GP DE SP (12)

No pódio, o sorriso do vencedor: fim de semana inesquecível

ITACARÉ (que domingo!) – Lewis Hamilton venceu em Interlagos. Reduziu sua desvantagem no Mundial para 14 pontos. Teve uma atuação de gala e chegou a 101 vitórias na carreira. Igual a todos os brasileiros juntos. Chorando, na entrevista coletiva, o inglês disse: “Foi o melhor fim de semana que já vivi”.

Não acabou. Não acabou, não. “Continuamos na luta”, falou pelo rádio, numa tradução livre, desfilando por Interlagos com uma bandeira do Brasil nas mãos, como seu ídolo Ayrton Senna.

Tem muita coisa para falar dessa corrida. Vamos começar contando como foi o GP de São Paulo?

Casa cheia, torcida festiva: saudades da F-1 em São Paulo

Sol, temperatura agradável, céu azul, casa cheia. Todos os pilotos do grid, com exceção de Tsunoda, largaram de pneus médios. O japonês colocou macios. Não tinha nenhuma importância.

Luzes vermelhas apagadas, Verstappen largou melhor que o pole Bottas, Pérez também passou o #77, no Lago, e o finlandês caiu para terceiro logo de cara. Norris despencou para último com pneu furado após toque em Sainz, único incidente digno de nota na largada. E Hamilton começou muito bem, ganhando quatro posições nos primeiros metros da corrida e abrindo a segunda volta já em sexto. Na terceira, sem perder tempo, passou fácil Leclerc e assumiu a quinta posição.

Na quinta volta, Lewis já era terceiro depois de passar Sainz e com Bottas lhe abrindo caminho. Estava na corrida, apenas 4s7 atrás do líder Verstappen. E o destino ajudou. Tsunoda, pouco antes, tinha tocado em Stroll, perdendo a asa e metade do lado direito de seu carro. Na volta 7, a direção de prova chamou o safety-car para limpar a sujeira no S do Senna, incluindo uma asa dianteira do japonês abandonada na área de escape. E Lewis colou em Pérez para preparar o bote na relargada.

Era o início dos sonhos para a Mercedes. Lewis em terceiro, diferenças neutralizadas com o safety-car, um carro mais rápido que a Red Bull, o que poderia ser melhor? A chance de vencer se apresentou bem antes do que o inglês imaginava. Por conta da quantidade de detritos na pista, o carro de segurança liderava o pelotão por dentro dos boxes. O trabalho de limpeza foi rápido e na volta 9 a prova foi retomada. “Vamos pegar esses caras”, convocou Hamilton pelo rádio, chamando Bottas para vir junto.

Max não teve tempo de abrir uma vantagem razoável nas primeiras voltas. Na 11ª, o safety-car virtual foi acionado, depois que Mick Schumacher perdeu a asa dianteira num toque em Kimi Raikkonen. O esquadrão de limpeza foi chamado novamente, mas pelo menos o pelotão não se juntou, para alívio do holandês. Lewis vinha em terceiro a pouco mais de 4s do líder, com Pérez à sua frente funcionando como escudo para Max.

Consagração em Interlagos: nunca um piloto venceu em São Paulo largando tão atrás

Na 14ª volta, pé embaixo de novo. E na 18ª, de asa aberta, Lewis passou o mexicano por fora no S do Senna. Achou que tinha resolvido o problema, mas que nada… Desatento, levou o troco do mexicano no Lago. Na volta seguinte, de novo por fora no S do Senna, o britânico foi para cima e assumiu a segunda posição de vez. Verstappen tinha 4s de vantagem sobre ele. Pode-se dizer que naquele momento começava o GP de São Paulo de verdade.

Mercedes e Red Bull começaram a fazer contas. Com mais de 50°C no asfalto, o desgaste dos pneus médios em algum momento se tornaria perceptível. Hamilton precisava se aproximar mais de Verstappen para começar a pensar num “undercut”. Na altura da volta 24, o ritmo dos dois era muito semelhante e a diferença se mantinha estável entre 3s5 e 4s, insuficiente para tentar alguma jogada nos boxes.

Na volta 27, Lewis parou e colocou pneus duros. Voltou em sexto, 24s atrás de Max. A Red Bull respondeu na hora e chamou seu piloto na volta seguinte colocando os mesmos pneus. Max voltou em terceiro e assim que entrou na reta Oposta olhou no espelhinho e viu Hamilton passando Ricciardo para se colocar de novo atrás dele. A diferença? 1s7.

Pérez parou logo depois e Bottas, sem pit stop ainda, assumiu a ponta com Verstappen em segundo e Lewis, alucinado, se aproximando do líder do campeonato. Max respirou quando o safety-car virtual foi acionado de novo na volta 31 porque Stroll deixou pedaços de seu carro pela reta. O time da limpeza foi chamado de novo e rapidinho a pista foi liberada. Bottas aproveitou para trocar pneus e conseguiu, assim, ganhar a posição de Pérez.

Lewis seguiu enfiando o pé e colou em Verstappen. Na volta 33, reduziu a distância para 1s cravado. Tinha o carro mais rápido em retas. O ataque parecia ser uma questão de tempo. Mas Max compensava o déficit de velocidade final com um carro equilibrado no miolo, onde abria um pouco. Para Hamilton, era essencial passar numa das zonas de ativação da asa móvel menos de 1s atrás do #33.

