PEGOU MAO

audreymaoSÃO PAULO(calma, o dia nem começou direito) – Para uma corrida tão enfadonha, até que a história da bandeira quadriculada na hora errada acabou tendo algum significado. As 56 voltas originais, cumpridas até o fim, transformaram-se em 54 pelo regulamento. Isso porque o xinguelingue escolhido para encerrar a corrida o fez na volta 55. Catou a bandeira sem ninguém ver e acabou com aquela chatice. Hamilton foi um dos únicos que viram essa bandeira fora de hora. Seguiu em frente, porque não tinha ninguém para comemorar com ele no pitwall. Mas, para todos os efeitos, a corrida acabou. E quando acaba antes da hora, valem as posições da volta anterior.

Mudou algo? Quase nada. Acho que Kobayashi perdeu uma posição lá no fundão. E só.

Mas essas coisas têm consequências, que podem ser sérias quando acontecem em lugares como a China. Imediatamente nosso espião De Doduling foi acionado pelo Partido para encontrar o responsável. Ocorre que De Doduling é parceiro de truco do cara da bandeira, e fez um enorme esforço para limpar a barra do amigo, que dá sinal de zap como ninguém.

Saiu com seu gravador de rolo escondido na cueca para registrar entrevistas aqui e ali e, valendo-se de seu incrível talento de editor, montou mais uma farsa para enganar seus superiores. Primeiro, separou apenas um trecho de duas palavras de uma resposta de Bernie Ecclestone sobre o episódio, que à imprensa inglesa disse que “precisamos selecionar melhor esses caras que dão a bandeirada, a China não está preparada para isso, do jeito que foi, pegou mal”. Depois, já com o relatório fajuto em mente, percebeu que alguns jornalistas faziam comentários animados sobre a bela namorada de Fernando Alonso, e um deles falou: “Sabe a Audrey Hepburn? Pois é, essa menina do Alonso é a cara dela”. Destacou a primeira parte da pergunta e jogou o resto fora.

E assim foi o relatório:

Nosso camarada responsável pela bandeira quadriculada, ao perceber que o povo chinês estava enfadado com o evento automobilístico, decidiu encerrá-lo antes do tempo, valendo-se do que lhe permite o Regulamento Geral de Competições Esportivas em seu artigo 12, parágrafo 35, alínea “g”, que diz: “Qualquer competição esportiva pode ser encerrada no momento em que o Representante do Povo perceber que a população está entediada e sonolenta, o que pode influir em seu rendimento no trabalho no dia seguinte, ou então quando nossas equipes estiverem em desvantagem, ou ainda quando resolverem fazer antidoping sem nos avisar”. E assim o fez, para alívio geral dos que estavam no autódromo e de bilhões de pessoas em outros países, contribuindo para melhorar a imagem de nossa nação. Ninguém se importou com isso no circuito, muito pelo contrário, tanto que anexei a este relatório a fita 018t, que aos 7min09s registra entusiasmado diálogo de importantes figuras da Fórmula 1 ao final da corrida, elogiando a masculinidade de nosso Grande Líder, cuja transcrição segue:

PERGUNTA – Sabe a Audrey Hepburn? (jornalista inglês)
RESPOSTA – Pegou Mao (Ecclestone, Bernie, proprietário do campeonato)

Assim, com mais esta demonstração de apreço e admiração de todos que vieram a Xangai para o evento automobilístico por nosso Grande Líder, encerro o trabalho do fim de semana concluindo que todos se divertiram muito e levarão da China a melhor das impressões. Aguardo minha próxima missão.

Camarada Espião Secreto De Doduling

Fez bem o rapaz da bandeira. O GP da China pode ser resumido em pouquíssimas palavras. Hamilton largou na pole, disparou na frente e venceu. Pela terceira vez no ano, 25ª na carreira, igualando Clark e Lauda nas estatísticas. Rosberguinho, que poderia ameaçá-lo, ficou fora da briga já na largada. De quarto, caiu para sétimo. Aí, teve de remar a corrida toda, e sem telemetria, para, aos poucos, recuperar o que perdera no início, até chegar em segundo, a 18s do companheiro. Mais uma dobradinha da Mercedes, sem sustos. Neste ano, só vai ter disputa quando os dois estiverem perto na primeira volta, como aconteceu no Bahrein. Caso contrário, quem pular na frente leva.

