SOBRE ONTEM DE MADRUGADA

A IMAGEM DA CORRIDA

Terry Crews no Cadillac de Lego: a cara de Las Vegas

SÃO PAULO (de volta) – Como é que vou publicar uma foto de algo que represente 0,12 mm? Essa seria, claro, a imagem do GP de Las Vegas: alguém com uma régua verificando o ponto de medição do desgaste da prancha sob o assoalho de Lando Norris — um pouco maior no carro de Oscar Piastri, igualmente desclassificado. Mas como, diabos, veríamos 0,12 mm ali? Além do mais, isso não é feito com uma régua, e sim com algum equipamento de precisão homologado pela FIA e aceito pelas equipes. No caso, um micrômetro japonês da marca Mitutoyo como esse da foto abaixo, comprado em maio de 2025 pela entidade. Se alguém se interessar, pode encontrar o mesmo aqui, por quase 600 trumps.

Um micrômetro não é lá muito fotogênico, por isso escolhi o Cadillac cor de rosa de Lego que levou os três pilotos do pódio à entrevista na frente do hotel, pilotado pelo onipresente Terry Crews — ator, comediante, apresentador, ex-jogador de futebol americano e garoto propaganda da Shopee.

Ele parece bem simpático e é muito popular. Nada contra o cara, que todo ano aparece nesse GP e em outros, muito menos contra o Cadillac de brinquedo que anda — um barato, o carro. Mas que as cerimônias pré e pós-corrida em Las Vegas são um porre, são. Teve até o Mickey, neste ano. Haja.

Voltemos à prancha.

Não sei em qual tela vocês estão lendo isso aqui. Na que uso para escrever, o publicador deste blog, essa representação de um centímetro aí em cima mede 16,5 cm. Ou seja: cada intervalo entre os tracinhos menores está ampliado 16,5 vezes. Ainda assim, não é nada. Imaginar isso aí 16,5 vezes menor resulta em algo… invisível!

Mas dá para medir, hoje é possível medir tudo. E se as regras da F-1 dizem que a prancha de 10 mm de espessura, geralmente feita de madeira, tem de terminar uma corrida com, no mínimo, 9 mm — essa medição é feita em quatro buracos abertos na prancha, não em toda a extensão da peça –, um desgaste de 1,1 mm coloca um carro fora do regulamento. Não há interpretação aí. Não há tolerância ou margem de erro, que nem nas pesquisas. Nove milímetros são nove milímetros, não oito vírgula nove milímetros. Por extenso.

Os quatro buracos no fundo do carro: medida de desgaste é tirada ali

É meio cruel, claro. Estamos falando de uma desclassificação por uma diferença que dificilmente mudaria o rendimento de um carro de corrida. Mas essas coisas não são chutadas. Chega-se a um valor a partir de estudos e medições, e esse valor tem de ser respeitado. O mesmo vale para as medidas das asas, o peso do carro, a pressão dos pneus, a quantidade de combustível, a resistência das estruturas de segurança, o prazo de validade do macacão e do capacete etc., etc. e etc.

A McLaren não foi a primeira vítima do desgaste das pranchas. No começo deste ano, Lewis Hamilton foi desclassificado na China — tinha terminado em sexto. Em 2023, ainda na Mercedes, o inglês perdeu o segundo lugar nos EUA e Charles Leclerc, o sexto — ambos pelo mesmo motivo. O primeiro punido por prancha desgastada na história foi Michael Schumacher no GP da Bélgica de 1994, que ele tinha vencido — Damon Hill herdou a vitória. A regra existe para que as equipes não soquem seus carros no chão, diminuindo sua altura em relação ao asfalto de forma que o efeito-solo seja perigosamente ampliado. Há limites pra tudo.

Se Norris tivesse seu segundo lugar confirmado, como escrevi ontem de madrugada, já podia colocar o champanhe no gelo. Teria 42 pontos de vantagem sobre Max Verstappen e 30 em cima de Piastri. Muito provavelmente se sagraria campeão domingo que vem no Catar.

