TAPAS Y ASAS (2)

Norris, Piastri e Verstappen: os três primeiros no grid

SÃO PAULO (perdeu a graça) – A McLaren voltou a fechar uma primeira fila em Barcelona depois de 27 anos. Em 1998, Mika Hakkinen e David Coulthard abriram o grid do GP da Espanha, numa temporada que acabaria sendo vencida pelo finlandês. Mika virou garoto propaganda de várias marcas, inclusive de uísque – fazendo campanhas educativas para não dirigir depois de beber. Seu então companheiro escocês estava hoje em Barcelona, microfone em punho, para entrevistar seus sucessores: Oscar Piastri, o pole-position, e Lando Norris, o segundo colocado no grid.

Foi um passeio papaia na pista catalã. A McLaren dominou todos os treinos e foi a mais rápida nos três segmentos da classificação, sem ter seu favoritismo sequer arranhado por alguém. Nem mesmo Max Verstappen, que sempre é citado como possível pedra na sapatilha dos pilotos que lideram o Mundial, foi capaz de fazer cócegas na dupla. Ficou em terceiro no grid, é verdade, mas só está perto na posição. No cronômetro, a distância foi enorme, intransponível.

E com a confirmação do favoritismo do time inglês, felizmente o assunto “nova diretiva da FIA para as asas que flexionam” sumiu do noticiário turbinado pelas redes sociais que não têm o que dizer. Os produtores de conteúdo estão, neste momento, procurando outros conteúdos para anabolizar suas visualizações. Uma hora acham.

E vamos contar o que aconteceu hoje no ensolarado sábado espanhol.

O Q1 começou com a turma da rabeira indo logo para a pista escaldante de Barcelona, para ver se seria possível, pelo menos, passar ao Q2. Depois que eles voltaram aos boxes – estamos falando de Lance Stroll, Alexander Albon, Franco Colapinto, Esteban Ocon, Oliver Bearman… –, o pessoal da ponta começou a se mexer. Fazia sol e calor, 29°C, em Montmeló – o distrito industrial onde fica o autódromo, a uns 20 km da capital catalã.

Os treinos livres tinham apontado uma enorme superioridade da McLaren, principalmente o terceiro, realizado poucas horas antes. Nele, Piastri registrara a melhor volta do fim de semana até então, 1min12s387. Tinha colocado mais de meio segundo sobre Norris e quase um segundo inteiro sobre Verstappen. Era o prenúncio de um massacre.

A primeira volta papaia da classificação foi de Norris: 1min12s799, saltando para a ponta imediatamente. Piastri respondeu com 1min12s551, 0s248 mais rápido que o companheiro. Verstappen fechou sua volta em segundo, 0s247 atrás de Oscar e 0s001 à frente de Norris. Ninguém nos boxes da McLaren se incomodou muito.

Faltando pouco menos de quatro minutos para o fim do Q1, Colapinto liderava uma fila de pilotos que sairiam dos boxes para uma segunda tentativa de volta rápida. Mas seu carro pifou e a turma atrás começou a buzinar e dar farol. Quem conseguiu, abriu o vidro do carro gesticulando e xingando o argentino. Cujo carro, coitado, tinha enguiçado, mesmo.

Gabriel Bortoleto, que recebeu as atualizações levadas pela Sauber para a Espanha, fez uma boa volta em 1min13s045 e se colocou em sétimo assim que bateu o cronômetro. Na bandeira quadriculada, o brasileiro fechou o Q1 numa excelente décima posição e avançou ao Q2 pela quarta vez no ano. Foram eliminados seu parceiro de Sauber Nico Hülkenberg, junto com Ocon, Carlos Sainz, Colapinto e Yuki Tsunoda. A diferença do líder Piastri para o japonês da Red Bull, último colocado, foi de 0s834. O equilíbrio que tinha sido pulverizado pela McLaren nos treinos livres voltou, ao menos no começo da sessão que definia o grid espanhol. Mas isso não aliviou a barra de Tsunoda. “Eu realmente não consigo entender o que está acontecendo”, falou seu chefe Christian Horner, pegando uma frigideira e colocando nela um fio de azeite extravirgem, para então acender o fogo baixo.

No Q2, a primeira volta de Bortoleto foi praticamente idêntica à do Q1: 1min13s046. Naquele momento, era um tempo OK. Mas não lhe garantia a inédita passagem ao Q3. Norris virou em 1min12s056, um tempo respeitável. E Piastri foi o primeiro a baixar de “doze”: 1min11s998.

