GIRA MONDO, GIRA

SÃO PAULO (e virou mesmo) – Eu suspendi a seção “Gira mondo, gira” deste blog na madrugada de 1º de setembro de 2016. Horas antes, o mandato de Dilma Rousseff fora cassado por um bando de filhos da puta que sabotaram seu governo e resolveram guinar o país para a direita e atirá-lo no esgoto. Entre eles um cafajeste que, ao arrotar seu voto, evocou o nome de um carniceiro que se excitava ao enfiar ratos vivos na vagina das mulheres que torturava. Dilma foi uma de suas vítimas.

A figura em questão, que levou uma cusparada do então deputado Jean Wyllys — e foi pouco, muito pouco; até hoje é inacreditável que essa pessoa não tenha sido processada imediatamente, presa, atirada de volta ao poço de merda de onde saiu –, tornou-se presidente do país. O texto que suspendeu o “Gira mondo” é ruim. Cheio de clichês e termos batidos. Parece profético, mas é apenas óbvio. Um trecho, porém, talvez mereça ser lido de novo:

Dias horríveis vêm pela frente. Os últimos dois anos serviram para revelar personalidades, trouxeram à tona uma clara divisão de pensamentos e visões de mundo.

Me decepcionei amargamente com amigos, colegas e parentes. E com centenas, milhares de desconhecidos. Saber, com nitidez, que pertencemos a lados tão distintos é algo doloroso. Não me refiro, aqui, a ideologias ou preferências partidárias. Seria reducionista pensar desse jeito.

Trata-se, sim, de escolher com quem ficar. Com quem alimenta o ódio de classe, exerce o preconceito e a misoginia, perpetra o desprezo, perpetua a ignorância, pratica o obscurantismo?

Jamais. Jamais.

Desde então, parei com os textos de viés político aqui para não me aborrecer. Eram muitos comentários agressivos e carregados de raiva, um trabalhão danado para apagar e bloquear gente, as coisas já estavam ruins o bastante para alimentar mais um dissabor em tempos tão infelizes. E “Gira mondo”, que nasceu para ser uma espécie de míni jornal diário, com meia-dúzia de assuntos e alguns links para tentar organizar (pretensioso, isso) a avalanche de informações que recebemos todos os dias, foi jogado dentro de uma gaveta.

De 2016 para cá as coisas só pioraram, inclusive no que diz respeito à avalanche de informações. Novas mídias, plataformas, canais, aplicativos, ferramentas e toda sorte de tranqueiras digitais começaram a surgir do nada, e às redes sociais de então se juntaram streamers, influencers, tiktokers, instagramers, podcasters e outras asneiras do gênero.

Ah, mas os jovens se comunicam assim, é preciso se adaptar, crie uma conta no Tik Tok, crie um podcast, poste mais stories, grave vídeos curtos, faça mais lives!

Ah, fodam-se os jovens. Não sou obrigado a me adaptar a nada, se os jovens de hoje só se comunicam fazendo dancinhas no Tik Tok, ou escutando um tonto com nome de bicicleta que fala merda duas horas por semana, ou outro que transmite ao vivo a importante atividade de escovar os dentes para divertir seus seguidores com sua forma peculiar de fazer gargarejo, fodam-se os jovens, e os velhos que fazem o mesmo, e as crianças, e os de meia idade. Fodam-se todos, em resumo. Se tem quem ache legal assistir a alguém vendo um jogo e fazendo comentários desprovidos de qualquer sentido o tempo todo, se muitos perdem horas de seu dia acompanhando desconhecidos jogando videogame, fodam-se também. Não posso fazer nada por eles. Sejam jovens, velhos, crianças ou de meia idade. E se tem gente enriquecendo com isso, sorte de quem consegue. Mas me incluam fora dessa, como se falava outrora.

Não se trata de negar a modernidade. Não é porque essas coisas são novas, recentes mesmo em qualquer recorte temporal que se faça, que podem ser definidas como modernas. A família criminosa do 01, 02, 03, 04 e seu pai genocida é usuária em tempo integral de todas essas ferramentas fresquinhas saídas dos melhores cérebros do Vale do Silício. E pode-se chamar essa quadrilha de moderna? São pessoas modernas só porque usam equipamentos, linguagem, memes, expressões e trejeitos de última geração?

São, sim, pessoas medievais de pensamento tosco e obtuso, antiquadas, reacionárias, conservadores, ignorantes, incultas, vulgares, grosseiras, e ainda assim têm uma legião de seguidores igualmente ligada nos mesmos aplicativos, nas mesmas plataformas, na mesma “modernidade”, agora entre aspas, na puta que pariu que cabe na palma de suas mão horrendas sujas de sangue e fedendo a patifaria.