Isso ainda pode acontecer, e segue sendo provável. Sem os 18 pontos herdados por George Russell, Lando mantém 24 de frente para Piastri e, agora, tem o incômodo de ver Verstappen a uma distância igual. Max assusta, claro. Ainda assim, para ser campeão no próximo fim de semana Norris precisa sair de Lusail com 26 pontos de vantagem para o segundo colocado na tabela, o que significa que tem a necessidade de, apenas, fazer dois míseros pontinhos mais que seus adversários. Esses, por outro lado, precisam de todos os pontos possíveis e ainda têm de contar com alguma desgraça que atinja o inglês.

Norris segue sendo muito favorito ao título. Se ele e a McLaren colocarem a cabeça no lugar, levanta a taça. As dificuldades serão muito mais psicológicas do que técnicas no Catar e em Abu Dhabi. E quando a gente fala de cabeça — isso vale para pilotos, mecânicos, engenheiros, estrategistas, chefes, cozinheiros, todo mundo que deve estar uma pilha de nervos –, tudo pode acontecer.

Lando em Las Vegas: ritmo lento no final gerou desconfiança

A McLaren explicou que seus carros, em Vegas, tiveram “níveis elevados de oscilação vertical” que causaram “contato excessivo com o solo”. O time tentou argumentar que os treinos foram tumultuados, que choveu, teve tampa de bueiro solta, que não teve tempo de ajustar seus carros “nos conformes”. A desculpa não colou. Nem todos os carros em todas as corridas passam por essa verificação, só quando há algum motivo para desconfiar de alguma irregularidade. Exemplos: o bicho passa a prova inteira levantando faísca, apresenta alto índice de “porpoising” (aquele troço de ficar batendo o fundo nas retas) perceptível pelas câmeras on-board, até os diálogos entre engenheiros e pilotos, pelo rádio, são monitorados. Nesses casos, os primeiros colocados são sempre submetidos a uma vistoria mais rigorosa para além de pesagem, coleta de amostra de gasolina e outras medições mais simples.

No caso de domingo, o que levou os comissários a darem uma olhada mais profunda nos carros da McLaren foi a brusca queda de ritmo de Norris nas últimas cinco voltas. Ele estava 5s atrás de Verstappen e terminou a prova 20s depois do holandês. Do nada, tirou o pé. Pelo rádio, o time tentou dar uma disfarçada e citou consumo de combustível — conversa em código, certamente, para não entregar a paçoca. No fim, o artigo 3.5.9 do regulamento técnico foi implacável. Micrômetros japoneses não mentem.

O NÚMERO DE LAS VEGAS

59

…corridas seguidas nos pontos tinha a McLaren, até zerar com as desclassificações de Norris e Piastri. A última vez em que o time papaia saiu de um GP sem nada tinha sido no Canadá em 2023.

Mais de McLaren: Norris, domingo, chegou a 150 GPs pela equipe e igualou o piloto com mais largadas na história do time, o escocês David Coulthard. Lando só correu pela McLaren na F-1. Estreou em 2019. Tem 11 vitórias, 44 pódios e 16 poles. DC, como é conhecido, defendeu a equipe de 1996 a 2004. Foram 12 vitórias, 51 pódios e sete poles. Os outros que mais correram pelo time foram Jenson Button (136), Mika Hakkinen (131), Hamilton (110) e Alain Prost (107).

Mas o maior vencedor da história da McLaren é Ayrton Senna, com 35 vitórias em 96 GPs em seis temporadas, de 1988 a 1993.

Não falar nada de Verstappen nessa corrida seria sacanagem, né? Mas dizer o quê? Foi daquelas vitórias clássicas, com absoluto controle sobre tudo da primeira à última volta. A Red Bull elogiou muito a maneira como o piloto administrou o desgaste dos pneus — foi prova de apenas uma troca, então era preciso cuidar da borracha com carinho.

Max faz um campeonato quase impecável. “Quase”, porque teve aquela patuscada da Espanha, a batida com Russell no fim que acabou resultando numa punição de 10s. Isso o atirou de quinto para décimo no resultado corrigido. Perdeu nove pontos. Hoje, estaria 15 atrás de Norris, e não 24. Podem fazer falta.

A FRASE DE LAS VEGAS

“Estou vivendo um pesadelo.”

