N’ÁUSTRIA (3)

RIO(outra liga) – Os funcionários da Ferrari terão trabalho amanhã. Durante a noite e madrugada, tô sabendo, a Razza Rossa e a Cavalli Arrabbiati Indipendenti vão pichar os muros da fábrica — apesar das diferenças históricas entre as facções, elas decidiram se unir neste momento de crise e compraram as latas de spray vermelho na mesma loja. Quem me contou foi Gola Profonda, informante que há anos me abastece com notícias do submundo ferrarista e reapareceu nesta temporada. “Testei negativo e me contrataram de novo”, explicou. “Pro coronavírus?”, perguntei. “Não, no psicotécnico.” E o que vão pedir essas torcidas?, perguntei a Gola por WhatsApp, que supus ser nossa nova e instantânea forma de comunicação. Ele leu e não respondeu, surgiram os risquinhos azuis. Insisti. Eu sei que você tá lendo, responde, cazzo!, digitei, já me preparando para gravar um áudio. SMS, ele respondeu apenas. É mais seguro.

Foi aí que ele me contou das organizadas ferraristas se preparando para emporcalhar as paredes de Maranello hoje. “Torna Arrivabene!” seria uma das reivindicações. “Binotto è il mio culo!”, parece que é outra frase já definida, um tanto agressiva. “Ô, ô, ô, vogliamo diretô!”, acrescentou Gola, e desconfiei da confusão idiomática. Mas e os pilotos?, perguntei. Eles serão poupados? “Nada”, respondeu Gola. “Tem duas faixas prontas que vão estender na praça da igreja amanhã na hora da missa e já estão prontas desde ontem. ‘La nostra scuderia non è un asilo!’ e ‘Non abbiamo bisogno di un pilota per PlaySation!’ é o que escreveram. Acham que o Vettel tá velho e que o Leclerc é infantiloide e juvenil, além de péssimo no videogame.”

Questionei então sobre o clima nos boxes depois da classificação de hoje na Áustria e ele me disse que Vettel chegou com um sorriso sarcástico no rosto, sem máscara. “Ainda bem que o campeonato é mais curto, vou sofrer menos. Pra guiar uma carroça dessas, que chamem o Alonso, ele que gosta de motor ruim”, teria dito. Mas você ouviu ele dizer isso?, perguntei, preocupado com as fontes de meu informante. “Ouvi, e também vi o Leclerc ligar para a mãe dele chorando pedindo para reclamar com o rei Alberto”, escreveu. Príncipe Albert, corrigi. “Esse mesmo.” E o que mais disse Tião?, perguntei. “Que o carro está bom nas curvas de baixa, tipo a da entrada dos boxes kkk”, debochou Gola. Por fim, pedi a ele informações sobre o novo pacote aerodinâmico para a Hungria, já que essas duas primeiras corridas já foram para o saco. “Tá pronto”, respondeu, e me mandou a foto abaixo. “Ainda está sem os adesivos dos patrocinadores, mas vai ser isso aí.”

Depois Gola não falou mais nada.

A Ferrari trapaceou no ano passado, só pode ser isso. Quando Leclerc e Vettel empilharam seis poles seguidas entre os GPs da Bélgica e do México, as outras equipes desconfiaram que havia alguma coisa errada nos motores dos carros vermelhos. A FIA fez uma investigação das mais estranhas após a temporada, cujo resultado nunca foi divulgado. “Conversamos com eles e está tudo bem”, disseram os dirigentes. E aí as poles secaram, o campeonato acabou e ninguém mais tocou no assunto.

A realidade da Ferrari em 2020 pode ser entendida com alguns dados produzidos nesta primeira corrida do ano. Primeiro, das velocidades máximas obtidas hoje na classificação. Observem no quadro abaixo as posições de Vettel e Leclerc nos pontos do circuito em que elas são aferidas. O desastre só não é integral graças à Intermediária 2 — trecho mais lento da pista. Nos demais pontos, Leclerc é o último colocado em todos. A diferença para Hamilton no Speed Trap é de 10,1 km/h. Na Intermediária 1, o monegasco foi 11,3 km/h mais lento que Giovinazzi, que também usa motor Ferrari, mas tem muito menos asa para compensar a porcaria de carro da Alfa Romeo.

