CATAR COQUINHO (2)

Verstappen tricampeão: clube seleto, mas com naturalidade

SÃO PAULO (poucos e bons) – Não é todo dia que você se torna tricampeão de nada. Funcionário do mês do McDonald’s, campeonato de truco na faculdade, torneio de futebol de botão no prédio. Um tricampeonato é algo a se comemorar efusivamente. Do que for.

Max Verstappen se tornou tricampeão mundial de Fórmula 1 hoje no Catar. Achou “incrível”.

São poucos os que atingiram esse patamar na história. Há aqueles que passaram pelo tri e foram adiante, como Prost e Vettel (quatro vezes campeões), Fangio (cinco), Schumacher e Hamilton (sete cada). Outros cinco — Brabham, Stewart, Lauda, Piquet e Senna — estacionaram nas três conquistas. Não sei exatamente o que cada um deles disse depois de seus títulos. Talvez tenham dito que foram incríveis.

E, no fim das contas, é isso que são. Incríveis.

O tri de Verstappen chega depois de 16 corridas das 22 que serão disputadas nesta temporada e de quatro das seis Sprints previstas — que são corridas, mas não são GPs; daquelas coisas dessa F-1 moderna. Como hoje é sábado e o GP do Catar é só amanhã, pode-se dizer que Max foi campeão com seis etapas de antecipação — Schumacher conseguiu isso em 2002. Como a Sprint faz parte do fim de semana de GP, alguns dirão que essa antecipação foi de cinco etapas, e não seis.

Tanto faz. O fato é que a conquista foi incrível porque até agora, de 16 GPs, Verstappen ganhou 13. Dessas 13 vitórias, dez foram seguidas. Das quatro Sprints já realizadas, venceu duas. Subiu ao pódio 15 vezes. Fez dez poles. E tudo com uma naturalidade atordoante. Entrou para um clube seletíssimo de lendas do automobilismo mundial, lugar de poucos, só acessível aos grandes gênios do esporte, qualquer esporte.

É. Incrível mesmo.

Verstappen escreve mais um capítulo notável de sua história na F-1, que não é curta. Tem só 26 anos, mas estreou em 2015, com 17. Um fenômeno que dá gosto de ver, e privilegiados somos os que podemos acompanhar essa saga em tempo real, ao vivo, de domingo em domingo — e em alguns sábados, também. Como hoje. Precisava de um sexto lugar na Sprint de Lusail para ser campeão. Ficou em segundo. O título, na verdade, veio antes da bandeira quadriculada, na 11ª das 19 voltas da miniprova catariana. Foi quando Pérez, seu companheiro, bateu e abandonou. Ele tinha chances de ser campeão. Precisava vencer todas as corridas, todas as Sprints, fazer todos os pontos extras das melhores voltas e Max não poderia marcar mais do que dois pontos até o fim do ano.

As possibilidades de Pérez, claro, eram apenas retóricas. Na vida real, nem se aos seus pontos no Mundial fossem acrescentados todos os do Bragantino, do Leipzig e do Salzburg em seus campeonatos, times patrocinados pela Red Bull no futebol, o mexicano seria campeão. Verstappen foi absoluto. Chegou a 407 pontos, e se sua equipe não tivesse outro piloto, corresse só com ele, estaria folgada na liderança entre os Construtores, já que a Mercedes, vice-líder, tem 305.

Piastri: vitória com autoridade na Sprint

A Sprint de Lusail foi vencida por Oscar Piastri, da McLaren, depois de uma boa batalha com a Mercedes de George Russell, para quem perdeu a posição no início — ele era o primeiro no grid, depois do Shootout que definiu as posições de partida no fim da tarde, pelo horário local. Estatisticamente, não contam nem a pole nem a vitória para o australiano. Mas o menino vai guardar este sábado com carinho na estante das memórias. Pela primeira vez, em seus poucos meses de F-1, largou na frente de todo mundo. E chegou na frente, também. Não vale para as estatísticas, mas vale para a vida.

E tem de ser assim. Piastri foi para a corrida com pneus médios, contra os macios de alguns adversários, como a dupla da Ferrari e o próprio Russell. O inglês da Mercedes deu azar porque a provinha teve três entradas do safety-car, e uma delas, no fim, permitiu a aproximação do jovem estreante da McLaren. Os pneus de George já não aguentavam mais o tranco. Oscar se aproveitou da borracha em melhores condições, passou e ganhou.