Lewis Hamilton

Não falar nada de Hamilton nessa corrida seria sacanagem, né? Mas dizer o quê? Foi daquelas recuperações inúteis, saindo de 19º (era o último no grid, mas Yuki Tsunoda resolveu largar dos boxes) para chegar em décimo. Parece uma grande reação, mas só tinha carro lerdo à sua frente. Terminou em oitavo porque houve as desclassificações da McLaren.

A última vez que uma Ferrari ficou em último numa sessão de definição do grid tinha sido em 2009 com Giancarlo Fisichella em Abu Dhabi. O italiano substituía o afastado Felipe Massa, que sofreu o grave acidente da mola na Hungria. Lewis, com 22 GPs no lombo pela Ferrari, não conseguiu sequer um pódio. É o piloto com mais corridas disputadas pelo time italiano sem levar um troféu para casa.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… do terceiro lugar de Kimi Antonelli, que deu uma aula de gestão de pneus. Trocou os seus macios por duros na segunda volta e foi até o fim da corrida com o mesmo jogo. Largou em 17º. Recebeu a bandeirada em quarto, mas pagou uma punição por queima de largada e foi deslocado para o quinto lugar. Com as desclassificações da dupla da McLaren, subiu para o pódio. O segundo seguido. Nos últimos seis GPs, depois de Monza, a Mercedes marcou 171 pontos, contra 152 da Red Bull, 139 da McLaren e 98 da Ferrari. O time alemão praticamente garantiu o vice. Porque Kimi começou a pontuar com frequência.

NÃO GOSTAMOS… do segundo abandono seguido de Gabriel Bortoleto, que novamente não passou da primeira volta de um GP. No Brasil, aconteceu o mesmo. Diagnóstico: ansiedade e excesso de agressividade na hora e lugar errados. Gabriel parece que foi picado novamente pelo mosquito do “patriotismo”, como no começo da temporada: sente uma necessidade boba de mostrar serviço e valentia aos seus torcedores de redes sociais numa categoria que não pede isso a estreantes. Resultado: tirando os dois novatos da Alpine, equipe que vive um fim de feira terrível, Bortoleto é o pior estreante da temporada na pontuação. Perde de longe para Antonelli, Hadjar, Bearman e até Lawson. E é o piloto que deu mais prejuízo financeiro a sua equipe no ano.

Subscribe
Notify of
guest

21 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
Ednaldo
Ednaldo
6 meses atrás

Erramos: se a chapa de madeira não é retirada, o mais provável não é o micrômetro apresentado nem o de bordas planas/chatas, é o micrômetro de profundidade.

Luiz Baldinotti
Luiz Baldinotti
Reply to  Ednaldo
6 meses atrás

Não acredito que seja um micrômetro de profundidade ,pois para desclassificar um F1 nessas condições eles teriam de der 100% de certeza e 0,02 no micrômetro de profundidade é algo que dá pra se manobrar fazendo um pouco mais ou menos de pressão na catraca do instrumento,falo isso por trabalhei 42 anos em ferramentaria!!

Mauricio Rocha
Mauricio Rocha
6 meses atrás

Marcar dois pontos a mais que Piastri está no papo, já com Max……aí só se algo anormal acontecer. Acho que Hamilton está mais com a cabeça na moda do que na F1.

Danilo
Danilo
6 meses atrás

Nem sempre uma regra é boa, mas lendo o seu texto eu concluo que essa do desgaste da prancha tem um bom motivo para existir, sem ela abusos seriam cometidos que trariam consequências inclusive para a segurança. É chato quando a penalização acontece por um limite ultrapassado de 0,1, porém a ausência de limites tende a ser muito mais prejudicial, em tudo na vida diga-se de passagem.

Ainda acho que o Norris leva o campeonato, é necessário muito esforço para perder, mas força mental e método não são característica fortes dos papayas ao contrário da dobradinha Max/Red Bull.

Eu nem sou tão fã da matemática – sou de humanas – e ainda assim uma das lições que aprendi é que os números independente das nossas paixões, ou achismos, não mentem e portanto devem ser levados muito a sério. A minha impressão sobre a primeira temporada do Bortoleto era positiva, mas analisando os números a realidade é outra. Torço para que ele faça esse exercício para corrigir a rota…

Chupez Alonso
Chupez Alonso
6 meses atrás

O “all in” do Hamilton indo para a Ferrari não passou de um blefe.

