ZEBRINHA RAMPANTE (1)

SÃO PAULO (tá com jeito…) – A Ferrari não vence uma corrida na F-1 desde 27 de outubro de 2024, quando Carlos Sainz recebeu a quadriculada na frente no México. Foi uma boa temporada para o time italiano, aquela: cinco vitórias no total, um vice-campeonato de construtores, lutando pelo título até ser batida pela McLaren na prova derradeira. O título de pilotos, no entanto, nunca esteve próximo. Max Verstappen levou com alguma folga, sua quarta conquista seguida.
Lewis Hamilton não vence uma corrida na F-1 desde 28 de julho de 2024, quando levou a Mercedes à bandeira quadriculada na frente de todos na Bélgica. Não foi uma boa temporada para o piloto inglês, aquela: apesar das duas vitórias no ano (a outra foi na Inglaterra), terminou o campeonato apenas em sétimo, atrás de seu então companheiro George Russell, e até hoje é sua pior colocação num Mundial. Ele nunca esteve tão longe da ponta da tabela, e no final do ano se despediu do time alemão para correr na Ferrari.
Ferrari e Lewis Hamilton podem encerrar seus jejuns indigestos neste final de semana em Mônaco. É a maior chance da Ferrari de vencer uma corrida em muito tempo e a maior de Lewis desde que chegou a Maranello. Motivos há.
A Mercedes não tem um bom retrospecto recente em Monte Carlo, tendo vencido nas ruas do Principado pela última vez em 2019. De 2013 a 2016 ganhou quatro seguidas, é verdade, mas isso aconteceu no auge de sua hegemonia na categoria, algo que ficou para trás. Neste ano, apesar de suas cinco vitórias consecutivas até agora, a equipe alemã sabe que terá pelo menos duas corridas em que o domínio será confrontado pelas rivais. Uma delas é a de Singapura; a outra, Mônaco. E por quê? Porque na hora de fazer o projeto do carro, os engenheiros mercêdicos priorizaram outro tipo de circuito para andar bem.


A campeã McLaren — sigo nos motivos para explicar o favoritismo da Ferrari — vem mal das pernas neste ano. Na temporada passada, Lando Norris venceu em Monte Carlo. Hoje, no segundo treino livre para a corrida, ficou em 19º depois de completar apenas oito voltas e estacionar com problemas elétricos. Seu companheiro Oscar Piastri foi o sétimo colocado, a mais de 1s de distância do mais rápido do dia — Hamilton, com 1min13s026. Não é um bom momento para os papaias, muito irregulares em 2026.
Na Red Bull — continuamos na série “motivos há” –, o primeiro pódio do ano veio só em Montreal, há pouco menos de duas semanas. Aí reside o maior perigo para a Ferrari, porém. Verstappen é um piloto bom o bastante para, numa pista como a citadina de Monte Carlo, fazer uma pole milagrosa e ganhar a corrida.
Mas milagres não são tão frequentes. E se os ferraristas querem mesmo quebrar o lacre de quase dois anos sem ganhar um GP, que o façam neste fim de semana. Tradicionalmente, os carros vermelhos apresentam características de construção que combinam com as necessidades de Mônaco: basicamente, equilíbrio nas reduções de marcha e nas frenagens e uma boa aderência mecânica. Diria um texto de IA: “Não é potência. É equilíbrio. Não é aerodinâmica. É aderência. Não é motor. É chassi. Não é velocidade. É coragem”.
(Sempre que você receber um texto que tenha construções como essa — “Não é X. É Y.” –, saiba que está lendo alguma merda feita pelo ChatGPT, ou outra ferramenta de IA semelhante. Jogue no lixo. Xingue quem mandou. Desconsidere. Ignore. Despreze. Não é texto. É bosta.)

