N’ESTÍRIA (1)

RIO (gosto do nome) – E vamos lá. Esquisito ver duas corridas seguidas na mesma pista, acho que os pilotos devem ficar meio entediados, mas é o que temos.

Hoje foi dia de Verstappen, que fez a pole provisória para o GP da Estíria. Pole provisória é legal. Antigamente, quando as sextas-feiras tinham o que a gente chamava de “primeiro treino oficial”, o mais rápido tinha a pole provisória. Se ninguém melhorasse no sábado — o que acontecia às vezes –, o sujeito garantia o primeiro lugar no grid.

O primeiro tempo de Verstappinho hoje ganhou tal status porque a previsão de tempo para amanhã na região do Red Bull Ring é sombria. São esperadas tempestades bíblicas, o que pode cancelar todas as atividades de pista, levando os pilotos ao confinamento dentro de seus motorhomes.

(Respeitarei muito se nessa fase de dormir em motorhome aparecer alguém com uma Kombi Safári. Antes que vocês estranhem o acento em “safári”, informo que adoto a grafia do Houaiss. É um dos meus últimos sonhos de consumo automotivos.)

Se de fato o aguaceiro impedir os trabalhos, há duas alternativas: fazer a classificação no domingo de manhã, ou considerar os tempos do segundo treino livre para a formação do grid. Nesse caso, quem largaria ao lado de Max seria Bottas, líder do campeonato. Verstappinho virou 1min03s660. Sapattos ficou 0s043 atrás. A Mercedes Rosa de Pérez foi a terceira colocada a 0s217 de Max, e o outro carro da Force Racing Aston India Martin Point terminou em quarto 0s581 atrás. A terceira fila provisória teria Sainz Jr. em quinto e um discretíssimo Hamilton em sexto, 0s688 mais lento que o ponteiro do dia.

E a Ferrari?

Leclerc fez um estupendo nono tempo, 1s046 atrás de Verstappen, e Vettel brilhou com a 16ª posição, coladinho numa Williams — a de Russell — e à frente de outra — a de Latifi. Deixou para trás os dois carros da vibrante Haas e Ricardão, que bateu e nem registrou tempo.

Toca o telefone. Ligação a cobrar. “Nehmen Sie den Anruf an?”, pergunta a telefonista. Como arranho o alemão, respondo imediatamente: “Ja, dank!”, sabendo quem era. De onde você está telefonando, meu filho?, pergunto ao meu esbaforido informante Gola Profonda, que voltou a trabalhar na Ferrari — ele não diz exatamente o que faz; quando perguntei, respondeu genericamente que dá “uma assessoria nuns assuntos aí, digamos que cuido do fluxo”.

Tem um orelhão nos fundos do paddock, explica. Rapaz, digo, o que acontece com esse carro? Olha o Vettel, quase dois segundos atrás! Como é que está o clima na equipe, devem estar todos enlouquecidos!, comento.

E Gola, então, desandou a falar. Fui anotando rapidamente no meu bloquinho, e procurei manter a terminologia usada, às vezes um tanto chula.

“Charles não está satisfeito. Assim que acabou o treino Mattia trouxe seu Nescau morno, mas ele deu um tapa na mão do banana do chefe e gritou: ‘Já falei que prefiro Toddy! Odeio Nescau, é muito doce!’. Foi uma correria para achar Toddy, só encontraram na McLaren, na mochila daquele menino, Orlando.” Lando, interrompi. “Esse mesmo. Um cara lá entregou pro nosso funcionário e disse que tudo bem, depois vocês pagam. Quando acabou o treino, vieram uns caras com sotaque americano ameaçando todo mundo. ‘Vocês estão fucking a porra toda! Se amanhã a gente não tiver um motor decente vamos fucking quebrar tudo aqui!’ Um deles tinha um H tatuado no antebraço. Vieram sem máscaras, espalhando perdigotos. Saí de perto. Mas deu tempo de ver o Kimi entrando logo atrás dele. Fez um longo discurso.” Estranhei. Longo discurso? “Sim”, continuou Gola. “Disse ‘puta bosta isso aqui’ e foi embora. Já o Seb estava feliz. ‘Chupa Latifi!’, gritou, cerrando os punhos e socando o ar. Aí pediu para colocar freio a tambor na frente e usar fluido de freio Varga, que segundo ele é a única coisa a fazer agora.”

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