(Coloquei as aspas para vocês começarem a se habituar com meu linguajar de piloto. Já expliquei na semana passada. Piastri virou “onze alto”. Norris, “doze baixo”, ou “doze duro”, que é como falamos quando a primeira casa decimal é zero. As duas formas podem ser usadas, mas o “duro” é realmente melhor para o zero na primeira casa decimal. Portanto, Bortoleto virou “treze duro” na primeira tentativa.)

Lawson ficou no Q2, mas seu parceiro Hadjar seguiu em frente

Quando todos concluíram suas primeiras voltas rápidas no Q2, o brasileiro já havia caído para 11º. Se ficasse aí, estaria ótimo para ele – seria sua melhor posição de largada na F-1. Melhorou o tempo em sua segunda, 1min12s756 (“doze alto”), mas acabou perdendo uma posição e larga em 12º. Ainda assim, é seu grid mais alvissareiro até agora na categoria. Antes, o melhor havia sido o 13º de Miami. Se fizer tudo direitinho amanhã e a Sauber for precisa nos momentos de trocar pneu, tem sua primeira chance real de pontuar no campeonato.

No fim, foram eliminados do Q3 Albon, Bortoleto, Liam Lawson, Stroll e Bearman. Avançaram as duplas de McLaren, Mercedes e Ferrari. Red Bull, Aston Martin, Alpine e Pode Parcelar em Cinco levaram um piloto cada, a saber: Verstappen, Fernando Alonso, Pierre Gasly e o cada vez mais badalado Isack Hadjar. De Piastri, o primeiro, para Max, o terceiro até ali, a diferença era muito grande: 0s360.

(A registrar, no Q2, as preocupações climáticas de George Russell. O inglês entrou no rádio para avisar a Mercedes que poderia, vejam só, chover a qualquer momento. “Amigos, avisto nuvens muito escuras a noroeste de onde me encontro. Tenho estudado muito essas formações. Já ouviram falar de cumulus nimbus? Pode ser usada também a forma cumulonimbus, é a mesma coisa. São nuvens altas que provocam tempestades, por vezes até com granizo. Eu falei granizo, não granito! Adoro esse chiste! Talvez seja o caso de nos prepararmos para a eventualidade de…”, e nesse momento Toto Wolff, nos boxes, tirou os fones de ouvido, abaixou a cabeça, esfregou os olhos com as duas mãos e considerou seriamente a possibilidade de se aposentar.)

Piastri fez a primeira volta no Q3 em 1min11s836, mais uma daquelas que impressionam. Verstappen tinha feito 1min12s321. Longe, muito longe – meio segundo, o que numa pista curta como a de Barcelona equivale a colocar Joaquim Cruz para correr os 100 metros rasos contra Usain Bolt. Aí veio Norris, que bateu o tempo do parceiro em 0s017: 1min11s819. Uau. Era uma disputa exclusiva da McLaren. Para o tetracampeão, até mesmo o terceiro lugar no grid já seria lucro, porque na sequência Russell, Charles Leclerc e até Alonso o superaram. O espanhol voltou para os boxes comemorando o que seria uma façanha, colocar a Aston Martin em quinto no grid. Mas faltava a segunda bateria de voltas rápidas de alguns, ainda. Menos para Leclerc, que só fez uma volta e resolveu guardar pneus para amanhã (“decisão minha”, explicou). Ele tem dois jogos de médios e um de macios para a prova. Pode ser que funcione.

E foi um lindo duelo entre Norris e Piastri. O inglês abriu a volta antes. Na medida em que ia fechando os setores da pista, o tempo ia caindo. Lando virou 1min11s755, assumindo a pole provisoriamente. Mas o australiano, que é danado, bateu o relógio em 1min11s546, 0s209 melhor que o parceiro. Nos boxes da McLaren, festa. O engenheiro de Oscar entrou no rádio e não se conteve: “Cara, você é foda! Ninguém mais conseguiria um tempo desses! Você tem noção do que fez?”, vibrou. “Sim”, respondeu o piloto. “Quarta pole no ano, Oscar, quarta na carreira, não é demais?” “Sim.” Na primeira entrevista já no Parque Fechado, o perguntador admirou-se: “Onde você encontrou essa volta, rapaz? Achou que ia bater o tempo do Lando?”. “Sim”, falou o líder do Mundial. “Então amanhã dá pra ganhar…” “Sim.”

O grid em Barcelona: McLaren tranquila na primeira fila

Verstappen acabou ficando em terceiro, 0s302 atrás de Norris. Fez exatamente o mesmo tempo que Russell, o quarto colocado — mas quem faz o tempo antes larga na frente, pelas regras. A partir daí, os que superaram Alonso enquanto ele acenava para o público: Lewis Hamilton em quinto, Kimi Antonelli em sexto, Leclerc em sétimo, Gasly em oitavo e Hadjar em nono. Quando chegou aos boxes, Fernandinho foi avisado de que ficara com o décimo lugar.