A Ferrari foi a melhor hoje nos dois treinos livres que abriram a sexta etapa do Mundial. No primeiro, com Charles Leclerc. No segundo, com o já bastante citado Hamilton. E por que estou colocando Lewis como favorito? Uai, porque sim.
Ah, mas o Leclerc conhece cada centímetro dessa pista!, vai dizer alguém, porque a moça da TV falou isso.
É dessas bobagens recorrentes que a gente escuta todos os anos. O cara nasceu em Mônaco, então conhece a pista melhor que os outros. Rubinho conhece Interlagos como ninguém, por isso vai ganhar do Schumacher no GP do Brasil.
Puta que pariu. Primeiro, quase todos MORAM em Mônaco. Segundo, qual a vantagem que Chaleclé levaria, sei lá, em relação a Nico Hülkenberg porque quando era criança ralou o joelho andando de carrinho de rolimã nos morros da comunidade monegasca? Ou em relação a, sei lá, Kimi Antonelli porque chupou picolé na pracinha em frente à igreja de Sainte-Dévote? Alguém acha que Leclerc, por ter nascido em Mônaco, manda fechar as ruas para treinar sozinho de madrugada? Puta que pariu. Rubinho levaria vantagem sobre Schumacher em Interlagos se os dois saíssem de Fiat Uno pelo bairro atrás de uma padaria. O brasileiro, provavelmente, encontraria primeiro. Na pista, se o parto da mãe do cara foi feito dentro dos boxes de um autódromo NÃO FAZ DIFERENÇA NENHUMA! Entenderam? Dizer isso não é informação. É burrice. Copia aí, IA.
Vamos às caixinhas que estou irritado.

SURPRESA AMARELA – A Audi foi a surpresa do dia, andando entre os primeiros nas duas sessões. Hülkenberg pegou a mão rápido. Gabriel Bortoleto demorou um pouco mais. No fim do dia, estavam em oitavo e nono. É uma boa chance de pontuar para os quatrargólicos, que não anotam nada na tabela desde a primeira etapa do campeonato. Ah, os carros estão com amarelo no lugar do vermelho. É uma homenagem a Tazio Nuvolari, piloto da Auto Union nos anos 30, que corria sempre usando um pulôver amarelo. O italiano ganhou provas clássicas pela Auto Union, como na Inglaterra e na Itália, antes de a F-1 ter esse nome. Como a Audi lançou o supercarro Nuvolari no começo da semana (está numa postagem aí embaixo), aproveitou o ensejo para fazer a referência na corrida do Principado. A Auto Union, para quem não sabe, foi a junção de Audi, DKW, Wanderer e Horch em 1932. Daí as quatro argolas. Depois da Segunda Guerra a marca foi recriada na Alemanha Ocidental, comprada pela Mercedes no fim dos anos 50 e depois pela Volkswagen no começo dos anos 60. Em 1966 a VW decidiu ressuscitar a marca Audi para fazer carros melhores que Fusca e Kombi e descontinuou os DKW, que vinham sendo feitos desde o renascimento pós-guerra. Manteve o logotipo das quatro argolas e assim nasceu a Audi moderna. Nuvolari era bom, mas Bernd Rosemeyer era melhor e foi o grande nome da Auto Union. Morreu num acidente em 1938 a mais de 400 km/h tentando bater um recorde de velocidade que a Mercedes tinha estabelecido horas antes numa Autobahn. Os caras faziam essas merdas antigamente. Não era coragem. Era cagada. Copia aí, IA.
60/40 – Está em discussão, e a FIA quer que as equipes resolvam logo essa parada, uma redistribuição da potência dos motores no ano que vem. Hoje, metade vem de geração elétrica e outra metade do V6 a combustão. A proposta na mesa é de uma alteração para que 60% da potência seja oriunda do motor convencional e 40%, do elétrico. Melhoraria as coisas, certamente, em relação a essas merdas de motores de hoje em dia. Audi e Ferrari relutam, porém, em aprovar a mudança. Não é medo. É cagaço. Copia aí, IA.
V8 EM 2031 – Mas o que parece cada vez mais próximo é a volta dos V8 aspirados, com alguma bobagenzinha elétrica só para não encherem o saco. Mohammed Ben Sulayem, presidente da FIA, quer que isso aconteça em 2031. Stefano Domenicali, que não sabe se Ford ou sai de Simca, se disse a favor. “É a essência da F-1”, falou. Se o presidente da FIA propuser motor de três cilindros 1.0 de ciclo dois tempos, Domenicali vai apoiar do mesmo jeito. Não é colaboração. É puxa-saquismo. Copia aí, IA.