Agora, o que assusta mesmo é este breve quadro de evolução dos tempos de cada equipe no Red Bull Ring em relação ao ano passado, considerando as melhores voltas de cada time. Vejam:

  • Racing Point: -0s921
  • Williams: -0s737
  • Renault: -0s493
  • McLaren: -0s473
  • AlphaTauri: -0s360
  • Mercedes: -0s323
  • Red Bull: +0s038
  • Haas: +0s619
  • Ferrari: +0s920
  • Alfa Romeo: +1s119

Apenas Red Bull, Haas, Ferrari e Alfa Romeo pioraram em relação a 2019. E as três últimas usam motores da… Ferrari. Foram as que mais perderam poder de fogo, e essa queda de rendimento foi gigantesca. A Ferrari foi quase 1s pior do que em 2019. Como explicar?

Nesse cenário, o resultado de hoje na classificação para a prova de abertura do Mundial não poderia ser muito diferente: Leclerc em sétimo a 0s984 da pole, Vettel em 11º empacando no Q2. No Q1, dançaram três dos seis pilotos que usam os motores italianos: Magnussen ficou em 16º, Giovinazzi foi o 18º e Raikkonen, o 19º. Junto com eles foram degolados o fraquíssimo Nicholas Latifi, último do grid com a Williams, e o excelente George Russell, 17º com o outro carro da equipe inglesa — mas 0s590 mais rápido que seu novo e milionário companheiro de equipe.

No Q2, Vettel ficou na zona de risco o tempo todo e acabou sendo eliminado no final, quando Albon acertou uma volta boa e jogou o alemão para o limbo — quase 1s2 pior que o melhor nessa fase da classificação, Valtteri Bottas. Leclerc bateu na trave e passou ao Q3 em décimo. Gasly, Kvyat, Ocon e Grosejan fizeram companhia a Vettel no grupo dos eliminados. E o grid ficou assim:

Lá no alto, na abertura deste texto, antes do relato exclusivo fruto do reaparecimento de Gola Profonda, vocês viram a foto do cara que acabou sendo a surpresa do dia. Bottas, que tem o hábito de começar bem os campeonatos e terminar apagadinho quando Hamilton pega no breu, fez a primeira pole do ano, 12ª na carreira e terceira no circuito austríaco, onde costuma andar bem. Foi surpresa porque até então, em todos os treinos livres, Lewis vinha dominando a folha de tempos sem muito esforço.

O finlandês acabou sendo rápido quando precisava e bateu o recorde da pista com 1min02s939 na sua primeira tentativa no Q3. Na segunda, foi parar na grama ao abusar um pouco. Mas Hamilton não conseguiu bater o tempo do parceiro e ficou um pelinho atrás, 0s012 menos rápido. “Acho que estamos numa liga diferente”, disse Bottas com sinceridade. Verdade. Verstappinho, o terceiro colocado no grid, ficou 0s538 atrás — o circuito, lembro sempre, é muito curto e meio segundo é uma luneta sem tamanho.

Max, entre os dez primeiros, é o único que vai largar com pneus médios — fez seu melhor tempo no Q2 com esses compostos. “Não tenho nada a perder. Eles estão num nível diferente”, falou, sobre a Mercedes. Orlandinho Norris ficou em quarto com a McLaren, 0s687 mais lento que Bottas, e conseguiu o melhor grid de sua carreira. A briga da equipe papaia com a Pink Mercedes, também conhecida como Racing Point, será interessante neste ano. Pérez larga em sexto com o carro rosa, tendo feito o mesmo tempo que Albon, quinto colocado. Ambos ficaram a infinitos 0s929 da pole — pelo regulamento, quando os tempos são iguais, larga na frente quem fez a volta primeiro. Leclerc, Sainz, Stroll e Ricciardo fecharam o top-10.

Ao final da classificação ficamos conhecendo o protocolo das entrevistas dos três primeiros nestes tempos de pandemia. Cada piloto saiu do carro e encontrou uma mesinha com água, toalha, boné, máscara e álcool em gel. Paul di Resta, o entrevistador, ficou a distância e um microfone foi colocado num pedestal para que os entrevistados pudessem responder rapidamente às suas perguntas sem encostar em nada nem chegar perto de ninguém.

Chamou a atenção, nas entrelinhas, o recadinho que Hamilton deu à Ferrari. Ao rasgar elogios à sua equipe, disse que a Mercedes é a melhor porque além de fazer um grande carro tem pessoas muito boas trabalhando em todos os níveis, gente dedicada e competente “que não fica fazendo política”. E concluiu: “Quando estamos errados, admitimos”.

Um dia, quem sabe, FIA e Ferrari vão contar o quê, afinal, havia nos seus motores no ano passado.

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