NATURAL DA CATALUNHA (2)

Hamilton, 100 poles: o maior de todos os tempos

SÃO PAULO (privilégio) – Um dos critérios que considero aceitáveis para montar meu olimpo particular na F-1 é o tempo em que um piloto se mantém competitivo. Lewis Hamilton estreou em 2007. Fez sua primeira pole no GP do Canadá daquele ano, no dia 9 de junho. Hoje, 5.082 dias depois, marcou a centésima — agora, em Barcelona. Desde a primeira temporada, ganhou corridas em todos os campeonatos que disputou. São 15 seguidos. Schumacher fez algo parecido a partir do primeiro ano completo na Benetton, 1992, até se aposentar pela primeira vez na Ferrari em 2006 — os três anos de Mercedes, a partir da volta em 2010, não contam muito.

Hamilton é o melhor piloto de todos os tempos, e creio que somos privilegiados porque podemos acompanhar sua carreira nestes tempos em que tudo se vê e se registra. Aos 36 anos de idade, não dá sinais de decadência mesmo enfrentando uma legião de garotos muito talentosos, como Max Verstappen, Charlos Leclerc e Lando Norris — que mais dia, menos dia, vão receber o cetro do inglês.

Tudo que um fã da F-1 deve dizer hoje, dia em que a estupenda marca de 100 poles foi atingida por esse rapaz, é “obrigado” e “parabéns”. E eu podia encerrar o textão aqui que estava de bom tamanho. Mas tem bastante coisa para dizer, ainda. Porque essa trajetória, como temos notado neste Mundial, está longe de se encerrar. Amanhã tem corrida. Lewis já venceu 97 GPs e busca outro marco histórico, o de 100 vitórias. Isso num Mundial que a Mercedes começou sob certa desconfiança, mas que ele já tratou de dissipar.

O cara, com o perdão da palavra, é foda.

A Fórmula 1 reverencia o maior de todos: marca inimaginável até alguns anos atrás

A centésima pole veio numa pista onde é muito importante largar na frente. Até hoje, 30 GPs foram disputados em Barcelona, desde 1991. Em 22 deles o vencedor largou da primeira posição do grid. Uma taxa de 73,3%. O circuito catalão não é dos melhores para fazer ultrapassagens, embora seja rápido e não possa ser incluído entre os traçados que costumamos chamar de travados, como Mônaco, Budapeste e Abu Dhabi. É que a aproximação do piloto que está na frente é complicada, por questões aerodinâmicas, e o miolo é muito sinuoso, sem freadas muito fortes.

Isso faz de Hamilton favorito à vitória amanhã, ainda que Verstappen, segundo no grid, tenha chances reais por conta do bom desempenho da Red Bull até aqui. O holandês ficou a apenas 0s036 do rival no cronômetro. Lewis cravou 1min16s741 na sua melhor volta no Q3, marcado pela dificuldade de todos os pilotos em melhorarem suas marcas nas segundas tentativas de voltas rápidas na fase decisiva da classificação. Bottas foi o terceiro, 0s132 atrás. O quarto colocado, Leclerc, tomou 0s769 do pole-position.

Leclerc e Pérez, aliás, foram os únicos que melhoraram seus tempos com o segundo jogo de pneus no Q3. Charlinho andou mais rápido, mesmo. O mexicano tinha rodado na primeira tentativa e no fim conseguiu um discreto oitavo lugar a quase 1s do companheiro de equipe. Alegou que estava com fortes dores no ombro esquerdo. Foi sua pior classificação neste início de vida na Red Bull.

Pode-se esperar uma corrida interessante de Checo, que é ótimo gestor de borracha e tem um bom carro nas mãos. Isso se o ombro deixar. Mas ele terá de remar bastante se quiser lutar por um pódio a essa altura improvável, porque à frente estão carros da Ferrari, da Alpine e da McLaren. Essas três equipes formam hoje um segundo escalão divertido, em parte graças à ascensão do time francês — Ocon conseguiu um ótimo quinto lugar no grid, deixando Alonso bem para trás, em décimo.

Pérez se atrapalha no Q3: dores no ombro, oitavo no grid

As cinco equipes mais fortes levaram suas duplas para o Q3 num sábado ensolarado e quente na Catalunha. O Q1 começou com Norris se destacando com a primeira posição, Russell passando pela quarta vez seguida ao Q2 e a eliminação de Tsunoda, Raikkonen, Schumaquinho, Latifi e Mazepin. A decepção foi o japonês, que precisa se acalmar um pouquinho para buscar uma temporada de estreia mais consistente, brigando por pontos com a AlphaTauri como fez na primeira corrida do ano.

O equilíbrio na primeira parte da classificação ficou claro com a diferença de apenas 1s entre o primeiro e o 17º colocados. E 0s5 entre o segundo e o 16º. Detalhes fizeram a diferença. No Q2, a turma da ponta começou a desgarrar. Verstappen fez uma volta muito boa entrando na casa de 1min16s e colocou 0s478 em cima de Bottas e 0s710 em Hamilton.

Como virar o jogo nessa hora? Lewis disse que pediu mudanças no acerto do carro, sem especificar exatamente o quê. E seja lá o que tenham feito no Mercedão #44, deu certo. Porque ganhou quase meio segundo do Q2 para o Q3. Verstappen e Bottas também melhoraram. Mas não o bastante.

