhores da razão em achar como os pilotos devem agir?

Antonio Fernando
Antonio Fernando
5 meses atrás

Perfeita bandeirada de encerramento da temporada. Nada mais a dizer.
Vamos que vamos.

Edison
Edison
5 meses atrás

É a grobo já começando a avacalhar a F 1.
Feliz 2026 a todes.

Helena
Helena
5 meses atrás

Fico com a impressão que acabou uma série, um filme bom. Bate saudade lendo teu texto.
E agora, novo regulamento, novos carros… nova transmissão… Essa fica no dúvida se agradará.
Mas os atores continuam os mesmos, no protagonismo.
Em três meses, tudo de novo.

joão
5 meses atrás

agora sim, acabou :)

os “sobre ontem/anteontem/UM DIA DESSES AÍ”, como as saudosas “pílulas do dia seguinte”, do seixas, são patrimônio público nacional. um parou, por enquanto. providenciando o hexa.

vc tem que seguir. congele o blog, faça loja, faça vídeos e lives ruins e boas e estridentes e informativas MAS

por favor

nunca pare com os sobre ontem.

o último leitor – pelo visto…

Ricardo
Ricardo
5 meses atrás

Agradeço ao escriba por mais um ano de matérias deliciosas de serem lidas!

Luciano K
Luciano K
5 meses atrás

Lembro perfeitamente da estreia da Sauber em 1993, motor Mercedes e com Karl Wendlinger de piloto sendo levado pelo Helmuth Marko da March que faliu no final da temporada de 1992. Em função do desempenho da Sauber no mundial de marcas, sempre considerei que a a Sauber em algum momento disputaria título, mas não aconteceu. De qualquer forma, a equipe se despede da F1 sem uma única vitória, mas com a sensação de que vai deixar saudades como a Minardi.

Megas Alexandros
Megas Alexandros
Reply to  Luciano K
5 meses atrás

Aquele carro preto no início da Sauber era lindão e chamava bastante atenção

Jonny'O
Jonny'O
5 meses atrás

Hum……..vamos escutar bastante RBR.