Vivemos tempos de enorme confusão em que qualquer um que grava um vídeo, ou faz um podcast, ou uma live, ou um story ao vivo, acha que está fazendo jornalismo, quando na verdade está apenas gravando ou transmitindo imagens e vozes sem nenhum compromisso com a verdade, sem métodos de apuração, sem nenhuma responsabilidade com a informação, sem nenhuma preocupação com as consequências do que é jogado na rede. Tem gente que celebra este momento afirmando que a internet democratizou a informação, deu voz a quem nunca teve, livrou o mundo da ditadura dos veículos de comunicação comandados pelos poderosos e opressores.

Em muitos casos, isso é verdade. Grupos de comunicação pertencem aos poderosos, embora muitos deles sejam conduzidos no dia a dia por profissionais conscientes de seu papel num processo histórico civilizatório. Mas não se pode negar que muita coisa que seria fácil de esconder no passado, ou que simplesmente era invisível, só veio à tona graças àqueles que antigamente as emissoras de TV chamavam de “cinegrafista amador” — todos munidos de um celular, hoje, o são. Comunidades, minorias, tribos indígenas, ambientalistas, ONGs, artistas de rua, cozinheiros, artesãos, atletas, milhares de setores da sociedade, graças à tecnologia, passaram a ter acesso a ferramentas que permitem mostrar sua realidade a quem conseguirem alcançar com seus pequenos aparelhos conectados na rede. E desse caldeirão infinito do que se chama de produção de conteúdo emergiram, sim, grandes talentos, denúncias importantes, imagens chocantes, fotos históricas, textos maravilhosos, poetas, cantores, cantoras, artistas de todos os tipos, canais de vídeo relevantes, cientistas puderam elevar o tom diante da iniquidade oficial num cenário de morte e devastação, como não enxergar a importância disso tudo?

Não nego, claro. Mas não consigo deixar de pensar no que veio junto. Talvez seja desnecessário listar. Dê uma olhada ao redor. Observe as pessoas, digamos, numa praça de alimentação de um shopping center. Ou mesmo numa mesa pequena de um restaurante qualquer. Num ônibus, ou vagão de metrô. Em sua casa, em cada quarto. O que tanto olham, assistem, escutam? Quem está bombardeando suas mentes? Com o quê?

Um dia alguém tentou argumentar a favor desse novo Homo sapiens, que não desgruda mais os olhos de pequenas telas, contrapondo os hábitos contemporâneos a outros do passado. A leitura de livros, revistas ou jornais, por exemplo. No Japão, me disse o interlocutor, você entrava num trem há 30 anos e estava todo mundo lendo alguma coisa. Refleti por alguns segundos sobre o assunto, não mais que alguns segundos. Porque não é preciso muito tempo de reflexão para concluir que colocar lado a lado um bom livro, ou um bom jornal, e um vídeo de uma menina derrubando um forninho — que quando termina é seguido, sem pausa, por outro com alguém fazendo uma coreografia infantil, que por sua vez está colado nas imagens de um motoqueiro tomando um tombo, que vem acompanhado de outro de um influencer mostrando seu carro novo, e a sequência é contínua e perpétua — é o que se chama de falsa equivalência, comparar o incomparável.

A humanidade está claramente emburrecendo, se infantilizando, se idiotizando. Não fosse isso, o pacote de estrume que faz lives às quintas-feiras, passeia de moto e jet ski, espalha perdigotos infectados num cercadinho e come pão com leite condensado jamais chegaria onde chegou. Mas tem muita gente como ele. E uma geração inteira vindo atrás que se informa e se entretém pelos mesmos meios que levaram essa figura abjeta aonde está. Ele e seu séquito que representa o que há de mais repugnante no lumpesinato da república: o cara da boiada, a louca da goiabeira, o vendedor de travesseiros, o negro racista, o nazista da cultura, o genro do dono da TV, o médico antivacina, o general de logística que confunde Acre com Amapá… O rastro de destruição está por todos os lados. O Brasil, como projeto de nação, acabou e terá de ser refundado.

Escrevo este texto em meio a várias interrupções, e acho que ele vai sair truncado e pouco conclusivo. Bem, vou terminar. “Gira mondo” vai voltar. Tentarei me disciplinar para publicá-lo todas as sextas, com um resumo dos fatos que considerar mais interessantes da semana.

Hoje, por exemplo, iria abrir o texto falando da morte do fundador do Bob’s. Talvez ainda escreva sobre isso, um pouco mais tarde. Não tem nenhuma importância, né? Mas para mim tem. E como acho que o escritor, cada vez mais, escreve para si mesmo, não vejo mal nenhum em falar da morte do fundador do Bob’s.

Comentários

  • Olá Flávio! Sorte a nossa que você tenha decido voltar com seus brilhantes textos de forma mais assídua! Sempre leio tudo que é postado no blog, mas nem sempre comento. Talvez eu também não tenha me acostumado com esse novo mundo de curtidas e comentários.

