LUIZ VICENTE

SÃO PAULO – Estou com um e-mail dele na caixa postal para responder. Acaba assim: Qualquer dificuldade avise que nóis resorve tudo.

Mandou terça-feira passada, faz parte do nosso trabalho de fim de ano de todos os anos, e neste ano estou cumprindo os prazos, e ele falou que eu iria ganhar o prêmio de funcionário do mês, porque está tudo meio encavalado e minha parte nesse trabalho é volumosa, quanto mais eu adiantar as coisas, melhor, e neste ano consegui adiantar as coisas.

Pois bem. O Luiz Vicente morreu. Caiu da bicicleta, bateu a cabeça na guia, acabou.

A gente corria de kart. Eu parei há alguns anos, mas a turma do kart continuou,  a dos jornalistas metidos a pilotos. O Luiz Vicente, no começo, costumava parar na metade da corrida porque ficava enjoado. Um dia falamos para ele parar de comer antes de correr e ele parou de ficar enjoado. Fez algumas poles e ganhou algumas corridas. Guiava bem, o desgraçado.

Ontem caiu da bicicleta, bateu a cabeça na guia, acabou. A mulher viu tudo, estava de carro acompanhando o Luiz Vicente, voltavam ou iam para o parque, não sei direito, morreu nos seus braços.

Há um enorme sadismo em quem determina o destino de cada um neste planeta. Para alguém como eu que não acredita em nada, é nessas horas que deveria ter raiva de algo em que não acredito, mas nem isso consigo sentir. Não consigo ter raiva de quem não acredito que exista.

Não sei para quem devo responder o e-mail da semana passada.

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Berly
Berly
8 anos atrás

<3