O DKW DE MR. HYNES

SÃO PAULO (que orgulho!) – O vídeo é curtinho e só tem fotos. Portanto não é um vídeo. É uma colagem de fotos. Vocês entenderam.

Em 1969 (ou 1970; o vídeo diz uma coisa, o texto de quem publicou, outra) houve um rali entre Vientiane, a capital do Laos, e Singapura — lá mesmo onde hoje tem corrida de F-1, mas 50 anos atrás era só mato; ou quase isso, como se vê aqui. Foram 1.800 km por florestas, estradas de terra, aquelas coisas que a gente adora quando se trata de um rali de aventura. E nosso herói é um DKW 1957, um lindo cupê azul de duas portas, oficialmente chamado de Auto Union 1000, ou simplesmente 3=6.

Richard J. Hynes, seu proprietário e piloto, era funcionário do Foreign Service dos EUA, o equivalente ao nosso Ministério de Relações Exteriores, e estava servindo no Laos. Diz a legenda, escrita pelo filho, pelo que entendi, que poucos anos depois do rali papai voltou aos EUA e embarcou seu Deek (americanos chamam DKWs de “Deek”, como a gente fala Fusca para o sedã da VW) para casa. Lá ele foi colocado numa garagem e — de novo pelo que entendi — durante anos recebeu visitas regulares da filharada.

Quanto a Mr. Hynes, tive a curiosidade de procurá-lo na internet, que serve para essas coisas. Richard J. Hynes não é lá um nome muito incomum. Achei esta página aqui, mas nenhuma pista foi muito conclusiva. Aí encontrei este outro, que morreu em 2012 — erraram o nome dele no obituário, coitado; “Joseph” saiu “Joesph”. Pelo ano de nascimento, 1936, poderia ser nosso piloto de DKW. Mas tampouco é conclusivo seu obituário. Diz que foi veterano da Guerra da Coreia, mas não fala nada sobre ter vivido no Laos. Informa que gostava de jogar boliche e golfe, porém. Não devia ser ele.

Refinei a busca, e caí na lista de telefones dos funcionários da missão americana no Laos em 1972. E finalmente encontrei algo. Obrigado, internet. Mr. Hynes aparece na página 17 como chefe da “Program Division” do OPE, o “Office of Program and Economic Affairs”. E seu número, para quem quisesse falar com ele sobre DKWs, ralis e aventuras na selva, era 6216. Ficava sobre sua mesa, possivelmente de madeira escura e pesada — ou talvez de lata com tampo de fórmica, eram comuns também –, e Mr. Hynes era sempre solícito e gentil com todos que o procuravam.

O governo dos EUA era muito cioso com seus cidadãos em Vientiane há meio século, afinal estamos falando de um país que, na época, vivia uma sangrenta guerra civil que se associa aos conflitos no Camboja e no Vietnã, culminando com a revolução comunista de 1975 que derrubou a monarquia local apoiada pelos americanos. Mr. Hynes vivia num caldeirão, é verdade, mas podia colocar seus filhos numa escola americana (telefone 6486, era fácil decorar os números) que tinha piscina e funcionava de segunda a sexta. Também frequentava a American Community Association, e se Mrs. Hynes precisasse encontrá-lo no caso de alguma urgência, era só discar 6147, o número do bar. Hotéis, hospitais e igrejas para cidadãos americanos estão listados no catálogo, que deveria estar sempre à mão para qualquer emergência. A lista também contém os telefones de todos os ministros do governo vigente, horários de voos e até um mapa do que me parecia ser uma base militar americana na cidade.

Foi tudo que consegui apurar sobre Mr. Hynes. Quanto ao DKW, espero que esteja vivo e bem.

Um blogueiro, que não se identificou, achou este delicioso vídeo da família Hynes no Laos. E assim vamos dando rostos às palavras… Está aqui.

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Luís Almeida
Luís Almeida
2 meses atrás

É por escritos assim que, mesmo após dezoito anos, seguir este blog continua a ser um enorme prazer. E li tudo, mesmo tudo, o que escreveu aqui.
Obrigado pelas partilhas, pela sabedoria, conhecimentos, curiosidades, desabafos, experiências de vida, bom humor, vasta imaginação e, irrepreensivelmente sempre, pela enorme capacidade de expressão escrita que demonstra desde o primeiro dia.
Até amanhã e votos de vida longa. Bem haja camarada Gomes.

Paulo Leite
Paulo Leite
2 meses atrás

A historia é legal, viajar do Laos a Cingapura (com c mesmo) uma boa aventura. No entanto, um feito de meu pai Seu Wilson e meu Tio Juarez é mais caceteiro do que esse passeio de Seu Heynes.
Em 1967 meu pai e meu tio pilotaram uma perua Vemaguet cor de gêlo zero cabaço, comprada direto da fábrica DKW da Av Ipiranga, de onde seguiram até Campina Grande, na nossa Paraíba. Inclusive, cruzaram a Rio-Bahia inteira sem sofre nenhuma espécie de acidente, pois a estrada era famosa pelo perigo.
Foram 2200 km de pé em baixo em 3 dias, parando apenas para dormir nos hotéis Flexa, de beira de estrada, que já serviam café da manhã incluído na diária.
Essa aventura também merece um documentário. Parabéns a meu pai Seu Wilson, Tio Juarez e Mr. Heynes.

Enoch
Enoch
2 meses atrás

Tá vendo porque passamos sempre aqui? Sempre tem uma história interessante.

Luiz
Luiz
2 meses atrás

Que legal! E a placa? oioi! hahaha

Hilton V Pezzoni
Hilton V Pezzoni
2 meses atrás

Indiana Gomes is back!

guest
guest
2 meses atrás