  • Escrever é para quem sabe. Ler também!
    Unânime a aprovação!
    Se alguém não gosta desse tipo de texto, não leia.
    Lula 2022 e, principalmente, maioria no congresso é o remédio para acabar com a saúva e salvar a bolsa da viúva.

  • Outro dia lendo o blog lembrei da Gira Mundo e fiquei com saudade. Tentei me lembrar quando acabou e achei que tinha sido depois daquele “episodio” com os gremistas. Que bom que está de volta.
    É deprimente demais ver profissionais, como psicólogos, contadores, etc, se humilhando fazendo dancinha ridicula apontando para o ar para conseguir clientes. É tudo infantilizado, bobo, raso, brega, tosco….
    E para quem está ligado à tecnologia, ver as crypto-shits cada vez mais populares é desesperador. NFTs são das coisas mais estúpida do mundo. E é mais uma merda infantilizada. Vide os “macaquinhos”. Bitcoin é esquema de piramide. Pensar que o mundo pode caminhar nesse sentido me da um desespero…

  • Que bom que voltou. Seu público pode ser velho e reduzido, mas é fiel e inteligente. Sinto falta do tempo que minhas buscas na internet não retornavam vídeos, pois prefiro mil vezes um bom texto.
    Obrigado pelas palavras e pelo texto acima da média. Embora nem sempre concorde com tudo, suas opiniões estavam fazendo falta.

  • Notícia maravilhosa!!! Adoro os textos do seu blog, frequento aqui desde sei la quando… e os videozinhos pós-corrida no Youtube frequento tb desde que começaram, mas realmente nada se compara a experiência de ler uma página escrita. Escrita: a maior revolução da história da humanidade, inventada coletivamente e paralelamente em diversos territórios no mundo antigo. A melhor e mais completa forma de expressão, anos-luz à frente de qualquer outra coisa. Dostoievski, Homero, Machado de Assis, Shakespeare, Dante, Platão ninguém precisou de Youtube e de caretas pra atingir lugares e desspertar sensações inigualáveiss. Parabéns pela iniciativa! Viva Flavio Gomes e Lula lá.

  • Putzzzz FG… é exatamente isso que precisamos. Ler, ler, ler… e ler o que vc escreve.
    Sinto tanta inveja de vc pela incrível capacidade de escrever o que vem na cabeça, sem se perder nas palavras. Parece que estou vendo vc falar.
    Que bom que o gira mondo está de volta.
    Que alegria.
    Muito obrigado e bom domingo❤️💪

  • Ótimo texto Flávio. Que bom que resolveu voltar com o Gira Mondo tão necessário nesses tempos sombrios. Você como sempre de uma sabedoria e clareza ímpares. Imagino o quanto deve ser duro ouvir os comentários desse público macho A/B que é tão fanático por automobilismo e futebol, mas que infelizmente se identifica em sua grande parte, com os péssimos valores que nos levam enquanto civilização cada vez mais para o buraco. Gente que tem empatia zero para com as desigualdades desse mundo já tão injusto. Também trabalho com internet e devo confessar que, depois que comecei nessa área na década de 90, minha desilusão com a humanidade só aumentou. Não devemos nos calar, ou votar em branco! Afinal a omissão dos bons é a vitória dos maus … fogo nos racistas, nazistas! Bora pra luta. Pelo bem de nossos filhos eles não podem prevalecer jamais! Grande abraço e bem vindo de volta.

  • Não sei se você vai ler isso aqui, mas não vou me privar.

    Você parece um vulcão em erupção quando escreve e o faz com a mesma beleza e força e violência que o fenômeno da natureza. Você é um fenômeno da escrita, não importa se escrevendo para si próprio ou para seus leitores.

  • É a era da “nova verdade”, que é a “verdade que convém”. Essa é a que agrada a quem lê, que a dissemina e, somando-se a todas as outras milhares de bobagens similares, sobrepõem qualquer tentativa de propagar algo sério. Assim, vamos criando cada vez mais “comunistas e militontos”, cada vez mais “fascistas e genocidas”.

    Antes a informação, por mais que seguisse alguma linha editorial, era mais confiável, especialmente na parte científica, pois, quando desejávamos saber algo, tínhamos de ir buscá-la. Agora não dá mais pra acreditar em nada, praticamente, pois recebemos uma avalanche de lixo supérfluo e desinformação mascarada de explicação técnica/científica dita por qualquer um (mas que se propaga o grande entendido).

    Imagina agora isso tudo daqui a 10 anos… (Nem vou muito longe). Cenário assustador.