Acontece. Até nas melhores famílias de Londres.

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
Reply to  Chupez Alonso
6 meses atrás

Mas a Scuderia Enzo ganhou rios de dindim e visualizacoes Champs.

Como diria o parca de Lewis Mimimi Jay-Z,

FOLLOW DA MONEY!

Beijos no Valtteri Cadillac!

Max PS
Max PS
6 meses atrás

Disfarçados de Red Bull, pessoal da McLaren testa nova altura do carro para evitar problemas nas provas finais do campeonato.

f1-offroad.jpg
Marcelo
Marcelo
6 meses atrás

Hamilton está batendo recordes negativos. Tomou um vareio do colega de Ferrari, Leclerc. Está poucos pontos à frente de seu substituto na Mercedes, Antonelli. E mesmo o piloto que substituiu, Sainz, conseguiu resultados melhores – numa Williams.
Não duvido o Bearman assumir a Ferrari já na pré-temporada.

Edison
Edison
Reply to  Marcelo
6 meses atrás

Pior piloto da história da Ferrari, e olha que já passaram caras bem ruins pelo scuderia italiana

Marcus
Marcus
Reply to  Edison
6 meses atrás

Menos, vai.

Marcelo
Marcelo
Reply to  Edison
6 meses atrás

Também não é lara tanto… O Luca Badoer foi muito pior

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
Reply to  Marcelo
6 meses atrás

Faltou mencionar que ele levou vareio duplo de Jorjao da Massa no Mercedon Champs.

Barreto
Barreto
6 meses atrás

Nesta corrida não consegui nem tecer meus comentários aleatórios, pois desabei de sono nos primeiros quinze minutos. O único que poderia fazer seria o clássico ” não se ganha corrida na primeira curva, mas se perde” para o nosso ansioso Bortoleto.
Será que a fase fora de série de Norris passou ou ele está correndo com o regulamento embaixo do sovaco? Teria que se esforçar para perder este campeonato.

Antonio Fernando
Antonio Fernando
6 meses atrás

Magistral bandeirada final com o tradicional texto.

Las Vegas foi um turbilhão de emoções.

Sexta já tem treino e classificação de Sprint no Catar.

Vamos que vamos.

Hilton V Pezzoni
Hilton V Pezzoni
6 meses atrás

Santo Caddilac rosa, Batman ! diria Robin.

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
6 meses atrás

Borboletas Pachecas, Soldados da Patria Varonil, Soldadores amadores do Brasil,

“Quem tem culpa, tem que admitir” (Reginaldo Leme)

Borto admitiu.
A Papaya admitiu.
Lewis admitiu: VAREIO!
O chefe da OCRIM admitiu.
A FIA admitiu: MASI roubou 2021.

Vosotros terao que admitir o titulo mundial de Landinho Rapidinho em breve.

Tempo, senhor da Razao.

Danilo
Danilo

Colega aproveita para fazer uma autorreflexão para talvez admitir que os seus textos não são legais. Eu não sou ombundsman do texto alheio, até porque reconheço ter uma péssima escrita, mas independente dos meus erros ortográficos, creio que consigo transmitir as minhas opiniões. Talvez o problema seja a minha burrice em não conseguir interpretar as suas graçolas e ironias, mas qual o sentido de se expressar para que os outros nao entendam?

Carlos Frederico Pereira da Silva Gama
Reply to  Danilo
6 meses atrás

Talvez Champs, enfase no talvez.

Beijos no Valtteri Cadillac!

Marcio
Marcio
6 meses atrás

O Bearman é o único novato que tá batendo em piloto veterano, e acho que vai pilotar Ferrari ano que vem.

Megas Alexandros
Megas Alexandros
Reply to  Marcio
6 meses atrás

Ocon não é ruim, não é velho (tem 29 anos), mas parece desanimado, caiu muito de rendimento ao longo da temporada.

Bearman eu acho bem mediano. É muito veloz, mas ruim de ritmo de corrida. Esporadicamente fazia corridas excelente nas categorias de base que chamavam a atenção, mas a maioria era fraca. Claro, pode melhorar, como todos os novatos.