Dificilmente haverá alguma surpresa na corrida de amanhã, que começa às 10h e terá 66 voltas. A estratégia de todo mundo será de duas paradas para troca de pneus. Verstappen torce para algo semelhante ao que aconteceu em 2016, quando estreou pela Red Bull e venceu pela primeira vez na carreira. Os então favoritos Nico Rosberg e Hamilton, de uma dominante Mercedes, bateram na primeira volta e a vitória caiu no seu colo. Mas a dupla prateada vivia às turras e essas refregas aconteciam com alguma frequência. Entre Piastri e Norris o ambiente parece ser mais pacífico. Vivem sorrindo um para o outro. Uma batida na largada não é muito provável. Sobra civilidade para os rapazes.

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Jader
Jader
1 ano atrás

Esse carro 2 da Red Bull eu acho que é uma Sauber disfarçada. Nenhum piloto consegue andar direito com ele, exceto o fora de série.

Barreto
Barreto
1 ano atrás

Na hora da onça beber água, final do Q3 Norris crava os trechos em verde, amarelo e amarelo. Piastri faz triplo roxo.
Vendo os segundos pilotos da Red Bull com este desempenho pífio me pergunto, quanto do desempenho de Verstappen é do carro e quanto é do braço do piloto?

lagerbeer
lagerbeer
1 ano atrás

A batata do Yuki está assando. Mas é uma batata especial. No Japão é Yakimô

Danilo
Danilo
1 ano atrás

Após ver o seu vídeo no youtube, concordo que é a melhor chance do Bortoleto pontuar e torço para que aconteça, dificil será encarar a narração e comentários sobre o brasileiro. Eu acho que mesmo os profissionais têm o direito de torcer para o piloto da sua nacionalidade e isso não é exclusividade do Brasil, é comum os narradores puxarem sardinha para os seus conterrâneos, o que incomoda é a falta de limites que consequentemente compromete e distorce a informação/trabalho/análise do que está acontecendo. Nem em disputas passadas dos brasileiros por vitórias ou títulos vimos o exagero que foi hj, lamentável.

Danilo
Danilo
1 ano atrás

Mesmo com boas chances do Max largar bem e assumir a ponta, os papayas são grandes favoritos para a dobradinha. Na Espanha não é tão fácil de se ultrapassar, mas a diferença de performance da Mclaren com relação ao resto está grande, basta eles não fazerem nenhuma besteira…

Meu palpite para o pódio na ordem é Piastri, Norris e Lewis. Arrisco dizer que o Max termina em sexto atrás do Russel e Leclerc.

Rogerio
Rogerio
1 ano atrás

O início desse texto me lembrou o 1° que me fez reparar num tal de Flávio Gomes, cujo rosto granulado aparecia na contracapa do jornal Lance!. Era um texto sobre a rotina do Mika Hakkinen e seus patrocinadores, acordando na sua casa em Mônaco com seu relógio Tag Heuer, sua cuequinha da Hugo Boss… kkkkkk dei risada, pois era leve, divertido, diferente, e muito bem escrito. A ponto de não esquecer. Era uma semana sem corridas, talvez até férias da F1, então não só tinha tirado leite de pedra, como tinha feito com ele uma belíssima vitamina. Foi a primeira vez, dentro do jornalismo esportivo, que quis saber de fato quem escrevia aquele texto. Uma escrita fora da curva que me arrebatou instantaneamente.

E, a partir daquele momento, todas as 5as feiras eu fazia questão de comprar o jornal, pra ler a tal coluna Warm Up. Depois surgiu esse blog, e sou leitor assíduo desde a sua criação. Lá atrás, ainda na época da internet discada, te escrevi um e-mail, que carinhosamente respondeu, levemente indignado com o fato de eu escrever “vc” ao invés de “você”. Me fez ver que era alguém genuinamente simpático e acessível, com um quê de ranzinza. Provavelmente me julgaria também por rir virtualmente “kkkkk”, afinal “quem ri cá cá cá?”. Seja como for, décadas depois seguimos aqui, e que esse blog seja eterno enquanto dure, informando quem o lê, e muitas vezes divertindo mais que as próprias corridas. Um brinde a “vc”, Flávio.

Antonio Fernando
Antonio Fernando
Reply to  Rogerio
1 ano atrás

Legal demais! Acompanho o Flavio Gomes há tempos também (pelo menos uns 10 anos – talvez mais). Ícone do jornalismo.