A largada teve, de curioso, um bate-roda de Alonso com Massa, que de novo partiu muito bem. Ninguém teve culpa, foi daquelas coisas de corrida. Bottas e Rosberg também se esbarraram. Mas foi só. Na 11ª volta, Felipe foi para os boxes para seu primeiro pit stop e sua corrida acabou ali. Os mecânicos da Williams pegaram pneus diagonais de Fusca por engano, e até perceberem que estava tudo errado foi-se um minuto. O brasileiro caiu para último e não teve como reagir.

A primeira janela de pit stops foi boa para Alonso, que ganhou o segundo lugar de Vettel. Rosberguinho, por sua vez, ganhou a quarta posição de Ricciardo. Nico passou Vettel na volta 22 e assumiu o terceiro lugar. Ricardão também se aproximou de Tião Alemão, que fez charminho, mas no fim não teve como segurar o companheiro sorridente, que tinha pneus mais novos e, é bom que Vettel reconheça, está guiando pacas.

Na metade da corrida, Lewis desfilava sozinho e Alonso, em segundo, via Rosberg se aproximar. Demorou um pouco para o alemão passar o espanhol. Isso só aconteceu depois da segunda janela de paradas, na altura da 30ª volta. Rosberg voltou ainda atrás da Ferrari e finalmente, na volta 42, passou por Fernandinho como se ele estivesse parado. Deu até pena. Ricciardo esboçou um ataque a Alonso, mas estava longe. E tudo se acomodou, apesar de outro xinguelingue se divertir a corrida toda dando bandeira azul para todos os pilotos que passavam pelo seu posto de controle. Ninguém deu bola para ele.

Fim de prova, os dez que pontuaram: Comandante Amilton, Rosberguinho, El Fodón de la Tercera Posición, Ricardão, Tião Alemão, Hulk, Sapattos, Tagarela Kimi (está mortinho, coitado), Maria do Bairro e Ki-Viado. Pérez, o nono, foi um dos destaques da prova.

Rosberg saiu de Xangai ainda na liderança do campeonato, com 79 pontos. Hamilton ainda paga pelo abandono de Melbourne. Apesar das três vitórias seguidas, está em segundo, quatro pontos atrás. Alonso é agora o terceiro com 41 e Hülkenberg tem 36. Vettel é apenas o quinto com 33.

hamiltontacachina

Na Europa, pode ser que as coisas mudem um pouco. Mas não se animem demais. Ninguém faz mágica em três semanas, e mesmo acreditando que Ferrari e Red Bull podem melhorar, é claro que a Mercedes não vai ficar parada. Em algum momento desta temporada vai rolar uma tensão entre Hamilton e Rosberg, bons e velhos amigos desde os tempos de kart. O resto vai correr por migalhas. Já há quem aposte num Mundial como o de 1988, aquele que a McLaren dominou de cabo a rabo e só perdeu uma das 16 etapas por causa de uma bobeada de Senna em Monza. Ou o de 2004, que a Ferrari papou com 15 vitórias em 18 corridas. Ou ainda o de 2002, 15 vitórias em 17 etapas da Ferrari, de novo.

A diferença destes dois anos ferraristas, no entanto, estava nos pilotos. Schumacher, bem superior a Barrichello, não enfrentou resistência alguma. A McLaren de 1988 tinha dois pilotos do mesmo nível, Senna e Prost. A Mercedes de 2014 tem um que acho melhor que o outro, Hamilton. Mas não tanto assim. Rosberg, se usar a cabeça, pode brigar. Tanto que segue na frente na classificação, depois de quatro corridas.

A próxima é em Barcelona. Finalmente umas corridinhas em horários civilizados.

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