GIRA MONDO, GIRA

SÃO PAULO – Tenho sonhos recorrentes com a Redação da “Folha”. Nunca mais voltei lá desde 1994, nem sei como são as mesas e as cadeiras. E são sonhos bem estranhos, que têm a ver com vozes e barulhos.

As vozes e barulhos no dia seguinte viravam papel e tinta. Então num desses sonhos, não saberei precisar quando, porque são realmente frequentes, me via entre as mesas, as cadeiras e os computadores, sozinho, procurando pelas vozes e pelos barulhos. A aflição não fazia nenhum sentido. Eu procurava pelo sussurro de um repórter quase desesperado porque estava atrasado para entregar sua matéria. Ou pelos berros do editor na editoria vizinha gritando que ia entrar calhau. Entrar calhau era a suprema humilhação para todos, era a admissão de que não havíamos conseguido transformar nossas vozes e barulhos em papel e tinta a tempo.

Mas procurava também pela gargalhada curta e grave do Edgard e pelas ordens emanadas pelo Emerson aos novatos, sem muita paciência, mas com infinito didatismo. O Edgard não atrasava texto e não reclamava de tamanho de matéria. Era seu olhar que procurávamos, todos, quando a agonia do fechamento nos transformava, a todos nós, em seres exasperados com medo do relógio. Era olhar para ele e entender que tudo tinha seu tempo, começo, meio e fim. Era olhar para a velocidade do Emerson no teclado e colocando as retrancas descidas na caixa de madeira para entender que o jornal sairia no dia seguinte, como sempre acontecia.

No meu sonho, esse dos barulhos e das vozes, eu perguntava a alguém onde estavam eles, os barulhos e as vozes, e se eles não deveriam ficar ali, naquela Redação, eternamente, de modo que pudéssemos consultá-los, ouvi-los, como se buscássemos uma fotografia numa pasta de arquivo. De modo que se eu voltasse lá anos depois pudesse encontrar aquelas vozes e barulhos e escutá-los de novo, talvez para tirar alguma dúvida que ficou de alguma conversa mal terminada, ou mesmo para me confortar com a gargalhada curta e grave do Edgard, ou ainda para escutar o Emerson dizer fechou, e escutar também o riscar da pedra do seu isqueiro, o sopro da fumaça, meu próprio suspiro de alívio porque fechou.

Esses barulhos e vozes, esses sons todos, onde estão? É possível que tenham desaparecido para sempre? No meu sonho, era isso que eu perguntava a alguém que respondia apenas com o silêncio, o silêncio que aos poucos, depois de fechar, depois que as pessoas iam embora com suas vozes e barulhos, caía sobre o quarto andar até que só fosse possível ouvir o ronronar das rotativas lá embaixo, uma sirene distante, um carro passando, uma vassoura varrendo, um até amanhã avulso de alguém que se ia tardiamente, o sino do elevador tocando para indicar que suas portas estavam se abrindo para o até amanhã tardio, e era hora de ir.

Aqueles barulhos e vozes devem estar arquivados em algum lugar, hei de encontrá-los, ainda que em sonhos recorrentes, porque queria muito ouvir de novo a gargalhada grave e curta do Edgard e também alguma coisa que o Emerson disse e me escapou.

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Pedro Araújo
Pedro Araújo
3 meses atrás

Gomes, vou mudar um pouco a sugestão do Emerson

Que tal um livro só sobre suas vivencias no jornalismo?

desde a epoca sua de cuidar de conteúdo de ciências (caramba, você convivia com o Paulo Vanzolini…) até o momento profissional que você ache relevante relatar, sei lá

GUs
GUs
3 meses atrás

Lindo texto! A única coisa certa nesse mundo é a mudança, tudo passa e tudo muda, mesmo que a gente não queria isso acerca de um montão de coisas.

lagerbeer
lagerbeer
3 meses atrás

Flavio, não sei se pra você é elogio ou não… mas seu texto me mata saudade das deliciosas prosas de Otto Lara Resende …. ( apesar de seu filho banqueiro ) ….

Alex Melo
3 meses atrás

Quanta tristeza Flávio! Estamos perdendo pessoas muito importantes e queridas em um momento tão triste e nebuloso de nossa história. O Emerson era um amigo muito querido. Toda vez, que ele passava pela minha mesa no UOL para ir ao banheiro ou aos elevadores, nos falávamos: uma bobagem rápida, uma piada… Os almoços com ele, suas histórias da época da Folha sobre F1, Indy,… Situações envolvendo Nelson Piquet, Ayrton Senna, André Ribeiro, histórias deliciosas que muitas vezes pareciam mentiras de tão surreais. Quem de seus amigos não conhece a história do “agora não” do Ayrton Senna?!? No entanto, todos nós sabíamos que estas histórias eram verdade, vindas dele: quase um personagem adorável de um conto urbano. Quantas saudades… quanta tristeza!!! Meus mais profundos e sinceros sentimentos.

Marcelo Duarte
Marcelo Duarte
3 meses atrás

Temos memórias tão fortes que parecem mesmo estar em algum lugar, que existem de fato. É como se existissem independentes de nossa mente.

Marcos Bassi
Marcos Bassi
3 meses atrás

Há poesia e saudades nas partidas, histórias e no seus textos. Emocionante.

Emerson
Emerson
3 meses atrás

Flavio, por favor, transforme a seção Gira Mondo, Gira em livro. Os textos são fantásticos. Abraço!

Jeferson Araújo Pereira
Jeferson Araújo Pereira
3 meses atrás

1- Seu anos na Folha foram os últimos do que podemos chamar da era romântica dos jornais: sem internet, sem zap zap, sem redes anti-sociais, enfim: um tempo legal, que eu adoro. Recentemente, no rádio do meu carro, sintonizado na  Band News, ouvi o jornalista Luiz Megale dizer que adoraria que esse tempo voltasse. A Carla Bigatto e a Sheila Magalhães ficaram horrorizadas!!! Mas ele foi firme: citou vários argumentos, e um deles é de que tinha saudade do tempo que tinha que telefonar (telefone fixo)  para todas as delegacias, para saber quais eram as ocorrências. Ele disse que prefere dar 50 telefonemas diários para delegacias do que ter que conviver com as fake news do nosso dia a dia.

2- Recentemente eu conheci um jornalista que acabou de se formar e perguntei o que ele achava do filme A Montanha dos Sete Abutres (título original: Ace In The Hole – Ano: 1951 – Direção: Billy Wilder). Ele não viu o filme, nunca ouviu nem falar! Classifico essa falha gravíssima na formação cultural desse cara como um caso de vergonha alheia.Defendo a tese de que todo jornalista tem a obrigação de assistir esse que é nada mais menos do que o melhor filme sobre jornalismo da história do cinema.

Carnava