Verstappen: segundo no grid, vai atacar na largada

São mais de 600 metros entre a linha de largada e a primeira curva em Barcelona, e é nisso que Verstappinho aposta para tentar a liderança no começo da corrida. Descer a reta colado no cangote de Hamilton pode resultar numa ultrapassagem, mas não se iludam. A sequência das curvas 1 e 2 é um “S” rápido direita-esquerda, e não uma freada forte, daquelas em que dá para mergulhar tacando o pé no breque lá no deus-me-livre. Ali o cara precisa se posicionar muito bem para ganhar a posição. Lewis sabe se defender. Se conseguir se manter à frente, desconfio que só vai ver Verstappen de novo no pódio. Mas Max é Max. Pode tentar algo, é bom o bastante para inventar alguma coisa, e a esperança de uma boa corrida reside em sua criatividade na largada.

Dali para trás, vai ser interessante acompanhar as brigas Ferrari x McLaren x Alpine. Norris acabou fazendo um mau Q3 e larga apenas em nono, com Ricardão em sétimo. Vai buscar a recuperação. Lando reclamou que foi atrapalhado por Mazepin no Q1 e por isso ficou com um jogo de pneus a menos para usar lá na frente.

Será uma prova tática com muitas alternâncias nas estratégias de pit stop — o mais provável é que todo mundo vá para duas paradas, mas em momentos distintos de acordo com o desgaste da borracha de cada um. No top-10, hoje, todos optaram por usar pneus macios na largada. De 11º para trás alguns deverão partir com médios para brincar com os pit stops, talvez arriscando até uma parada única — o que acho difícil.

Na placa que indica a aproximação da curva, o 100 para Hamilton: inglês é favorito

Se Hamilton vencer de novo amanhã, chega a três vitórias em quatro etapas neste ano, cenário que poucos imaginavam ser possível depois da má pré-temporada da Mercedes. Verstappen precisa lutar muito para reverter esse quadro, sob o risco de ver o inglês começar a abrir perigosamente na classificação. A diferença ainda é pequena, de apenas 8 pontos. Só que o viés é de alta pró-Lewis. Ou Max estanca a sangria, ou coloca a viola no saco.

Hoje às 19h tem “Fórmula Gomes” ao vivo lá no meu canal do YouTube para a gente falar desse grid e das 100 poles de Hamilton. Apareçam, vai ter bolo!

Comentários

  • Sem tirar o mérito do Hamilton, esses números são fruto de uma Mercedes imbatível aliado à quantidade enorme de corridas durante o ano. É praticamente o dobro de corridas que eram disputadas nos melhores anos da Formula 1. Quem viveu essa época sabe do que eu estou falando.

  • Melhor de todos os tempos caso não tivessem nascido Nuvolari (tá, ok…não chegou a tempo da F-1, mas!), Fangio, Clark, Senna e Schumacher; mas de todo modo, ele faz parte dessa turma. Mas ainda falta um Nurburgring 1935, 1957, Donington 1993 ou Espanha 1996 para o Lewis exibir sua categoria muito superior aos demais.
    Mas enfim, ele é o grande piloto da atualidade e merece muitos créditos.

  • Eitaaa Porrraaa! Flavinho Gomes!!! Sensacional !

    Você que viveu a F1 em todas fases e sabe quem é quem , essa vitória do Hamiltom cala de vez, todos aqueles chatos, racistas, hipócricas, Minions, e que hoje devem estar com a baixa imunidade sanguínea em alta…
    Cadê o ” COSTA” , sem vergonha que agride o patrão o tempo todo, um ser sem noção que dever pertecer ao grupo MKPLHGPTA, ONG internacional de apoio aos oprimidos.

    Hamilton se consagra como o maior de todos os tempos…

    Chorem!!! vestapettens !!!

  • Sim, longevidade é um fator importante. Porém o contexto atual favorece em muito os pilotos contemporâneos (maior segurança dos carros e pistas & melhor preparo físico).

  • Hamilton vai ser Bicentenário esse ano, já tem 100 poles e daqui a pouco terá 100 vitórias, Deus não teve dúvida em ser Inglês naquele final do GP Brasil 2008 dando o Título ao Hamilton e tirando do Massa quase na bandeirada final do GP dos que vieram atrás do vencedor.

  • Baba ovo do Hamilton!!! Escreve um livro dele e vamos ver o sucesso de vendas!!! Só por curiosidade como estão as vendas do livro “que não fala do Senna”?
    “Melhor” da história e sempre criticado ou ídolo de gerações??? Qual será melhor???

  • Hamilton é muito bom, a Mercedes é muito boa. Os dois são implacáveis. Uma combinação duríssima para qualquer um. Para o Verstapen só resta ter a mesma determinação e calma do Rosberg para vencer o Ingles.

    E o Ocon heim?!?!

  • Foi impressão minha ou o pessoal da transmissão sequer fizeram o bolão da pole, imaginaram que depois do tempo de Verstappen no Q2 a fatura já estavam pronta…tanto é que ficaram falando da Ferrari… esqueceram que comandante hAmilton é PHoda.

  • Perez foi anunciado na Red Bull como aquele que de fato formaria dupla com Verstappen na disputa com Hamilton e Bottas.
    Quando do anúncio, comentei que estavam mais uma vez sobrevalorizando o mexicano, que já havia pipocado na McLaren em 2013, só faltou me mandarem para “aquele lugar”. . .
    E o que vimos?
    Até agora, nada.
    Outro que, depois do brilhareco na estréia, já foi elevado ao nível de futuro campeão foi o Tsunoda.
    Mesma coisa, depois disso, nada.
    Pessoal anda se entusiasmando facilmente com pouco.