A escolha dos pneus permitiu também que Verstappen e Norris, segundo e terceiro, superassem os calçados com pneus de faixa vermelha nas últimas voltas. Russell, Hamilton, Sainz, Albon e Alonso completaram a zona de pontuação da Sprint, que contempla até o oitavo colocado. Lewis fez um corridão. Mal no Shootout, apenas 12º no grid, estava em nono a três voltas do fim da corrida. Fez belas ultrapassagens e terminou em quinto. Olho nele amanhã. Está em terceiro no grid. O mesmo vale para Albon, de 17º no grid a sétimo no final, beneficiado ainda com a punição de 5s a Leclerc, por ter excedido os limites de pista várias vezes. O monegasco acabou ficando fora dos pontos.

A batida de Pérez, retratada acima, foi resultado de um pega-pra-capar com Ocon e Hülkenberg. O alemão ficou no meio, como se fosse o recheio de um sanduíche, e acabou sendo tocado pela esquerda pelo francês da Alpine. Sobrou para o mexicano, que estava do lado direito. Os três abandonaram. Disputavam posições lá no fundo, sem grande importância.

Dois novatos, Sargeant e Lawson, cometeram erros bobos no início da prova e abandonaram, também. O neozelandês da AlphaTauri não se conformava. “Não posso errar assim, se quiser ficar na F-1”, falou, em cerimônia pública de autoimolação. Ele rodou sozinho. Já o americano da Williams, atolado na brita, saiu desolado do autódromo. Sabe que suas chances de ficar na equipe em 2024, a cada barbeiragem como essa, diminuem drasticamente.

A corrida de amanhã será festiva para a Verstappen e para a Red Bull. Não tanto para a Pirelli, que detectou, ontem à noite, problemas estruturais em seus pneus por conta da excessiva vibração sobre as extensas zebras do circuito do Catar. Por volta das 8h deste domingo, horário de Brasília, vai informar às equipes se, na prova principal, os pneus terão um limite de voltas para não colapsarem. As análises seriam feitas durante a noite e a madrugada.

É um problema sério, mas que certamente será resolvido pela empresa e por engenheiros, equipes, borracheiros, astrólogos e gurus. Não tem muita relevância num fim de semana como este, de tricampeão consagrado e jovenzinho prodígio mostrando suas armas para o futuro.

O grid para o GP do Catar foi definido ontem, e vocês lembram: Max larga na pole. Vai vencer para celebrar em grande estilo. E porque vencer um dia depois de ser campeão deve ser… incrível.

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Paulo Pinto
Paulo Pinto
4 meses atrás

Segafredo, cadê você? O “merdinha holandês” (aquele que você disse que jamais seria campeão) chegou ao tri e empatou em títulos com o teu ídolo!

#TáNaHoraDeReverTeusConceitos

André
André
4 meses atrás

O ruim de temporadas assim é que o início da próxima fica mais distante.

guest
guest
4 meses atrás

Mais uma marca para o Guinness Book: primeira vez na F1 em que há sogro e genro campeões.

Chupez Alonso
Chupez Alonso
4 meses atrás

As zebras da discórdia:

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Fernando (Pai do Clark)
Fernando (Pai do Clark)
4 meses atrás

Melhor que essa temporada do Verstappen, só os textos do FG e comentários desta turma bacana aqui no blog.

Chupez Alonso
Chupez Alonso
4 meses atrás

Coisas que eu acho que acho:

1) Acho curioso que Piastri tenha ganho uma corrida pela McLaren antes do Norris. Ricciardo também tinha feito isso;

2) Acho engraçado que o Hamilton vai ganhar esse vice campeonato de mão beijada. Só hoje, ganhou 3 posições de uma vez só, assim;

3) Acho interessante que o pódio hoje tenha ficado de bom tamanho. O presente e o futuro da F1 ali representados. O passado passou;

4) Acho que o Max já é Tetracampeão na Austrália.

Rumo ao 8cta!

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Markonikov
Markonikov
Reply to  Chupez Alonso
4 meses atrás

cala a boca racista …

O crítico
O crítico
Reply to  Chupez Alonso
4 meses atrás

“O passado passou”. Brilhante isso, hein, lady baba? É coisa de luminares, de cabeças coroadas! Jenial!

Last edited 4 meses atrás by O crítico