Na volta 40, Max parou. Colocou um novo jogo de pneus duros. O pit stop foi antecipado pela Red Bull para embaralhar a estratégia da Mercedes. Quando saiu dos boxes, sua diferença para Hamilton, novo líder, era de 20s. Calculadora nas mãos de novo. Verstappen conseguiria, nas suas primeiras voltas com pneus zero bala, reduzir a desvantagem e recuperar a ponta quando Hamilton fosse para os boxes. Lewis parou quatro voltas depois e colocou duros também. Como a Red Bull imaginou, voltou atrás, a 2s7 do rival. A caçada recomeçou.

Max espalha, Mercedes pede punição: comissários acharam normal

Na volta 47, Hamilton fez uma volta excepcional e pela primeira vez ficou a menos de 1s de Verstappen. Abriu a asa e foi para cima. Max buscava o adversário pelo retrovisor. Na abertura da 48ª volta, no Lago, Lewis foi por fora. Max freou lá onde o filho chora e a mãe não escuta. Os dois fizeram a curva pela área de escape. Um momento maravilhoso da corrida. Do campeonato. Dos últimos anos. Imediatamente veio a mensagem na tela: a espalhada de Max para impedir a ultrapassagem estava sob investigação. “Que loucura”, balbuciou Hamilton pelo rádio.

Sem esticar a conversa, Lewis percebeu que tinha uma boa chance de vitória nas mãos. Era só ter paciência para buscar a liderança na hora certa, com Verstappen toureando um carro nervoso e instável à sua frente. “Não sei se consigo ir até o fim desse jeito”, falou o holandês pelo rádio, sofrendo com pneus que já não rendiam bem. Na volta 53 a direção de prova avisou que não iria punir ninguém pela manobra de minutos antes. Hamilton acelerou de novo e reduziu a diferença para menos de 1s para usar a asa móvel.

Era uma perseguição implacável, de altíssimo nível. Max resistia. Andar com um cara do quilate de Hamilton pendurado no seu cangote, sem errar nada, é duro. Na volta 58, Lewis tentou no Lago. Não conseguiu. Na seguinte, não teve jeito. Passou pelo lado de fora antes da freada, no mesmo ponto. A torcida vibrou como se comemorasse um gol. Hamilton foi embora. E o milagre estava consumado.

Milagre porque o cara caiu da pole para último na Sprint. Milagre porque tinha cinco posições de punição no grid e teve de largar em décimo — até hoje, o vencedor de Interlagos que largou mais atrás fora Fisichella, oitavo no grid em 2003. Milagre porque Verstappen liderou a maior parte da prova, é um piloto excepcional e tem um carro idem. Mas Hamilton teve uma das mais brilhantes atuações de sua carreira.

“Não acabou ainda”, tinha dito ontem ao final da Sprint. Não acabou mesmo. Faltando três corridas para o final da temporada, Max tem 14 pontos de frente. Não é pouco. Mas para Hamilton, é.

Verstappen, segundo: “Muito rápidos para nós”

Foram 181.711 pessoas nas arquibancadas de Interlagos nos três dias do evento, um público muito bom e de perfil um pouco diferente dos últimos anos, a julgar pelo testemunho de quem esteve no autódromo. Mais jovens, mais meninas. Viram um ótimo espetáculo, incluindo a Sprint de ontem. Verstappen, apesar da derrota, assimilou o golpe. “Fizemos bons pontos. Não fomos rápidos o bastante, hoje era questão de reduzir os danos”, disse. A equipe ainda registrou a melhor volta com Sergio Pérez no final, tirando o ponto extra que estava em poder de Hamilton. E disparou suspeitas sobre a velocidade de reta da Mercedes, dando sequência a uma guerra de declarações que vai se estender pelas próximas semanas.

O inglês, por sua vez, foi multado em 5 mil euros por ter soltado o cinto na volta de comemoração para pegar a bandeira do Brasil com um comissário. Não deu a menor bola. E ainda foi chamado de “patrão” no perfil da Mercedes no Twitter, bordão criado pelo narrador Sérgio Maurício, da Bandeirantes — emissora que fez um trabalho de fôlego na cobertura da corrida digno de elogios.

Hamilton e a bandeira: como Senna

Hamilton, Verstappen, Bottas, Pérez, Leclerc, Sainz, Gasly, Ocon, Alonso e Norris foram os dez que pontuaram no Brasil. Verstappen tem 332,5 pontos, contra 318,5 do heptacampeão. No Mundial de Construtores, a Mercedes abriu um pouco, 521,5 x 510,5 da Red Bull. A briga pelo terceiro lugar parece definida com a queda de rendimento da McLaren e a melhora da Ferrari, que agora tem 287,5 x 256 sobre a equipe inglesa na tabela. Alpine e AlphaTauri seguem juntinhas na luta pela quinta posição, 112 x 112.

Semana que vem tem GP do Catar em Losail, pista nova para todo mundo, fechando uma sequência de três provas seguidas. Um teste para a resistência física e psicológica de todos na F-1. E, claro, também para os torcedores desta dupla que tem oferecido aos fãs da categoria, neste ano, um dos melhores campeonatos de todos os tempos.

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