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domingo, 14 de agosto de 2011 - 13:04Gira mondo

MURO, 50

SÃO PAULO (feliz Dia dos Pais etc) – Mesmo depois da criação da Alemanha Oriental, em 1949, Berlim era uma cidade aberta, com livre circulação entre os moradores de seus dois lados — a capital da DDR e a porção ocidental, ainda com forte presença militar aliada. Mas a Alemanha Oriental vivia em crise e muita gente fugia do país por Berlim Ocidental atrás de emprego, parentes, namorados, namoradas, consumo, uma nova vida. E como o êxodo era grande e o país precisava de mão-de-obra, no dia 13 de agosto de 1961, 50 anos ontem, o governo da DDR resolveu fechar suas fronteiras. Naquele domingo, as duas mil fugas diárias cessaram com o isolamento de Berlim Ocidental por uma cerca de arame farpado, a origem do Muro de Berlim.

28 anos depois, como se sabe, ele caiu. E suas ruínas foram vendidas por ambulantes aos milhões de pedaços, os pedaços que dividiram o mundo em dois durante quase três décadas. Um deles eu comprei quando fui a Berlim pela primeira vez, acho que em 1997, e o vendedor garantiu que era autêntico. Já contei aqui, o cara era um dos muitos camelôs da Guerra Fria que se instalaram na região de Checkpoint Charlie no fim do século passado, e para comprovar sua originalidade, o rapaz mostrava fotos dele mesmo com uma picareta na mão arrebentando o Muro e juntando pedaços que depois se espalhariam pelo mundo. Ele vendia também comendas do Exército Vermelho, uniformes militares soviéticos e instrumentos de Mig.

Sempre que fui a Berlim, e foram várias vezes, naqueles anos de reconstrução comprei alguma bobagem nas ruas. Tenho um relógio de parede que o vendedor jurou ter pertencido a um submarino nuclear. Ele ainda existe, mas caiu misteriosamente da parede duas vezes, e até a máquina teve de ser trocada. Não contei aos relojoeiros que o reconstruíram que os níveis de radiação estão acima do tolerável. Certas coisas é melhor nem saber.

Mas o Muro foi abaixo e Berlim hoje é uma cidade bem diferente daquela de agosto de 1961, é a cidade mais legal do planeta, onde vou morar um dia. Os camelôs não são tantos, mas ainda dá para comprar um pedaço do passado pelas ruas. Aquele passado em que era mais fácil compreender o mundo, que tinha dois lados e olhe lá.

10 comentários

  1. Tiago Mio disse:

    Esses negocio de vender coisas do Exército Vermelho, vi naquele programa da Tv “trato feito”.

  2. RODRIGO MARTINS disse:

    muito bom texto,mas aquele livro do chico buarque lá atras…aff

  3. José Brabham disse:

    Já postei isso aqui, mas não canso de repetir. Tive a imensa sorte de participar um pouco deste momento histórico mundial ao ir a Berlim em Fevereiro de 1990, e, com minhas próprias mãos, alugar um martelo e um formão a 1 DM e tirar minhas próprias pedras do Muro, ali, uns 25 metros à direita de CheckPoint Charlie.

    Hoje elas estão esquecidas em algum lugar lá de casa, mas ao ver sua foto acima resolvi fazer algum tipo de apoio e também colocar expostas em minha estante.

  4. Irinaldo Barros disse:

    Grande FG, com seus textos maravilhosos! Estudar a história é tarefa de todos nós, para podermos compreender o que REALMENTE estamos passando! Vcoê é dessas pessoas que contribui (é muito) para que a história seja realmente contada de forma clara, sem ranhuras do capitalismo. E assim, adorei também o livro que vc tem do Chico Buarque e o Clássico 1968 – leitura obrigatória nos dias atuais…
    Abcs e por favor, escreva sobre essas verdades mais vezes.

  5. Anarquista disse:

    O controle de saída de pessoas ainda persiste em alguns países: para sair, é necessário um “visto de saída”. Como na DDR, durante os 28 anos do muro. Mas o muro caiu porque a turma do lado oriental já estava de saco cheio de ter até a hora de ir ao banheiro controlada pela STASI. Além, claro, da gozação de Udo Lindenberg (cantor de rock) sobre Honecker e sua turma :)
    Fui várias vezes a Berlim oriental, mas a primeira sempre é inesquecível (85): as “Transitstrassen” (estradas exclusivas para o trânsito entre a Alemanha ocidental e Berlim ocidental), estação Friedrichstrasse, baldeação para o metrô oriental, o passe de um dia, válido somente para Berlin-Ost, as perguntas bestas de sempre. Nas livrarias, bons livros, nas padarias, só pães (e só em determinadas horas), nas confeitarias, só café (doces, deviam ser encomendados com antecedência), nos açougues, só moscas. Nos bares, bem, estes eram bem abastecidos. E “milicos” a dar com o pau, sempre vigilantes. Mas alguns também dispostos a um bate-papo, dependendo do local e da ocasião. No retorno, a impossibilidade de trocar os marcos orientais por ocidentais (“devem ser depositados para uso em sua próxima visita”, mas ainda tenho alguns).
    Bons tempos…

  6. J. Alves disse:

    Pois é, quando estive um fim de semana em Berlin, em 1991, alguns meses depois da reunificação, tinha um monte desses pedaços de muro pra vender — na época já não botava muita fé que fossem legítimos, mas quem sabe… Não comprei um, mas comprei um chapéu daqueles típicos soviéticos, que supostamente seria para um aviador da Luftwaffe. Tem uma insígnia, e tudo. O camelô falou que era de verdade, vai saber. Tanto faz. Ainda uso nos invernos aqui na Virgínia. Naqueles dias a integração em Berlin ainda não existia, e se locomover por lá de metrô, por exemplo, era uma zona. O trem parava onde as cidades se encontravam, voltava, a gente tinha de descer e tentar achar como ir pro outro lado… Ainda vimos alguns pedaços do muro que estavam sendo poupados para a história, devem estar lá, ainda, se o plano funcionou.

  7. Fernando disse:

    Realmente Berlin é a cidade mais legal que já visitei. E já visitei todas as capitais dos países top 10 (exceto Brasília, por ironia do destino). Eu também coloco Berlin como a cidade que eu gostaria de morar, um dia.

  8. Luiz disse:

    O Brasil tambem precisa de mão de obra, então vamos fechar as fronteiras ? Que solução estranha para segurar trabalhadores! Era tanta democracia por lá que os caras até tentavam escapar !!!

  9. Sérgio Luiz disse:

    Ola Flavio.

    Feliz Dia dos Pais para você. Curta essa felicidade junto com seus filhos. O exemplo de dignidade que você passa aos seus gominhos (como você os chama carinhosamente) é o melhor exemplo de pai. A herança para nossos filhos é o exemplo demonstrado no dia a dia e isto você demonstra sempre. Continue sempre assim para nós podermos sempre curtir a vida, apesar de muitos sempre querer o contrário. Parabéns para todos os pais maravilhosos que só querem o bem para seus filhos.
    Sérgio Luiz Donadel.
    Barra do Garças – MT

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