  • O chefe da quadrilha que ocupada a cadeira do planalto ao menos nos fez o favor de deixar bem claro quem é o gado que está a nossa volta. Hoje eles estão expostos e alguns ainda mantém posição. Cerca de 20% do brasileiros (não sabemos precisar em quais classes sociais fazem parte) compartilham este pensamento esgoto e tenho a suspeita (apenas isso, sem provas), que quando mais para cima na sociedade maior é o percentual.
    Um fator importante a ser mencionado, que não justifica, mas explica , é a alienação e ignorância que a ausência de uma educação crítica deixou na educação brasileira. E isso sem contar as nefastas contribuições de um período ditatorial, não apenas na educação formal, mas naquela educação básica que vem de casa . Volto a frisar “ explica” , mas não justifica. E abro um espaço para dizer, apesar de tudo, tivemos excelentes educadores e muitos deles conseguiram cumprir seu papel e você e vários outros profissionais do jornalismo e de outras areas Que não se furtam a marcar posição e registrar sua crítica e sua indignação, provam que estes bravos lutaram e fizeram diferença.
    Saindo do espectro do bozo e pensando um pouco antes, em como se davam as coisas nesta terra, é bom lembrar que o Brasil nunca foi um país de todos e para todos, pois por aqui uma parcela considerável de pretos e pobres é excluída desde o século XVI. E perceber isso nos escritos jornalísticos, nos programas de TV e no preconceito inplicito na sociedade desde sempre nos ajuda a entender como este discurso, que hoje é oficial, de alguma forma sempre permeou setores da sociedade e era publicado ou disseminado de forma disfarçada. Discurso este que envenenou alienados mais pobres e seduziu muitos remediados. Para estes só desejo que a vida não seja tão cruel como o discurso que defendem, mas que em algum momento sintam na pele um pedaço do desejam e defendem contra os outros. Que seu espaço permita reflexão e possa ajudar a combater a alienação.
    Professor José Eduardo de Souza Carrilho Cruz.

  • No meio de tantas bobagens, é bom saber que poderemos contar com seus ótimos textos. Mas o Brasil está uma merda e ler suas análises, acaba nos dando ainda mais dimensão do buraco negro em que vivemos.

  • Bom… não foi você mesmo quem disse há pouco tempo estar “politizando tudo”?! E seus textos agressivos quando menciona o “coiso” ou qualquer outra coisa que venha ferir seus brios ou os brios daqueles que tanto você admira na política?!

    O que sei é que não perco meu tempo com a classe política brasileira. Não me identifico com ninguém. Não destruo amizades por posição ideológica de X ou de Y. Não faço campanha para ninguém, apesar de um dia ter sido do PDT e do PSB.

    Prefiro pensar que aqueles que ocupam cargos nos poderes legislativo, judiciário e executivo estão lá para servir a população, o que nunca aconteceu neste país. No meu ver, todos querem apenas o ter poder nas mãos. E este desejo vem desde a proclamação da república. É cultural.

    Então, ou você da um tempo com sua militância para não se aborrecer ou endosse tudo que escreve e conviva com os comentários agressivos.

    E meu voto é nulo. Só terei candidato quando as eleições forem geral, distrital e facultativa.

  • Flavio, como jornalista também há 32 anos, vira e mexe publico textos sobre essa situação da “modernidade” no último jornal impresso da minha cidade, mas também nos meus perfis de redes sociais. Concordo com tudo o que disse, principalmente dessa coisa da gente escrever pra gente mesmo cada vez mais. Só faço uma observação sobre a bozolândia. A pior parte dela é formada por gente que sempre esteve ao nosso lado. Não são os muito jovens. Estes, mudam de opinião com qualquer dancinha. O triste de tudo é saber que 20 e poucos por cento do país ainda votam no filho da puta! E essa turma sempre, volto a repetir, esteve ao nosso lado. Eles só não tinham coragem de botar a cara à tapa. A “modernidade” liberou as bestas, pois em certo momento acreditaram finalmente que estavam do lado certo. Nunca estiveram. Nunca estarão. E fora Bolsonaro!

  • Boa, Flávio!
    Quanto mais você escrever, melhor!!!
    Adorei o seu vídeo com os moleques no jogo da Lusa.
    Assim que melhorar çaporra de coronga quero levar os meus no Morumbi.

  • Li com grande prazer todos os textos de dia 14, crescentemente surpreendido por, a seguir a um novo post, estar um outro post novo.
    É muito raro o dia em que não entro no seu blog, faz parte da minha vida desde 2007, toda a minha família sabe quem é por falar tanto dos seus textos.
    Obrigado por tudo e obrigado por ter “voltado”. Concordo na integra com o que escreve sobre textos longos e curtos, sobre o “embrutecimento” da população mundial, preocupações que partilho, e, não sendo brasileiro, acredite que me identifico com o que diz politicamente, que tristeza o que aconteceu desde 2016.
    Bem haja, grande Flávio. Que viva para sempre e que continue a escrever ainda para além disso…

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