Edson
Edson
1 ano atrás

Os papayas realmente estão sobrando no campeonato, que pelo menos a disputa entre os dois pilotos da maclaren continue aberta até o final do campeonato.
E a maldição do segundo carro da Red Bull é interminável…. a empresa das latinhas deveria pedir uma autorização na FIA para deixar o Verstapen sozinho na matriz e colocar três carros na filial

Diogo
Diogo
Reply to  Edson
1 ano atrás

Deixa o Hadjar assumir, esse negócio vai virar (mais) anedótico. Não é possível!

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
1 ano atrás

AMIGUES DA REDE BAND,

Nepo Baby Stroll teve um piriri monumental ao passear pelas praias mediterráneas da Catalunya.

Ouvi dizer que Drugo o levou para tapas y besos apos o qualify.

Don Alonso no quiso comentar. “Lance no podrá bater manana…”

Nosso lento Borto cada dia menos lento. Hoje deu sufoco no increíble Hulk.

¡Gracias actualización…!

Ja que m’uni ao Ejército Naranja, no puedo más hablar de mucha cosa menines…

Doktor Helmut Marko me proibiu de falar das Papaya invencibles.

Landinho rapidinho, pero Oscarito más espertinho!

Zak Brown deveria ter sido o novo Papa. PAPA PAPAYA! Esse faz milagre.

AVE ZAK! VISCA PAPAYA!

No puedo hablar de Scuderia…Doktor Marko me ha pedido.

¡NUESTRA BANDERA NO SERA ROJA JAMAS!

HaMIMIMI dessa vez na frente do Monegato. Mas termina detrás.

Mercedon, nada a declarar, apenas que Kimi solo hay uno…!

Menines, curtam a Rede Band, estou de boicote.

Vou tentar entrevistar uma famosa periodista brasileña de F1 para a revista da Red Bull.

RED BULL TE DA ASAS…NO FLEXIBLES…OLE!

Last edited 1 ano atrás by Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
O crítico
O crítico

Eu previ, algum tempo atrás, que esse sujeito teria mais negativações que eu. Hoje, está ganhando de longe. Afinal, consegue ser muito, mas muitíssimo chato, em todas as línguas. Haja saco!

Max PS
Max PS
1 ano atrás

Já estou achando que Hadjar sobe(?) até o fim do ano. Embora não pareça ser vantajoso ir para Red Bull tomar pau do carro e do Verstappen. De toda forma, deve ser um forte candidato para o próximo ano.

Almir Neto
1 ano atrás

Um detalhe que não pode passar despercebido.
Na primeira volta rápida do Q3, Norris, maroto, tentou abrir a volta pegando um vácuo de Piastri.
Piastri, igualmente maroto, quase parou o carro na reta para Norris passar.
De um lado, evitou o vácuo; de outro, apareceu para as câmeras como se estivesse agindo com espírito esportivo e sendo gentil.
Lindo momento. Dois gênios.

Wbj
Wbj
Reply to  Almir Neto
1 ano atrás

Genios ? Entao tá…

Leon Neto
Leon Neto
1 ano atrás

O Coulthard também estava de comentarista na F1 TV.

Romero
Romero
1 ano atrás

Alvissareiro… gosto muito quando leio essas palavras sumidas Flavio e quando nas lives vc explica algumas regras da nossa língua. Exemplo faz anos e não fazem anos (outro dia vc falo isso)

Miguel
Miguel
1 ano atrás

Me parece que o Max só conseguiu superar o Russell porque mudou de estratégia
Pegou um pouco mais leve no início da volta pra sobrar mais pneu no final
Tanto que roubou o melhor 3º setor da McLaren

Diogo
Diogo
1 ano atrás

A volta do Amilton não foi de todo má, mas nada espetacular. Creio que se o Leclerc acertasse, botava um 0,200 nele. Terceiro lugar. Que diabo de estratégia foi essa? Bora ver amanhã, mas acho que foi burrada.

Pola
Pola
1 ano atrás

Parabéns Flávio, texto preciso e primoroso como sempre.
Se não houver alguma anormalidade durante a corrida, possivelmente as posições no final serão praticamente estas seria bom que Russel terminasse em terceiro.
Torço por ele.

Leandro
Leandro
1 ano atrás

O link para o blog fica muito escondido no site…

Diogo
Diogo
Reply to  Flavio Gomes
1 ano atrás

Deve tá falando do GP.

José Maurício Nunes
José Maurício Nunes
1 ano atrás

O teu texto está muito mais vibrante do que acontece nas pistas da F1. Já havia acontecido na sonífera corrida em Mônaco.