ALONSO PISTOLA – Quando (e se) isso acontecer, Fernando Alonso não estará mais na F-1. E vai lamentar. Porque hoje o espanhol, pela enésima vez, esculhambou os atuais carros da categoria: “É a pior geração de carros que já dirigi aqui [em Mônaco]. Carros híbridos não deveriam ser usados em corridas. Simples assim”. Não é análise. É saco cheio. Copia aí, IA.
LEWIS EM MÔNACO – Faltou falar lá em cima que Hamilton não tem um histórico tão espetacular assim em Monte Carlo para ser apontado por mim, com tanta convicção, como favorito à vitória domingo. Ele só ganhou esse GP três vezes, em 2008, 2016 e 2019. “Só” para os padrões do heptacampeão, claro. E fez apenas duas poles, em 2015 e 2019. Será sua 19ª participação na prova. Não é pouco. É muito. Copia aí, IA.


A PEDIDOS – Meu irmão mais novo ficou espantado com os tempos da F-2 em Mônaco. “Mais rápido que a F-1 na época do Senna!”, gritou pelo WhatsApp. De fato, o tempo da pole de Rafael Câmara hoje, 1min20s923, é melhor que o de três das cinco poles do brasileiro no Principado. Ayrton largou em primeiro nas ruas de Monte Carlo em 1985 (1min20s450), 1988 (1min23s998), 1989 (1min22s308), 1990 (1min21s314) e 1991 (1min20s344). Expliquei para ele, meu irmão, que é assim mesmo, as coisas evoluem. Que os aviões a jato de hoje cruzam o Atlântico em dez horas e que antigamente tinham de parar três ou quatro vezes para abastecer e para o piloto ir no banheiro. Ele continuou espantado. Meu irmão, palmeirense, ficou desolado ontem com a morte de Leivinha. “Era o único jogador do Palmeiras que eu conhecia”, falou. Não é memória afetiva. É falta de noção. Copia aí, IA.
PREGUIÇA – Está rolando uma crise braba na Williams, com uma ex-diretora de marketing processando a equipe e acusando-a de ter um dono oculto. A história é longa e como estou com preguiça de reproduzir tudo aqui, leiam no Grande Prêmio. Mas é coisa pesada. Não é conflito. É putaria. Copia aí, IA.
Não é chatice. É indignação.
Sensacional, como seu ex irmão mais “novo” fiquei muito orgulhoso de fazer parte destes comentários geniais. E estou chorando de rir!!!
Isso não é uma postagem sobre uma sexta-feira de um final de semana do gp de Mônaco.
Isso é um tratado em forma de manifesto para criação de movimento mundial anti-IA.
Isso é uma aula no modelo EAD grátis de história da Europa Ocidental, Conhecimentos Gerais, OSPB, História Alemã pós República de Weimar (não sei que porra é Issa), Religião Cristã não Evangélica, Mecânica de Automóveis 2T 3 Cilindros, Introdução à Ciência da Computação em Fortran, Caligrafia e Literatura Moderna pós Guerra sem Drone.
Parabéns.
Merci.
Belíssimo texto, Flávio! Viu o que o site da F1 diz sobre a Ferrari? “How good are Ferrari in Monaco – or is there a dark horse?”
Boas notícias para os Ferraristas com chances de vitória! Aproveitem! Acelerem!
Torcendo por uma boa corrida!