O GATO NÃO MIA

RIO – Trabalhei quatro anos na Rádio Bandeirantes cobrindo F-1 ao lado do Fábio Seixas. Fizemos milhares de boletins pro Pulo do Gato, ajudando a acordar São Paulo com notícias das corridas pelo mundo. Mas antes, muito antes, em 1986, foi o Zé Paulo quem me colocou no ar para fazer boletins de uma Reunião Anual da SBPC em Curitiba. Eu tinha 21 anos e, caramba!, entrava todos os dias no Pulo do Gato para falar de ciência! Ao fim desse período, uma semana, dez dias, ele me mandou uma fita com todos os boletins gravados, com capinha impressa da Bandeirantes. Tenho até hoje. Que honra, que orgulho eu tinha daquilo… Zé trabalhou por quase 60 anos na mesma empresa. Gerações e gerações acordaram do seu sono justo todos os dias ouvindo sua voz potente e solene. E o gato miando. Um jornalista conservador, sim. Mas um exemplo de integridade e compromisso pétreo com o ouvinte e com o jornalismo honesto e correto. Nos anos 70, foi ele quem deu voz a Lula durante as greves do ABC. Nunca feriu seus princípios e valores. Foi-se hoje o Zé Paulo, aos 78 anos, vítima da Covid-19. O tamanho da perda não dá para medir. Ninguém mais será capaz de nos convencer a não virar para o lado nas manhãs frias de São Paulo, porque era você quem nos mostrava todos os dias que não havia motivo algum para ter medo de levantar e ir à luta. Vai em paz, Zé.

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